A PALAVRA DO PAPA
PARA UMA PASTORAL DO
SOFRIMENTO TERMINAL*
Senhor Cardeal
Venerados Irmãos no Episcopado
Caríssimos Irmãos e Irmãs!
1. Sinto-me feliz por vos
receber por ocasião da Conferência Internacional do Conselho Pontifício para a
Pastoral da Saúde, cujos trabalhos estão a decorrer. Com esta vossa visita
quisestes reafirmar o vosso empenho científico e humano a favor de quantos se
encontram numa situação de sofrimento.
Agradeço ao Senhor Cardeal
Javier Lozano Barragán as gentis expressões que, em nome de todos, acabou de me
dirigir. O meu pensamento agradecido e o meu apreço dirigem-se para quantos
deram o seu contributo para esta assembleia, assim como para tantos médicos e
quantos trabalham no campo da saúde que, no mundo, dedicam as próprias
capacidades científicas, humanas e espirituais ao alívio da dor e das suas
consequências.
Capacidade de sofrer e
capacidade de ajudar quem sofre
2. A medicina coloca-se
sempre ao serviço da vida. Mesmo quando sabe que não pode debelar uma grave
patologia, dedica as próprias capacidades a aliviar os sofrimentos. Trabalhar
com paixão para ajudar o doente em qualquer situação significa ter consciência
da dignidade inalienável de todo o ser humano, também nas condições extremas do
estado terminal. Nesta dedicação ao serviço de quem sofre, o cristão reconhece
uma dimensão fundamental da própria vocação: de facto, no cumprimento desta
tarefa ele sabe que está a cuidar do próprio Cristo (cf. Mt 25, 35-40).
«É por Cristo e em Cristo que
se esclarece o enigma da dor e da morte, o qual, à margem do Evangelho, nos
esmaga», recorda o Concílio (Gaudium et spes, 22). Quem se abre, na fé, a esta
luz, encontra conforto no próprio sofrimento e adquire a capacidade de aliviar
o sofrimento do próximo. Existe, de facto, uma relação directamente
proporcional entre a capacidade de sofrer e a capacidade de ajudar quem sofre.
A experiência quotidiana ensina que as pessoas mais sensíveis ao sofrimento do
próximo e que mais se dedicam ao alívio das dores do outros estão também mais
dispostas a aceitar, com a ajuda de Deus, os próprios sofrimentos.
O drama da eutanásia
3. O amor para com o próximo,
que Jesus retratou com eficiência na parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29 ss.), torna capaz de reconhecer
a dignidade de cada pessoa, mesmo quando a doença veio pesar sobre a sua
existência. O sofrimento, a idade avançada, o estado de inconsciência, a
iminência da morte não diminuem a dignidade intrínseca da pessoa, criada à
imagem de Deus.
Entre os dramas causados por
uma ética que pretende estabelecer quem pode viver e quem deve morrer,
encontra-se o da eutanásia. Mesmo quando motivada por sentimentos de uma
mal-entendida compaixão ou de uma mal compreendida dignidade a preservar, a
eutanásia em vez de resgatar a pessoa do sofrimento provoca a sua supressão.
A compaixão, quando está
privada da vontade de enfrentar o sofrimento e de acompanhar quem sofre, leva à
eliminação da vida para aniquilar a dor, alterando assim o estatuto ético da
ciência médica.
Rejeição do encarniçamento
terapêutico
4. A verdadeira compaixão,
pelo contrário, promove todo o esforço razoável para favorecer a cura do
doente. Ao mesmo tempo, ela ajuda a deter-se quando nenhuma acção se manifesta
útil para essa finalidade.
A rejeição do encarniçamento
terapêutico não é uma rejeição do doente e da sua vida. Com efeito, o objecto
da deliberação sobre a oportunidade de iniciar ou prosseguir uma prática
terapêutica não é o valor da vida do doente, mas o valor da intervenção médica
sobre o doente.
A eventual decisão de não
empreender ou de interromper uma terapia será considerada eticamente correcta
quando ela se manifesta ineficaz ou claramente desproporcionada para a
finalidade de apoio à vida ou de recuperação da saúde. Por conseguinte, a
rejeição do encarniçamento terapêutico é expressão do respeito que em todo o
momento se deve ao doente.
Será precisamente este
sentido de respeito amoroso que ajudará a acompanhar o doente até ao fim,
realizando todas as acções e atenções possíveis para diminuir os seus
sofrimentos e favorecer-lhe na última parte da existência terrena uma vida o
mais serena possível, que predisponha a alma para o encontro com o Pai celeste.
Necessidade dos cuidados
paliativos
5. Sobretudo naquela fase da
doença em que deixa de ser possível praticar terapias terapias proporcionadas e
eficazes, ao mesmo tempo que se torna obrigatório evitar qualquer forma de
obstinação ou encarniçamento terapêutico, apresenta-se a necessidade dos
«cuidados paliativos» que, como afirma a Encíclica Evangelium vitae, são
«destinados a tornar o sofrimento mais suportável na fase final da doença e
assegurar ao mesmo tempo ao doente um adequado acompanhamento» (n. 65).
De facto, os cuidados
paliativos, visam aliviar, sobretudo no doente em fase terminal, uma ampla gama
de sintomas de sofrimento físico, psíquico e mental, exigindo por isso a
intervenção de uma equipe de especialistas com competência médica, psicológica
e religiosa, com um bom entendimento entre si para apoiar o doente na fase
crítica.
Em particular, na Encíclica
Evangelium vitae, foi sintetizada a doutrina tradicional acerca do uso lícito e
por vezes obrigatório dos analgésicos no respeito da liberdade dos doentes, os
quais devem estar em condições, na medida do possível, «de poder satisfazer as
suas obrigações morais e familiares, e devem sobretudo poder-se preparar com
plena consciência para o encontro definitivo com Deus» (n. 65).
Por outro lado, enquanto não
se deve deixar de proporcionar o alívio que os analgésicos dão, aos doentes que
deles têm necessidade, a sua administração deverá ser efectivamente
proporcionada à intensidade e à cura da dor, evitando qualquer forma de
eutanásia que se poderia verificar quando se administram grandes doses de
analgésicos precisamente com a finalidade de provocar a morte.
Para realizar esta articulada
ajuda é necessário encorajar a formação de especialistas dos cuidados
paliativos, em particular estruturas didácticas nas quais possam estar
interessados também psicólogos e agentes da pastoral.
O contributo da fé cristã
6. A ciência e a técnica,
contudo, nunca poderão dar uma resposta satisfatória aos interrogantes
essenciais do coração humano. Só a fé pode responder a estas perguntas. A
Igreja pretende continuar a oferecer o seu contributo específico através do
acompanhamento humano e espiritual dos enfermos, que desejarem abrir-se à
mensagem do amor de Deus, sempre atento às lágrimas de quem se dirige a Ele
(cf. Sl 39, 13). Evidencia-se neste
ponto a importância da pastoral da saúde, na qual desempenham um papel de
especial relevo as capelanias nos hospitais, que tanto contribuem para o bem
espiritual de quantos se encontram nas estruturas de saúde.
Depois, como esquecer o
contributo precioso dos voluntários que com o seu serviço dão vida àquela
fantasia da caridade que infunde esperança também à amarga experiência do
sofrimento? É também por seu intermédio que Jesus pode continuar hoje a passar
entre os homens, para lhes fazer bem e curar (cf. Act 10, 38).
7. Desta forma, a Igreja oferece
o seu contributo a esta missão apaixonante em favor das pessoas que sofrem. Que
o Senhor se digne iluminar todos os que assistem os doentes, encorajando-os a
perseverar nas diferentes funções e nas diversas responsabilidades.
Maria, Mãe de Cristo, acompanhe
todos nos momentos difíceis da dor e da doença, para que o sofrimento humano
possa ser assumido no mistério salvífico da Cruz de Cristo.
Acompanho estes votos com a
minha Bênção.
* Discurso aos participantes no XIX Congresso Internacional do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde (12-XI-04).
Título e subtítulos da Redacção da CL.