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A COMUNICAÇÃO SOCIAL
Hugo de Azevedo
O homem é um ser social.
Comunicativo, por natureza, e inter-activo. E vivemos num tempo em que a
sociabilidade, a comunicabilidade e a inter-actividade deram um salto de
quantidade prodigioso. Chegámos à «aldeia global». O Santo Padre, na sua Carta
Apostólica aos responsáveis pelas Comunicações Sociais (com maiúsculas, como é
devido ao supremo poder moderno, pois não há nenhum outro que o controle),
recorda-nos este fenómeno, e estimula-nos a estar nele presentes com toda a
força do Evangelho: «Não tenhais medo!»
Medo de quê? De não nos
fazermos ouvir no meio da algaravia geral? Mais medo talvez de provocarmos
hostilidade, se não usarmos o estilo cultural «correcto»... É curioso: a nossa
crescente intercomunicação, supostamente pluralista, afinal só o é
superficialmente; quanto aos conteúdos, exige-nos um rigoroso denominador
comum. De facto, a comunicação só é possível através de uma linguagem comum –
de valores, símbolos, princípios, certezas... Quem fala uma língua diferente,
exclui-se da comunicação geral, neste grande areópago de opiniões e ideias.
Ninguém o ouve, ou tomam-no por extravagante, excêntrico, e mesmo louco.
Assim aconteceu a S. Paulo no
areópago de Atenas. A partir daí resolveu falar apenas de Cristo, e este,
crucificado. Já que recebeu «fama» de louco, resolveu tirar-lhe o «proveito».
O grande princípio da moderna
«linguagem correcta», e seu único dogma, é a incerteza: ninguém se atreva a
invocar verdades; só opiniões, «verdades subjectivas», pessoais, válidas
somente para cada um... A nova base de entendimento mútuo é a rejeição da
objectividade, da universalidade, da racionalidade, portanto. A base da nova
comunicação é, afinal, a incomunicabilidade, isto é, o negativo da própria
comunicação.
Tal situação já se adivinhava
desde há décadas. Pitoresco exemplo é o daquele estudante coimbrão dos anos
60-70, que numa assembleia geral da Academia ripostou a quem o acusava de se
contradizer: –«Ó colega, deixe a lógica! Hoje em dia pensa-se por aproximações
cósmicas!»
Provas e argumentos já não
valem. O irracionalismo só permite o entrechoque de milhões de miúdas
«cosmovisões», tornado possível pela internet, ou então – e assim se verifica –
o seu aglutinamento nodular numa rede sem fim de crendices pessoais, das mais
diversas proveniências, mas sobretudo de religiões esotéricas, mistéricas,
gnósticas, secretas... Não é por acaso que os livros de magia, astrologia, e os
apócrifos (originalmente apresentados como secretos) suscitem tanta procura. À
falta de verdade objectiva, surge o recurso ao ocultismo, aberto apenas aos
«iniciados»...
Neste ambiente irracional,
como anunciar o Evangelho? «Não tenhais medo!», repete-nos o Santo Padre. Esse
era o ambiente em que viviam os primeiros cristãos. Tal como outrora, «o
encontro com Cristo, continuamente aprofundado na intimidade eucarística,
suscita na Igreja e em cada cristão, a
urgência de testemunhar e evangelizar», recorda-nos na Carta Apostólica
«Fica connosco, Senhor» (nº 24).
Se as palavras parecem já não
servir, porque se esvaziaram de sentido certo e claro, as almas continuam
sensíveis ao testemunho, ao exemplo, à vida cristã coerente. Sensíveis à
profunda alegria da fé, da esperança e da caridade, porque desejam a felicidade
acima de tudo. E só nós podemos oferecer-lhes a paz da alma e da inteligência.
Ao verem em nós uma alegria «inexplicável», pedir-nos-ão que lha expliquemos. E
então as palavras voltam a ser luz.
Não tenhamos medo. Como os
primeiros cristãos, anunciemos com a nossa vida Cristo morto e ressuscitado, e
sempre atrairemos a Ele muitas almas.