Natal
de Nosso Senhor Jesus Cristo
Missa
da Meia-noite
25 de Dezembro de 2004
RITOS INICIAIS
Cântico de entrada: Exultemos de alegria, M. Luis, Cânticos de Entrada e Comunhão I, pág. 44
Salmo 2, 7
Antífona de entrada: O Senhor disse-me: Tu és meu filho, Eu hoje te
gerei.
Ou
Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na
terra o nosso Salvador. Hoje desceu do Céu sobre nós a verdadeira paz.
Diz-se o
Glória.
Introdução ao espírito da Celebração
Que alegria podermos celebrar mais este Natal do
Senhor! E podermos celebrá-lo ao vivo com Jesus aqui no meio de nós.
Oração colecta: Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer esta
santíssima noite com o nascimento de Cristo, verdadeira luz do mundo,
concedei-nos que, tendo conhecido na terra o mistério desta luz, possamos gozar
no Céu o esplendor da sua glória. Por Nosso Senhor...
Liturgia da Palavra
Primeira Leitura
Monição: Oito séculos antes
do nascimento do Salvador, o profeta Isaías traça o seu retrato e descreve a
sua acção libertadora. O Menino que hoje nasce é da descendência de David mas é
também o Filho de Deus que vem trazer a paz ao mundo.
Isaías 9,
1-6
2«O povo
que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas
sombras da morte uma luz começou a brilhar. 3Multiplicastes a sua
alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os
que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 4Vós
quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que
ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 5Todo o calçado
ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e
tornar-se-ão pasto das chamas. 6Porque um menino nasceu para nós, um
filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro
admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». 7O seu poder
será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino,
para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para
sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.
O enquadramento histórico deste belíssimo texto parece ser o seguinte: depois de falar da ameaça assíria (Is 8, 1-22) com a devastação no reino do Norte (certamente a provocada por Teglatpalasar III), o Profeta alude poeticamente à reconquista dessa zona, que viria a dar-se, embora por pouco tempo, com o futuro rei Ezequias, cujo nascimento abre novos horizontes de esperança. Parece que este menino, exaltado com prerrogativas messiânicas, é o mesmo cujo nascimento fora anunciado em Is 7, 14, pois estamos no mesmo contexto do chamado «Livro do Emanuel» (Is 7 – 12). Mas esta esperança adquire uma tonalidade messiânica e projecta-se para tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas imediatas e de fracos resultados (em breve, em 721, Salmanassar V acabará definitivamente com o reino do Norte). A efémera reconquista da Galileia por Ezequias é vista em Mt 4, 12-17 como o anúncio da salvação definitiva trazida por Jesus. O nosso texto fala em termos da utopia messiânica de paz e alegria e com uma linguagem que aponta para o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Com efeito, «o menino que nasceu» é dom de Deus (v. 5) e surge dotado de 4 qualidades que são a soma dos dotes das grandes figuras de Israel: a sabedoria de Salomão («Conselheiro admirável», cf. 1 Re 3, 5-28), a força divina de David («Deus forte», cf. 1 Sam 17), a capacidade de governo do pai e fundador do Povo, Moisés («Pai eterno», cf. Dt 34, 10-12), e o génio pacificador dos Patriarcas («Príncipe da paz», cf. Gn 14; 26, 26-33; 33). Estes títulos eram dados entre ao monarca, mas no seu conjunto exprimem algo superior aos dotes duma simples criatura, por isso a Igreja viu que eles só a Jesus se podem aplicar plenamente. O texto enquadra-se às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8, 12; 1, 5.9).
4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande vitória de Gedeão sobre os madianitas (Jz 7).
Salmo Responsorial Salmo 95 (96), 1-2a.2b-3.11-12.13 (R. Lc
2, 11)
Monição: Alegremo-nos e
exultemos porque hoje nasceu o Salvador do mundo.
Refrão: Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo,
Senhor.
Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira,
cantai ao Senhor, bendizei o seu nome.
Anunciai dia a dia a sua salvação,
publicai entre as nações a sua glória,
em todos os povos as suas maravilhas.
Alegrem-se os céus, exulte a terra,
ressoe o mar e tudo o que ele contém,
exultem os campos e quanto neles existe,
alegrem-se as árvores das florestas.
Diante do Senhor que vem,
que vem para julgar a terra:
julgará o mundo com justiça
e os povos com fidelidade.
Segunda Leitura
Monição: Paulo lembra-nos que para podermos
beneficiar da salvação, é necessário acolher o Salvador, esforçando-nos por
viver de harmonia com as exigências da vida nova que Ele nos traz.
Tito 2,
11-14
Caríssimo: 11Manifestou-se a graça de
Deus, fonte de salvação para todos os homens, 12ensinando-nos a
renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente,
com temperança, justiça e piedade, 13aguardando a ditosa esperança e
a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, 14Jesus
Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e
preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras.
1 A graça do Baptismo mete-nos no caminho da «renúncia» (recordem-se as renúncias do ritual do Baptismo), pois sem renúncia não se pode seguir a Cristo (Lc 9, 23).
13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N. T. Como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo.
14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A Igreja é o novo povo de Deus.
Aclamação ao Evangelho Lc 2, 10-11
Monição:
Com o nascimento do Menino-Salvador irrompem sobre a terra a glória e a paz de
Deus. Fica proclamado para todo o sempre que os homens são por Deus amados.
Aleluia
Anuncio-vos uma grande alegria:
Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor.
Cântico: Az. Oliveira, NRMS 36
Evangelho
São Lucas
2, 1-14
1Naqueles
dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. 2Este
primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. 3Todos
se foram recensear, cada um à sua cidade. 4José subiu também da
Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por
ser da casa e da descendência de David, 5a fim de se recensear com
Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. 6Enquanto ali se
encontravam, chegou o dia de ela dar à luz 7e teve o seu Filho
primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia
lugar para eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores
que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do
Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram
grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio
uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de
David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de
sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa
manjedoura». 13Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do
exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas
alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».
1-3 Um «recenseamento» foi a circunstancia providencial para que Jesus viesse a nascer em Belém. A história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu. Papiros descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de uns 150 Km). «Quirino». Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se pôde ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.; numa segunda missão (como legado do imperador) nos anos 6-7 d. C., o recenseamento está claramente documentado. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana. «César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a. C. a 14 d. C. «Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio.
6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer.
7 «Filho primogénito». Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Por isso, não parece acertada a tradução por «primeiro filho», pois não traduz a ideia e pode fazer pensar ao leitor que Maria teve mais filhos. Também perece que «primogénito» era uma designação corrente para o primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogénito. O termo «Manjedoira», em grego, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, nascido aqui perto), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos. «Hospedaria» traduz a palavra grega, katályma, oferecendo alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (o mesmo termo de Lc 22, 11; Mc 14, 14), isto é, o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para apresentar o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia outro sítio na Terra.
8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de Dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.
14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» – e advém para os homens a síntese de todos os bens – «a paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação tradicional), ou «os homens que são objecto de boa vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus..., paz na terra, benevolência divina entre os homens».
Sugestões para a homilia
«Nasceu-vos, hoje, um Salvador!»
Um Deus presente no tempo e no espaço
«Nasceu-vos, hoje, um Salvador!»
Celebramos hoje o nascimento do nosso Redentor. Deus
faz-se hoje homem: vem hoje a nós, em forma humana. É isto o Natal – a
Encarnação de Deus: Deus entra hoje na nossa história, se hoje escutarmos a sua
Palavra, como entrou há dois mil anos na história daqueles e daquelas que, nessa
altura, escutaram a sua voz. Se é certo que, historicamente, Jesus Cristo
entrou em Israel e no Mundo, há dois mil anos, na prática só entra na história
da nossa vida, quando o acolhemos na fé. A fé só se entende encarnada: vivida
no tempo e no espaço. É o que faz a liturgia, que celebra hoje o que aconteceu
outrora; é o que faz com a morte e a ressurreição de Cristo, na Eucaristia:
«Isto é – hoje – o meu corpo entregue por vós; este é – hoje – o cálice do meu
sangue derramado por vós»; é o que faz com o Natal: «Nasceu-vos, hoje, na
cidade de David (Belém) um Salvador, que é o Messias, Senhor». Se assim não
for, a liturgia será mera ‘lembrança’ intelectual, em vez de ser ‘memorial’ –
celebração vivida – do que aconteceu.
Se hoje, descessem Anjos à nossa assembleia,
dir-nos-iam o mesmo que disseram, há 2000 anos, aos Pastores de Belém:
«Anuncio-vos uma grande alegria: nasceu-vos, hoje, um Salvador»: o mesmo
Salvador que os Pastores encontraram, no hoje deles, em Belém é o mesmo que
todos os homens e mulheres, que a Ele se foram convertendo, encontraram, no
hoje deles, nas terras deles, ao longo dos 2000 anos de Cristianismo.
«Nasceu-vos, hoje, um Salvador!» Hoje, para nós... E,
se não nasce para nós, hoje, de que nos serve que nasça ou tenha nascido há
2000 anos, para outros? E, se não nasce para nós, aqui – na nossa comunidade –
de que nos serve que nasça ou tenha nascido, noutro lugar, para outros?
Um Deus presente no tempo e no espaço
Habituámo-nos a olhar para Deus, fora do tempo e fora
do espaço. Quando muito, procuramo-lo em determinados momentos ou dias de
festa, numa Missa; ou em determinado lugar, quando vamos a uma igreja ou a um
santuário. E Ele procura-nos e espera-nos em todo o tempo e em todo o lugar e
sempre dentro de nós e nunca fora: de dia e de noite, como aconteceu aos
Pastores, que «viviam nos campos, onde guardavam o rebanho, de noite».
Desde que Deus se fez Homem, desde que Ele entrou no
tempo e no Mundo, não O podemos procurar fora do tempo e do espaço. Por isso Se
manifesta Ele em ‘sinais’, que podem ser vistos, em ‘palavras’, que podem ser
ouvidas e em acontecimentos, que podem ser admirados ou guardados no coração:
«e os Pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham
visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado»; «Isto vos servirá de sinal:
achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoira»...
Desde que Ele Se fez Homem, é nos homens que O
devemos procurar, porque só neles e através deles O podemos encontrar: a
esposa, no marido; o marido, na esposa; os pais, nos filhos; os filhos nos
pais; e todos, nos mais pobres e mais fracos: nas crianças, nos doentes, nos
idosos, nos deficientes.
O nascimento deste Menino não pode deixar o mundo
como está: transforma as pessoas pela Sua Palavra – «se hoje ouvirdes a voz do
Senhor, não fecheis os vossos corações» – para que elas o transformem com a sua
acção. Era o que o Profeta Isaías dizia e nós ouvimos na 1.ª leitura: «Pois o
jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha aos ombros e o bastão do
seu opressor foram quebrados por Vós, como no dia de Madiã. E todo o calçado
ruidoso da guerra, toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo,
tornar-se-ão pasto das chamas...»
E porquê? «É que um Menino nasceu para nós!...» Um
Menino a quem Ele dá os nomes de «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai
eterno, Príncipe da Paz». Uma paz que, como o Menino há-de dizer, o mundo não
pode dar... Paz que é vida em abundância, porque plenitude da Graça e do Bem,
que só Deus pode oferecer, porque só Ele é bom: «Manifestou-se a Graça de Deus,
que traz a Salvação para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à
impiedade e aos desejos mundanos e a viver com ponderação, justiça e piedade,
no mundo presente...» (Tito 2,
11-12). Quem é tocado por esta Graça, não pode ficar como dantes, nem pode
deixar o mundo como está.
Se o Natal é isto, porque é que nós o celebramos,
como se fora o contrário de tudo isto? Onde está o encanto e a alegria, que
irradiam dos textos da Liturgia?
Por isso, hoje é noite para nos deixarmos inundar
desta alegria de nos sentirmos filhos amados de um Deus que se fez igual a nós
para, connosco, fazer história e nos tornar herdeiros de uma eterna, abundante,
plena e feliz.
Fala o Santo Padre
«Não temais, hoje vos nasceu na cidade de David um
Salvador, que é o Cristo Senhor.»
1. «Puer est natus
nobis, Filius datus est nobis»
(Is 9, 5). Nas palavras do
profeta Isaías, proclamadas na primeira Leitura, encerra-se a verdade do Natal,
que revivemos juntos nesta noite.
Nasce um Menino. Aparentemente, um dos tantos meninos
do mundo. Nasce um Menino numa estalagem de Belém. Nasce, portanto, numa
condição de extrema incomodidade: pobre entre os pobres. Mas Aquele que nasce é
«o Filho» por excelência: Filius datus est nobis. Este Menino é o Filho
de Deus, co-substancial ao Pai. Anunciado pelos profetas, fez-se homem por obra
do Espírito Santo no seio de uma Virgem, Maria.
Quando, dentro de pouco, no Credo cantaremos
«...et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est», todos nos ajoelharemos.
Meditaremos em silêncio o mistério que se realiza: «Et homo factus est!».
O Filho de Deus vem a estar entre nós e nós o acolhemos de joelhos.
2. «O Verbo se fez carne» (Jo 1,14).
Nesta noite extraordinária o Verbo eterno, o «Príncipe da paz» (Is 9,
5), nasce na fria e miserável gruta de Belém. «Não temais, diz o anjo
aos pastores, hoje vos nasceu na cidade de David um Salvador, que é o Cristo
Senhor» (Lc 2, 11). Nós também, como os anónimos e ditosos pastores,
nos apressamos por encontrar Aquele que mudou o curso da história.
Na mais ínfima pobreza do presépio contemplamos «um
recém-nascido envolto em faixas e pôsto numa manjedoura» (Lc 2, 12).
Na criatura frágil e inerme, que chora entre os braços de Maria, «manifestou-se
a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens» (Tit 2,
11). Em silêncio nos detemos, e adoramos!
3. Ó Menino, que quiseste ter por berço uma
manjedoura; ó Criador do universo, que Te despojaste da glória divina; ó nosso
Redentor, que ofereceste teu corpo inerme como sacrifício para a salvação da
humanidade! O resplendor do teu nascimento ilumine a noite do mundo. O poder da
tua mensagem de amor, destrua as orgulhosas insídias do maligno. O dom da tua
vida nos faça compreender sempre mais quanto vale a vida de cada ser humano.
Ainda escorre demasiado sangue sobre a terra! Ainda conturbam a serena
convivência das nações as excessivas violências e conflitos!
Vens trazer-nos a paz. És a nossa paz! Só Tu podes
fazer de nós «um povo puro» que Te pertença para sempre, um povo «zeloso
na prática do bem» (Tit 2, 14).
4. Puer est natus
nobis, Filius datus est nobis! Que
mistério insondável esconde a humildade deste Menino! É quase como se
quiséssemos tocá-lo e abraçá-lo. Maria, que cuidas o teu Filho omnipotente,
dai-nos os teus olhos a fim de contemplá-lo com fé; dai-nos o teu coração para
adorá-lo com amor. Na sua simplicidade, o Menino de Belém nos ensina a
redescobrir o verdadeiro sentido da nossa existência; nos ensina a «viver
neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade» (Tit 2, 12).
5. Ó Noite Santa, tão esperada, que uniste para
sempre Deus e o homem! Tu nos renovas a esperança. Tu nos enches de assombro
extasiante. Tu nos garantes o triunfo do amor sobre o ódio, da vida sobre a
morte. Por isso, permanecemos recolhidos e rezamos.
No silêncio luminoso do teu Natal Tu, Emanuel,
continuas a falar-nos. E nós estamos prontos a escutar-te. Amen!
João Paulo II, Missa de Natal
da Meia Noite, 24 de Dezembro de 2003
Oração Universal
Irmãos e irmãs,
a nossa
alegria de sermos amados por Deus
se transforme
agora em oração.
Digamos
alegremente.
R. Pela vossa infinita bondade., ouvi-nos
Senhor.
1. Por todos os homens e mulheres,
para que, como os pastores, reconheçam
naquela Criança,
em tudo semelhante às nossas crianças,
a face visível do Deus invisível, o
Salvador esperado,
oremos ao Senhor.
2. Pela Igreja, para que, como Maria,
dê ao mundo Jesus Cristo e somente
Ele,
e escolha para revelá-l’O os sinais
que Ele escolheu:
a pobreza, a mansidão, a humildade,
oremos ao Senhor.
3. Pelos pobres, os marginalizados, os
rejeitados,
para que descubramos neles a face de
Cristo
e abramos o nosso coração e as nossas
casas para acolhê-los,
oremos ao Senhor.
4. Pela paz no mundo, especialmente no Oriente
Médio,
para que nos lembremos sempre de que a
paz é, ao mesmo tempo,
fruto da boa vontade do homem e dom de
Deus,
oremos ao Senhor.
5. Por todos nós, aqui presentes,
para que façamos do Natal uma
autêntica festa cristã
e não uma mera ocasião de presentes ou
despesas supérfluas,
oremos ao Senhor.
(outras
intenções)
Senhor, a
entrada de Cristo, vosso Filho no mundo, como homem,
é um
acontecimento decisivo para nossa vida e para a história do mundo;
ajudai-nos a
tomar consciência disso
e a
respondermos com fé.
Por Cristo Jesus, Nosso Senhor.
Liturgia Eucarística
Cântico do ofertório: Noite feliz, Melodia Popular, CT 288
Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, a nossa oblação nesta Santa noite
de Natal e fazei que, pela admirável permuta destes dons, participemos na
divindade do vosso Filho que a Vós uniu a nossa natureza humana, Ele que é Deus
convosco na unidade do Espírito Santo.
Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459
No Cânone
Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Também
nas Orações Eucarísticas II e III se faz a comemoração própria.
Santo: Santo III, H. Faria, NRMS 103-104
Monição da Comunhão
Jesus é o fruto bendito de Maria, fruto que Ela
ofereceu, desde o princípio, para a causa de Deus. Sejamos generosos como Ela,
e vivamos com Jesus a comunhão que contemplamos em Maria.
Cântico da Comunhão: A vida que estava junto do Pai, A. Cartageno, NRMS 56
Jo 1, 14
Antífona da comunhão: O Verbo fez-Se carne e nós vimos a sua glória.
Cântico de acção de graças: Meia-noite dada, M. Simões, NRMS 15
Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, que nos dais a alegria de
celebrar o nascimento do nosso Redentor, dai-nos também a graça de viver uma
vida santa, a fim de podermos um dia participar da sua glória. Por Nosso
Senhor...
Ritos Finais
Monição final
«Natal é a festa com a qual se celebra não um
acontecimento passado que ocorreu uma vez e acabou, mas algo presente que é ao
mesmo tempo começo de um futuro eterno que vem se aproximando. É a festa do
nascimento da eterna juventude. Nasceu-nos um menino, mas não é o menino que
começa a morrer no momento em que começa a viver. É o menino que traz consigo
definitiva e triunfalmente a eterna juventude» (Karl Rahner).
Cântico final: Chegou a hora mais alta, M. Faria, NRMS 44
Celebração e Homilia: Nuno Westwood
Nota
Exegética: Geraldo Morujão
Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha