TEOLOGIA E MAGISTÉRIO
O DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL
D. Manuel Monteiro de Castro
Núncio Apostólico em Espanha
1. Introdução
A Igreja considera como parte
da sua missão tudo o que se refere ao homem, à sua dignidade e ao seu
bem-estar. Em muitas ocasiões tem-se pronunciado sobre a natureza, as
condições, as exigências e a finalidade do verdadeiro desenvolvimento assim
como sobre os obstáculos que a ele se opõem.
A Igreja analisa o
desenvolvimento e os meios de o realizar, na sua dimensão moral, essencial em
toda a actividade humana. Reflecte sobre a complexa realidade da existência do
homem na sociedade e no mundo, isto é, no contexto internacional, à luz dos
princípios da doutrina social da Igreja. A finalidade de tal reflexão é
interpretar a dita realidade humana e verificar se é ou não conforme aos seus
princípios sobre o homem e a sua vocação. Está centrada, portanto, no campo da
teologia. Está direccionada para oferecer orientações destinadas a guiar a
conduta humana.
2. Noção
O que é o desenvolvimento? O
que é o desenvolvimento sustentável?
Desenvolvimento significa
progresso. Desenvolvimento económico indica
aumento da produção industrial, agrícola e de serviços e, consequentemente, do
rendimento nacional por habitante, que se obtém dividindo o rendimento nacional
(soma dos rendimentos públicos e privados de um país) pelo número dos seus
habitantes. Depois da II Guerra Mundial fala-se muito de desenvolvimento e
subdesenvolvimento, de países ricos e de países pobres, de técnicas de produção
e de muitos temas relacionados com o aumento da produtividade.
Desenvolvimento sustentável é
aquele «que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a
possibilidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias
necessidades». Assim o define o Relatório Brundtland, de 1987 [1].
O desenvolvimento sustentável
visa melhorar a qualidade de vida dos cidadãos do mundo «sem aumentar a
utilização dos recursos naturais para além da capacidade do meio ambiente, a
fim de dispor deles indefinidamente» (Rede de Comunicações sobre
Desenvolvimento Sustentável – RCDS).
Na história dos povos, vemos
como deixavam repousar a terra, depois de anos de sementeira, para que, mais
tarde, pudesse frutificar melhor. É necessária uma certa harmonia entre o
homem, a terra e a economia. Em tempos de globalização, é necessário conjugar
estes factores à escala mundial.
O conceito de desenvolvimento sustentável tem sido
objecto de particular estudo a partir de 1980. As diversas sessões da Cimeira sobre
a Terra, desde 1992, têm tido repercussão planetária. Neste contexto temos o
relatório Brundtland.
As Nações Unidas e as suas
Agências, os Governos, instituições como o Banco Mundial, e Organizações Não
Governamentais estudam a problemática relativa ao desenvolvimento sustentável,
tendo presentes características comuns, como: equidade, justiça, visão a longo
prazo e inter-conexão entre sociedade, meio ambiente e produtividade.
Procura-se que a riqueza do mundo esteja ao serviço de todos os homens.
João Paulo II diz:
«Igualmente preocupante, ao lado do problema do consumismo e com ele
estritamente ligada, é a questão
ecológica. O homem, levado mais pelo desejo de ter e de gozar, do que pelo
de ser e de crescer, consome de maneira excessiva e desordenada os recursos da
terra e a sua própria vida. Na raiz da destruição insensata do ambiente
natural, há um erro antropológico, infelizmente muito espalhado no nosso tempo.
O homem, que descobre a sua capacidade de transformar e, de certo modo, ‘criar’
o mundo com o próprio trabalho, esquece que este se desenvolve sempre sobre a
base da primeira e originária doação das coisas por parte de Deus. Pensa que
pode dispor arbitrariamente da Terra, submetendo-a sem reservas à sua vontade,
como se ela não possuísse uma fisionomia própria e um destino anterior dados
por Deus, que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair (…)».
«Note-se aqui, antes de mais,
uma pobreza ou mesquinhez da visão humana, mais animada pelo desejo de possuir
as coisas do que relacioná-las com a verdade, e privada daquela atitude
desinteressada, gratuita, estética que brota do assombro diante do ser e da
beleza, que permite ler, nas coisas visíveis, a mensagem do Deus invisível que
as criou. A respeito disso, a humanidade de hoje deve ser consciente dos seus
deveres e tarefas para com as gerações futuras» [2].
O desenvolvimento sustentável
visa o progresso, pretende aumentar a produção, mas não a qualquer preço. No
âmbito nacional e internacional, particularmente no mundo globalizado em que vivemos,
não se pode estudar um problema de tanta envergadura esquecendo os seus
aspectos éticos.
3. Sujeito ou centro do desenvolvimento
O sujeito, o centro do
desenvolvimento sustentável é o homem, todo o homem, em todo o mundo, sem
nenhum tipo de discriminação por razão de sexo, raça, cor, características
genéticas, língua, religião ou convicções políticas, idade, deficiência, entre
outras.
Adverte JOÃO PAULO II: «… no
desenvolvimento, os protagonistas são as pessoas. As pessoas são os sujeitos do
verdadeiro desenvolvimento; elas são o objectivo do autêntico desenvolvimento.
O desenvolvimento integral das pessoas é a meta e a medida de todo o projecto
de desenvolvimento»[3].
4. Fundamento
O fundamento de semelhante
meta do desenvolvimento sustentável está na própria natureza humana,
«inspira-se numa profunda verdade sobre o homem: todos nós constituímos uma só
família humana. Pelo facto de vir a este mundo somos partícipes de uma mesma
herança e somos membros da estirpe comum a todos os seres humanos. Essa unidade
expressa-se na diversidade e riqueza da família humana. Todos somos chamados a
reconhecer esta solidariedade básica da família humana como condição
fundamental da nossa vida sobre a terra. (…) é uma consequência da unidade da
família humana, fundamento que é independente de qualquer descoberta
tecnológica ou científica» [4].
5. Somos chamados a agir
Somos chamados a uma acção
concertada a favor do desenvolvimento sustentável de todos os países.
O mundo de hoje é muito
sensível à solidariedade, a actos concretos de ajuda em caso de catástrofes, a
favor dos deficientes, dos anciãos e de quantos sofrem. Multiplicam-se as
Organizações Não Governamentais, todas elas, de uma forma ou outra, orientadas
para aliviar o sofrimento dos membros menos favorecidos da família humana.
Falando precisamente neste mesmo sentido, o Papa acrescenta: «…
podemos e devemos trabalhar juntos para fazer progredir o bem comum. Mas temos
que fazer ainda mais. Necessitamos de adoptar uma atitude de fundo ante a humanidade e com respeito aos laços que
nos unem a cada pessoa e a cada grupo no mundo (…) o urgente desafio que se nos
depara é constituído pela necessidade de adoptar uma atitude de solidariedade
social com toda a família humana e com essa atitude enfrentarmos todas as
situações sociais e políticas» [5].
A questão social ganhou
dimensões globais. Não basta o progresso económico, científico, tecnológico em
si mesmo. É necessário que tenha uma dimensão social e seja orientada para o
desenvolvimento integral do homem e o desenvolvimento solidário da humanidade.
É necessário «promover valores que beneficiem verdadeiramente os indivíduos e a
sociedade. Não basta estabelecer contactos e ajudar aqueles que sofrem
necessidades.
Temos de os ajudar a
descobrir os valores que lhes permitam construir uma nova vida e ocupar com
dignidade e justiça o seu lugar na sociedade. Todos têm direito a aspirar e a
alcançar o que é bom e verdadeiro. Todos têm direito a escolher aqueles bens
que melhoram a vida; e a vida na sociedade não é de modo algum algo moralmente
neutro. As opções sociais implicam consequências que podem promover ou degradar
o verdadeiro bem da pessoa na sociedade» [6].
6. Obstáculos
Não faltam dificuldades no
caminho do desenvolvimento sustentável no sentido aludido, isto é, do
desenvolvimento integral da pessoa e do desenvolvimento solidário da
humanidade.
Os grandes obstáculos a este
tipo de desenvolvimento residem no interior do ser humano: o desejo de ser mais que o vizinho, de ter mais que os irmãos e de querer o alheio. Há, depois, as pressões
de grupos ideológicos e políticos. Além disso, «a xenofobia, que leva a que determinadas nações se fechem em si
mesmas ou que determinados governos instaurem leis discriminatórias contra
grupos humanos dentro do mesmo país; o
encerramento arbitrário e injustificado de fronteiras (…); as ideologias que pregam o ódio ou a
desconfiança, os sistemas que erguem barreiras artificiais. O ódio racial, a
intolerância religiosa e as divisões de classes estão, infelizmente, muito
presentes em muitas sociedades, de modo claro ou assolapado. Quando os líderes
políticos erigem tais divisões em sistemas internos ou em programas políticos
que afectam as relações com as outras nações, esses preconceitos ferem a
dignidade humana no mais íntimo e acabam por ser uma poderosa fonte de reacções
que aprofunda as divisões, as inimizades, a repressão e a luta. Outro mal, que
durante o ano que acaba de terminar ocasionou tantos sofrimentos a muitas
pessoas e tanta destruição na sociedade, é o terrorismo» [7].
7. Como superar os obstáculos?
Os obstáculos ao
desenvolvimento sustentável podem superar-se com ideias fortes, como a
solidariedade, a partilha, o não fechar-se em si mesmo, o saber-se chamado a
ser um elemento activo na construção de uma nova sociedade, na qual a pessoa
humana ocupa o primeiro lugar.
João Paulo II fala do papel
das nações e das sociedades nos seguintes termos: «A solidariedade que favorece
o desenvolvimento integral é a que protege
e defende a legítima liberdade das pessoas e a justa segurança das nações. Sem
esta liberdade e segurança faltam as próprias condições para o desenvolvimento.
Não somente os indivíduos, mas também as nações devem ter a possibilidade de
participar nas opções que as afectam. A liberdade de que devem gozar as nações
para garantir o seu próprio crescimento e o seu desenvolvimento como membros de
pleno direito da família humana, depende do seu respeito mútuo. Procurar uma
superioridade económica, militar ou política à custa dos direitos de outras
nações, põe em perigo qualquer perspectiva de verdadeiro desenvolvimento (...)» [8].
O Papa menciona, além disso,
a importância de acordos regionais e o «intercâmbio de tecnologias e de
informação para prevenir desastres, ou para melhorar a qualidade de vida numa
determinada área» [9].
8. À maneira de conclusão
É uma exigência dos nossos
laços comuns de humanidade viver em harmonia e promover tudo aquilo que é bom
para uns e outros, recorda o Papa. E afirma: «O desenvolvimento vem a ser, em
última instância, uma questão de paz pelo facto de que ajuda a realizar o que é
bom para os outros e para a comunidade humana na sua totalidade. (…) vem a ser,
desta maneira, um processo que compromete os diversos membros da família
humana, enriquecendo-os a todos (…) o desenvolvimento converte-se numa oferta
que o irmão faz ao irmão, de tal maneira que ambos possam viver mais plenamente
dentro daquela diversidade e complementaridade que são sinal de garantia de uma
civilização humana» [10].
[1] World Commission on Environment and Development (WCED). Our common future. Oxford: Oxford University Press, 1987, p. 43.
[2] JOÃO PAULO II, Encíclica Centesimus Annus,
n. 27.
[3] JOÃO PAULO II, Mensagem para a Jornada Mundial da
Paz 1987, n. 6.
[4] ID., ibid., n. 1 e n. 6.
[5] ID., ibid., n. 3.
[6] ID., ibid., n. 6.
[7] ID., ibid., n. 4.
[8] ID., ibid., n. 6.
[9] ID., ibid., n. 4.
[10] ID., ibid., n.7.