Quinta-Feira
Santa
24 de Março de 2005
Missa Vespertina da Ceia do
Senhor
Segundo uma antiquíssima
tradição da Igreja, são proibidas neste dia todas as Missas sem participação do
povo.
De tarde, à hora mais
conveniente, celebra-se a Missa da Ceia do Senhor, com plena participação de
toda a comunidade local; nela, todos os sacerdotes e ministros exercem o seu
ofício próprio.
Os sacerdotes que tiverem
concelebrado na Missa crismal, ou tiverem celebrado para utilidade dos fiéis,
podem novamente concelebrar nesta Missa vespertina.
Onde o exigir o interesse
pastoral, o Ordinário do lugar pode permitir a celebração de outra Missa nas
igrejas, oratórios públicos ou semipúblicos nas horas vespertinas e, em casos
de verdadeira necessidade, até da parte da manhã, mas só para os fiéis que de
nenhum modo podem tomar parte na Missa vespertina. Deve evitar-se, no entanto,
que tais celebrações se façam em proveito de pessoas particulares ou possam
prejudicar a Missa vespertina principal.
A sagrada comunhão só pode
ser distribuída aos fiéis dentro da Missa. Aos doentes, porém, pode levar-se a
comunhão a qualquer hora do dia.
O sacrário deve estar
completamente vazio. Para a comunhão do clero e dos fiéis, consagre-se nesta
Missa pão suficiente para hoje e amanhã.
RITOS INICIAIS
Cântico
de entrada: Cantemos o Senhor que nos salvou, M. Faria, NRMS 1 (I)
cf. Gal 6,
14
Antífona de entrada: Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. N'Ele
está a nossa salvação, vida e ressurreição. Por Ele fomos salvos e livres.
Diz-se o Glória. Enquanto se
canta este hino, tocam-se os sinos, que não voltarão a tocar-se até à Vigília
Pascal, a não ser que a Conferência Episcopal ou o Ordinário do lugar julguem
oportuno estabelecer outra coisa.
Introdução ao espírito da
Celebração
Durante quarenta dias
preparámos a páscoa que hoje começa com o Tríduo pascal, cujo centro
celebrativo é o mistério da redenção humana pela Paixão, Morte e Ressurreição
de Cristo.
Hoje recordamos a Última
Ceia, onde Cristo instituiu a Eucaristia. Se a celebração eucarística é sempre
memorial da morte e ressurreição do Senhor, hoje esse memorial assume maior
realismo. Daí que, esta comemoração requer de nós uma atitude e uma celebração
mais consciente, como efeito de uma fé avivada em circunstâncias especiais.
Oração colecta: Senhor
nosso Deus, que nos reunistes para celebrar a Ceia santíssima em que o vosso
Filho Unigénito, antes de Se entregar à morte, confiou à Igreja o sacrifício da
nova e eterna aliança, fazei que recebamos, neste sagrado banquete do Seu amor,
a plenitude da caridade e da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Liturgia da Palavra
Primeira Leitura
Monição: O sangue do cordeiro sem defeito, espalhado nos
umbrais das portas, serviu ao povo israelita, que vivia ainda sob a opressão
dos egípcios, de sinal da protecção divina.
A Ceia pascal de Cristo é o
cumprimento e a plenitude da páscoa antiga. Ali está o «Cordeiro de Deus»,cujo
sangue nos liberta do pecado.
Êxodo 12, 1-8.11-14
1Naqueles
dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2«Este
mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai
a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada
qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família
for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo,
segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis
um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro
ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês.
Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão
depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta
das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite;
comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando
o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão.
Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite,
passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto,
todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha
justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será
para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei
adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a
terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que
haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração
em geração, como instituição perpétua».
Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como «instituição perpétua» a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da «Páscoa» – dum étimo semítico: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos «Ázimos», com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Torá terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado, para celebrar a libertação do Egipto.
A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1.º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê, em hebraico, os matsôth) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o «o flagelo exterminador» ali não atingisse ninguém. A própria palavra «Páscoa», com uma etimologia muito discutida, pode provir do étimo psh, que significa saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12, 27) na região de Guéssen ou Góxen; neste texto a palavra é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12, 34.39).
No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: «nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos». Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro Cordeiro Pascal (1 Cor 5, 7; Jo 19, 36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14, 25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22, 14).
Salmo Responsorial Sl 115 (116), 12-13.15-16bc.17-18 (R. cf. 1
Cor 10, 16)
Monição: A Ceia do Senhor é a noite do amor sacramentado,
noite de mistérios e sinais, noite de salvação para todos nós. Dêmos graças a
Deus, elevando o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor.
Refrão: O cálice de bênção é
comunhão do Sangue de Cristo.
Como agradecerei ao Senhor
tudo quanto Ele me deu?
Elevarei o cálice da salvação,
invocando o nome do Senhor.
É preciosa aos olhos do Senhor
a morte dos seus fiéis.
Senhor, sou vosso servo, filho
da vossa serva:
quebrastes as minhas cadeias.
Oferecer-Vos-ei um sacrifício
de louvor,
invocando, Senhor, o vosso
nome.
Cumprirei as minhas promessas
ao Senhor,
na presença de todo o povo.
Segunda Leitura
Monição: «Isto é o meu corpo entregue por vós». A Ceia do Senhor, que nos relata
S. Paulo na primeira carta aos Coríntios, é essencialmente sacrifício e
entrega. Cristo oferece-Se ao Pai para a redenção do mundo. O seu sangue
derramado no cálice é o preço do nosso resgate.
1 Coríntios 11, 23-26
Irmãos: 23Eu recebi
do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser
entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: «Isto é o
meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». 25Do
mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova
aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de
Mim». 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes
deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.
Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que temos no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.
23 «Recebi do Senhor»: O original grego (com o uso da preposição apó e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. «Na noite em que ia ser entregue»: Celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!
24 «Isto é o Meu Corpo»: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz «aqui está o meu corpo», nem «isto simboliza o meu corpo», mas sim: «isto é o meu corpo», como se dissesse «este pão já não é pão, mas é o meu corpo». Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo «ser» também pode ter o sentido de «ser como», «significar», mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue); Jesus não podia querer dizer tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice já não se podia prestar a um tal sentido.
Os Apóstolos entenderam as palavras de Jesus no seu
verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar
este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva
Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso
para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida de animais
não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido
realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): «quem comer o pão ou beber o cálice do
Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor; e no v. 29
fala de «distinguir o corpo do Senhor».
Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (transignificação e transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real «Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação».
24-25 «Fazei isto em memória de Mim»: Com estas palavras, Jesus Cristo entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.
25 «A Nova Aliança com o meu Sangue»: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados.
26 «Anunciareis a Morte do Senhor»: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício, renovando e representando sacramentalmente o mistério da mesma Morte que se deu no Calvário.
Aclamação ao Evangelho Jo 13, 34
Monição: Lavando os pés aos discípulos, Jesus assumiu a forma
de Servo para mostrar ao mundo que amar é servir. Descobrindo que Jesus «nos
amou até ao fim», aclamemos a Palavra da nossa salvação.
Dou-vos
um mandamento novo, F dos Santos,
NCT 126
Dou-vos um mandamento novo,
diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros como
Eu vos amei.
Evangelho
São João 13, 1-15
1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a
sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam
no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o
Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O
entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a
autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se
da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois,
deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los
com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro,
este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?» 7Jesus respondeu:
«O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais
tarde». 8Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés».
Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». 9Simão
Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a
cabeça». 10Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está
limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». 11Jesus
bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos
estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e
pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? 13Vós
chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que
sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos
outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais
também».
1 «Antes da festa da Páscoa»: A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26, 17-35; Mc 14, 12-31; Lc 22, 7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. Se S. João se limita a dizer «antes da festa da Páscoa», sem precisar que era a véspera (a Preparação), é porque ele quer que se entenda a morte de Jesus como a imolação do cordeiro pascal, ao colocá-la no mesmo dia (a Preparação: 19, 31.42) em que no templo eram imolados os cordeiros para a festa; sendo assim, evita intencionalmente o dar à Última Ceia qualquer carácter pascal; e pensamos que esta pode ser uma séria razão para não falar da instituição da Eucaristia, referida no discurso do Pão da Vida (Jo 6).
«Amou-os até ao fim», isto é, até à consumação (19, 30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15, 13; 1 Jo 3, 16; Gal 2, 20), embora com esta não termine o seu amor, pois «não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim» (Santo Agostinho); poderia aludir também ao amor na realização da Eucaristia de que S. João não conta a instituição, naturalmente por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI e, como já se disse, para evitar dar a esta ceia um carácter pascal. Outra tradução possível: «levou o seu amor por eles até ao extremo. Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura da Cruz e da Eucaristia.
3 «Jesus, sabendo...» Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1 Sam 25, 41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25, 39. Jesus, ao sujeitar-se a esse trabalho aviltante, tem bem presente o seu poder e a sua dignidade de Filho de Deus. A oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor.
Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22, 24) tenha levado o Senhor a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é o maior o que mais serve.
Aparecem dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, aparece mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: «Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros», isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1 Pe 2, 21; 1 Jo 2, 6; Fil 2, 5; 1 Cor 11, 1; Ef 5, 1; 1 Tes 1, 6...
Sugestões para a homilia
Tomai e comei, isto é o meu
corpo
Este cálice é a nova aliança
no meu sangue
Ele, que era de condição
divina, aniquilou-se a Si mesmo
A humildade como atitude
primordial do cristão
Tomai e
comei, isto é o meu corpo
Estamos diante da última ceia
presidida por Jesus Cristo. Trata-se de momentos próximos à Paixão do Filho.
Momentos de expectativa, ansiedade e, ao mesmo tempo, de beleza, entrega e
ensinamentos de grande profundidade.
A realidade da encarnação de
Cristo é bastante viva. O Filho senta-Se, conversa, come, bebe, fica triste,
fica alegre, terá vontade de fugir, e, finalmente, reúne-se com seus amigos
para a última celebração.
No acto da celebração, Cristo
deixa-nos um dos maiores símbolos da história humana. O símbolo eucarístico do
pão: Jesus é o «Pão da Vida», Aquele que veio ao mundo para saciar a fome da
humanidade. O pão passa a simbolizar a presença corpórea do Filho (encarnação),
bem como a sua entrega (compromisso).
Por isso, o pão tem um
significado muito forte nos dias de hoje. O «pão» significa que adoramos a um
Deus-Encarnado, presente, que sofre connosco. Significa ainda que adoramos a um
Deus-comprometido, que nos ama e quer que nos amemos.
Este
cálice é a nova aliança no meu sangue
A Paixão de Jesus está muito
próxima. O ambiente ainda é de celebração. Jesus ainda está com os seus amigos
mais íntimos. Mas o destaque, agora, é para o sangue.
Jesus viveu num ambiente de
cultura judaica. E, no âmbito da cultura judaica, o sangue simboliza a vida.
Havia, também, a crença de que, sem derramamento de sangue, não poderia haver
remissão de pecados. Neste sentido é que se deve compreender a simbologia do
sangue de Jesus Cristo.
O cálice eucarístico
refere-se ao sangue de Jesus vertido na Cruz. O sangue purificador, o sangue
que serve para remir os pecados. O novo acordo de Deus com a humanidade, acordo
de paz e salvação, é estabelecido mediante a vida do Filho.
A observação do cálice também
significa a observação da vida de Jesus. Jesus não veio ao mundo para passar o
tempo. Veio ao mundo com uma missão muito séria e a conduziu até o fim, com
toda radicalidade. Do mesmo modo, ao lembrarmos dos feitos de Jesus, devemos lembrar-nos
da radicalidade e da seriedade que devemos ter.
Ele,
que era de condição divina, aniquilou-se a Si mesmo
Durante muito tempo
alimentou-se a ideia de que Deus não precisa de nada, nem de ninguém. Achava-se
que Deus vivia lá no céu sem se incomodar com nada; achava-se que Deus, por ser
tão poderoso, não se afectava com nada.
O Cristianismo é assim
denominado por ser constituído de «cristãos», adoradores, seguidores de Cristo.
Cristo é o Deus-Encarnado; é Deus vindo ao mundo para sofrer, viver, amar,
comprometer-se, e mostrar que Ele não está distante de nós, que Ele não é ser
apático (incapaz de sofrer!). Por isso, a Paixão de Cristo tem uma dimensão
reflexiva, penitencial; tem, também, uma dimensão existencial: Deus não é um
ser insensível, distante, mas um ser que sofre!
Todo o cenário da Última Ceia
e da agonia, mostram-nos isso mesmo. A cena é de dor, de sofrimento, enfim, de
Paixão. É momento de aniquilamento para se cumprir a vontade do Pai: «Ele, que era de condição divina, não se
valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a Si mesmo, tomando a
condição de servo. (...) Tido pelo aspecto como homem, humilhou-Se a si mesmo,
obedecendo até á morte e morte de cruz» (Fil 2, 6-8).
A
humildade como atitude primordial do cristão
«Aniquilar-se» é o maior
gesto de humildade que alguém pode dar. Ele era o próprio Deus, sendo homem não
pretendeu ser igual a Deus.
Tantas vezes vemos o orgulho
tomar conta de nossos irmãos e até de nós mesmos e não fazemos nada para mudar
isso.
Os conflitos do dia-a-dia, a
pressa com que fazemos os nossos trabalhos, muitas vezes ocultam o orgulho que
temos. Tentamos esconder as nossas falhas, mas torna-se difícil livrarmo-nos do
nosso orgulho.
Ser humilde é a atitude do
cristão consciente. Consciente de que, por melhor que consigamos ser, temos que
ver o outro tem muitas qualidades que nós não temos. É preciso saber ver no
outro os dons que Deus distribuiu entre os homens e que não ficaram retidos em
apenas alguns, mas foram realmente distribuídos a todos.
Cada ser humano que Deus
colocou no mundo tem algo de bom para oferecer, algo de bom para partilhar. A
todos os seus filhos e filhas, Deus deu algum dom, e com esse dom, deu a tarefa
de usá-lo para melhorar um pouco mais o mundo em que vivemos.
Ser humilde é acolher o outro,
é ter a capacidade de amar intensamente sem esperar nada em troca, é imitar o
Cristo, é ter em nossos corações o mesmo sentimento que Ele teve. Jesus foi
capaz de Se fazer servo por amor à humanidade, e é esse amor-doação que deve
habitar em nossos corações para que sejamos realmente expressão do Pai que nos
deu a vida.
Na homilia comentam-se os
grandes mistérios que neste dia se comemoram: a instituição da sagrada Eucaristia e do sacramento da
Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade.
Lava-pés
Fala o Santo Padre
«Cristo oferece-se como
alimento para o homem no seu caminho na terra.»
1.
«Amou-os até ao fim» (cf. Jo 13,
1). Antes de celebrar a última Páscoa com os discípulos, Jesus lavou-lhes os
pés. Com um gesto que normalmente compete ao servo, quis imprimir nas
mentes dos Apóstolos o sentido de quanto iria acontecer dali a pouco.
Com efeito, a paixão e a
morte constituem o fundamental serviço de amor com o qual o Filho de
Deus libertou a humanidade do pecado. Ao mesmo tempo a paixão e a morte de
Cristo revelam o sentido profundo do novo mandamento por Ele confiado aos
Apóstolos: «que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei» (Jo 13,
34).
«Fazei isto em memória de
Mim» (1 Cor 11, 24.25) disse duas
vezes, distribuindo o pão que se tornou o seu Corpo e o vinho que se tornou o
seu Sangue. «Dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também»
(Jo 13, 15) recomendara pouco antes, depois de ter lavado os pés aos
Apóstolos. Por conseguinte, os cristãos sabem que devem «fazer memória» do seu
Mestre ao prestar-se reciprocamente o serviço da caridade: «lavar os pés uns
aos outros». Em particular, eles sabem que devem recordar Jesus repetindo o
«memorial» da Ceia com o pão e o vinho consagrados pelo ministro que repete
sobre eles as palavras então pronunciadas por Cristo.
A comunidade cristã começou a
fazer isto desde os primeiros tempos, como ouvimos afirmar por São Paulo: «Todas
as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do
Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
3. Por conseguinte,
memorial em sentido pleno é a Eucaristia: o Pão e o Vinho, por acção do
Espírito Santo, tornam-se realmente o Corpo e o Sangue de Cristo, que se
oferece como alimento para o homem no seu caminho na terra. É a mesma lógica
de amor que preside à encarnação do Verbo no seio de Maria e ao seu
tornar-se presente na Eucaristia. É o ágape, a caritas, o amor no
sentido mais belo e puro. Jesus pediu insistentemente aos seus discípulos que permanecessem
nesse amor (cf. Jo 15. 9).
A fim de se manterem fiéis a
este pedido, para permanecer n'Ele como os ramos unidos à videira, para amar
como Ele amou é necessário alimentar-se com o seu Corpo e com o seu Sangue. Ao
dizer aos Apóstolos: «Fazei isto em Minha memória», o
Senhor uniu a Igreja ao memorial vivo da sua Páscoa. Mesmo sendo o único
Sacerdote da Nova Aliança, quis ter a necessidade de homens que, consagrados
pelo Espírito Santo, agissem em união íntima com a sua Pessoa, distribuindo o
alimento da vida.
4. Por isso, enquanto fixamos o
olhar em Jesus que institui a Eucaristia, tomemos de novo consciência da
importância dos presbíteros na Igreja e do seu vínculo com o Sacramento
eucarístico. Na Carta que escrevi aos Sacerdotes para este dia santo
quis repetir que dom e mistério é o Sacramento do altar, dom e mistério
é o Sacerdócio, tendo surgido os dois do Coração de Cristo durante a Última
Ceia.
Só uma Igreja enamorada da
Eucaristia gera, por sua vez, vocações sacerdotais santas e numerosas. E
faz isto através da oração e do testemunho da santidade,
oferecida de modo especial às novas gerações. […]
João Paulo II, Santa Missa “In Cena
Domini”, 8 de Abril de 2004
Oração Universal
Nesta
tarde (noite) santa em que o Senhor
lavou os pés dos Apóstolos,
nos
deu o Sacerdócio ministerial e a Eucaristia,
a
fim de permanecer com a Sua Igreja para sempre,
oremos
ao Pai do Céu pelo nosso bem e de todos os homens:
1. Pela santa Igreja de Deus,
dividida pelos
nossos pecados:
para que Jesus
em sua misericórdia,
a faça cumprir
o mandamento do amor,
e a congregue
na unidade,
oremos ao
Senhor.
2. Pelos homens que desconhecem a Cristo:
para que
cheguem ao conhecimento do amor
d'Aquele que se
entregou pela salvação de todos,
oremos ao
Senhor.
3. Pelos que exercem a autoridade na família,
na sociedade e
na Igreja:
para que
encontrem em Jesus o modelo dos que servem
dando-se
generosamente,
oremos ao
Senhor.
4. Pelos que sofrem na doença e no trabalho:
para que Jesus
os cure e fortaleça com a sua graça,
pois é apoio
firmíssimo da fraqueza humana,
oremos ao
Senhor.
5. Pelos jovens candidatos ao sacerdócio, pelos
nossos Seminários:
para que nunca
faltem ao Povo de Deus os ministros da Palavra e da Eucaristia,
oremos ao
Senhor.
6. Por todos os sacerdotes que trabalharam nesta
paróquia (comunidade)
e por todos os
sacerdotes em geral:
para que o
Senhor Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote,
os mantenha
firmes e generosos neste mundo,
e as reuna um
dia à Sua mesa celeste, oremos ao Senhor.
Atendei,
ó Deus de
bondade, o povo que vos suplica; possa ele obter,
graças
à Paixão de Vosso Filho, o que pelos seus méritos não ousa esperar.
Por
Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Liturgia Eucarística
Cântico
do ofertório: Senhor, são muitos os nossos pecados, J. Santos, NRMS 53
Oração
sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor,
a graça de participar dignamente nestes mistérios, pois todas as vezes que
celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção. Por
Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do
Espírito Santo.
Prefácio da Santíssima
Eucaristia: p. 1254 [658-770]
Santo:
A. Cartageno, Suplemento ao CT
Monição da Comunhão
Eis Cristo Jesus.
Ele é o verdadeiro pão
descido do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente.
Eis o Cordeiro de Deus...
Cântico
da Comunhão: Não há maior prova de amor, M. Faria, NRMS 29
1 Cor 11,
24.25
Antífona
da comunhão: Isto é o meu Corpo,
entregue por vós; este é o cálice da nova aliança no meu Sangue, diz o Senhor.
Fazei isto em memória de Mim.
Terminada a distribuição da
comunhão, deixa-se sobre o altar a píxide com as partículas para a comunhão do
dia seguinte. A Missa conclui com a oração depois da comunhão:
Cântico
de acção de graças: Vós sereis meus amigos, M. Faria, NRMS 29
Oração
depois da comunhão: Deus eterno e
omnipotente, que hoje nos alimentastes na Ceia do vosso Filho, saciai-nos um
dia na ceia do reino eterno. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é
Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Trasladação
do Santíssimo Sacramento
Terminada a oração, o
sacerdote, de pé, diante do altar, põe incenso no turíbulo e, de joelhos,
incensa por três vezes o Santíssimo Sacramento. Em seguida, toma o véu de
ombros, pega na píxide e cobre-a com as extremidades do véu.
Organiza-se a procissão, com
círios e incenso, indo à frente o cruciferário com a cruz, e leva-se o
Santíssimo Sacramento, através da igreja, para o lugar da reserva, preparado
numa capela convenientemente ornamentada. Entretanto canta-se o hino Pange,
lingua (Canta, Igreja, o Rei do mundo) – excepto as duas últimas estrofes – ou
outro cântico apropriado.
Chegada a procissão ao lugar
da reserva, o sacerdote depõe a píxide. Seguidamente, põe incenso no turíbulo
e, de joelhos, incensa o Santíssimo Sacramento. Entretanto canta-se o Tantum
ergo sacramentum. Depois fecha-se o tabernáculo ou urna da reserva.
Depois de algum tempo de
oração em silêncio, o sacerdote e os ministros fazem a genuflexão e retiram-se
para a sacristia.
Segue-se a desnudação do
altar e, se possível, retiram-se as cruzes da igreja. Se algumas ficam na
igreja, é conveniente cobri-las.
Os que tomaram parte na
Missa vespertina não são obrigados à celebração das Vésperas.
Exortem-se os fiéis, tendo
em conta as circunstâncias e as diversas situações locais, a dedicar algum
tempo da noite à adoração do Santíssimo Sacramento. A partir da meia noite,
porém, esta adoração faz-se sem solenidade.
Ritos Finais
Monição final
Há dois gestos na Ceia do
Senhor que apontam para o amor fraterno: o lava-pés e a participação na mesa
eucarística. Ambos os gestos são expressão de serviço, amor e entrega por parte
de Cristo e convite para que também nós façamos o mesmo.
Que todos nós, que hoje
comemos do mesmo pão, vivamos unidos num mesmo amor, numa mesma caridade.
Cântico
final: Toda a minha glória está na cruz, S. Marques, NRMS 61
Celebração
e Homilia: Nuno Westwood
Nota
Exegética: Geraldo Morujão
Sugestão
Musical: Duarte Nuno Rocha