TEMAS LITÚRGICOS

O ITINERÁRIO DA ALMA NA LITURGIA

 

 

Mons. Guido Marini

Roma

 

 

 

«A liturgia, itinerário da alma rumo a Deus»: foi o tema de uma reflexão que o Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, Mons. Guido Marini, apresentou em Roma em 25-XI-2011, por ocasião do 43.º Congresso Internacional da Associação «Sanctus Benedictus Patronus Europae».

Transcrevemos a seguir os amplos excertos publicados pelo «L’Osservatore Romano», ed. port., de 17-XII-2011.

 

 

A alma humana – isto é, o homem – é chamada a cumprir o itinerário rumo a Deus, a realizar portanto a própria santificação. Esta é a obra-prima e decisiva da sua vida, o seu dever primário (cf. Pio XII, Carta encíclica Mediator Dei, 11). Mas esta tarefa realiza-se a partir da acção sagrada por excelência, que é a liturgia: sagrada, porque é acção de Cristo e do seu corpo que é a Igreja; sagrada, porque é exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo; sagrada, porque foi tornada tal pelo poder amoroso do Espírito Santo.

A liturgia «é essencialmente actio Dei que nos une a Cristo por meio do Espírito» (Bento XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis, 37). Como recordava o então cardeal Ratzinger em Fontgombault, em 2001, «Deus actua na liturgia através de Cristo e nós só podemos actuar através d'Ele e com Ele» (Opera omnia, Teologia della liturgia, p. 747).

Portanto, a liturgia possui uma sacralidade ou santidade objectiva da qual cada um deve haurir para poder prosseguir no caminho da própria santidade, da santidade pessoal e subjectiva. Neste vínculo com o «sagrado» e, por conseguinte, com uma realidade objectiva da graça que nos precede, encontramos a especificidade do itinerário da alma rumo a Deus a partir da liturgia.

A Sagrada Escritura

O próprio Cristo «está presente na sua palavra, dado que é Ele quem fala quando se lê a Sagrada Escritura na Igreja» (Sacrosanctum Concilium, 7). Temos de partir deste ponto para ilustrar a importância da Palavra de Deus, escutada na liturgia, no itinerário da alma rumo a Deus.

Certamente existem outros lugares e momentos para a escuta pessoal e frutuosa das Sagradas Escrituras. Todavia, como sabemos, a Palavra do Senhor, escutada no contexto da celebração litúrgica, é acompanhada de modo muito particular pela acção do Espírito Santo, que a torna operante no coração dos fiéis. A Escritura, proclamada pela Igreja no culto litúrgico, é a Palavra viva e actual de Deus, de tal modo que se torna possível uma relação pessoal entre Deus e o homem na sucessão do tempo.

Além disso, o acto litúrgico tem a capacidade de subtrair a página da Escritura ao gosto subjectivo e transitório, dando à alma humana aquela voz de Deus para ser acolhida no presente, na própria vida. Desta maneira, a primazia não é dada à disposição interior individual, mas àquilo que no hoje do acto litúrgico o Senhor deseja dizer ao seu povo, educando-o para a vida evangélica.

Para que tal graça possa ser acolhida, necessitamos da acção íntima do Espírito Santo que torna a Palavra de Deus operante no nosso coração (cf. Bento XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, 52). Também por isso, a Instrução Geral do Missal Romano recorda-nos que «a Liturgia da Palavra deve ser celebrada de modo que favoreça a meditação; portanto, devem-se evitar absolutamente todas as formas de precipitação que impeçam o recolhimento. Nela são também oportunos breves momentos de silêncio, adaptados à assembleia reunida, por meio dos quais, com a ajuda do Espírito Santo, a palavra de Deus seja acolhida no coração e se prepare a resposta com a oração» (n. 56).

Enfim, convém acrescentar também que, na celebração litúrgica, não é o homem a prender a si o Senhor, mas é o Senhor a conduzir o homem à sua intimidade. A Igreja, como sujeito vivo, na sua liturgia escuta e interpreta a Palavra que Deus lhe dirige. E cada um é chamado a entrar nesta escuta e nesta interpretação, renunciando a uma manipulação que conduziria, não à escuta de Deus, mas de si próprio.

Em Fontgombault, na já citada intervenção de 2001, o Cardeal Ratzinger recordava que «as configurações litúrgicas podem, de acordo com o lugar e o tempo, ser múltiplas, como são múltiplos os ritos. O essencial é o vínculo com a Igreja que, por sua vez, mediante a fé, está unida ao Senhor. A obediência da fé garante a unidade da liturgia para além dos confins de lugares e tempos, e torna sensível a unidade da Igreja, Igreja como pátria do coração» (Opera omnia, Teologia della liturgia, p. 749).

O sacrifício eucarístico

Cristo «está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – "Ele, que se ofereceu uma vez na Cruz, oferece-se agora a si próprio pelo ministério dos sacerdotes" –, quer sobretudo sob as espécies eucarísticas» (Sacrosanctum Concilium, 7). Esta presença do Senhor – na sua oferta sacrificial e, especialmente, sob as espécies eucarísticas – conduz-nos ao coração do influxo da graça que a sacralidade litúrgica tem sobre o itinerário da alma rumo a Deus.

Coloquemo-nos, por um instante, à escuta de São Paulo: «Por isso, vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Seja este o vosso culto espiritual» (Rom 12, 1). «Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gal 2, 20).

Para o Apóstolo, toda a vida do cristão é um sacrifício, que não tem apenas uma referência necessária e contínua ao mistério de Cristo, mas é a sua própria presença. O cristão não é um simples imitador de Jesus, como se fosse chamado a reproduzir externamente um modelo de vida, mas é partícipe do mesmo mistério, que se torna presente no acto litúrgico da oferta sacrificial. Em virtude da obra do Espírito Santo, torna-se real a contemporaneidade entre o mistério da salvação e o tempo do homem.

Por isso, a alma cristã é chamada a tornar-se um sacrifício vivo, uma liturgia vivente. Nela deverá reviver o acto supremo com o qual Cristo se entrega a si mesmo ao Pai para a salvação do mundo. «A santidade do homem exige a presença deste Acto, e a presença do Acto é o Sacrifício: não já só de Cristo, mas de toda a Igreja. Toda a santidade da Igreja, toda a sua vida é a Eucaristia, na qual o Acto de Cristo se torna presente no próprio acto do sacerdote ministro da Igreja; torna-se presente na e para a comunidade de todos os fiéis, que não assistem passivamente, mas participam de maneira activa no Sacrifício como Acto que funda e consuma toda a sua experiência cristã» (Divo Barsotti, Il mistero delta Chiesa nella liturgia, p. 172).

 

Se agora aprofundarmos um pouco mais no acto sacrificial do Senhor, descobriremos nele três aspectos diversos.

Antes de tudo, o sacrifício de Cristo é um sacrifício de adoração. No dom radical da própria vida, o Senhor pronuncia o seu Sim ao desígnio do Pai e à sua vontade. N'Ele, a vida do homem já não é dissonante em relação ao projecto de Deus. Foi restabelecida a adesão plena e definitiva entre o Criador e a sua criatura. A morte e a ressurreição do Senhor são o selo de uma humanidade renovada, porque foi salva do drama da separação de Deus, no tempo e na eternidade.

Em segundo lugar, o sacrifício de Cristo é de expiação. De facto, na sua imolação sangrenta, o sacrifício do Senhor é também expiação pelos pecados do mundo. O dom sacrificial da cruz supõe o pecado e vence-o de uma vez para sempre e com vantagem para todos.

Na participação litúrgica no sacrifício de Cristo, a alma cristã recebe como dom a capacidade de alteridade radical em relação ao mal sob todas as suas formas.

Além disso, o sacrifício de Cristo é um sacrifício de louvor e de acção de graças. Com efeito, em Cristo sacrificado na cruz, toda a humanidade eleva o seu hino de louvor e de acção graças ao Pai pela salvação doada. Na natureza humana que o Senhor traz em si, está presente também a criação inteira que volta a orientar-se para o seu Criador. Resumindo, naquele acto sacrificial que se renova na liturgia da Igreja, todo o cosmos dirige-se finalmente para Deus, no canto de louvor e de acção de graças.

O elogio do otium

O apelo à dimensão do sagrado, inato na liturgia, para ilustrar o itinerário da alma rumo a Deus, quer privilegiar a dimensão objectiva da vida espiritual em relação ao percurso subjectivo. Noutros termos, isto significa também afirmar a primazia do caminho do acolhimento do dom em relação ao da procura confusa e desordenada. No fundo, trata-se do específico da fé cristã aplicado ao itinerário espiritual do homem.

Num discurso aos Bispos, o Santo Padre Bento XVI referiu-se ao obscurecimento do significado cristão do mistério, mostrando assim o possível perigo deste modo: «… como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas, em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor. Ora, a atitude principal e fundamental do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber» (Discurso aos Bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Norte 2, em visita ad limina Apostolorum, 15 de Abril de 2010).

Portanto, é extremamente importante zelar pela dimensão contemplativa da liturgia, aquela forma particular de otium que é o espaço espiritual da abertura e da participação no Mistério celebrado. Também este zelo é um serviço precioso à alma cristã e ao seu itinerário rumo a Deus.

A alma cristã tem diante de si um duplo caminho: o do otium e o da acédia, entendida como falta de harmonia com o próprio ser e, em última análise, com Deus. A acção sagrada da Igreja, que é a liturgia, propõe-se à alma cristã como escola elevada de otium, ou seja, daquela contemplação activa que abre à participação da salvação doada por Deus. Deste otium quisemos fazer aqui o elogio. Porque é exactamente em virtude deste otium que a alma cristã pode realizar felizmente o próprio itinerário rumo a Deus.

 

 

 

 

 


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