OPINIÃO

olhar para o céu

 

 

Rodrigo Lynce De Faria

 

 

Passeavam há uns minutos sem dizerem nada. As relações entre ambos estavam um pouco tensas. Ela não compreendia como é que alguém que tinha levado nas suas entranhas – carne da sua carne e sangue do seu sangue – vinha agora falar-lhe assim. Era uma rebeldia própria da juventude e o entusiasmo acabaria por passar-lhe. Talvez aquelas ideias fossem somente um exacerbado sentimento religioso próprio da idade. Nada para preocupar-se em demasia. A juventude é assim: um tempo em que se sonha com elevados ideais. Depois, a realidade encarrega-se de «esfriar» os ânimos e, os que foram jovens, acabam por viver como todos os outros viveram – nem melhor, nem pior.

 

«Olha para onde pisas» – aconselhou-o. «Ainda vais tropeçar nalguma pedra». «Sabe, mãe, assim é a vida sem sentido: olhar somente para onde pisamos». Ela não esperava uma resposta destas. Voltou a fazer-se silêncio. Ficar calada seria admitir a «derrota». «E para onde vais olhar então? Para as estrelas?» – perguntou, com um certo acento irónico, de quem deseja finalizar uma conversa que não lhe parecia ter nenhuma saída. «Exactamente. Para as estrelas. Tenho a sensação de que alguém as pôs lá em cima por algum motivo. Talvez seja para que, quando está escuro, não nos esqueçamos de olhar para o Céu».

 

Será que um cristão deve olhar para o Céu? Não manifesta essa atitude um certo egoísmo da sua parte? Não manifesta essa postura uma certa indiferença em relação à vida nesta Terra? Em relação aos problemas reais que a todos nos angustiam?

 

Há uns anos atrás, dizia o então Cardeal Ratzinger que falar do Céu hoje em dia parece exprimir uma certa «fuga da realidade». Temos receio de o fazer. Temos medo de parecer covardes em relação aos problemas do dia-a-dia. Um autor pagão chegou mesmo a afirmar, com um certo desprezo pelo Cristianismo, que devemos olhar sobretudo para a Terra e deixar o Céu para os pardais.

 

O problema é que sem o Céu a vida nesta Terra perde o seu sentido. Se o Céu está escuro e encoberto por densas nuvens, a vida fica cinzenta e melancólica. As alegrias tornam-se algo passageiro assim como a própria vida. O máximo que nos podem desejar no dia de anos é que vivamos alguns mais. Que desejo tão raquítico e deprimente para alguém que anseia viver para sempre!

 

Um cristão, ao olhar para o Céu, tem já nesta Terra a alegria da vida eterna. Uma alegria que, como disse Jesus Cristo, nada nem ninguém lhe poderá tirar. Não é uma alegria que vem «depois». É uma alegria que está dentro. É uma esperança segura de quem sabe que o seu caminhar tem um sentido porque tem uma meta. Olhar para a eternidade leva a dar muito mais importância aos problemas do dia-a-dia. Leva a sentir a responsabilidade de ajudar os outros de verdade, não só na aparência. Olhar para o Céu recorda-nos que, do modo como vivermos aqui, depende o modo como viveremos depois.

 


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