DIREITO E PASTORAL
PROCESSOS DE BEATIFICAÇÃO
DOS VIDENTES DE FÁTIMA
Entrevista ao
Cardeal José Saraiva Martins
A propósito da Viagem apostólica de Bento XVI a Portugal, de 11 a 14 de Maio passado, o Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos, foi entrevistado por Nicola Gori para «L’Osservatore Romano».
Os seus comentários acerca dos processos de beatificação dos Videntes de Fátima dão ideia de como se desenvolvem em geral estes processos.
A entrevista foi publicada na edição semanal em português, de 22-V-2010.
– Dado que fez parte do séquito na viagem apostólica a Portugal, Vossa Eminência pôde participar directamente em todos os encontros. Como viveu esta experiência e quais foram os momentos que lhe ficaram mais gravados?
– Vivi esta viagem com um sentimento de profunda gratidão ao Papa. A sua visita foi importante não apenas para a Igreja, mas para Portugal inteiro e, pode-se dizer, para toda a humanidade. Os seus discursos foram um estímulo não exclusivamente do ponto de vista de eclesial, mas também social: com efeito, referiram-se a muitos problemas de actualidade, particularmente sentidos pelos portugueses. Estou convicto de que as orientações sugeridas pelo Papa serão uma grande ajuda também para os políticos e os governantes. Farão reflectir sobre a importância de certos valores que não são negociáveis, mas que são profundamente humanos e, por conseguinte, cristãos. Isto pode ser útil para revigorar a colaboração entre as autoridades civis e a Igreja. No que se refere a algum episódio em particular, comoveu-me muito a presença de um coro de crianças que cantavam quando o Papa chegou ao aeroporto de Lisboa. Os seus cânticos precederam até os encontros oficiais com as autoridades. Veio-me ao pensamento a frase do Evangelho: «Deixai vir a mim as criancinhas». Naquele momento, tive a sensação de me encontrar ao lado de um Papa perto do povo, de um pastor próximo das suas ovelhas, neste caso dos portugueses.
– Vossa Eminência era Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, quando foram beatificados os dois pastorinhos de Fátima. Como foi que se chegou a esta decisão?
– A beatificação de Jacinta e Francisco Marto é um acontecimento histórico, porque foram as primeiras crianças não mártires a serem elevados às honras dos altares. Com efeito, antes delas não fazia parte da praxis da Igreja a canonização de crianças: tendo em consideração a sua idade, pensava-se que elas não tivessem a capacidade de praticar as virtudes cristãs a nível heróico, primeira condição para a beatificação. No seu caso, recordo que se verificou algo muito interessante: chegaram a Roma milhares de cartas do mundo inteiro – não apenas da parte de simples fiéis, mas inclusive de bispos e cardeais – que pediam a beatificação dos pastorinhos. Aquela quantidade de pedidos deu vida a uma reflexão no interior da Congregação para as Causas dos Santos. João Paulo II nomeou uma comissão de especialistas – teólogos, psicólogos e pedagogos – para examinar o problema. Depois de um estudo aprofundado, chegou-se a uma conclusão: as crianças são capazes de praticar as virtudes cristãs, naturalmente na maneira que lhes é possível. Graças a esta conclusão, pudemos proceder à beatificação.
– Pode dizer-nos algo sobre a santidade delas?
– No que se refere aos traços característicos da santidade dos dois pastorinhos, podemos reconhecer uma piedade profunda, uma devoção fervorosa à Santíssima Trindade, a Nossa Senhora e à Eucaristia. A propósito de heroicidade, sobressai como cada uma delas estava disposta a sacrificar a vida para não mentir. Com efeito, foram ameaçadas para as obrigar a dizer que as visões eram falsas, mas não cederam às pressões.
– Podem-se fazer previsões para a beatificação da Irmã Lúcia?
– Actualmente, o processo está a passar pela fase diocesana. Como sabemos, os processos de canonização têm duas fases: uma diocesana e a outra romana. No que se refere à primeira, o Papa dispensou da espera de cinco anos para dar início ao processo. Fui pessoalmente ao Carmo de Coimbra, onde a Irmã Lúcia viveu, para anunciar o dom concedido pelo Papa, de antecipar de dois anos a abertura do processo. Durante a fase diocesana, procede-se à investigação e ao estudo escrupuloso da personalidade, da espiritualidade e da heroicidade na prática das virtudes, também através da audição de testemunhas. Depois, o estudo passa aos historiadores, aos teólogos e à comissão dos cardeais membros do Dicastério do Vaticano. Os purpurados devem aprovar, ou não, as conclusões dos teólogos e dos historiadores. Se o fazem, o processo é transmitido ao Papa, que se deve pronunciar sobre a heroicidade das virtudes. Depois do reconhecimento das virtudes heróicas, para a beatificação é necessário um milagre. Deve-se instruir outro processo in loco, ou seja, onde o presumível milagre teve lugar. Em seguida, os documentos passam pela análise dos médicos, os quais devem certificar que a cura é verdadeiramente inexplicável à luz da ciência médica actual. É importante observar esta ênfase – isto é, nas actuais condições dos conhecimentos médicos – porque talvez em cinquenta anos, com o progresso científico, algumas doenças possam ser curadas. Para ser considerada um milagre, a cura deve ser instantânea, completa e permanente. Se os médicos certificam que ela não é cientificamente explicável, os documentos passam aos teólogos. É a eles que compete certificar se existe um nexo entre a cura e a prece de intercessão feita a Deus através do candidato à beatificação. Portanto, somente os teólogos, e não os médicos, podem falar de milagre. Depois, as suas conclusões são submetidas a exame para eventual aprovação dos cardeais. Enfim, é o Papa que tem a última palavra: se ele aprova o milagre, tudo está pronto para a beatificação.
– Durante o voo da Itália para Portugal, Bento XVI falou da visão dos pastorinhos de Fátima, explicando que nela «estão indicadas realidades do futuro da Igreja que se desenvolvem e se manifestam de maneira gradual».
– Sem dúvida, a afirmação do Papa é sacrossanta. Citando a visão do bispo vestido de branco, Bento XVI conferiu-lhe uma dimensão eclesial. Sabemos bem que João Paulo II viu esta profecia realizar-se nele. Isto é realmente verdade! Porém, além disso deve-se dar àquela visão uma dimensão eclesial. Ou seja, deve ser aplicada a toda a Igreja e ao seu sofrimento. Por sua natureza, a Igreja não pode encontrar-se numa condição desprovida de sofrimento, porque tem que se identificar com Cristo. Com efeito, ela não é senão o próprio Jesus encarnado numa comunidade de fé, de esperança e de amor, que continua a sua missão através dos séculos. A Igreja é Cristo, e Cristo é a Igreja. A Igreja não pode deixar de sofrer, e deve reviver em si mesma aquilo que aconteceu com o corpo físico de Cristo. O sofrimento entra na vida normal da Igreja. Jesus disse: Se me perseguiram a mim, perseguirão também a vós. Certas campanhas que se estão a promover contra a Igreja são verdadeiras perseguições. No entanto, a Igreja sabe bem que os inimigos não prevalecerão, porque também para ela, como para Cristo, virá a ressurreição. Diria que o Papa entendeu a visão neste sentido. É aqui que se insere inclusive o tema da esperança, do qual Bento XVI falou durante a sua viagem. Olhando para a Páscoa, a nossa fé torna-se fé na ressurreição.
– Como comenta a afirmação feita pelo Pontífice, sobre os sofrimentos que vêm precisamente do interior da Igreja?
– Na Igreja há também pecadores. Eles são um sofrimento na Igreja, que é chamada a ser santa. Os Padres falavam da casta meretrix. É uma realidade incontestável, tangível. Mas Cristo já o tinha previsto e por isso instituiu o Sacramento da reconciliação. Na sua explicação, o Papa frisou estes aspectos da esperança e da realidade em que existe também o pecado.
– Portugal e o Papa: uma história de amizade que continua. Como se explica este vínculo?
– Historicamente, Portugal sempre esteve ligado ao sucessor de Pedro. No início da nação portuguesa existe uma intervenção directa do Papa. O arcebispo de Braga veio várias vezes a Roma, para se encontrar com Inocêncio II, para que aprovasse com a sua autoridade a separação de Castela dos territórios de Portugal. A independência do reino de Castela e Leão teve lugar no dia 5 de Outubro de 1143, mas foi necessário esperar até 1179 para que Alexandre III, com uma bula, reconhecesse oficialmente o rei Afonso I. A partir de então, Portugal passou a chamar-se a nação «fidelíssima» ao Papa. Efectivamente, olhar para o Papa como o ponto de referência faz parte da cultura portuguesa, como ressaltou Bento XVI. Com efeito, as raízes do povo português são essencialmente cristãs, e ninguém jamais poderá cancelá-las. Podemos até dizer que o cristianismo está inscrito no ADN do povo. Depois, o vínculo com os sucessores de Pedro renovou-se ao longo dos séculos. Nos tempos modernos contam-se cinco visitas pontifícias a Portugal. A primeira foi de Paulo VI, que se revelou um grande acontecimento, embora tenha durado apenas um dia. Em seguida, as três visitas de João Paulo II, de modo particular a de 2000, quando beatificou os dois pastorinhos, e a última, de Bento XVI.
– Do ponto de vista social, o que espera o povo da visita do Sumo Pontífice?
– A visita do Papa foi uma grandiosa dádiva a Portugal. As palavras do Sumo Pontífice levarão a reflectir sobre alguns temas de actualidade. Por exemplo, a menção que fez aos direitos humanos e à promoção integral do homem contra os mecanismos socioeconómicos e culturais que conduzem à morte. Ou então, quando insistiu sobre o valor da família fundada sobre o matrimónio indissolúvel entre um homem e uma mulher. Depois, o Papa referiu-se à liberdade e ao problema da colaboração entre o mundo da cultura e o mundo da fé. A fé não é contrária à ciência e à cultura: pelo contrário, elas completam-se reciprocamente. Com efeito, em muitos países europeus a cultura teve como protagonista a Igreja. Quer se queira quer não, o homem está aberto ao transcendente. Existe uma grande superficialidade no gesto de desejar mostrar, custe o que custar, uma contraposição entre ciência e fé. A visita do Papa levará a reflectir seriamente sobre estes problemas e ajudará a encontrar uma solução humana e cristã. Também por isto, a viagem de Bento XVI foi um dom para Portugal.