TEMAS LITÚRGICOS
O ALTAR DO SENHOR
Cardeal Eusébio Scheidt
Arcebispo do Rio de Janeiro (Brasil)
Dentro do Ano da Eucaristia oferecemos aos
nossos leitores um artigo publicado na «Voz do Pastor» (Novembro de 2004),
tomado do site da Arquidiocese de Rio de Janeiro, sobre o Altar, «lugar central
e visível» em que se torna presente sacramentalmente o sacrifício da cruz
e, ao mesmo tempo, a mesa do Senhor.
Seguidamente
transcrevemos as indicações da Instrução Geral do Missal Romano (3.ª edição),
com a finalidade de recordar o que a Igreja prescreve sobre o altar, que
servirá de óptimo complemento para o artigo e nos ajudará a examinarmos se
estamos a ser fiéis ao espírito que dele se deriva.
* * *
Uma das realidades mais
sagradas dos edifícios das igrejas católicas é o altar. Ele ocupa, normalmente,
o lugar mais digno, central e visível de nossas igrejas. (À Capela do
Santíssimo hoje se reserva um local, também especial, onde reina o maior
silêncio e recolhimento diante da Presença real e sacramental do Cristo
glorioso, na Eucaristia).
Reconhecemos uma igreja
católica, logo ao entrar, pela centralidade do altar. Seria longo historiar
essa presença do altar na Antiga e Nova Aliança. Faz parte da História de
Israel. O altar é erguido em circunstâncias e locais importantes,
constituindo-se em reconhecimento da soberania e do senhorio absoluto do único
Deus verdadeiro. Servia ainda, especialmente no período patriarcal, para selar
compromissos solenes e alianças de duração perene. Eram marcos de juramento de
fidelidade.
No livro sagrado do Génesis a
primeira vez que aparece o altar é no episódio do final do Dilúvio. Noé, com
toda a sua família, salva de toda aquela tragédia, «construiu um altar ao
Senhor para o holocausto», agradecendo a protecção e a salvação de suas vidas.
Aparece no céu o arco-íris da aliança e da confiança em Deus para todo o sempre
(Gn 8, 20; 9, 12-16).
O patriarca Abraão ergue um
altar em «honra do Senhor» em sinal de gratidão pelos benefícios recebidos (Gn 12, 7).
Jacob celebra a chegada feliz
à abençoada terra de Canã com a construção de um altar como sinal de
consagração de toda aquela terra, recebida de Deus como propriedade para o povo
de Israel nascente (Gn 33-20).
Mais tarde Moisés, sob
instrução divina dá normas precisas para a construção dos altares destinados ao
oferecimento de holocaustos e sacrifícios. Tudo isso se constituía em atitudes
de adoração, de culto e reconhecimento. A manifestação religiosa do povo estava
vinculada estreitamente ao altar e aos dons que se ofereciam sobre ele. Podemos
afirmar com segurança, que os sacrifícios, abundantemente oferecidos na Antiga
Aliança, prefiguravam e preparavam o grande sacrifício, oferecido por Cristo no
altar da Cruz como gesto eficaz da salvação de todo o género humano. É ali o
ponto central da história humana, que nos atinge e envolve.
O altar se apresenta hoje
como uma grande mesa, confeccionada com arte: em madeira, mármore ou granito. É
uma evolução do sepulcro dos mártires da igreja primitiva sobre os quais se
oferecia o sacrifício da Missa. A lápide do sepulcro dos mártires relembrava o
altar da Cruz, donde as nossas vitimas da fé e do amor auriam força e
inspiração para o supremo sacrifício de suas vidas. A comunidade cristã se
reunia, com reverência e saudade, na penumbra mística das Catacumbas, para a
luta sangrenta que os aguardava... O próprio livro do Apocalipse nos apresenta
os santos mártires, revestidos com as vestes brancas da vitória, oferecendo ao
Altíssimo o incenso de suas preces e oblações (cf. Ap 6, 9 e 8, 3).
Mas, jamais podemos deixar de
ressaltar a mesa como o local em que a família se reúne para as refeições. É
local do banquete festivo da comunidade primigénia, a família. Hoje toda a
comunidade católica se reúne ao redor da mesa e a partir dela. Sobre essa mesa
nos é oferecido o «pão da vida» e a «bebida que jorra até à vida eterna» como
nos ensinou o Mestre da Galileia antes da sua Paixão (veja todo o Capítulo 6 de
São João).
Os escritos apostólicos nos
falam com profusão desse banquete sagrado. A comunidade permanecia unida e
coesa pela «solidariedade e fracção do pão», sinónimos da Eucaristia. Dois
seguidores de Jesus se chocaram com o mistério da Cruz, desandando para o
abandono de tudo, levados pelo desânimo e decepção. Jesus vai-lhes ao encontro,
caminha com eles, expõe-lhes o sentido velado das Escrituras e dá-se a conhecer
«ao partir da fracção do pão» (Lc 24,
25-31). São Paulo nos descreve a ceia do Senhor («ágape») em seu sentido mais
profundo: a tradição acolhida, as exigências e a própria história da instituição
do sacerdócio e da Eucaristia (1 Co 11,
17-34).
Cristo mesmo se reuniu com os
Apóstolos ao redor da mesa para celebrar a Páscoa da despedida com aqueles que
«não mais considerava como servos, mas como amigos» (Jo 15, 15). Ao redor dessa mesa Jesus dá as últimas e mais
incisivas disposições para seus amigos: «Filhinhos amai-vos uns aos outros como
eu vos amei» (Jo 13, 34).
Hoje, os sacerdotes,
relembrando aquela mesa sagrada, beijam o altar, antes de iniciar a missa, por
reverência e gratidão por tudo o que acontecera ao redor da mesa da «Última
Ceia».
Imaginemo-nos, agora,
entrando em uma igreja católica, olhando para o altar... Vamos, carregados com
todo o peso da nossa existência: angústias, propósitos, alegrias e esperanças.
Muitos irmãos e irmãs nos contemplam com grande amor e desejo de partilha
comum. Levamos o passado, o presente e o nosso futuro. Tudo adquire novo
sentido ao contacto do altar. O que era apenas humano e terreno se transforma
em divino e celeste pela força de Cristo, simbolizado pelo altar. Aliás, vamos
colocar tudo em cima do altar para que o Corpo e Sangue de Cristo possam
transmutar tudo em graça para nós e para o mundo.
O ofertório que fazemos
repete todos os ofertórios já realizados anteriormente. Jesus muda o pão e o
vinho na realidade de sua existência gloriosa nos céus e, agora, aqui, também
connosco. Anseia por fazer-nos semelhantes a Ele, bem parecidos com Ele, ao
ponto de podermos dizer com São Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é o Cristo
que vive em mim» (Gl 2, 20). Mas,
esse altar eucarístico, nos dirige uma forte interpelação: «Que todos sejam
um», aglutinados como grãos de trigo, feitos pão, gotinhas de água que se
misturam ao Sangue purificador de Cristo. Estabelece-se, assim, uma perfeita
união comum que pressupõe e exige a comum+união com o Cristo glorioso.
Como, na Antiga Aliança, o
altar pede de nós um compromisso, um juramento: faremos tudo para que ninguém,
em nossas comunidades, passe fome, como nos alerta São Paulo no capítulo 11 da
primeira carta aos Coríntios: «Enquanto um passa fome, o outro se embebeda...»
(1 Co 11, 21). Tornar-nos-íamos «réus
do corpo e sangue do Senhor» (Ibidem, verso 27). Isso não pode acontecer!
Lançamos um último olhar ao
altar, antes de partir para as responsabilidades do dia-a-dia. Sabemos que a
força do sacrifício de Cristo nos acompanha e fortalece. Caminharemos pelo rumo
que Ele, como caminho, nos assinala; viveremos de sua verdade e vida: com novo
ardor com mais lógica no amor e com maior busca dos ideais evangélicos.
Acompanha-nos a imagem do
altar para termos força e coragem, oferecendo nossas vidas como «hóstias
agradáveis ao Senhor» (1 Pe 2, 5).
DA INSTRUÇÃO GERAL DO
MISSAL ROMANO
II. Disposição do
presbitério para a celebração litúrgica
295. O presbitério é o lugar
onde sobressai o altar, onde se proclama a palavra de Deus e onde o sacerdote,
o diácono e os outros ministros exercem as suas funções. Deve distinguir-se
oportunamente da nave da igreja, ou por uma certa elevação, ou pela sua
estrutura e ornamento especial. Deve ser suficientemente espaçoso para que a
celebração da Eucaristia se desenrole comodamente e possa ser vista [113].
O altar e o seu adorno
296. O altar, em que se torna
presente sob os sinais sacramentais o sacrifício da cruz, é também a mesa do
Senhor, na qual o povo de Deus é chamado a participar quando é convocado para a
Missa; o altar é também o centro da acção de graças celebrada na Eucaristia.
297. A celebração da
Eucaristia em lugar sagrado faz-se sobre o altar; fora do lugar sagrado, também
pode ser celebrada sobre uma mesa adequada, coberta sempre com uma toalha e o
corporal, e com a cruz e os candelabros.
298. É conveniente que em
cada igreja haja um altar fixo, que significa mais clara e permanentemente
Cristo Jesus, Pedra viva (1 Ped 2, 4; cf. Ef 2, 20); nos outros
lugares destinados às celebrações sagradas, o altar pode ser móvel.
Diz-se altar fixo aquele que
é construído sobre o pavimento e de tal modo unido a ele que não se pode
remover. Diz-se altar móvel aquele que se pode deslocar de um sítio para outro.
299. Onde for possível, o
altar principal deve ser construído afastado da parede, de modo a permitir
andar em volta dele e celebrar a Missa de frente para o povo. Pela sua localização,
há-de ser o centro de convergência, para o qual espontaneamente se dirijam as
atenções de toda a assembleia dos fiéis [114]. Normalmente deve ser fixo e
dedicado.
300. O altar fixo ou móvel é
dedicado segundo o rito descrito no Pontifical Romano; o altar móvel, porém,
pode ser simplesmente benzido.
301. Segundo um costume e um
simbolismo tradicional da Igreja, a mesa do altar fixo deve ser de pedra
natural. Contudo, segundo o critério da Conferência Episcopal, é permitida a
utilização de outros materiais, contanto que sejam dignos, sólidos e
artisticamente trabalhados. O suporte ou base em que assenta a mesa pode ser de
material diferente, contanto que seja digno e sólido.
O altar móvel pode ser
construído de qualquer material nobre e sólido, adequado ao uso litúrgico,
segundo as tradições e costumes de cada região.
302. Mantenha-se oportunamente o uso de colocar sob o
altar que vai ser dedicado relíquias de Santos, ainda que não sejam Mártires.
Mas tenha-se o cuidado de verificar a autenticidade dessas relíquias.
303. Na construção de novas
igrejas deve erigir-se um só altar, que significa na assembleia dos fiéis que
há um só Cristo e que a Eucaristia da Igreja é só uma.
Nas igrejas já construídas,
quando nelas existir um altar antigo situado de tal modo que torne difícil a
participação do povo, e que não se possa transferir sem detrimento dos valores
artísticos, construa-se com arte outro altar fixo, devidamente dedicado, e
realizem-se apenas nele as celebrações sagradas. Para não desviar a atenção dos
fiéis do novo altar, não se adorne de modo especial o altar antigo.
304. Pela reverência devida à
celebração do memorial do Senhor e ao banquete em que é distribuído o Corpo e o
Sangue de Cristo, o altar sobre o qual se celebra deve ser coberto ao menos com
uma toalha de cor branca, que, pela sua forma, tamanho e ornato, deve estar em
harmonia com a estrutura do altar.
305. Haja moderação na
ornamentação do altar.
No tempo do Advento
ornamente-se o altar com flores com a moderação que convém à índole deste
tempo, de modo a não antecipar a plena alegria do Natal do Senhor. No tempo da
Quaresma não é permitido adornar o altar com flores. Exceptuam-se, porém, o
domingo Laetare (IV da Quaresma), as solenidades e as festas.
A ornamentação com flores
deve ser sempre sóbria e, em vez de as pôr sobre a mesa do altar, disponham-se
junto dele.
306. Sobre a mesa do altar,
apenas se podem colocar as coisas necessárias para a celebração da Missa, ou
seja, o Evangeliário desde o início da celebração até à proclamação do
Evangelho; e desde a apresentação dos dons até à purificação dos vasos, o
cálice com a patena, a píxide, se for precisa, e ainda o corporal, o sanguinho
e o Missal.
Além disso, devem dispor-se
discretamente os instrumentos porventura necessários para amplificar a voz do
sacerdote.
307. Os castiçais prescritos
para cada acção litúrgica, em sinal de veneração e de celebração festiva (cf.
n. 117), dispõem-se em cima do próprio altar ou em volta dele, como for mais
conveniente, de acordo com a estrutura quer do altar quer do presbitério, de
modo a formar um todo harmónico e a não impedir os fiéis de verem facilmente o
que no altar se realiza ou o que nele se coloca.
308. Sobre o altar ou junto
dele coloca-se também uma cruz, com a imagem de Cristo crucificado, que a
assembleia possa ver bem. Convém que, mesmo fora das acções litúrgicas,
permaneça junto do altar uma tal cruz, para recordar aos fiéis a paixão
salvadora do Senhor.