Transfiguração do Senhor

6 de Agosto de 2009

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Exultai de alegria, F. da Silva, NRMS 106

cf. Mt 17, 5

Antífona de entrada: O Espírito Santo apareceu numa nuvem luminosa e ouviu-se a voz do Pai: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências. Escutai-O.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

No mundo desfigurado em que vivemos, com muitos sinais de morte, todos os anos a Liturgia desta festa nos lembra a luz e a esperança da glória. A Transfiguração aparece como epifania gloriosa do Messias escondido. Jesus vai conhecer a humilhação da paixão e da morte, mas a Ressurreição há-de manifestar que Jesus Cristo é o Senhor. A Transfiguração anuncia a glória futura de Jesus ressuscitado.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que na gloriosa transfiguração do vosso Filho Unigénito confirmastes os mistérios da fé com o testemunho da Lei e dos Profetas e de modo admirável anunciastes a adopção filial perfeita, fazei que, escutando a palavra do vosso amado Filho, mereçamos participar na sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Jesus aplicou muitas vezes a Si mesmo a expressão «Filho do homem». Esta leitura de Daniel antecipa a figura do Senhor Jesus na Sua Transfiguração.

 

Daniel 7, 9-10.13-14

9Estava eu a olhar, quando foram colocados tronos e um Ancião sentou-se. As suas vestes eram brancas como a neve e os cabelos como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume vivo. 10Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele. Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal abriu a sessão e os livros foram abertos. 13Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. 14Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, que nunca passará, e o seu reino jamais será destruído.

 

A leitura é tirada da 2ª parte do livro de Daniel, a parte profética (7 – 12). Temos aqui a descrição, em estilo apocalíptico, do julgamento divino, com três quadros: a apresentação do Juiz, Deus, (vv. 9-10); a destruição do reino inimigo (vv. 11-12, omitidos nesta leitura); e o estabelecimento do reino de Deus (vv. 13-14).

9-10 «Um Ancião» (à letra, «o Antigo em dias»): é uma forma antropomórfica de falar de Deus eterno (cf. 36, 26; Salm 101[102], 25-26; Is 41, 4). A alvura dos cabelos não significa velhice, mas glória e luminosidade. As torrentes de fogo que saem do trono podem simbolizar o poder divino para destruir os seus inimigos (v. 11; cf. Is 26, 11). Dado o estilo apocalíptico desta passagem, não se pode partir deste texto para fazer um cálculo, ainda que meramente aproximado, do número dos Anjos: «miríades de miríades» (=10.000 vezes 10.000) é um superlativo hebraico para indicar um número incontável (nós diríamos, «aos milhões», mas este numeral não existe em hebraico nem em grego).

13 Alguém semelhante a um filho de homem. Os exegetas, partindo da análise do contexto (vv. 18.22-27), dizem que o sentido literal directo desta expressão visa não um indivíduo singular, mas o povo dos «santos do Altíssimo» (v. 18). Contudo, como sucede frequentemente, o que é dito em geral acerca de todo o povo entende-se, de um modo eminente (sentido eminente), como referido a uma personagem singular, nomeadamente o chefe do povo, neste caso o próprio Messias. O judaísmo assim o entendeu, e o próprio Jesus (cf. Mt 24, 30; 26, 64); discute-se, porém, se «Filho do Homem» é um verdadeiro título cristológico (assim parece em Lc 1, 32-33; Mt 8, 20; 24, 30; 26, 64; Apoc 1, 7; 14, 14) ou uma maneira discreta de Jesus se referir a si mesmo (uma figura chamada asteísmo: o filho do homem equivalendo a este homem); uma coisa, porém, é certa: este não era um título com que Jesus fosse tratado nem pelo povo da Palestina, nem pela Igreja primitiva. Os que o entendem como um título cristológico sublinham o seu carácter simultaneamente humilde e glorioso, humano e divino (a propósito, veja-se o belo e profundo comentário teológico de Bento XVI, em Jesus de Nazaré, capítulo X).

 

Salmo Responsorial      Sl 96(97),1-2.5-6.9 e 12

 

Monição: Sabemos que Deus reina em toda a terra. Exultemos de alegria e louvemos o seu nome, cantando: O Senhor é rei, o Altíssimo sobre toda a terra.

 

Refrão:         O Senhor é rei,

                      o Altíssimo sobre toda a terra.

 

O Senhor é rei: exulte a terra,

rejubile a multidão das ilhas.

Ao seu redor, nuvens e trevas;

a justiça e o direito são a base do seu trono.

 

Derretem-se os montes como cera

diante do senhor de toda a terra.

Os céus proclamam a sua justiça

e todos os povos contemplam a sua glória.

 

Vós, Senhor, sois o Altíssimo sobre toda a terra,

estais acima de todos os deuses.

Alegrai-vos, ó justos, no Senhor

e louvai o seu nome santo.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Pedro vê Jesus transfigurado na montanha do Tabor. Não se trata de uma fábula. A voz de Deus Pai apresenta-O com «Filho muito amado». Com a Transfiguração Jesus quis preparar os discípulos para a hora da Paixão.

 

2 São Pedro 1, 16-19

Caríssimos: 16Não foi seguindo fábulas ilusórias que vos fizemos conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. 17Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da sublime glória de Deus veio esta voz: «Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência». 18Nós ouvimos esta voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo. 19Assim temos bem confirmada a palavra dos Profetas, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que desponte o dia e nasça em vossos corações a estrela da manhã.

 

Neste trecho é aduzido como argumento de credibilidade a favor do anúncio da «vinda» gloriosa (parusia) de Jesus o facto de Pedro ter sido testemunha (com outros dois Apóstolos: cf. Mt 17, 1-18 par) da sua glória divina, que brilhou sobrenaturalmente quando os três estavam com Ele «no monte santo». A parusia era negada pelos trocistas visados na carta, mais adiante (cf. 3, 3-4). O texto não perde a sua força, mesmo que ele tenha sido redigido, depois da morte do Príncipe dos Apóstolos, por algum seu discípulo e continuador, como hoje pensam muitos estudiosos.

Com a Transfiguração, «ficou bem confirmada a palavra dos Profetas», que anunciaram a vinda gloriosa do Messias no fim dos tempos: a Transfiguração foi uma visão antecipada da glória da parusia. Essa palavra da Sagrada Escritura, a que devemos prestar atenção, funciona como uma luz que «brilha como uma lâmpada em lugar escuro» (v. 19), «para aqueles que esperam a luz final, a ‘estrela da manhã’ (cf. Apoc 2, 28) a surgir com a parusia de Cristo (cf. 1 Tes 5, 4)» (The New Jerome Biblical Commentary, p. 1019). Em Apoc 22, 16, Jesus é «a brilhante estrela da manhã», pela qual a comunidade orante dos fiéis clama com insistência: «vem!» (Apoc 22, 17.20).

 

Aclamação ao Evangelho            Mt 17, 5c

 

Monição: Este é o meu Filho! Escutai-O. De pé, aclamemos Jesus Cristo, cantando: aleluia

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Este é o meu Filho muito amado,

no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 9, 2-10

Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. 4Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 5Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». 6Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. 7Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». 8De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. 9Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

 

A cena da Transfiguração situa-se nos inícios da segunda parte do Evangelho de Marcos. A primeira parte (Mc 1, 1 – 8, 29) parece querer ser a resposta à incompreensão das pessoas que se interrogam – «quem é este homem?» – sem atinarem com a resposta certa, culminando com a confissão de Pedro: «Tu és o Cristo!» (8, 29). Mas perante a revelação da natureza da obra messiânica de Jesus, que passa pela aparente derrota da Paixão e da Cruz, surge a incompreensão dos próprios discípulos, a começar pelo próprio Pedro (8, 31-33). A visão antecipada da glória do Messias na Transfiguração serve de correctivo para aqueles que ficaram confundidos com o primeiro anúncio da Cruz como meio de salvação (8, 31 – 9, 1). Para nós, é também uma visão antecipada da vinda gloriosa de Cristo, a encher-nos de esperança (cf. Filp 3, 21). A Transfiguração do Senhor nada tem a ver com os mitos gregos das metamorfoses. O próprio S. Lucas, melhor conhecedor da cultura grega, teve o escrupuloso cuidado de evitar o verbo grego usado por S. Marcos – metamorfôthê, transfigurou-Se – substituindo-o por um circunlóquio: «ao rezar, ficou outro o aspecto do seu rosto». Nos mistérios gregos, chega-se progressivamente à transformação da natureza – a metamorfose –, através duma iniciação mistagógica, ao passo que esta transfiguração de Jesus foi repentina e passageira, uma manifestação do que Jesus já era antes.

2 Pedro, Tiago e João, são os três predilectos de Jesus, destinados a ser «colunas da Igreja» (Gal 2, 9) particularmente firmes, também testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37), diríamos, uma espécie de núcleo duro dos Doze.

«Subiu… a um alto monte»: Os Evangelhos não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor, um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré, segundo uma antiga tradição já referida por Orígenes. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há exegetas que falam antes do Monte Hermon (2.759 m), junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. Mas acima das considerações topográficas o mais interessante é fixarmo-nos com J. Ratzinger no «simbolismo geral do monte: o monte como lugar da subida, não apenas da subida exterior, mas também da ascese interior; o monte como um libertar-se do peso da vida diária, como um respirar no ar puro da criação; o monte que oferece o panorama da criação em toda a sua vastidão e beleza; o monte que me dá elevação interior e me permite intuir o Criador. A estas considerações, a história acrescenta a experiência de Deus que fala e a experiência da paixão como seu ponto culminante no sacrifício de Isaac, no sacrifício do Cordeiro definitivo sacrificado no monte Calvário» (Jesus de Nazaré, p. 383-4)

«E transfigurou-Se diante deles»: o acontecimento é descrito, não como uma visão, mas como uma epifania, pois foi Ele mesmo a «manifestar» a sua própria glória divina, enquanto estava com eles. O facto deveras notável não foi tanto a visão de Moisés e Elias, mas a da glória de Jesus.

3 «As vestes… resplandecentes…» S. Marcos não faz referência ao rosto de Jesus que ficou brilhante como o Sol (Mt 17, 2). O Evangelista não precisava de pormenorizar mais, pois a referência da brancura sobrenatural das vestes era o suficiente para que o leitor tomasse consciência da personalidade celestial de Jesus (cf. Dan 7, 9; Act 1, 10; Apoc 3, 4-5; 4, 4; 7, 9).

4 «Moisés e Elias». A sua presença à volta de Jesus deixa ver como a Lei e os Profetas convergem para Ele, uma vez que tinham preparado e anunciado a sua vinda. A própria tradição rabínica falava de Moisés como precursor do Messias e Malaquias anunciara a vinda de Elias nos tempos messiânicos (Mal 3, 23). «Moisés e Elias puderam receber a revelação de Deus no monte, eles aparecem agora, na transfiguração, a conversar com Aquele que é a Revelação de Deus em pessoa» (J. Ratzinger, ibid. p. 384).

5-7 «Três tendas». Assim se prestava Pedro a facilitar que se prolongasse aquele êxtase paradisíaco. Fala de três e não de um único refúgio, tendo em conta a desigual dignidade de cada uma das pessoas. «Não sabia o que dizia»: Pedro, tomado de assombro, pensa em categorias de um messianismo glorioso e pretende que aquela situação extraordinária se prolongue e mantenha, totalmente alheado da realidade do dia a dia. «Veio então uma nuvem»: mas esta não era uma resposta à sugestão de Pedro para construir um abrigo; a nuvem – a tenda de Deus (cf. 2 Sam 22, 12; Salm 18(17), 12), que cobriu e envolveu Jesus «com a sua sombra» –, aparece sobretudo como um sinal bíblico da presença de Deus, que simultaneamente O revelava e O ocultava (cf. Ex 13, 22; 19, 9; 24, 15-16; 33, 9; Lv 16, 2; Nm 9, 15-23; 11, 25). De acordo com Lc 9, 32, este prodígio deve-se ter verificado de noite, enquanto o Senhor fazia oração (Lc 9, 29). Mas não consta que Jesus se tenha elevado, levitando no ar, como O pintou Rafael. «Este é o meu Filho». Com estas palavras a cena atinge o apogeu: a voz vinda do Céu (a bat-qol, como garantia divina da teologia rabínica) é mais uma confirmação divina da anterior confissão da fé de Pedro (Mc 8, 29). S. Tomás comenta: «Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa».

9 «Ordenou-lhes que não contassem…» Esta ordem pertence à chamada disciplina do segredo messiânico – a que Marcos dá especial ênfase pela preocupação teológica de fazer ressaltar a incompreensão perante Jesus, a ser superada pelos seus só após a glória da Ressurreição – visa evitar possíveis agitações populares, que só contribuiriam, para perturbar e dificultar a missão de Jesus.

 

Sugestões para a homilia

A futura glória

Nos Evangelhos, este episódio da transfiguração aparece numa altura em que Jesus se aproxima do fim da sua vida terrena. Jesus fala de si mesmo como sendo o Filho do homem, título do futuro Messias anunciado pelo profeta Daniel, mas nunca se identificou como o Libertador glorioso e triunfalista esperado pelos seus contemporâneos. As autoridades judaicas, apesar de verem as obras que Jesus realiza não descobriram nelas o seu poder divino, por isso recusam-no e decidem dar-lhe a morte.

Depois da profissão de fé feita por Pedro, «Senhor, tu és o Messias o Filho de Deus», Jesus fala abertamente da sua morte em Jerusalém (Mat 16,21). Pedro rejeita este plano, mas Jesus está determinado e fala da Ressurreição e da glória futura, que virá após a morte de Cruz. «Vereis o Filho do Homem com os seus Anjos na Glória do Pai!» (Mat 16, 27-28). Seis dias depois dá-se este maravilhoso episódio da Transfiguração. A presença de Moisés e Elias, a nuvem luminosa, a voz do Pai, o rosto de Jesus transfigurado, todo este cenário de manifestação gloriosa ensinará aos discípulos que é pelo trabalho que se chega ao descanso, pela luta que se chega à vitória, pela morte que se chega à ressurreição.

Jesus tomou consigo Pedro Tiago e João

Estamos a iniciar o mês de Agosto. Aqui na Europa, sentimos o peso do calor estival. O Evangelho convida-nos a subirmos com Jesus ao Monte Tabor. Subir implica esforço. Mas o Tabor não é muito alto. Subamos lentamente. O horizonte visual é cada vez mais amplo, o ar mais fresco, mais puro. Há um grande silêncio lá no cimo. O monte Tabor parece um grande altar elevado sobre a planície da Galileia. Todos os que dele se aproximam e sobem às suas alturas sentem-se subitamente envolvidos por uma atmosfera da presença divina, que inspira um profundo hino de louvor e faz esquecer a fatigante subida! Façamos nossa a oração de S. Pedro: «que bom, Senhor, estar aqui!». A montanha simbolicamente remete para o sagrado. Permite o isolamento, favorece a contemplação. Deus faz-nos ouvir a sua voz quando fazemos silêncio. Hoje diz-nos: «Jesus é o Meu Filho muito amado. Escutai-O!»

«Jesus transfigurou-se diante deles!»

Pedro, Tiago e João, as futuras colunas da Igreja, «viram as suas vestes resplandecentes», o seu rosto luminoso, «brilhante como o sol». Viram Moisés e Elias, falando com Jesus. Ouviram a voz do Pai. Ficaram bem confirmados: «Este é o meu Filho! Escutai-O». Jesus quis fortalecer com a visão da glória aqueles que também viriam a ser testemunhas da sua humilhação. Para não sucumbirem com o peso do sofrimento provocado pela agonia, no Jardim das Oliveiras, fortaleceu-os primeiro com a visão da sua divindade, no Monte Santo. Compreenderão, mais tarde, que «era necessário que o Messias sofresse a morte para entrar na glória da Ressurreição». Sobretudo, S. Pedro recordará sempre o mistério da transfiguração do Senhor: Escreveu assim aos cristãos do seu tempo: «Não foi com fábulas ilusórias que fizemos conhecer Jesus Cristo… Nós fomos testemunhas oculares da sua majestade! Nós ouvimos esta voz vinda do Céu quando estávamos com Jesus no monte santo» (2 Pedro 1,16-19).

 

Fala o Santo Padre

 

«No rosto transfigurado de Jesus brilha um raio da luz divina

que Ele conservava no seu íntimo.»

No domingo de hoje, o Evangelista Marcos refere que Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João a um monte elevado e se transfigurou diante deles, tornando-se resplandecente de tal brancura que «lavadeiro algum da terra poderia branquear as suas vestes assim» (cf. Mc 9, 2-10). É neste mistério de luz que hoje a liturgia nos convida a fixar o nosso olhar. No rosto transfigurado de Jesus brilha um raio da luz divina que Ele conservava no seu íntimo. Esta mesma luz resplandecerá no rosto de Cristo no dia da Ressurreição. Neste sentido, a Transfiguração manifesta-se como uma antecipação do mistério pascal.

A Transfiguração convida-nos a abrir os olhos do coração para o mistério da luz de Deus, presente em toda a história da salvação. Já no início da criação, o Todo-Poderoso diz: «Fiat lux Faça-se a luz!» (Gn 1, 3), e verifica-se a separação entre a luz e as trevas. Como as outras criaturas, a luz é um sinal que revela algo de Deus: é como o reflexo da sua glória, que acompanha as suas manifestações. Quando Deus aparece, «o seu esplendor é como a luz, das suas mãos saem raios» (Hab 3, 4 s.). Como se afirma nos Salmos, a luz é o manto com que Deus se reveste (cf. Sl 104 [103], 2). No Livro da Sabedoria, o simbolismo da luz é utilizado para descrever a própria essência de Deus: a sabedoria, efusão da glória de Deus, é «um reflexo da luz eterna», superior a todas as luzes criadas (cf. Sb 7, 26.29 s.). No Novo Testamento, é Cristo que constitui a plena manifestação da luz de Deus. A sua Ressurreição debelou para sempre o poder das trevas do mal.

Com Cristo ressuscitado a verdade e o amor triunfam sobre a mentira e o pecado. Nele, a luz de Deus já ilumina definitivamente a vida dos homens e o percurso da história. «Eu sou a luz do mundo afirma Ele no Evangelho Quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12).

Como temos, também nesta nossa época, necessidade de sair das trevas do mal, para experimentarmos a alegria dos filhos da luz! (...)

 Papa Bento XVI, Castel Gandolfo, 6 de Agosto de 2006

 

Oração Universal

 

Irmãos e Irmãs:

Invoquemos a Deus, nosso Pai,

que nos revelou a divindade do Seu Filho muito amado

e nos mandou escutá-Lo, dizendo com alegria:

 

R: Senhor, iluminai as nossas trevas.

 

1.  Para que Deus transfigure a Santa Igreja,

peregrina nos quatro cantos da Terra, e a faça brilhar pela santidade,

oremos irmãos.

 

2.  Para que Deus transfigure os homens públicos,

os ensine a trabalhar para o bem comum e a promover a paz e a justiça,

oremos irmãos.

 

3.  Para que Deus transfigure aqueles que sofrem,

os ajude a levar a sua cruz e a seguir os passos do Seu Filho,

oremos irmãos.

 

4.  Para que Deus transfigure o nosso olhar e nos ensine a descobrir,

dia após dia, a Sua Presença na pessoa dos que sofrem,

oremos irmãos.

 

5.  Para que Deus nos transfigure inteiramente

e imprima no nosso coração a imagem do Rosto de Jesus,

oremos irmãos.

 

6.  Para que Deus transfigure com a Sua glória os moribundos

e os leve a contemplar, na eternidade, o Rosto de Jesus, o Redentor,

oremos irmãos.

 

OREMOS:

Senhor, ouvi as nossas súplicas e envolvei-nos com a luz santíssima que os Apóstolos viram brilhar

 no monte santo, para escutarmos a voz do Vosso Filho, imagem e esplendor da Vossa glória.

Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amen.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: bom Senhor, estar ao pé de Ti, M. Carneiro, NRMS 36

 

Oração sobre as oblatas: Santificai, Senhor, estes dons pelo mistério da transfiguração do vosso Filho e com o esplendor da sua glória purificai-nos das manchas do pecado. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

O mistério da Transfiguração

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

v. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

v. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Na presença de testemunhas escolhidas, Ele manifestou a sua glória e na sua humanidade, em tudo semelhante à nossa, fez resplandecer a luz da sua divindade para tirar do coração dos discípulos o escândalo da cruz e mostrar que devia realizar-se no corpo da Igreja o que de modo admirável resplandecia na sua cabeça.

Por isso exulta a Igreja em toda a terra e com os Anjos e os Santos proclama a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Jesus é o Filho muito amado do Pai. Vem até nós e fala-nos como outrora aos Judeus: «Eu sou o pão vivo descido do Céu!» Imitemos S. Pedro e façamos uma tenda dentro do nosso coração. Convidemos Jesus, pedindo-Lhe que fique connosco. Rezemos como S. Pedro: «Senhor, como é  bom estarmos aqui.»

«Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do cálice da sua paixão… Muitos amam a Jesus, mas só quando não há adversidade» (Tomás de Kempis).

 

Cântico da Comunhão: Se escutais a Cristo Rei, M. Carneiro, NRMS 92

 

Antífona da comunhão: Quando Cristo Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos na sua glória.

 

Cântico de acção de graças: Quanta alegria é para mim, H. Faria, NRMS 18

 

Oração depois da comunhão: O alimento celeste que recebemos, Senhor, nos transforme em imagem de Cristo, que no mistério da transfiguração manifestastes cheio de esplendor e de glória. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Gostamos do Tabor, mas não aceitamos o Calvário! Quando peregrinamos na Terra santa, subir ao monte Tabor é uma experiência maravilhosa, mas breve. Geralmente, depois do Tabor, seguimos para Jerusalém! Faz parte do simbolismo: a glória vem depois da Cruz.

«Para entrar nas riquezas da sabedoria de Cristo, a porta é a cruz, que é uma porta estreita; desejar os deleites a que se chega por ela é de muitos, mas desejar entrar por ela é de poucos.» (S. João da Cruz, «Cântico Espiritual», estrofe 37)

 

Cântico final: Aleluia! Glória a Deus, F. da Silva, NRMS 92

 

 

Homilias Feriais

 

6ª Feira, 7-VIII: Tira-me tudo o que me afasta de ti.

Dt 4, 32-40 / Mt 16, 24-28

Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se arruinar a própria vida?

A fé no Deus único (cf Leit) leva-nos a utilizar todas as coisas para d’Ele nos aproximarmos e a rejeitar o que d’Ele nos afastar (cf Ev).

«’Meu Senhor e meu Deus, tira-me tudo o que me afasta de ti. Meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo o que me aproxima de ti. Meu Senhor e meu Deus, desapega-me de mim mesmo, para que eu me dê todo a ti’ (S. Nicolau de Flüte)» (Cit. em CIC, 226). Uma bela oração para um bom programa de vida.

 

Sábado, 8-VIII: Para Deus não há impossíveis’.

Dt 10, 12-22 / Mt 17, 22-27

Se tiverdes fé comparável a um grão de mostarda, direis a esse monte: muda-te daqui para acolá, e ele há-de mudar-se. E nada vos será impossível.

Se a nossa fé for grande, poderemos levar a cabo muitos empreendimentos, considerados impossíveis (cf Ev). Moisés apela à fé do povo para a chegada à terra prometida para que não esqueçam Deus (cf Leit).

Para os momentos difíceis podemos contar com a ajuda de Deus. «Deus não pede coisas impossíveis mas, ao mandar, avisa que faças o que podes e que peças o que não podes, e ajuda para que possas» (S. Agostinho).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          José Roque

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:                 Duarte Nuno Rocha

 


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