DOCUMENTAÇÃO
SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA
PRESENTE
Comunicado
do Conselho Permanente
1. A delicadeza do actual
momento político que o país atravessa sugerir-nos-ia, porventura, que
ficássemos em silêncio, para que ninguém pudesse interpretar as nossas palavras
como ingerência na política, considerada enquanto legítima actividade
partidária em ordem à conquista do poder através do voto dos cidadãos. Não
queremos tomar posição a esse nível. Por outro lado a Hierarquia não se pode
desligar do todo da Igreja, composta por todos os crentes e essa faz parte da
sociedade, empenha-se em todas as lutas para a construção de uma sociedade mais
justa e fraterna. Fá-lo também participando nos processos democráticos, sempre,
mas de modo particular naqueles momentos em que se discutem e decidem etapas
importantes do nosso futuro colectivo.
Empenhar-se na construção da
comunidade nacional é, para os cristãos, uma forma de exprimirem a sua
fidelidade cristã. Dirigimo-nos, assim, a todos os membros da Igreja em
especial, mas também a toda a sociedade de que fazemos parte, no desejo de
contribuir para o nosso futuro comum.
2. Aceitamos a actual situação
política como um facto, ponto de partida para uma nova etapa, renunciando a
comentá-la ou analisá-la, a julgar as suas causas ou os seus protagonistas. Mas
estamos convencidos que os problemas que o País sente não se resumem à presente
crise política; esta é, talvez e apenas, o seu efeito e um dos seus sintomas. E
por isso a etapa democrática que agora começa não pode limitar-se a resolver
uma crise política, mas deve enfrentar, com serenidade e lucidez, os problemas
de fundo do país, apresentando para eles soluções credíveis e viáveis, a serem
escolhidas pelo voto dos portugueses.
Temos assistido a um processo
contínuo de sublinhar as divergências e as dificuldades, sem surgirem
convergências em verdadeiros objectivos nacionais, que os partidos políticos
parecem ter dificuldade em definir e propor. O progresso do País precisa do
empenhamento generoso de todos, da renúncia a egoísmos pessoais ou grupais, da
competência dos agentes económicos, culturais e sociais. É urgente criar uma
onda de fundo de entusiasmo por Portugal, em que as legítimas diferenças se
transformem em riqueza e não em obstáculo. Os meios de comunicação social,
indispensáveis numa sociedade democrática, terão nesta convergência de
perspectivas e neste suscitar da esperança, um papel importante. É preciso que
o direito à liberdade se afirme na responsabilidade construtiva, em prol do bem
comum.
3. Neste quadro, o primeiro
dever dos cristãos é a participação responsável. Que ninguém se esconda por
detrás de desculpas habituais: «estamos cansados dos políticos», «isto não tem
solução», «para quê votar se é sempre a mesma coisa», etc. Não esqueçamos que
só tem direito de criticar e denunciar quem se empenha generosamente na busca
de soluções. Na campanha eleitoral que se aproxima temos todos o dever de nos
esclarecermos criteriosamente, passando para além do discurso eleitoralista e
apreciando as soluções objectivas que nos são propostas para o Governo da
Nação. Para tal, importa avaliar da sua justiça, da sua viabilidade, da sua
consonância com os princípios da dignidade humana, do respeito pela vida, da
dimensão social que todas as políticas devem ter. Para os cristãos, o critério
de avaliação é o Evangelho e a doutrina social da Igreja.
A democracia é o quadro
político da liberdade, mas também da responsabilidade. E esta só se exprimirá
na busca generosa do bem comum. Não deixemos o futuro do nosso País só nas mãos
dos «políticos profissionais”. Ajudemo-los com a nossa consciência crítica e
com a nossa escolha responsável. A nossa convivência democrática
aprofundar-se-á qualitativamente se votarmos em propostas, mais do que em
partidos, motivados pela esperança objectiva que essas propostas suscitam e não
tanto pela nossa tradicional simpatia partidária. Forcemos os partidos a porem
o acento da sua intervenção na qualidade das propostas que nos fazem, na
competência e dignidade das pessoas e não apenas nos discursos que o ambiente
de campanha habitualmente inflama.
4. Para construir este
discernimento responsável, é importante uma análise em grupo. As comunidades
cristãs podem ser lugar para a discussão crítica das propostas que nos vão ser
feitas, ajudando-nos uns aos outros naquele esclarecimento que antecede a nossa
escolha, na certeza de que não há soluções perfeitas, nem definitivas.
Escolhamos aquelas que suscitam mais esperança e aceitemos, depois, contribuir
para a sua implementação. Votar é escolher caminhos e escolher é comprometer-se
generosamente na sua concretização. E não esqueçamos, em nenhum momento, que a
participação política é sempre busca da verdade, expressão do amor fraterno,
escolha da honestidade e da generosidade como padrões de comportamento. E nós
cristãos sabemos que passa também por aí a construção do Reino de Deus.
Fátima,
14 de Dezembro de 2004