1º Domingo da Quaresma

13 de Fevereiro de 2005

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Perdoa ao teu povo, Az. Oliveira, NRMS 105

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A proximidade da festa da Páscoa leva toda a Igreja a se preparar com um grande retiro: a Quaresma. É sem perder de vista a grande Vigília Pascal onde o Aleluia será solenemente entoado no meio da assembleia litúrgica, a preparação remota é um convite à conversão, a mudar velhos conceitos, preconceitos e julgamentos. Entrar em Quaresma é seguir Jesus ao deserto, combater no seu combate contra o mal pela fé na obediência à vontade do Pai.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Ouvir a Palavra de Deus ou ouvir a Palavra do tentador: Eis o dilema da humanidade. Ouvir a Palavra de Deus que fala a verdade sobre nós e sobre a nossa vida ou ouvir a palavra daquele que é mentiroso desde o princípio. O tempo da Quaresma é o tempo desta escolha.

 

Génesis 2, 7-9; 3, 1-7

7O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. 9Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. 1Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?» 2A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; 3mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». 4A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. 5Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». 6A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu. 7Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.

 

O «relato» bíblico das origens, de que hoje se lêem alguns vv., não pode ser lido ingenuamente como um relato histórico daquilo que sucedeu no início do Universo e do ser humano, «porque, não se trata de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem: se foi determinada pelo acaso, por um destino cego ou uma fatalidade anónima, ou, antes, por um Ser transcendente, inteligente e bom, chamado Deus. E, se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem o mal? Quem é responsável pelo mal? E será que existe uma libertação do mesmo?» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 284).

7 «Pó da terra… sopro de vida»: a narrativa tem como ponto de referência não só o facto de que, pela sua corporeidade, o homem pertence à terra e, ao morrer, se reduz a pó, mas também o facto de que, na língua hebraica, «homem» (adam) se diz com o mesmo vocábulo com que se designa a terra avermelhada (adamáh); mas, ao mesmo tempo, o homem está animado por um princípio («sopro») de vida, que não vem da terra. A representação de Deus como «oleiro», independentemente das notáveis semelhanças com outros relatos extrabíblicos, parece sugerir que o homem está nas mãos de Deus como o barro nas mãos do oleiro (cf. Is 29, 16; Jer 18, 6; Rom 9, 20-21; Job 34, 14-15).

2, 8-9 Um jardim. Nos LXX lê-se «parádeisos»; daqui a habitual designação de «paraíso (terrestre)». O jardim de «delícias» (éden) permite que o leitor pense, mais que num lugar geográfico, num estado de felicidade original e de comunhão com Deus; a «árvore da vida» simboliza a vida em plenitude e a imortalidade (cf. Gn 3, 22); «a árvore da ciência do bem e do mal» é o símbolo da fonte do recto actuar moral, o projecto do Criador, que o homem não pode manipular nem alterar a seu bel-prazer sem cavar a sua ruína.

3, 1-7 Num relato simbólico, numa linguagem cheia de imagens muito expressivas, seja qual for a origem literária destas figuras, deixa ver que os males de que o ser humano padece não procedem de Deus, mas do pecado, que, desde a origem, destruiu a harmonia do homem com Deus, consigo próprio e com a criação, com consequências desastrosas que afectam toda a humanidade (cf. a 2.ª leitura de hoje: Rom 5, 12-19).

1 «A serpente», um símbolo do demónio, cf. Apoc 12, 9, onde se fala da «serpente antiga», o inimigo de Deus e dos amigos de Deus, que aqui aparece também como «caluniador» (este é o significado do seu nome grego, «diábolos»), ao apresentar a ordem divina como má, uma prepotência da parte de Deus (v. 5). Note-se a profunda observação psicológica posta na encenação do processo da tentação: estão aqui representadas as tentações de sempre; primeiro, uma insinuação inocente – «é verdade que Deus vos proibiu...», a que se segue o efeito de começar a prestar atenção àquele a quem não se pode dar ouvidos; finalmente, uma vez aberto o diálogo, no momento preciso, o tentador entra a matar, mentindo descaradamente (cf. Jo 8, 44) – «de maneira nenhuma! Não morrereis! Mas Deus sabe que...» (v. 5). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem no demónio, satanás, ou diabo, um anjo criado bom por Deus, mas que se tornou mau.

5 «Sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal»: Isto não significa alcançar a omnisciência divina, nem adquirir o poder de discernir o bem do mal. Este «conhecer o bem e o mal» corresponde a decidir por si o que é bem e o que é mal: trata-se, portanto, de encenar uma tentação de soberba pela qual a criatura não se conforma com a sua condição de criatura, e não aceita o supremo domínio de Deus.

6 «Fruto… para esclarecer a inteligência». Sendo-nos desconhecido em que consistiu o pecado das origens, porque Deus não no-lo revelou, alguns exegetas procuram então averiguar qual é o tipo de pecado que o hagiógrafo aqui descreve, e vêem nesta linguagem um colorido de magia e feitiçaria (um conhecimento oculto), ou até mesmo uma alusão ao culto das serpentes para a fertilidade, de que o hagiógrafo pretenderia afastar os seus contemporâneos tão atreitos a estes desvios religiosos.

7 «Compreenderam que estavam despidos». Note-se a fina ironia latente no contraste com a promessa sedutora: «abrir-se-ão os vossos olhos» (v. 6); os olhos abrem-se, sim, mas para contemplarem a própria nudez; assim fica simbolizado o desgosto e a frustração que se segue ao gosto do pecado, e também a noção teológica da ruptura da harmonia primordial, nomeadamente entre o homem e a mulher (cf. 2, 25).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: Somos pecadores. Reconhecemos o nosso pecado para acolhermos o perdão Naquele que não pecou e nos salvou.

 

Refrão:        Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:               Tende compaixão de nós, Senhor,

                porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Segunda Leitura*

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Monição: O mal que nos veio por um homem não tem comparação com o Bem que nos vem por outro. Se o pecado foi introduzido no mundo pela desobediência de Adão, a obediência de Cristo até à morte abriu a nova era da graça.

 

Forma longa: Romanos 5, 12-19;       forma breve: Romanos 5, 12.17-19

Irmãos: 12Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. [13De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. 14Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. 15Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens. 16E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação.] 17Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. 18Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. 19De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

 

Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para a obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate directa e expressamente do tema do pecado original (só indirectamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, n.º 403: «Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal».

 

Aclamação ao Evangelho       Mt 4, 4b

 

Monição: Jesus é conduzido ao deserto para que nós o sigamos e acompanhemos o seu itinerário no qual Ele recapitula a caminhado do Povo de Deus durante quarenta anos no deserto.

 

Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

 

Evangelho

 

São Mateus 4, 1-11

1Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. 3O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». 4Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». 5Então o Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: 6«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». 7Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». 8De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». 10Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». 11Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

 

Antes de mais, convém advertir que as tentações de Jesus não aparecem como uma tentação ocasional qualquer, nem sequer um ataque mais violento, mas como um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Com efeito, não se trata de umas tentações dirigidas a fazer com que Jesus caia em meras faltas pessoais (gula, orgulho, avareza), mas têm o carácter de um ataque frontal para desvirtuar toda a obra de Jesus, desviando-a da vontade do Pai; uma consideração superficial poderia levar-nos a considerar estas tentações até ridículas, absurdas ou míticas. Mas vejamos o enorme alcance de cada uma delas:

3-4 Na primeira tentação, trata-se de fazer enveredar a Jesus pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-7 Na segunda tentação, aquele «lança-te daqui abaixo», constitui um apelo à esperança judaica num messias a descer espectacularmente do céu, à vista do povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, dizendo um decidido não a um actuar à base do triunfo pessoal, do êxito humano.

8-10 Na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos Romanos e do mundo inteiro, a tentação de reduzir a instauração do Reino de Deus à instauração dum reino temporal.

Ninguém foi testemunha destas tentações de Jesus, que se deveriam ter passado apenas no seu espírito; e Jesus, ao falar aos Apóstolos do Reino de Deus (cf. Act 1, 3), bem podia falar-lhes delas, umas tentações que se haveriam de vir a sentir também com os seus discípulos. Por outro lado, assim Jesus «se tornava em tudo semelhante aos seus irmãos se tornar um sumo sacerdote misericordioso» (Hebr 2, 17). Assim, Jesus aparece a ensinar-nos a resistir, sem dar ouvidos, como Eva, aos enganos do mafarrico, sem entrar em diálogo com ele, mas apoiando-nos sempre na certeza e na luz da Palavra de Deus e na sua graça, que Jesus ensinou a pedir no «Pai-Nosso»: «não nos deixeis cair em tentação» e «livrai-nos do Maligno» (Mt 6, 13).

 

Sugestões para a homilia

 

Na liturgia pré-conciliar, a Quaresma era precedida de três semanas chamadas Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima. Com os quatro domingos de Quaresma, os cristãos tinham sete semanas de preparação para a Páscoa. Um número bíblico cheio de significado e de plenitude. Um número que lembra o tempo do cativeiro na Babilónia, onde os judeus penduraram suas cítaras ao longo dos canais e silenciou-lhes o cântico em seus lábios: «Como poderemos cantar em terra estrangeira?»

Mesmo não mais celebrando as semanas anteriores à Quaresma – são chamados de «domingos do tempo comum» –, esses quarenta dias que nos separam da Páscoa convidam para uma intensa revisão de vida. Há em nós sempre alguma coisa que precisa melhorar. É claro que jamais nos converteremos em uma única Quaresma: porém, de Quaresma em Quaresma poderemos ir crescendo no caminho da perfeição, em demanda da vida nova.

Esse tempo especial de conversão começa com a quarta-feira de Cinzas, com a cerimónia da bênção e imposição das cinzas. Na antiguidade cristã, do século IV ao século X, aqueles que tinham cometido falta grave e pública deviam vestir o hábito de penitente e cobrir a cabeça com cinzas. O próprio bispo os conduzia para fora da igreja e, descalços, realizavam longas peregrinações. Porém, já na Idade Média, houve um abrandamento dessa prática e todos os fiéis aceitavam, de boa vontade, receber as Cinzas para iniciar a Quaresma.

A liturgia da Quaresma procura uma sobriedade ainda maior do que nos outros tempos do Ano Litúrgico. Se os textos procuram chamar à consciência a nossa fidelidade com Deus, os cânticos devem levar a comunidade a se interiorizar, ainda mais, em sua reflexão sobre as possíveis faltas e limites que impedem de testemunhar com mais generosidade a vida em Cristo.

O tempo de Quaresma, necessariamente um tempo de penitência, nos convida a uma revisão interior e, até mesmo, exterior. Privar-se de pequenas coisas, às quais nos apegamos, pode ser um exercício de aprendizagem para o desapego de outras maiores. O que se tornou vício, por causa da repetição de um acto mau, deve-se procurar transformar em virtude, pela repetição de gestos bons. Converter-se não basta; é preciso mostrar os frutos dessa conversão. O testemunho de vida cristã há-de ser expresso nessas atitudes que a Quaresma nos ajuda a consolidar: no jejum, a privação; na oração, a sujeição e na esmola, o desapego.

Jejum: não se limite apenas à quarta-feira de cinzas e Sexta-Feira Santa. Esta prática quaresmal deve ser criativa. A privação de alimentos ou guloseimas não deve bastar quando outros jejuns são necessários. Há o jejum da palavra sem caridade, da crítica amarga, da murmuração que destrói. Jejua-se nas atitudes impensadas, que trazem sofrimento ao irmão, jejua-se também quando a caridade fraterna clamar mais alto e a presença ao lado do que sofre qualquer tipo de provação for exigida pela consciência e em função do mandamento do Senhor: amai-vos uns aos outros.

Oração: nestes dias de Quaresma, a Igreja nos convida à oração ainda mais intensa. Trata-se de mergulhar integra e totalmente na «comunhão dos santos», sendo um intercessor entre os intercessores. Sabemos que a oração não muda as coisas; a oração muda as pessoas e as pessoas mudam as coisas. Quando Deus quer agir directamente, ele age. Normalmente, conta com a nossa participação e, quase sempre, somos a resposta de Deus para a oração dos irmãos aflitos. Na busca de viver a oração na Quaresma, esse tempo nos torna sensíveis a esses reclamos de piedade. A prática da oração frequente nos dá essa necessária sensibilidade. Pouco pedimos e quando o fazemos, não sabemos como pedir. Esta evidência bíblica leva-nos a uma consideração importante: a oração de petição não deveria ir além do Pai Nosso, onde Jesus sintetizou as maiores necessidades. Mas, como um bom Pai, está ciente da necessidade dos filhos, Ele espera que peçamos, porque a necessidade nos aproxima d'Ele. Isto leva-nos à terceira consideração:

Esmola: é um termo de origem grega (eleemosynê), com o mesmo sentido em latim (eleemosyna) e significa piedade, compaixão. Não deve ser limitada a uma simples oferta em dinheiro. Não damos do que sobra, mas partilhamos o que nos pode fazer falta. A partilha da pobreza é a maior esmola. Jesus elogiou a viúva, que colocou duas moedinhas no cofre do tesouro do templo. Porém, era tudo o que ela possuía (Mc 12, 42).

A esmola é um meio de santificação, quando nos leva ao conhecimento interior, ao desprendimento, à solidariedade, à partilha dos bens materiais e à promoção humana. Essa dimensão quaresmal da esmola é uma catequese que faz descortinar horizontes imensos de conquistas espirituais. Santos reis e rainhas descobriram, nessa prática, um modo de crescer na santidade. A vida despojada de tantos religiosos e religiosas é um testemunho brilhante do quanto a esmola significa em suas vidas. E quando esmolam pelos outros, o sentido de uma vida amplia-se ainda mais.

Vivamos, portanto esta Quaresma na atenção especial a estes valores: jejum, oração e esmola. Deixemos que o «aleluia», na Vigília da Páscoa expresse, com o seu vigor e sua alegria, aquilo que silenciamos, de que nos privamos e a que renunciamos por tão longos dias.

 

Fala o Santo Padre

 

«Esta é a ocasião favorável para reconhecer o pecado, que ofusca a nossa relação com Deus e com os irmãos.»

 

1. «Perdoai-nos, Senhor: temos pecado». A invocação do salmo responsorial, há pouco entoada na nossa assembleia, exprime de modo significativo o sentimento que nos anima neste primeiro domingo da Quaresma. Estamos no início de um itinerário especial de penitência e de conversão. Damos conta de que se trata de uma ocasião favorável para reconhecer o pecado, que ofusca a nossa relação com Deus e com os irmãos. «Reconheço as minhas culpas proclama o Salmista, o meu pecado está sempre diante de mim. / Contra Vós apenas é que eu pequei, pratiquei o mal perante os vossos olhos» (Sl 50, 5-6). O que seja o pecado e as consequências que produz na vida do homem está bem indicado também desde a primeira página do livro do Génesis, que escutámos (cf. Gn 3, 1-7). Os nossos pais cederam às lisonjas do tentador, interrompendo bruscamente o diálogo de confiança e de amor que tinham com Deus. O mal, o sofrimento e a morte entram assim no mundo e será preciso esperar o Salvador prometido para restabelecer, de modo ainda mais admirável, o plano original do Criador (cf. Ib 3, 8-24).

2. À insidiosa acção do Maligno não foge o Messias, como narra São Mateus na página evangélica de hoje: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demónio» (Mt 4, 1). No deserto, Ele foi submetido a uma tríplice tentação de satanás, a que, porém, resiste com decisão. Jesus afirma com vigor que não é lícito pôr Deus à prova; não é permitido prestar culto a um outro deus; não se pode decidir por si mesmo o próprio destino. A última referência de cada crente é a Palavra que sai da boca do Senhor.

Nestas breves linhas está delineado o programa do nosso caminho espiritual. Também nós somos chamados a atravessar o deserto de cada dia, enfrentando as tentações que aparecem para nos afastar de Deus. Somos convidados a imitar a atitude do Senhor, que se volta, decisivo, para a obediência à palavra do Pai do céu e, desse modo, restabelece a hierarquia de valores segundo o projecto divino original. […]

5. «Como pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos» (Rom 5, 19). Esta consoladora palavra do Apóstolo Paulo aos Romanos conforta-nos no nosso caminho espiritual. No mundo, dominado tantas vezes pelo mal e pelo pecado, resplandece vitoriosa a luz de Cristo. Ele, com a sua paixão e ressurreição venceu o pecado e a morte, abrindo aos crentes as portas da salvação eterna. Eis a encorajadora mensagem que tiramos da liturgia de hoje. Para participar plenamente na vitória de Cristo, é necessário, porém, empenhar-se em mudar, à luz da palavra de Deus, o próprio modo de pensar e de agir. «Ó Senhor, criai em mim um coração puro e renovai no meu interior um espírito recto» (Sl 50, 12). Façamos nossa esta invocação do Salmista. É uma oração muito mais oportuna no tempo da Quaresma. […]

 

João Paulo II, na Paróquia Romana de Santo Henrique a 17 de Fevereiro de 2002

 

Oração Universal

 

Irmãos, oremos a Deus todo-poderoso,

e imploremos a misericórdia d’Aquele que, no deserto,

saiu vitorioso do mal, dizendo:

Senhor, vinde em nosso auxílio.

 

1.  Pela Santa Igreja de Deus:

para que, fiel ao mandamento de Cristo,

interceda por todos os homens que lutam no deserto,

oremos, irmãos.

 

2.  Por todos os que se sentem sós nos seus combates:

para que Deus lhes dê a força do Espírito

que permite vencer o mal,

oremos, irmãos

 

3.  Por todos os que vivem esta Quaresma

como última etapa de preparação para o Baptismo:

para que aguardem na alegria em que Deus os acolherá entre os seus filhos,

oremos, irmãos.

 

4.  Pelas almas de todos os fiéis defuntos,

especialmente aquelas que seus familiares esquecem:

para que encontrem alívio e descanso,

oremos, irmãos

 

Senhor nosso Deus e nosso Pai, fazei-nos encontrar no exemplo de Vosso Filho a força para levarmos a bom termo este combate quaresmal que agora começa para assim podermos celebrara a alegria pascal de coração renovado. Por Nosso Senhor Jesus Cristo …

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS 69

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Recebamos a sagrada comunhão na alegria de quem prefere o alimento do espírito ao alimento do corpo.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Partamos para o deserto quaresmal com o ardor de quem assume as armas do jejum, da oração e da esmola como armas de vitória contra as tentações do maligno sabendo que em Cristo sairemos vencedores de todos os combates.

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA DA QUARESMA

 

2ª feira, 14-II: SS. Cirilo e Metódio: A missão do Ano Eucarístico.

Act. 13, 46-49 / Lc. 10, 1-9

Ide, e olhai que vos mando em missão como cordeiros para o meio dos lobos.

Seguindo este mandato do Senhor, Paulo e Barnabé começaram a evangelizar os pagãos: «vamos voltar-nos para os pagãos» (Leit.).

Por mandato do Papa, Cirilo e Metódio lavaram a cabo a evangelização dos países eslavos. Com a proclamação do Ano da Eucaristia, o Papa João Paulo II fala da missão dos cristãos: «Neste Ano da Eucaristia, haja um empenho, por parte dos cristãos, de testemunharem com mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé. É errado considerar que a referência pública à fé possa ofender a justa autonomia do Estado e das instituições civis» (MN, n. 26).

 

3ª feira, 15-II: O conteúdo do ‘pão de cada dia’.

Is. 55, 10-11 / Mt. 6, 7-15

Orai, pois, deste modo: Pai nosso  que estais nos Céus... O Pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Devemos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou (cf. Ev.). O Pai nosso, que contém tudo o que podemos pedir a Deus, «é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho» (Tertuliano, cit. em CIC, 2761).

No Ano Eucarístico acentuemos o pedido do pão nosso de cada dia: «A Eucaristia é o nosso pão de cada dia... A virtude própria deste alimento é a de realizar a unidade...E também são pão de cada dia as Leituras que em cada dia ouvis na Igreja; e os hinos que escutais e cantais, são pão de cada dia. Estes são os mantimentos necessários para a nossa peregrinação» (S. Agostinho, cit. em CIC, 2837).

 

4ª feira, 16-II: Eucaristia e conversão.

Jon. 3, 1-10 / Lc. 11, 29-32

Ergue-te e vai à cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Os habitantes da cidade de Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor, através do profeta Jonas (cf. Leit. e Ev.).

«A Eucaristia estimula à conversão e purifica o coração penitente, consciente das próprias misérias e desejoso do perdão de Deus, mesmo que não substitua a confissão sacramental, único meio ordinário para os pecados graves, de receber a reconciliação com Deus e com a Igreja. Esta atitude de respeito deve prolongar-se durante o dia, alimentada pelo exame de consciência, ou seja, pelo confronto dos pensamentos, das palavras, obras e omissões com o Evangelho de Jesus» (Ano da Eucaristia (AE), 22).

 

5ª feira, 17-II: Oração de petição na Missa.

Est. 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt. 7, 7-12

Pedi, e dar-vos-ão. Procurai, e achareis... Batei, e hão de abrir-vos.

O desejo de conversão, a que somos chamados na Quaresma, há de levar-nos a uma oração confiada (cf. Leit.: a da rainha Ester; cf. Ev.).

Na santa Missa temos uma esplêndida ocasião para pedir ao Senhor tantas coisas materiais e espirituais: «Quem não tem coisas que pedir? Senhor, esta doença...Senhor, esta tristeza... Queremos o bem, a felicidade e a alegria das pessoas da nossa casa; o nosso coração está oprimido pela sorte dos que padecem fome e sede de pão e justiça; dos que experimentam a amargura da solidão, dos que, no fim dos seus dias, não recebem um olhar de carinho nem um gesto de ajuda» (J. Escrivá,  Amar a Igreja, ).

 

6ª feira, 18-II: A partilha do gesto da paz na Missa.

Ez. 18, 21-28 / Mt. 5, 20-26

Se estiveres, pois, a apresentar a tua oferta ao altar e aí te recordares que o teu irmão tem alguma coisas contra ti... vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão.

A Quaresma é um tempo de conversão, de arrependimento, especialmente de reconciliação com o próximo: «Jesus insiste na conversão do coração desde o Sermão da montanha: a reconciliação com o irmão antes de apresentar a oferta no altar (cf. Ev. do dia)» (CIC, 2608).

É este o significado mais profundo da partilha do gesto da paz na Missa: «A partilha do gesto antes da comunhão é expressão da ‘comunhão eclesial’ necessária para entrar em comunhão com Cristo... Daí a espiritualidade da comunhão requerida pela Eucaristia e suscitada pela celebração eucarística» (AE, 27).

 

Sábado, 19-II: Eucaristia e amor aos inimigos.

Deut. 26, 16-19 / Mt. 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes felizes, para serdes filhos do vosso Pai...

«A lei evangélica dá cumprimento aos mandamentos da Lei... Assim o Evangelho leva a Lei à sua plenitude, pela imitação da perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos e pela oração pelos perseguidores, à maneira da generosidade divina (cf. Ev. do dia)» (CIC, 12968).

Assim perdoou Jesus a quem o ofendia na Cruz. A plenitude da lei, o perdão dos inimigos, exige heroicidade. Para termos essa força precisamos do alimento da Eucaristia, que é estímulo para vivermos a caridade: «A Eucaristia faz a Igreja, enchendo-a de caridade de Deus e estimulando-a à caridade» (AE, 27).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          Hermenegildo Faria

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha


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