TEMAS LITÚRGICOS

SAGRADA LITURGIA

 

ALGUNS ASPECTOS DA TEOLOGIA

E PRAXE DA LITURGIA DAS HORAS

 

 

Carlos Pagán Santamaría

 

 

«A Liturgia das Horas está, de modo muito particular, confiada aos ministros sagrados (…) Todos estes desempenham o ministério do bom Pastor, que roga pêlos seus para que tenham a vida e sejam consumados na unidade (cf. Jo 10, 11; 17, 20, 23). Na Liturgia das Horas, que a Igreja lhes propõe, não somente encontrarão uma fonte de piedade e alimento para a oração pessoal (SC, 90), mas também um meio de alimentar e desenvolver, pela riqueza de contemplação, a sua acção pastoral e missionária, para alegria de toda a Igreja de Deus (LG, 41)».

 

Estas palavras do nº 28 da Ordenação Geral da Liturgia das Horas, promulgada por Paulo VI em 1970, adquirem uma ressonância muito especial no presente ano dedicado ao sacerdócio.

 

Por tal motivo, parece de grande utilidade recordar alguns aspectos da teologia e praxe da Liturgia das Horas que possam contribuir a um mais frutuoso exercício da oração sacerdotal por excelência [1].

 

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Para nos aproximarmos do conteúdo teológico e espiritual da Liturgia das Horas é preciso considerar a sua fundamentação. Por isso iremos estudar a sua dimensão

 

1) trinitária,

2) cristológica,

3) eclesial,

4) laudatória,

5) eucarística,

6) escatológica

e

7) ministerial.

 

Esta consideração da múltipla riqueza do Oficio divino permite uma adequada abordagem teológica e uma correcta valorização da sua praxe.

 

1) Dimensão trinitária: A teologia do Oficio divino está enraizada no mistério de comunhão das três Divinas Pessoas; mistério que foi introduzido nesta terra com a Encarnação do Filho, continua na Igreja peregrina e não cessará na Jerusalém celeste.

 

O Verbo imagem viva do Pai, é Palavra, que alem de conhecimento é louvor e complacência infinita nas perfeições infinitas do Pai. É também resposta de amor e glorificação. Na sua Encarnação o Verbo continua a ser «louvor do Pai» agora também num coração e lábios humanos incluindo todas as dimensões da oração do homem: acção de graças, adoração, propiciação, petição, intercessão (cfr. OGLH, n. 4).

 

«Vindo ao mundo para comunicar aos homens a vida divina, o Verbo que procede do Pai como esplendor da Sua glória, «Sumo Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, Cristo Jesus, ao assumir a natureza humana, introduz nesta terra de exílio o hino que eternamente se canta no Céu (SC, n. 3). Desde aquele momento, ressoa no coração de Cristo o louvor divino expresso em termos humanos de adoração, propiciação, e intercessão. E tudo isto Ele apresenta ao Pai, como Cabeça da nova humanidade, Mediador entre Deus e os homens, em nome de todos, para benefício de todos» (OGLH, n. 3).

 

Cristo associou todos os homens na sua glorificação ao Pai como representante e mediador. Assim por esta união ontológica dos homens com Cristo toda oração humana e cristã está indissoluvelmente unida a Ele único mediador. Por parte do homem requer-se, contudo, uma adesão pessoal, livre e consciente. O Oficio divino é a oração mais eminente de Cristo (cfr. OGLH, n. 15), e nela o Pai fala e recebe o louvor, Cristo está no meio da comunidade orante e o Espírito Santo eleva a expressão humana à categoria de oração dos filhos de Deus.

 

A dimensão trinitaria se reflecte também na própria estrutura das orações, que, são dirigidas ao Pai com expressões de mediação de Cristo e comunhão do Espírito Santo.

 

2) Dimensão cristológica: A Liturgia das Horas é a mesma oração sacerdotal que Cristo introduziu com a sua Encarnação, prolongou durante toda a sua vida, especialmente no mistério pascal, e continua agora na e pela Igreja. A voz da Igreja é a voz de Cristo que associa os coros dos anjos e dos santos do Céu, e todos os fiéis na terra para glorificar a Deus. A causa fundante da dimensão cristológica da Liturgia das Horas é a presença nela de Cristo Sacerdote e Mediador, mas também é sustentada pela capitalidade de Cristo; na medida em que é oração que a Igreja dirige ao Pai com e por Cristo. Existe por outro lado, uma íntima união entre as diferentes manifestações de louvor do Verbo. Antes de mais a que se dirigem mutuamente o Pai e o Verbo; depois a que Cristo dirigiu ao Pai durante a sua vida terrena; e por último a que realiza, incessantemente, Cristo glorioso. Esta permanente oração de louvor de Nosso Senhor glorificado, não só ecoa na Igreja celestial, mas também na peregrina, e a oração das Horas é assim oração que a Igreja dirige ao Pai com e por Cristo. Uma terceira causa do carácter cristológico do Oficio divino radica no facto de ser uma oração que tem como termo o mesmo Verbo encarnado. É «oração da Igreja com Cristo e a Cristo» (OGLH, n. 2). Não existe contradição em que Cristo seja ao mesmo tempo sujeito e termo, pois como diz S. Agostinho: «Ora a favor de nós, como nosso Sacerdote; ora em nós, como nossa Cabeça; é invocado por nos como nosso Deus. Reconheçamos, pois, n'Ele as nossas próprias vozes, e a voz d'Ele em nós» (Enarratio in Ps. 85, 1).

 

3) Dimensão eclesial: Da dimensão trinitaria e cristológica da Liturgia das Horas deriva a sua dimensão eclesial. Nela se continua o cântico de louvor que se escuta no seio da Santíssima Trindade eternamente, que foi introduzido na Terra pelo Verbo encarnado e continua agora ininterruptamente no mistério de comunhão que é a Igreja.

 

No obstante o Oficio divino é uma oração da Igreja e uma oração que se realiza em nome da Igreja. Como diz o Catecismo «É «a oração pública da Igreja» (SC, 98), na qual os fiéis (clérigos, religiosos e leigos) exercem o sacerdócio real dos baptizados. Celebrada «segundo as formas aprovadas» pela Igreja, a Liturgia das Horas «é verdadeiramente a voz da esposa que fala com o Esposo; ou, melhor a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai» (SC 84).» (CEC, n. 1174).

 

A afirmação «o Oficio divino é a oração da Igreja» significa que é a oração de todos os baptizados, e não só de aqueles que estão investidos oficialmente de essa obrigação. É sempre expressão de toda a Igreja e de todos os seus membros, e se faz em nome da Igreja. Quando um baptizado sozinho ou comunitariamente reza as Horas, toda a Igreja reza com ele e nele.

 

Antigamente considerava-se que só era oração da Igreja quando rezada por quem tinha recebido o encargo ou título de o fazer no nome da Igreja. Mas o Concilio e a Ordenação Geral esclareceram que para rezar o Oficio divino como oração pública da Igreja, basta ser baptizado.

 

Convêm ter em conta, por outro lado, que a celebração comunitária da Liturgia das Horas é um sinal muito expressivo do seu carácter eclesial (cfr OGLH, n. 33).

 

4) Dimensão de louvor ou Laus perennis : A maior parte dos autores concordam em que a santificação do tempo por meio do louvor Divino é aquilo de mais específico da oração das Horas; e isto nos diversos sentidos: a) cosmológico, b) existencial, c) mistérico e d) anamnetico ou memorial de acções salvíficas.

 

a) A santificação do tempo e das horas tem uma dimensão cosmológica, pois a existência humana está condicionada pelo dia e pela noite, a manhã, o meio dia, a tarde, a noite, etc. tempos que devem ser santificados por meio da oração, e «o fim da Liturgia das Horas é a santificação do dia e de toda a actividade humana» (OGLH, n. 11).

 

b) Sentido ou dimensão salvífico-existencial: O tempo do cristão tem o ritmo da sua fé. O cristão é consciente de que o tempo e a Historia são conduzidos, visitados e habitados pelo Senhor. Por isso procura adequar a sua vida aos planos de Deus e o Oficio divino converte-se como que no sinal «sacramental» da santificação de toda a actividade humana; e tende a ordenar todas as coisas para a glória de Deus.

 

c) Aspecto misterico: O tempo e todas as realidades cósmicas nascem e acabam na vida de Deus, que consiste no mútuo louvor entre as três Pessoas Divinas, o louvor divino santifica o tempo e todas as coisas, condicionando-as e orientando-as para a Sua glória. O Oficio divino é o sinal «sacramental» do louvor trinitário que não conhece pausas nem interrupções.

 

d) Carácter anamnético ou memorial de sucessos salvíficos: Segundo uma tradição cristã muito antiga, algumas horas do dia e alguns tempos são sinais dos mistérios de Cristo, e a liturgia das Horas rezada nesses tempos é um certo memorial dos mistérios: A manhã é considerada como sinal «sacramental» da Ressurreição de Cristo e as Laudes como memorial de esse mistério, A tarde é sinal «sacramental» do Sacrifício Eucarístico e da Cruz que são comemorados nas Vésperas. Assim, a santificação do tempo por meio da liturgia das Horas, consiste, em definitiva, em glorificar a Deus Uno e Trino, pondo em relação com Ele todo o nosso tempo, toda a nossa actividade, toda a nossa história pessoal; tornando possível, assim, que a obra salvífica de Cristo embeba totalmente a própria vida pessoal. O Oficio divino cumpre, deste modo, uma função sacerdotal.

 

As considerações teológicas que acabamos de fazer são um contributo eficaz para que o Oficio divino seja concebido e celebrado como uma verdadeira santificação do tempo. Todos os fiéis são chamados a santificar o tempo da sua vida pessoal, mesmo quando não rezam as Horas, como acontece com a maior parte dos cristãos. Estes clérigos e leigos, que não podem nem devem estar permanentemente ocupados na celebração das Horas, nem ter como paradigma da sua santificação a vida de aqueles cujo carisma específico inclui ritmar as horas do dia e da noite com o rezo de uma hora canónica, podem, mesmo assim, ter em conta o memorial dos mistérios de Cristo ao longo do dia. Para eles a santificação do tempo virá pela santificação das actividades que realizam rectamente desempenhadas e o Oficio divino, quando for rezado, para os clérigos como obrigação e para os leigos, mesmo que só em parte, como devoção, alimentará essa continua oferta a Deus das próprias ocupações.

 

Convêm ter em conta contudo, que o Concilio Vaticano II e a Ordenação das Horas estabelecem que o Oficio seja rezado «no tempo mais aproximado ao verdadeiro tempo natural» (SC 94; OGLH, n. 11). Quando se rezam as horas do Oficio em qualquer momento do dia, ou todas seguidas num momento determinado, perde-se muito do seu valor e eficácia para a vida de aqueles que o rezam e é-lhe retirada, também, uma das suas principais características.

 

5) Dimensão eucarística: O Oficio divino é o «cântico de louvor» que prolonga e estende a Eucaristia a todos os momentos da vida dos homens. A santificação que se obtêm com a Missa de modo sintético e global, cumpre-se de forma mais articulada, pormenorizada e continua por meio do Oficio, no tempo histórico, existencial e cósmico. Esta prolongação sacrificial não se alcança unicamente pela reza de um indivíduo ou comunidade, acção sempre descontínua e fragmentária, mas pelo seu carácter eclesial. A Igreja assume a oração dos cristãos singulares e da comunidade para formar com ela o laus perennis.

Também a reza das Horas é a melhor preparação próxima e remota para a Missa diária.

 

«A liturgia das Horas, que é como que um prolongamento da celebração eucarística, não exclui, antes postula como complemento, as diversas devoções do povo de Deus, particularmente a adoração e o culto do Santíssimo Sacramento.» (CEC, n. 1178)

 

6) Dimensão escatológica: Pela plena comunhão existente entre a Igreja peregrina e a celestial, especialmente na esfera litúrgica, existe uma estreita relação entre a liturgia das Horas, como oração da Igreja peregrina, e o cântico de louvor que ecoa incessantemente na Igreja celestial. O Oficio divino é uma acção de Cristo total, da Cabeça e os seus membros na qual existe uma íntima união entre a função sacerdotal de Cristo glorioso junto do Pai e o sacrifício de louvor que a Igreja terrestre oferece por toda a humanidade. De um modo misterioso mas real a Igreja celeste se associa a oração da Igreja peregrina e esta participa da oração que aquela realiza no Céu.

 

«Cantando os louvores de Deus nas Horas canónicas, a Igreja associa-se àquele hino de louvor que por toda a eternidade é cantado na celeste morada (SC, 83). Ao mesmo tempo, antegoza as delícias daquele celestial louvor que João nos descreve no Apocalipse e que ressoa ininterruptamente diante do trono de Deus e do Cordeiro. Realiza-se a nossa estreita união com a Igreja celeste, quando «concelebramos em comum exultação os louvores da Divina Majestade, quando todos os que fomos resgatados no sangue de Cristo, de todas as tribos, línguas, povos e nações (cf. Ap 5,9), congregados numa só Igreja, engrandecemos a Deus, uno e Trino, no mesmo cântico de louvor» (LG, 50; SC, 8 e 104, cf. Jo 4,23). Esta liturgia celeste, já os profetas a anteviram na vitória do dia sem noite, da luz sem trevas (…). Ora, «a última fase dos tempos chegou já para nós (cf. 1 Cor 10,11); a restauração do mundo encontra-se irrevogavelmente realizada e, em certo sentido, antecipada já no tempo presente» (LG, 48). Pela fé, somos instruídos acerca do sentido da própria vida temporal, de tal modo que vivemos, com a criação inteira, na expectativa da manifestação dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 19), Na Liturgia das Horas, proclamamos a nossa fé, exprimimos e fortalecemos a nossa esperança, e tomamos parte já, de certo modo, no gozo do louvor perene, do dia que não conhece ocaso» (OGLH, n. 16).

 

7) Dimensão ministerial:

 

a) A Liturgia das Horas e sacerdócio comum: Por ser a Liturgia das Horas uma acção da Igreja, e a Igreja uma realidade ministerial, a reza do Oficio possui sempre uma dimensão «diaconal». Por isso mesmo quando é rezado por um simples baptizado, é um serviço que realiza a Igreja e do qual ela própria beneficia. A Igreja que reza a Liturgia das Horas, ao mesmo tempo que louva a Deus, edifica-se a si mesma, na sua totalidade e em cada membro, até chegar a alcançar a plenitude de Cristo.

 

b) A Liturgia das Horas e o sacerdócio ministerial: «O Bispo é, de modo eminente, o representante visível de Cristo e o sumo sacerdote do seu rebanho. Dele, em certo sentido, deriva e depende a vida dos seus fiéis em Cristo (SC, 41; LG, 21). Portanto, deve ser ele, entre os membros da sua Igreja, o primeiro na oração. E esta sua oração, quando recita a Liturgia das Horas, é feita sempre em nome da Igreja e a favor da Igreja que lhe está confiada (LG, 26; CD, 15)» (OGLH 28).

 

«Os presbíteros, unidos ao Bispo e a todo o presbitério, fazem também, dum modo especial, as vezes de Cristo sacerdote (PO, 13), e participam da mesma função, orando por todo o povo a eles confiado e pelo mundo inteiro (PO, 5). Por conseguinte, os bispos, os presbíteros e todos os outros ministros sagrados, que receberam da Igreja o mandato (cf. n. 17) de celebrar a Liturgia das Horas, estão obrigados a celebrar diariamente o ciclo completo destas mesmas Horas, guardando, quanto possível, a sua correspondência com a respectiva hora do dia» (OGLH, n. 29).

 

É de salientar que a relação entre o sacerdócio ministerial e a Liturgia das Horas é de carácter teológico, e não só uma obrigação jurídica. Os ordenados representam a Cristo-Cabeça nas acções litúrgicas, especialmente na Celebração Eucarística e na sua prolongação mais qualificada ao longo do dia que é o Oficio divino. A vinculação do presbitério com a Eucaristia é a fonte da qual nasce a sua obrigação de rezar as Horas. Alem disso é de ter em conta que é da oração, e em especial do Oficio divino, que jorra a eficácia sobrenatural de todas as actividades pastorais.

 

Os pastores têm também uma tarefa específica na liturgia das Horas, pois a eles compete convocar a comunidade, presidir a sua oração e educar aos fieis na mesma. Procuraram assim assegurar que o louvor e acção de graças que o Verbo encarnado introduziu no mundo, e actualiza de modo eminente na Eucaristia, se prolongue incessantemente na Igreja (cfr. OGLH, n. 28).

 

Também devem cuidar «os pastores de almas de que, nos domingos e festas mais solenes. se celebrem em comum na Igreja as Horas principais, sobretudo as Vésperas. Recomenda-se também aos próprios leigos que recitem o Ofício divino, quer juntamente com os sacerdotes, quer reunidos entre si, ou mesmo sozinhos» (SC, 100)» (CEC, n. 1175).

 

A lembrança dos textos acima citados e as ideias tomadas do Magistério e de outros autores, preferentemente do manual de J. A. Abad Ibañez, será, com certeza, um bom contributo para melhorar a dimensão sacerdotal da reza do Oficio divino e a sua eficácia santificadora.

 

 

Abreviaturas.

 

1. OGLH – Ordenação Geral da Liturgia das Horas

2. SC - Conc. Vat. II. Const. Sacrosanctum Concilium,

3. LG - Conc. Vat. II. Const. Lumen Gentium

4. PO - Conc. Vat. II Decr. Presbyterorum Ordinis

5. CD - Conc. Vat. II Decr. Christus Dominus

6. CEC - Catecismo da Igreja Católica

 

 

[1] No presente artigo iremos fundamentalmente traduzir, resumir e adaptar o capítulo «Teologia e espiritualidade da Liturgia das Horas» do livro de José António Abad Ibañez La celebración del Misterio Cristiano, EUNSA, Pamplona, 1996.


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