TEMAS LITÚRGICOS
EUCARISTIA E CONVERSÃO *
Com este título, publicou o Secretariado Diocesano de
Liturgia do Porto um artigo que muito nos poderá ajudar a redescobrir a
importância que a valorização da Eucaristia significa em relação à libertação
do pecado, à conversão. Cristo veio
trazer-nos a libertação e quer a nossa conversão
como nos lembram as palavras da consagração: «... Isto é o meu Corpo que
será entregue por vós», «... este é o cálice do meu Sangue que será
derramado por vós e por todos para remissão dos pecados».
As «Sugestões e propostas para o ano da Eucaristia» publicadas pela
«Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos» dedicam o n.º
22 ao tema da conversão como
dimensão integrante da espiritualidade eucarística que importa cultivar. E
começa com 5 citações do «Ordinário da Missa»:
3 dos ritos iniciais:
1.
– a monição introdutória do acto penitencial («Para celebrarmos dignamente os
santos mistérios, reconheçamos que somos pecadores»),
2.
– a invocação Kyrie eleison e
3.
– a súplica «Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai: Vós que tirais o
pecado do mundo, tende piedade de nós», que é parte integrante do hino «Glória a Deus nas alturas...»
e 2 dos ritos de comunhão:
1.
– (a breve ladainha «Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende
piedade de nós», que acompanha a fracção do pão eucarístico;
2.
– e a oração do centurião do Evangelho, com que a assembleia se prepara para a
comunhão: «Senhor, eu não sou digno...»).
Mas essas citações estão bem
longe de esgotar este filão tão rico. Assim, poderíamos acrescentar:
– durante a Liturgia da Palavra: a oração com que o
padre ou diácono se prepara em silêncio para proclamar o Evangelho e a oração
que pronuncia, também em silêncio, quando beija o evangeliário;
– durante a Apresentação dos Dons: a oração «De
coração humilhado e contrito...» que o sacerdote recita silenciosamente,
inclinado diante do altar, antes da incensação das oblatas e do Lavabo; o
próprio Lavabo;
– durante a Oração Eucarística, que é toda ela uma
oração de acção de graças e de louvor, este acento não desaparece; basta pensar
na menção, absolutamente central, do «Sangue derramado para a remissão dos
pecados»; em alguns dias, com o uso de prefácios especiais e, eventualmente,
das orações eucarísticas da reconciliação (ver apêndice do Missal), esta dimensão
é ainda mais reforçada;
– Nos ritos da comunhão, para além das menções já citadas, importa
referir a oração do Pai-nosso em que se pede o perdão das ofensas; o embolismo
que se lhe segue («Livrai-nos de todo o
mal...»); a oração pela paz («Senhor
Jesus Cristo... não olheis para os nossos pecados...»); e a oração
silenciosa com que o sacerdote se prepara para a comunhão em qualquer das duas
formas.
Já o rito da paz «não tem a
conotação de reconciliação nem de remissão dos pecados, mas antes a função de
manifestar a paz, comunhão e caridade antes de receber a Santíssima Eucaristia»
(Instr. Sacramento da Redenção, n.
71).
Em suma: estamos perante um
tema que aflora em toda a trama da celebração eucarística e que, por força,
há-de imprimir uma marca na vivência espiritual dos fiéis que participam assiduamente
neste Banquete Sagrado.
Para alguns, esta insistência
poderá parecer exagerada e, até, obsessiva. De facto, no nosso tempo a
consciência do pecado anda obscurecida. Não obstante a evidência do pecado, com
as suas consequências devastadoras a nível pessoal, social e estrutural, uma
enganadora presunção de inocência vai-nos fechando o caminho da autêntica
conversão. Por isso o nosso tempo é cheio de «diversões» mas triste.
Viver da Eucaristia para a
Eucaristia é reencontrar o caminho da conversão e da alegria que sabe
agradecer. «A Eucaristia estimula à conversão e purifica o coração penitente,
consciente das próprias misérias e desejoso do perdão de Deus, sem contudo se
substituir à confissão sacramental, único modo ordinário, quanto aos pecados
graves, para receber a reconciliação com Deus e com a Igreja...
Esta atitude do espírito deve
prolongar-se em cada dia, sustentada pelo exame de consciência... Ver com
transparência as nossas misérias liberta-nos da auto-complacência, mantém-nos
na verdade diante de Deus, leva-nos a confessar a misericórdia do Pai que está
nos céus, mostra-nos o caminho que nos espera, conduz-nos ao sacramento da
Penitência. Abre-nos depois ao louvor e à acção de graças. Ajuda-nos,
finalmente, a ser benévolos para com o próximo, com quem partilhamos as
fragilidades, e a perdoá-lo» (Sugestões e
propostas, n. 22).
* Com a devida vénia da Voz
Portucalense, 2 de Fevereiro de 2005.
A formatação do artigo é da responsabilidade
da redacção da CL.