1º
Domingo da Quaresma
13 de Fevereiro de 2005
RITOS INICIAIS
Cântico
de entrada: Perdoa ao teu povo,
Az. Oliveira, NRMS 105
Salmo 90, 15-16
Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.
Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.
Não se diz o Glória.
Introdução ao espírito da Celebração
A proximidade da festa da Páscoa leva toda a Igreja a se preparar com um
grande retiro: a Quaresma. É sem perder de vista a grande Vigília Pascal onde o
Aleluia será solenemente entoado no meio da assembleia litúrgica, a preparação
remota é um convite à conversão, a mudar velhos conceitos, preconceitos e
julgamentos. Entrar em Quaresma é seguir
Jesus ao deserto, combater no seu combate contra o mal pela fé na obediência à
vontade do Pai.
Oração colecta: Concedei-nos,
Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão
do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor
Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Liturgia da Palavra
Primeira Leitura
Monição: Ouvir a
Palavra de Deus ou ouvir a Palavra do tentador: Eis o dilema da humanidade.
Ouvir a Palavra de Deus que fala a verdade sobre nós e sobre a nossa vida ou
ouvir a palavra daquele que é mentiroso desde o princípio. O tempo da Quaresma
é o tempo desta escolha.
Génesis 2, 7-9; 3, 1-7
7O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou
em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. 8Depois,
o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que
tinha formado. 9Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de
frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida,
no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. 1Ora, a
serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus
tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis
comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?» 2A mulher respondeu:
«Podemos comer o fruto das árvores do jardim; 3mas, quanto ao fruto
da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele
nem tocar-lhe, senão morrereis’». 4A serpente replicou à mulher: «De
maneira nenhuma! Não morrereis. 5Mas Deus sabe que, no dia em que o
comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer
o bem e o mal». 6A mulher viu então que o fruto da árvore era bom
para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência.
Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele
também comeu. 7Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que
estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins
com elas.
O «relato» bíblico das origens, de que hoje se lêem
alguns vv., não pode ser lido ingenuamente como um relato histórico daquilo que
sucedeu no início do Universo e do ser humano, «porque, não se trata de saber
quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem;
mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem: se foi determinada
pelo acaso, por um destino cego ou uma fatalidade anónima, ou, antes, por um
Ser transcendente, inteligente e bom, chamado Deus. E, se o mundo provém da
sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem o mal? Quem é
responsável pelo mal? E será que existe uma libertação do mesmo?» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 284).
7 «Pó da terra… sopro de vida»: a narrativa tem como ponto de referência não só o facto de que, pela sua corporeidade, o homem pertence à terra e, ao morrer, se reduz a pó, mas também o facto de que, na língua hebraica, «homem» (adam) se diz com o mesmo vocábulo com que se designa a terra avermelhada (adamáh); mas, ao mesmo tempo, o homem está animado por um princípio («sopro») de vida, que não vem da terra. A representação de Deus como «oleiro», independentemente das notáveis semelhanças com outros relatos extrabíblicos, parece sugerir que o homem está nas mãos de Deus como o barro nas mãos do oleiro (cf. Is 29, 16; Jer 18, 6; Rom 9, 20-21; Job 34, 14-15).
2, 8-9 Um jardim. Nos LXX lê-se «parádeisos»; daqui a habitual designação de «paraíso (terrestre)». O jardim de «delícias» (éden) permite que o leitor pense, mais que num lugar geográfico, num estado de felicidade original e de comunhão com Deus; a «árvore da vida» simboliza a vida em plenitude e a imortalidade (cf. Gn 3, 22); «a árvore da ciência do bem e do mal» é o símbolo da fonte do recto actuar moral, o projecto do Criador, que o homem não pode manipular nem alterar a seu bel-prazer sem cavar a sua ruína.
3, 1-7 Num relato simbólico, numa linguagem cheia de imagens muito expressivas, seja qual for a origem literária destas figuras, deixa ver que os males de que o ser humano padece não procedem de Deus, mas do pecado, que, desde a origem, destruiu a harmonia do homem com Deus, consigo próprio e com a criação, com consequências desastrosas que afectam toda a humanidade (cf. a 2.ª leitura de hoje: Rom 5, 12-19).
1 «A serpente», um símbolo do demónio, cf. Apoc 12, 9, onde se fala da «serpente antiga», o inimigo de Deus e dos amigos de Deus, que aqui aparece também como «caluniador» (este é o significado do seu nome grego, «diábolos»), ao apresentar a ordem divina como má, uma prepotência da parte de Deus (v. 5). Note-se a profunda observação psicológica posta na encenação do processo da tentação: estão aqui representadas as tentações de sempre; primeiro, uma insinuação inocente – «é verdade que Deus vos proibiu...», a que se segue o efeito de começar a prestar atenção àquele a quem não se pode dar ouvidos; finalmente, uma vez aberto o diálogo, no momento preciso, o tentador entra a matar, mentindo descaradamente (cf. Jo 8, 44) – «de maneira nenhuma! Não morrereis! Mas Deus sabe que...» (v. 5). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem no demónio, satanás, ou diabo, um anjo criado bom por Deus, mas que se tornou mau.
5 «Sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal»: Isto não significa alcançar a omnisciência divina, nem adquirir o poder de discernir o bem do mal. Este «conhecer o bem e o mal» corresponde a decidir por si o que é bem e o que é mal: trata-se, portanto, de encenar uma tentação de soberba pela qual a criatura não se conforma com a sua condição de criatura, e não aceita o supremo domínio de Deus.
6 «Fruto… para esclarecer a inteligência». Sendo-nos desconhecido em que consistiu o pecado das origens, porque Deus não no-lo revelou, alguns exegetas procuram então averiguar qual é o tipo de pecado que o hagiógrafo aqui descreve, e vêem nesta linguagem um colorido de magia e feitiçaria (um conhecimento oculto), ou até mesmo uma alusão ao culto das serpentes para a fertilidade, de que o hagiógrafo pretenderia afastar os seus contemporâneos tão atreitos a estes desvios religiosos.
7 «Compreenderam que estavam despidos». Note-se a fina ironia latente no contraste com a promessa sedutora: «abrir-se-ão os vossos olhos» (v. 6); os olhos abrem-se, sim, mas para contemplarem a própria nudez; assim fica simbolizado o desgosto e a frustração que se segue ao gosto do pecado, e também a noção teológica da ruptura da harmonia primordial, nomeadamente entre o homem e a mulher (cf. 2, 25).
Salmo Responsorial Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
Monição: Somos
pecadores. Reconhecemos o nosso pecado para acolhermos o perdão Naquele que não
pecou e nos salvou.
Refrão: Pecámos, Senhor: tende
compaixão de nós.
Ou: Tende compaixão
de nós, Senhor,
porque
somos pecadores.
Compadecei-Vos de mim, ó Deus,
pela vossa bondade,
pela vossa grande
misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as
faltas.
Porque eu reconheço os meus
pecados
e tenho sempre diante de mim
as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra
Vós,
e fiz o mal diante dos vossos
olhos.
Criai em mim, ó Deus, um
coração puro
e fazei nascer dentro de mim
um espírito firme.
Não queirais repelir-me da
vossa presença
e não retireis de mim o vosso
espírito de santidade.
Dai-me de novo a alegria da
vossa salvação
e sustentai-me com espírito
generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso
louvor.
Segunda Leitura*
* O texto entre parêntesis
pertence à forma longa e pode ser omitido.
Monição: O mal
que nos veio por um homem não tem comparação com o Bem que nos vem por outro.
Se o pecado foi introduzido no mundo pela desobediência de Adão, a obediência
de Cristo até à morte abriu a nova era da graça.
Forma longa:
Romanos 5, 12-19; forma breve: Romanos 5, 12.17-19
Irmãos: 12Assim
como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim
também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. [13De
facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em
conta, se não houver lei. 14Entretanto, a morte reinou desde Adão
até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à
semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. 15Mas o
dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com
muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus
Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens. 16E esse dom não
é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à
condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva
à justificação.] 17Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com
muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da
justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. 18Porque,
assim como pelo pecado de um só, veio
para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só,
virá para todos a justificação que dá a vida. 19De facto, como pela
desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela
obediência de um só, muitos se tornarão justos.
Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para a obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate directa e expressamente do tema do pecado original (só indirectamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, n.º 403: «Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal».
Aclamação ao Evangelho Mt 4, 4b
Monição: Jesus é
conduzido ao deserto para que nós o sigamos e acompanhemos o seu itinerário no
qual Ele recapitula a caminhado do Povo de Deus durante quarenta anos no
deserto.
Não
só de pão vive o homem, M. Luis, NCT
106
Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai
da boca de Deus.
Evangelho
São Mateus 4, 1-11
1Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao
deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. 2Jejuou quarenta dias e
quarenta noites e, por fim, teve fome. 3O tentador aproximou-se e
disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em
pães». 4Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o
homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». 5Então o
Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: 6«Se
és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos
seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma
pedra’». 7Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o
Senhor teu Deus’». 8De novo o Demónio O levou consigo a um monte
muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e
disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». 10Respondeu-lhe
Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só
a Ele prestarás culto’». 11Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos
se aproximaram e serviram Jesus.
Antes de mais, convém advertir que as tentações de Jesus não aparecem como uma tentação ocasional qualquer, nem sequer um ataque mais violento, mas como um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Com efeito, não se trata de umas tentações dirigidas a fazer com que Jesus caia em meras faltas pessoais (gula, orgulho, avareza), mas têm o carácter de um ataque frontal para desvirtuar toda a obra de Jesus, desviando-a da vontade do Pai; uma consideração superficial poderia levar-nos a considerar estas tentações até ridículas, absurdas ou míticas. Mas vejamos o enorme alcance de cada uma delas:
3-4 Na primeira tentação, trata-se de fazer enveredar a Jesus pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.
5-7 Na segunda tentação, aquele «lança-te daqui abaixo», constitui um apelo à esperança judaica num messias a descer espectacularmente do céu, à vista do povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, dizendo um decidido não a um actuar à base do triunfo pessoal, do êxito humano.
8-10 Na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos Romanos e do mundo inteiro, a tentação de reduzir a instauração do Reino de Deus à instauração dum reino temporal.
Ninguém foi testemunha destas tentações de Jesus, que se deveriam ter passado apenas no seu espírito; e Jesus, ao falar aos Apóstolos do Reino de Deus (cf. Act 1, 3), bem podia falar-lhes delas, umas tentações que se haveriam de vir a sentir também com os seus discípulos. Por outro lado, assim Jesus «se tornava em tudo semelhante aos seus irmãos se tornar um sumo sacerdote misericordioso» (Hebr 2, 17). Assim, Jesus aparece a ensinar-nos a resistir, sem dar ouvidos, como Eva, aos enganos do mafarrico, sem entrar em diálogo com ele, mas apoiando-nos sempre na certeza e na luz da Palavra de Deus e na sua graça, que Jesus ensinou a pedir no «Pai-Nosso»: «não nos deixeis cair em tentação» e «livrai-nos do Maligno» (Mt 6, 13).
Sugestões para a homilia
Na liturgia pré-conciliar, a Quaresma era precedida de três semanas
chamadas Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima. Com os quatro domingos de
Quaresma, os cristãos tinham sete semanas de preparação para a Páscoa. Um
número bíblico cheio de significado e de plenitude. Um número que lembra o
tempo do cativeiro na Babilónia, onde os judeus penduraram suas cítaras ao
longo dos canais e silenciou-lhes o cântico em seus lábios: «Como poderemos
cantar em terra estrangeira?»
Mesmo não mais celebrando as semanas anteriores à Quaresma – são
chamados de «domingos do tempo comum» –, esses quarenta dias que nos separam da
Páscoa convidam para uma intensa revisão de vida. Há em nós sempre alguma coisa
que precisa melhorar. É claro que jamais nos converteremos em uma única
Quaresma: porém, de Quaresma em Quaresma poderemos ir crescendo no caminho da
perfeição, em demanda da vida nova.
Esse tempo especial de conversão começa com a quarta-feira de Cinzas,
com a cerimónia da bênção e imposição das cinzas. Na antiguidade cristã, do
século IV ao século X, aqueles que tinham cometido falta grave e pública deviam
vestir o hábito de penitente e cobrir a cabeça com cinzas. O próprio bispo os
conduzia para fora da igreja e, descalços, realizavam longas peregrinações.
Porém, já na Idade Média, houve um abrandamento dessa prática e todos os fiéis
aceitavam, de boa vontade, receber as Cinzas para iniciar a Quaresma.
A liturgia da Quaresma procura uma sobriedade ainda maior do que nos
outros tempos do Ano Litúrgico. Se os textos procuram chamar à consciência a
nossa fidelidade com Deus, os cânticos devem levar a comunidade a se
interiorizar, ainda mais, em sua reflexão sobre as possíveis faltas e limites
que impedem de testemunhar com mais generosidade a vida em Cristo.
O tempo de Quaresma, necessariamente um tempo de penitência, nos convida
a uma revisão interior e, até mesmo, exterior. Privar-se de pequenas coisas, às
quais nos apegamos, pode ser um exercício de aprendizagem para o desapego de
outras maiores. O que se tornou vício, por causa da repetição de um acto mau,
deve-se procurar transformar em virtude, pela repetição de gestos bons.
Converter-se não basta; é preciso mostrar os frutos dessa conversão. O
testemunho de vida cristã há-de ser expresso nessas atitudes que a Quaresma nos
ajuda a consolidar: no jejum, a privação; na oração, a sujeição e na esmola, o
desapego.
Jejum: não se limite
apenas à quarta-feira de cinzas e Sexta-Feira Santa. Esta prática quaresmal
deve ser criativa. A privação de alimentos ou guloseimas não deve bastar quando
outros jejuns são necessários. Há o jejum da palavra sem caridade, da crítica
amarga, da murmuração que destrói. Jejua-se nas atitudes impensadas, que trazem
sofrimento ao irmão, jejua-se também quando a caridade fraterna clamar mais
alto e a presença ao lado do que sofre qualquer tipo de provação for exigida
pela consciência e em função do mandamento do Senhor: amai-vos uns aos
outros.
Oração: nestes dias de
Quaresma, a Igreja nos convida à oração ainda mais intensa. Trata-se de
mergulhar integra e totalmente na «comunhão dos santos», sendo um intercessor
entre os intercessores. Sabemos que a oração não muda as coisas; a oração
muda as pessoas e as pessoas mudam as coisas. Quando Deus quer agir directamente,
ele age. Normalmente, conta com a nossa participação e, quase sempre, somos a
resposta de Deus para a oração dos irmãos aflitos. Na busca de viver a oração
na Quaresma, esse tempo nos torna sensíveis a esses reclamos de piedade. A
prática da oração frequente nos dá essa necessária sensibilidade. Pouco pedimos
e quando o fazemos, não sabemos como pedir. Esta evidência bíblica leva-nos a
uma consideração importante: a oração de petição não deveria ir além do Pai
Nosso, onde Jesus sintetizou as maiores necessidades. Mas, como um bom Pai,
está ciente da necessidade dos filhos, Ele espera que peçamos, porque a
necessidade nos aproxima d'Ele. Isto leva-nos à terceira consideração:
Esmola: é um termo de
origem grega (eleemosynê), com o mesmo sentido em latim (eleemosyna) e
significa piedade, compaixão. Não deve ser limitada a uma simples oferta
em dinheiro. Não damos do que sobra, mas partilhamos o que nos pode fazer
falta. A partilha da pobreza é a maior esmola. Jesus elogiou a viúva, que
colocou duas moedinhas no cofre do tesouro do templo. Porém, era tudo o que ela
possuía (Mc 12, 42).
A esmola é um meio de santificação, quando nos leva ao conhecimento
interior, ao desprendimento, à solidariedade, à partilha dos bens materiais e à
promoção humana. Essa dimensão quaresmal da esmola é uma catequese que faz
descortinar horizontes imensos de conquistas espirituais. Santos reis e rainhas
descobriram, nessa prática, um modo de crescer na santidade. A vida despojada
de tantos religiosos e religiosas é um testemunho brilhante do quanto a esmola
significa em suas vidas. E quando esmolam pelos outros, o sentido de uma vida
amplia-se ainda mais.
Vivamos, portanto esta Quaresma na atenção especial a estes valores:
jejum, oração e esmola. Deixemos que o «aleluia», na Vigília da Páscoa
expresse, com o seu vigor e sua alegria, aquilo que silenciamos, de que nos
privamos e a que renunciamos por tão longos dias.
Fala o Santo Padre
1. «Perdoai-nos, Senhor: temos pecado». A
invocação do salmo responsorial, há pouco entoada na nossa assembleia, exprime
de modo significativo o sentimento que nos anima neste primeiro domingo da
Quaresma. Estamos no início de um itinerário especial de penitência e de
conversão. Damos conta de que se trata de uma ocasião favorável para
reconhecer o pecado, que ofusca a nossa relação com Deus e com os irmãos. «Reconheço
as minhas culpas proclama o Salmista, o meu pecado está sempre diante de
mim. / Contra Vós apenas é que eu pequei, pratiquei o mal perante os vossos
olhos» (Sl 50, 5-6). O que seja o pecado e as consequências que
produz na vida do homem está bem indicado também desde a primeira página do
livro do Génesis, que escutámos (cf. Gn 3, 1-7). Os nossos pais cederam
às lisonjas do tentador, interrompendo bruscamente o diálogo de confiança e
de amor que tinham com Deus. O mal, o sofrimento e a morte entram assim no
mundo e será preciso esperar o Salvador prometido para restabelecer, de modo
ainda mais admirável, o plano original do Criador (cf. Ib 3, 8-24).
2.
À insidiosa acção do Maligno não foge o Messias, como narra São Mateus na
página evangélica de hoje: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de
ser tentado pelo demónio» (Mt 4, 1). No deserto, Ele foi submetido a
uma tríplice tentação de satanás, a que, porém, resiste com decisão. Jesus
afirma com vigor que não é lícito pôr Deus à prova; não é permitido prestar
culto a um outro deus; não se pode decidir por si mesmo o próprio destino. A
última referência de cada crente é a Palavra que sai da boca do Senhor.
Nestas
breves linhas está delineado o programa do nosso caminho espiritual. Também nós
somos chamados a atravessar o deserto de cada dia, enfrentando as
tentações que aparecem para nos afastar de Deus. Somos convidados a imitar a
atitude do Senhor, que se volta, decisivo, para a obediência à palavra do
Pai do céu e, desse modo, restabelece a hierarquia de valores segundo o
projecto divino original. […]
5. «Como pela desobediência
de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só,
muitos se tornaram justos» (Rom 5, 19). Esta consoladora palavra do
Apóstolo Paulo aos Romanos conforta-nos no nosso caminho espiritual. No mundo,
dominado tantas vezes pelo mal e pelo pecado, resplandece vitoriosa a luz de
Cristo. Ele, com a sua paixão e ressurreição venceu o pecado e a morte,
abrindo aos crentes as portas da salvação eterna. Eis a encorajadora mensagem
que tiramos da liturgia de hoje. Para participar plenamente na vitória de
Cristo, é necessário, porém, empenhar-se em mudar, à luz da palavra de
Deus, o próprio modo de pensar e de agir. «Ó Senhor, criai em mim um coração
puro e renovai no meu interior um espírito recto» (Sl 50, 12).
Façamos nossa esta invocação do Salmista. É uma oração muito mais oportuna no
tempo da Quaresma. […]
João Paulo II, na Paróquia
Romana de Santo Henrique a 17 de Fevereiro de 2002
Oração Universal
Irmãos, oremos a Deus
todo-poderoso,
e imploremos a misericórdia
d’Aquele que, no deserto,
saiu vitorioso do mal,
dizendo:
Senhor, vinde em nosso
auxílio.
1. Pela Santa Igreja de Deus:
para que, fiel
ao mandamento de Cristo,
interceda por
todos os homens que lutam no deserto,
oremos, irmãos.
2. Por todos os
que se sentem sós nos seus combates:
para que Deus
lhes dê a força do Espírito
que permite
vencer o mal,
oremos,
irmãos
3. Por todos os
que vivem esta Quaresma
como última
etapa de preparação para o Baptismo:
para que
aguardem na alegria em que Deus os acolherá entre os seus filhos,
oremos, irmãos.
4. Pelas almas
de todos os fiéis defuntos,
especialmente
aquelas que seus familiares esquecem:
para que
encontrem alívio e descanso,
oremos,
irmãos
Senhor nosso Deus e nosso
Pai, fazei-nos encontrar no exemplo de Vosso Filho a força para levarmos a bom
termo este combate quaresmal que agora começa para assim podermos celebrara a
alegria pascal de coração renovado. Por Nosso Senhor Jesus Cristo …
Liturgia Eucarística
Cântico
do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS 69
Oração
sobre as oblatas: Fazei que a nossa
vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à
celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso
Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Prefácio
As tentações do Senhor
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno
e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças,
sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.
Jejuando durante quarenta
dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da
antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que,
celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.
Por isso, com os Anjos e os
Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:
Santo:
M. Simões, NRMS 50-51
Monição da Comunhão
Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Recebamos a sagrada comunhão na
alegria de quem prefere o alimento do espírito ao alimento do corpo.
Cântico
da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29
Mt 4, 4
Antífona
da comunhão: Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.
ou
Salmo 90, 4
O Senhor te cobrirá com as
suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.
Cântico
de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60
Oração
depois da comunhão: Saciados com o pão
do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos
pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e
a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor
Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Ritos Finais
Monição final
Partamos para o deserto
quaresmal com o ardor de quem assume as armas do jejum,
da oração e da esmola como armas de
vitória contra as tentações do maligno sabendo que em Cristo sairemos
vencedores de todos os combates.
Cântico
final: É dura a caminhada, M.
Faria, NRMS 6 (II)
Homilias Feriais
1ª SEMANA DA QUARESMA
2ª feira, 14-II: SS.
Cirilo e Metódio: A missão do Ano Eucarístico.
Act. 13,
46-49 / Lc. 10, 1-9
Ide, e olhai
que vos mando em missão como cordeiros para o meio dos lobos.
Seguindo este mandato do
Senhor, Paulo e Barnabé começaram a evangelizar os pagãos: «vamos voltar-nos
para os pagãos» (Leit.).
Por mandato do Papa, Cirilo e
Metódio lavaram a cabo a evangelização dos países eslavos. Com a proclamação do
Ano da Eucaristia, o Papa João Paulo II fala da missão dos cristãos: «Neste Ano
da Eucaristia, haja um empenho, por parte dos cristãos, de testemunharem com
mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de
ostentar sem vergonha os sinais da fé. É errado considerar que a referência
pública à fé possa ofender a justa autonomia do Estado e das instituições civis»
(MN, n. 26).
3ª feira, 15-II: O
conteúdo do ‘pão de cada dia’.
Is. 55,
10-11 / Mt. 6, 7-15
Orai, pois,
deste modo: Pai nosso que estais nos
Céus... O Pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Devemos rezar confiadamente a
oração que o Senhor nos ensinou (cf. Ev.). O Pai nosso, que contém tudo o que
podemos pedir a Deus, «é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho»
(Tertuliano, cit. em CIC, 2761).
No Ano Eucarístico acentuemos
o pedido do pão nosso de cada dia: «A Eucaristia é o nosso pão de cada dia... A
virtude própria deste alimento é a de realizar a unidade...E também são pão de
cada dia as Leituras que em cada dia ouvis na Igreja; e os hinos que escutais e
cantais, são pão de cada dia. Estes são os mantimentos necessários para a nossa
peregrinação» (S. Agostinho, cit. em CIC, 2837).
4ª feira, 16-II:
Eucaristia e conversão.
Jon. 3,
1-10 / Lc. 11, 29-32
Ergue-te e vai
à cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.
Os habitantes da cidade de
Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor,
através do profeta Jonas (cf. Leit. e Ev.).
«A Eucaristia estimula à
conversão e purifica o coração penitente, consciente das próprias misérias e
desejoso do perdão de Deus, mesmo que não substitua a confissão sacramental,
único meio ordinário para os pecados graves, de receber a reconciliação com
Deus e com a Igreja. Esta atitude de respeito deve prolongar-se durante o dia,
alimentada pelo exame de consciência, ou seja, pelo confronto dos pensamentos,
das palavras, obras e omissões com o Evangelho de Jesus» (Ano da Eucaristia (AE),
22).
5ª feira, 17-II: Oração de
petição na Missa.
Est. 14,
1. 3-5. 12-14 / Mt. 7, 7-12
Pedi, e
dar-vos-ão. Procurai, e achareis... Batei, e hão de abrir-vos.
O desejo de conversão, a que
somos chamados na Quaresma, há de levar-nos a uma oração confiada (cf. Leit.: a
da rainha Ester; cf. Ev.).
Na santa Missa temos uma
esplêndida ocasião para pedir ao Senhor tantas coisas materiais e espirituais:
«Quem não tem coisas que pedir? Senhor, esta doença...Senhor, esta tristeza...
Queremos o bem, a felicidade e a alegria das pessoas da nossa casa; o nosso
coração está oprimido pela sorte dos que padecem fome e sede de pão e justiça;
dos que experimentam a amargura da solidão, dos que, no fim dos seus dias, não
recebem um olhar de carinho nem um gesto de ajuda» (J. Escrivá, Amar a Igreja, ).
6ª feira, 18-II: A
partilha do gesto da paz na Missa.
Ez. 18,
21-28 / Mt. 5, 20-26
Se estiveres,
pois, a apresentar a tua oferta ao altar e aí te recordares que o teu irmão tem
alguma coisas contra ti... vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão.
A Quaresma é um tempo de
conversão, de arrependimento, especialmente de reconciliação com o próximo:
«Jesus insiste na conversão do coração desde o Sermão da montanha:
a reconciliação com o irmão antes de apresentar a oferta no altar (cf. Ev. do
dia)» (CIC, 2608).
É este o significado mais
profundo da partilha do gesto da paz na Missa: «A partilha do gesto antes da
comunhão é expressão da ‘comunhão eclesial’ necessária para entrar em comunhão
com Cristo... Daí a espiritualidade da comunhão requerida pela
Eucaristia e suscitada pela celebração eucarística» (AE, 27).
Sábado, 19-II: Eucaristia
e amor aos inimigos.
Deut. 26,
16-19 / Mt. 5, 43-48
Pois eu
digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para
serdes felizes, para serdes filhos do vosso Pai...
«A lei evangélica dá
cumprimento aos mandamentos da Lei... Assim o Evangelho leva a Lei à sua
plenitude, pela imitação da perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos
e pela oração pelos perseguidores, à maneira da generosidade divina (cf. Ev. do
dia)» (CIC, 12968).
Assim perdoou Jesus a quem o
ofendia na Cruz. A plenitude da lei, o perdão dos inimigos, exige heroicidade.
Para termos essa força precisamos do alimento da Eucaristia, que é estímulo
para vivermos a caridade: «A Eucaristia faz a Igreja, enchendo-a de caridade de
Deus e estimulando-a à caridade» (AE, 27).
Celebração
e Homilia: Hermenegildo Faria
Nota
Exegética: Geraldo Morujão
Homilias
Feriais: Nuno Romão
Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha