DOCUMENTAÇÃO

 

BENTO XVI

 

TEOLOGIA MONÁSTICA

E TEOLOGIA ESCOLÁSTICA

 

 

No decurso das audiências gerais das quartas-feiras, em que tem comentado o contributo dos santos e doutores antigos na vida da Igreja, Bento XVI dedicou a audiência de 28 de Outubro passado à teologia latina no séc. XII.

Além de se ter uma perspectiva mais acertada da teologia medieval, vê-se que os dois modos de então de fazer teologia, entendida como o aprofundamento da compreensão da fé, podem ser complementares.

Subtítulos da Redacção de CL.

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Detenho-me hoje a falar sobre uma interessante página de história, relativa ao florescimento da teologia latina no século XII, que se verificou devido a uma série providencial de coincidências. Nos países da Europa ocidental reinava então uma relativa paz, que garantia à sociedade desenvolvimento económico e consolidação das estruturas políticas, e favorecia uma vivaz actividade cultural graças também aos contactos com o Oriente. No interior da Igreja, sentiam-se os benefícios da vasta acção conhecida como «reforma gregoriana», a qual, promovida vigorosamente no século precedente, tinha trazido uma maior pureza evangélica na vida da comunidade eclesial, sobretudo no clero, e tinha restituído à Igreja e ao Papado uma autêntica liberdade de acção. Além disso, ia-se difundindo uma vasta renovação espiritual, apoiada pelo vigoroso desenvolvimento da vida consagrada: nasciam e expandiam-se novas Ordens religiosas, enquanto que as que já existiam conheciam uma promissora reforma.

Refloresceu também a teologia, adquirindo uma maior consciência da sua natureza: apurou o método, enfrentou problemas novos, avançou na contemplação dos Mistérios de Deus, produziu obras fundamentais, inspirou iniciativas importantes da cultura, desde a arte até à literatura, e preparou as obras-primas do século seguinte, o século de Tomás de Aquino e de Boaventura de Bagnoregio.

Foram dois os ambientes nos quais se desenvolveram esta fervorosa actividade teológica: os mosteiros e as escolas das cidades, as scholae, algumas das quais bem depressa dariam vida às Universidades, que constituem uma das «invenções» típicas da Idade Média cristã. Precisamente a partir destes dois ambientes, os mosteiros e as scholae, pode-se falar de dois modelos diferentes de teologia: a «teologia monástica» e a «teologia escolástica». Os representantes da teologia monástica eram monges, em geral Abades, dotados de sabedoria e de fervor evangélico, dedicados essencialmente a suscitar e a alimentar o desejo amoroso de Deus. Os representantes da teologia escolástica eram homens cultos, apaixonados pela investigação: magistri desejosos de mostrar a racionalidade e o fundamento dos Mistérios de Deus e do homem, acreditados com a fé, sem dúvida, mas compreendidos também pela razão. A finalidade diversa explica a diferença do seu método e do seu modo de fazer teologia.

A teologia monástica

Nos mosteiros do século XII, o método teológico estava ligado principalmente à explicação da Sagrada Escritura, da sacra pagina, para nos exprimirmos como os autores daquele período; praticava-se especialmente a teologia bíblica. Isto é, os monges eram todos devotos ouvintes e leitores das Sagradas Escrituras, e uma das suas principais ocupações consistia na lectio divina, ou seja, na leitura meditada da Bíblia. Para eles, a simples leitura do Texto sagrado não era suficiente para compreender o seu sentido profundo, a sua unidade interior e a sua mensagem transcendente. Portanto, era preciso praticar uma «leitura espiritual», guiada com docilidade ao Espírito Santo. Na escola dos Padres, a Bíblia era assim interpretada alegoricamente, para descobrir em cada página, quer do Antigo quer do Novo Testamento, o que diz de Cristo e da sua obra de salvação.

O Sínodo dos Bispos do ano passado sobre «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja» recordou a importância da abordagem espiritual das Sagradas Escrituras. Para este objectivo, é útil ter muito em conta a teologia monástica, uma ininterrupta exegese bíblica, como também as obras compostas pelos seus representantes, preciosos comentários ascéticos aos livros da Bíblia. À preparação literária a teologia monástica unia a espiritual. Estava portanto consciente de que uma leitura meramente teórica e profana não era suficiente: para entrar no coração da Sagrada Escritura, deve-se ler no espírito com o qual foi escrita e criada.

A preparação literária era necessária para conhecer o significado exacto das palavras e facilitar a compreensão do texto, apurando a sensibilidade gramatical e filológica. O estudioso beneditino do século passado Jean Leclercq intitulou assim o ensaio com o qual apresenta as características da teologia monástica: L'amour des lettres et le désir de Dieu (O amor das palavras e o desejo de Deus). De facto, o desejo de conhecer e de amar a Deus, que vem ao nosso encontro através da sua Palavra que deve ser acolhida, meditada e praticada, leva a procurar aprofundar os textos bíblicos em todas as suas dimensões.

Há depois uma outra disposição sobre a qual insistem quantos praticam a teologia monástica, e que é uma íntima atitude orante, que deve preceder, acompanhar e completar o estudo da Sagrada Escritura. Dado que, em última análise, a teologia monástica é escuta da Palavra de Deus, não se pode deixar de purificar o coração para a acolher e, sobretudo, não se pode deixar de estimular nele o fervor para encontrar o Senhor. A teologia torna-se portanto meditação, oração, canto de louvor e impele a uma conversão sincera. Não poucos representantes da teologia monástica chegaram, por este caminho, às metas mais altas da experiência mística, e constituem um convite também para nós a alimentar a nossa existência com a Palavra de Deus, por exemplo, mediante a escuta mais atenta das leituras e do Evangelho, sobretudo na Missa dominical. Além disso, é importante reservar todos os dias um certo tempo à meditação da Bíblia, para que a Palavra de Deus seja lâmpada que ilumina o nosso caminho quotidiano na terra.

A teologia escolástica

Pelo contrário, a teologia escolástica – como disse – era praticada nas scholae, que surgiram ao lado das grandes catedrais da época, para a preparação do clero, ou em torno de um mestre de teologia e dos seus discípulos, para formar profissionais da cultura, numa época na qual o saber era cada vez mais apreciado. No método dos escolásticos era central a quaestio, ou seja, o problema que se apresenta ao leitor ao encarar as palavras da Escritura e da Tradição. Perante o problema que estes textos autorizados colocam, levantam-se questões e nasce o debate entre o mestre e os estudantes. Neste debate aparecem por um lado os argumentos da autoridade, por outro os da razão, e o debate desenvolve-se no sentido de encontrar, no final, uma síntese entre autoridade e razão para chegar a uma compreensão mais profunda da palavra de Deus.

A este respeito, São Boaventura diz que a teologia é «per additionem» (cf. Commentaria in quatuor libros sententiarum, I, proem., q. 1, concl.), ou seja, a teologia acrescenta a dimensão da razão à palavra de Deus e assim cria uma fé mais profunda, mais pessoal e, por conseguinte, também mais concreta na vida do homem. Neste sentido, encontravam-se diversas soluções e formavam-se conclusões que começavam a construir um sistema de teologia. A organização das quaestiones levava à compilação de sínteses cada vez mais extensas, ou seja, compunham-se as diversas quaestiones com as respostas que surgiam, criando assim uma síntese, as chamadas summae, que eram, na realidade, amplos tratados teológico-dogmáticos nascidos do confronto da razão humana com a palavra de Deus. A teologia escolástica pretendia apresentar a unidade e a harmonia da Revelação cristã com um método, chamado precisamente «escolástico», da escola, que concede confiança à razão humana: a gramática e a filologia estão ao serviço do saber teológico, mas ainda mais o está a lógica, que é a disciplina que estuda o «funcionamento» do raciocínio humano, de modo que apareça evidente a verdade de uma proposição. Ainda hoje, lendo as summae escolásticas, ficamos admirados com a ordem, a clareza, o nexo lógico dos argumentos e a profundidade de algumas intuições. Com linguagem técnica é atribuído a cada palavra um significado preciso e, entre o crer e o compreender, estabelece-se um recíproco movimento de esclarecimento.

Queridos irmãos e irmãs, fazendo eco ao convite da Primeira Carta de Pedro, a teologia escolástica estimula-nos a estar sempre prontos a responder a quem quer que nos pergunte a razão da nossa esperança (cf. 3, 15). Ouvir as perguntas como se fossem nossas e assim sermos capazes também de dar uma resposta. Recorda-nos que entre fé e razão existe uma amizade natural, fundada na própria ordem da criação. O Servo de Deus João Paulo II, no incipit da Encíclica Fides et ratio, escreve: «A fé e a razão são como duas asas, com as quais o espírito humano se eleva rumo à contemplação da verdade». A fé está aberta ao esforço de compreensão da parte da razão; a razão, por sua vez, reconhece que a fé não a incomoda, antes, estimula-a para horizontes mais amplos e elevados. Insere-se aqui a perene lição da teologia monástica. Fé e razão, em recíproco diálogo, vibram de alegria quando ambas estão animadas pela busca da união íntima com Deus. Quando o amor vivifica a dimensão orante da teologia, o conhecimento, adquirido pela razão, alarga-se. A verdade é procurada com humildade, acolhida com admiração e gratidão: numa palavra, o conhecimento cresce somente se se ama a verdade. O amor torna-se inteligência e a teologia, autêntica sabedoria do coração, que orienta e ampara a fé e a vida dos crentes. Rezemos, portanto, para que o caminho do conhecimento e do aprofundamento dos Mistérios de Deus seja sempre iluminado pelo amor divino.

 


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