TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A ORAÇÃO SACERDOTAL DE JESUS *

 

 

Geraldo Morujão

 

 

 

 

O título de “oração sacerdotal” dado ao capítulo 17 de S. João vulgarizou-se a partir do teólogo luterano do século XVI, David Kochhafe, conhecido pelo pseudónimo de Chyträus, mas já S. Cirilo de Alexandria tinha chamado a atenção para o carácter sacerdotal desta oração do Senhor. E sucede que a Exegese moderna tem dado grande relevo ao carácter sacerdotal desta oração. António Garcia-Moreno chama-lhe “o Pórtico da Glória da Paixão de Cristo, porque é sob essa luz da Glória como S. João narra o que se segue” [1].

Estamos em face de um dos textos que melhor revelam a alma e o ser de Jesus Cristo. O biblista italiano Giuseppe Segalla considera-o mesmo como “a síntese mais completa e elevada da teologia do Evangelista, ainda que não apareçam nela alguns temas fundamentais, como o Espírito, os sinais e o juízo, trata-se duma oração densíssima de tensão psicológica e de profundidade teológica” [2].

 

1. Características e particularidades da oração sacerdotal de Jesus

 Como sublinha Van den Bussche, estamos perante uma oração que corresponde bem à transcendência do momento e à situação histórica da Ceia e da despedida.

Mas mais ainda. É uma oração deveras surpreendente. Composta basicamente por uma série de súplicas, Jesus não se revela como um simples pedinte, como alguém carenciado, que, numa atitude de indigência, se dirige a quem possui mais bens e mais poder. Jesus revela uma autossuficiência imprópria dum pedinte. A oração tem mais o carácter dum desabafo amoroso do que duma prece. A oração sacerdotal não tem a forma normal de um simples homem se dirigir a Deus; com efeito, que criatura jamais poderia suplicar a Deus com palavras como estas: “Todas as minhas coisas são tuas e todas as tuas coisas são minhas”? (v. 10). Assim, nesta oração nota-se um acento de soberana majestade: “Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti” (v. 21). É uma oração própria de quem possui a “plenitude da alegria” (v. 13) e de quem é Um com o Pai, a ponto de Jesus aparecer como sendo a última referência de toda a unidade (vv. 11.21-23).

Por outro lado, a atitude externa de Jesus não é a de se prostrar, num gesto de inferioridade e adoração [3]; é antes a de erguer os olhos ao Céu [4], denunciando assim uma comunhão interior com o Pai de tal ordem, que essa imagem tão impressionante foi guardada, como gesto inesquecível de Jesus, na tradição, aliás tratava-se dum gesto mal documentado no judaísmo. 

Como bem observa Ignace de la Potterie, a oração de Jesus não tem paralelo com a oração de qualquer criatura. “Todo o tom da longa oração sacerdotal é tão simples e confiado como grandioso e majestático; assim, a redação põe em realce a consciência que Jesus tem da grandeza e dignidade do Pai, bem como da sua própria grandeza e dignidade, num nível de igual para igual. Evidencia a consciência bem clara de que Ele é o Filho sem par – ho Yiós (v. 1) – como nenhum homem ou qualquer criatura o é. Por isso se dirige ao Pai como jamais algum homem se dirigiu, não só falando-Lhe de igual para igual, como acabámos de ver, mas chamando-O carinhosamente com um apelativo tão ousado como contrário à cultura em que se movia: Páter. Este tratamento, seis vezes repetido ao longo da oração sacerdotal (vv. 1.5.11.21.24.25), corresponde ao original aramaico abbá. O conteúdo deste apelativo, potenciado pelo acento com que Jesus o pronunciava, era tão rico e tão original, que se manteve na primitiva tradição, mesmo quando esta já se expressava na língua helenística. A oração sacerdotal, longe de exprimir qualquer carência ou inferioridade, manifesta a forma absolutamente singular de Jesus se relacionar com o Pai, deixando entrever algo da profundidade do mistério da sua própria Pessoa: algo desse ego de Jesus, cuja consciência mais profunda aparece como uma relação – a Teologia fala da relatio subsistens – com o Pai, todo votado à glorificação do Pai e em perfeita união com Ele” [5].

 

2. Relação da oração sacerdotal com o Pai-nosso

Ratzinger/Bento XVI, no 1º volume de Jesus de Nazaré, no capítulo dedicado à oração, p. 125, observa: “Devemos também ter presente que o Pai-Nosso surge da sua oração, do diálogo do Filho com o Pai. Isso quer dizer que ele alcança uma grande profundidade que vai para além das palavras. Ele abrange toda a extensão do ser humano de todos os tempos e, portanto, não pode esgotar-se numa pura explicação histórica, por mais importante que ela seja”. Isto fundamenta obviamente a estreita conexão do Pai-nosso com a oração sacerdotal, “uma oração sublime em que Jesus expressa todo o sentido da sua pessoa e do seu ministério” [6].

E é de facto o próprio Catecismo da Igreja Católica, nº 2750, que propõe essa íntima relação, quando diz: “A sua oração sacerdotal inspira, a partir de dentro, as grandes petições do Pai-nosso”. E logo a seguir concretiza quatro pontos, indicando em nota os versículos da oração sacerdotal que correspondem às várias petições do Pai-nosso:

– a preocupação com o nome do Pai  (vv. 6.11.12.26);

– a paixão pelo seu Reino (a glória) (vv. 1.5.10.22.23-26);

– o cumprimento da vontade do Pai, do seu desígnio de salvação (vv. 2.4.6.9.11.12.24);

– e a libertação do mal (vv. 15. 4).

No nº 2758 o mesmo Catecismo diz ainda: “A oração da «Hora» de Jesus, justamente chamada oração sacerdotal (Jo 17), recapitula toda a economia da criação e da salvação”.

 

3. A oração sacerdotal no contexto do sacerdócio de Cristo no Novo Testamento

Embora no Novo Testamento se fale muito do sacerdócio judaico, Jesus nunca se apresentou explicitamente como sacerdote, nem os Evangelhos lhe dão tal título. É a Epístola aos Hebreus que O apresenta como sacerdote, se bem que de uma natureza distinta e como muito superior ao sacerdócio judaico, transitório e caduco.

Uma vez que Hebreus proclama abertamente o sacerdócio de Cristo, sendo mesmo este o tema central da obra, fizeram-se muitos estudos no sentido de encontrar nos outros livros do Novo Testamento, particularmente nos Evangelhos, indícios deste atributo de Jesus. Nem todos os estudiosos aqui acharam indícios significativos. Um dos biblistas que mais rastos encontrou foi André Feuillet, (Le sacerdoce...); e isto nos Sinópticos [7], mas sobretudo em S. João, onde mais alusões ao sacerdócio de Jesus se podem ver. Assim, temos:

– Um particular interesse do IV Evangelista pela liturgia e pelo culto, como as alusões ao novo Templo novo e ao novo culto (Jo 2,13-23; 4, 23) bem como o relevo dado às festas, à volta das quis se desenvolve o relato (cfr Jo 2, 13; 5,1; 7,2; 6,4; 10,22; 11,55; 13,1; 18,28; 19, 31).

– João Baptista aponta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29.36).

– No discurso do Bom Pastor, Jesus diz por cinco vezes que este Pastor oferece a vida pelas ovelhas (Jo 10,11.15.17.18.20).

– A túnica sem costura, de uma só peça de alto a baixo, bem pode fazer referência ao carácter sacerdotal de Jesus (Josefo e Filón assim falam das vestes do Sumo Sacerdote).

– Na referência ao ramo de hissopo para fazer chegar à boca de Jesus a esponja de vinagre (Jo 19, 29), também se vê uma alusão ao carácter sacrificial da morte do Senhor, pois era o arbusto que se devia usar para as aspersões rituais (cfr Ex 12,22; Lv 14,4) [8].

– Mas o que melhor revela Jesus como Sacerdote é sem dúvida a oração sacerdotal. Bento XVI, no 2º volume de Jesus de Nazaré (pp.72-75), retoma de forma muito sugestiva a ideia de A. Feuillet. Vejamos então.

 

4. A Festa judaica da Expiação como cenário bíblico de fundo da oração sacerdotal

Esta sublime oração – diz Bento XVI – “só é compreensível tendo como cenário de fundo a liturgia da Festa judaica da Expiação”. Com efeito, “o ritual da festa, com o seu rico conteúdo teológico, realiza-se – literalmente – na oração de Jesus: o rito é traduzido na realidade que ele mesmo significa. Aquilo que aí era representado em ações rituais acontece agora de modo real e definitivo” [9]

Na Festa da Expiação (yom kippur), segundo o minucioso ritual do capítulo 16 do Levítico, através do sacrifício expiatório dos animais, o sumo sacerdote deve cumprir a expiação, primeiro por si mesmo, depois pela classe sacerdotal e finalmente por toda a comunidade de Israel.

Somente no dia desta festa anual é que o sumo sacerdote pronunciava o Nome inefável de YHWH, “nome pelo qual Ele se tornou, por assim dizer, tocável por Israel”, indicando-se desta forma que se restituía ao povo a sua qualidade de povo santo, restabelecendo-se a pertença a Deus e a harmonia transtornada pelo pecado.

Ora sucede que a estrutura do rito levítico é retomada na oração de Jesus. Com efeito, “tal como o sumo sacerdote cumpria a expiação por si, pela classe sacerdotal e por toda a comunidade de Israel, assim também Jesus reza por Si mesmo, pelos apóstolos e, finalmente, por todos aqueles que depois, por causa da palavra deles, haveriam de acreditar n’Ele, ou seja, pela Igreja de todos os tempos (cfr Jo 17,20)”. E assim “a oração de Jesus manifesta-O como o Sumo Sacerdote do grande Dia da Expiação. A sua cruz e a sua elevação constituem o Dia da Expiação do mundo, no qual a história inteira do mundo, contra toda a culpa humana e todas as suas destruições encontra o seu sentido, é introduzida na sua verdadeira finalidade e no seu destino” [10].

 

5. A oração Sacerdotal de Jesus e o Sacrifício Eucarístico

Sendo assim, não se pode deixar de se levantar a seguinte questão: se Jesus leva a cabo a expiação definitiva, com o sacrifício do Calvário, superando os sacrifícios dos animais, que tinham de se repetir ciclicamente, que relação pode ter a oração do Sumo Sacerdote da Nova Aliança, com a própria Eucaristia, que atualiza esse mesmo Sacrifício? Houve quem chegasse a ver nela uma espécie de anáfora eucarística, a versão joanina da instituição do Sacramento, o que parece um exagero, mas teólogos e exegetas, sobretudo a partir dos estudos de R. Feuillet, observam  uma profunda conexão com o Sacrifício Eucarístico. O sinal mais claro desta ligação pode ver-se no v. 19, que aparece como o eixo da estrutura circular ou khiástica do conjunto da oração sacerdotal.

Com efeito, aquela expressão “Eu consagro-Me por eles” tem uma conotação sacrificial, como se Jesus dissesse “Eu ofereço-Me em sacrifício por (hypér, em vez de ou a favor de) eles”. Neste modo de dizer nota-se uma correspondência à linguagem cultual do Antigo Testamento (cfr Ex 13,12.15; 28, 41; Dt 15,19) e às palavras da instituição da Eucaristia: “isto é o meu Corpo (sou Eu mesmo!) entregue por vós” (1 Cor 11,24). Jesus, ao oferecer-se a Si mesmo, aparece simultaneamente como sacerdote e como vítima. “Consagro-Me a Mim mesmo por eles”, ou entrego a minha vida por eles, é uma expressão muito frequente em S. João – egó títhemi tên psykhên mou (cinco vezes no discurso do Bom Pastor: Jo 10,11.15.17.18a.b.)  –, é uma fórmula que remete o leitor para o sacrifício expiatório da redenção vicária nos cânticos do Servo sofredor de YHWH: “o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes... Aprouve ao Senhor esmagá-lo com o sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação... Porque ele próprio entregou a sua vida à morte... tomando sobre si os pecados de muitos, e sofreu pelos pecadores” (Is 53, 6.10.12)

Sendo assim, também podemos dizer que a oração sacerdotal adquire a dimensão de ofertório do Sacrifício do Senhor a ser consumado no Calvário; e também se apresenta como uma declaração de intenção: Jesus entrega a sua vida por todos (cfr Jo 11, 51-52; 15, 13), em sacrifício, a fim de que os seus, uma vez purificados, venham a ser pertença exclusiva de Deus: “a fim de que também eles sejam consagrados na verdade” (v. 19), unindo-se a Cristo Sacerdote e Vítima.

Para falar da conexão da oração sacerdotal com a Eucaristia, Bento XVI faz uma observação subtil: o ritual do dia da Expiação é transformado em oração; assim, em lugar dos sacrifícios de animais temos aqui o sacrifício sob a forma de palavra (thysía logikê dos Padres gregos), ou o culto em forma de palavra de Rom 12,1 (logikê latreia), mas de facto não é simplesmente palavra, porque Jesus é a Palavra feita carne, mais ainda, um corpo entregue e um sangue derramado. “Com a instituição da Eucaristia, Jesus transforma o seu ser morto em palavra, na radicalidade do seu amor que se dá até à morte. Assim Ele mesmo se torna templo. Sendo uma forma de concretização da auto-doação de Jesus, a oração sacerdotal constitui o novo culto e está intimamente ligada à Eucaristia” [11].

 

 

 

 

 



* Extrato/adaptação de uma das conferências do Autor no Curso de Atualização para Sacerdotes: «O Sacerdote, Ministro e Mestre da Palavra. Estudo, meditação e pregação da Palavra de Deus», realizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais, São Paulo, 19 a 20 de julho de 2011. 

[1] A. García-Moreno, El Evangelio según San Juan. Introducción y exégesis, Badajoz-Pamplona 1996, p. 197. Têm sido dados ainda outros nomes a esta oração, todos eles expressivos, cada um à sua maneira: prece de santificação, oração pela unidade, oração do Getsemani transfigurada, oração testamento, oração de despedida...

[2] G. Segalla, La preghiera di Gesù al Padre (Giov 17), Brescia, Paideia, 1983, p. 13.

[3] O verbo proskynein (prostrar-se, adorar), que aparece 10 vezes em S. João, nunca tem Jesus como sujeito.

[4] Jo 17, 1; assim em 11, 41.

[5] G. Morujão, Relações Pai-Filho em S. João. Subsídios para a Teologia Trinitária a partir do estudo de sintagmas verbais gregos (Jo 5 e 17), Viseu, IPV, 1989, pp. 141-142.

[6] D. Muñoz-León, Predicación del Evangelio de San Juan, Madrid, edice, 1988, p. 261: “La oración sacerdotal (Jo 17) es una plegaria sublime en que Jesús expresa todo el sentido de su persona y de su ministerio y los principios y naturaleza de su obra, la Iglesia o comunidad de creyentes”.

[7] Eis alguns exemplos:

– A morte de Jesus é apresentada numa linguagem litúrgico-sacrificial: "o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos" (Mc 10, 45; Mt 20, 28);

– Também na figura do pastor que salva as ovelhas perdidas (Mt 18,11ss; Lc 15, 3-7), tendo em conta que Jesus aplica a si a profecia de Zacarias 13,7 em Mt 26,31 – “Ferirei o pastor e as ovelhas serão dispersas” –, pode-se entrever o valor salvífico da morte de Jesus.

– Jesus ao declarar-Se "maior que o Templo" (Mt 12, 6), apresenta-se automaticamente como superior aos sacerdotes, que são simplesmente os seus servidores; poderia ver-se aqui implícita uma alusão ao Sumo Sacerdócio;

– Em Mc 12, 35-37, quando Jesus cita o Salmo 110 para mostrar que é Messias e Senhor, embora só apareçam as primeiras palavras do Salmo, “Disse o Senhor ao meu Senhor...”, a verdade é que, segundo a hermenêutica deráxica, fica incluído todo o Salmo, que adiante diz: Tu és sacerdote para sempre segundo o rito de Melquisedec (v.4), de modo a que assim se exprimam as prerrogativas do Messias, não só como Filho de Deus, mas também como Sacerdote para sempre. Na citação incompleta do Salmo teríamos um maxal (um sentença enigmática) para que os interlocutores de Jesus, habituados à exegese deráxica, fossem levados a averiguar tudo o que Jesus lhes queria dizer.

[8] Na 1ª Carta de S. João diz-se que “Ele é a vítima que expia os nossos pecados, e não somente os nossos, mas também os de todo o mundo” (1 Jo 2, 2); esta passagem deixa ver com toda a clareza a entrega do Senhor como uma oferenda sacrificial, exercitando assim o seu sacerdócio.

[9] J. Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Lisboa, Principia, 2011, p. 72.

[10] Ibid., p. 73.

[11] Ibid., p. 74.


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