TEMAS LITÚRGICOS

SÃO FRANCISCO DE ASSIS,

MODELO DE AMOR EUCARÍSTICO

 

 

Stefano Maria Manelli *

 

 

 

São Francisco de Assis, “ardia de amor em todas as fibras do seu ser para com o Sacramento do Corpo do Senhor, absolutamente estupefacto diante de tão amável condescendência e generosíssima caridade. Considerava grave sinal de desprezo não ouvir pelo menos uma Missa por dia, se o tempo lhe permitisse. Comungava com frequência e com tanta devoção que tornava devotos também os outros. (...)

“Um dia quis mandar os frades pelo mundo com píxides preciosas, para que guardassem num lugar mais digno possível o preço da Redenção, onde quer que o encontrassem guardado com pouco decoro.

“Queria que se mostrasse grande respeito pelas mãos do Sacerdote, porque a ele foi conferido o poder divino de consagrar este Sacramento. Dizia frequentemente: «Se me acontecesse encontrar ao mesmo tempo um Santo descido do céu e um Sacerdote pobrezinho, saudaria primeiro o Padre e correria a beijar-lhe as mãos. Até diria: Ouve, espera, São Lourenço, porque as mãos deste homem tocam o Verbo da Vida e possuem um poder sobre-humano»” [1].

Nesta estupenda página do beato Tomás de Celano, primeiro biógrafo de São Francisco de Assis, está resumida toda a sua vida Eucarística, rica de amor e de fé, de devoção e de fervor. Nada falta à exemplaridade de uma vida Eucarística plena e perfeita para todos: tanto para os próprios sacerdotes como para os simples fiéis.

A Santa Missa, a Sagrada Comunhão, a adoração Eucarística, o decoro do altar e das igrejas, a veneração pelos Sacerdotes, ministros da Eucaristia: em tudo isto São Francisco é de tal modo nosso mestre e modelo que se pode considerá-lo não só um Santo Eucarístico, mas um serafim enamorado da Eucaristia.

 

Para São Francisco, a fé na Eucaristia forma um todo com a fé na Santíssima Trindade e no Verbo Encarnado. E assim queria que fosse para todos. Por isso, escrevia com vigor e calor: «O Filho, enquanto Deus como o Pai, não difere em nada do Pai e do Espírito Santo. Por isso, todos os que viram somente a humanidade do Senhor Jesus Cristo e não viram nem creram, no Espírito de Deus, que ele era o verdadeiro Filho de Deus, foram condenados; de modo semelhante, todos os que vêm o Sacramento do Corpo de Cristo, que é sacrificado no altar pelas palavras do Senhor, mas pelo ministério do Sacerdote, sob as espécies do pão e do vinho, e não vêem nem crêem, segundo o Espírito de Deus, que é verdadeiramente o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, são condenados». E, pouco depois, continua sua admoestação com uma comparação apropriada: «Como aos Santos Apóstolos apareceu em Carne verdadeira, assim agora se nos mostra no Pão Consagrado; e como eles com o olhar físico viam só a sua Carne, mas contemplando com os olhos da fé acreditavam que Ele era Deus, assim também nós, vendo o Pão e o Vinho com os olhos do corpo, vejamos e acreditemos firmemente que são o seu Santíssimo Corpo e Sangue vivo e verdadeiro» [2].

Esta fé e este amor chegarão ao ponto de o fazer exclamar muitas vezes que «do altíssimo Filho de Deus nada mais vejo corporalmente, neste mundo, senão o seu Santíssimo Corpo e Sangue (...). E quero que estes Santíssimos mistérios sejam, sobre todas as coisas, honrados, venerados e colocados em lugares preciosos» [3]

O amor à Casa do Senhor é inseparável do amor à Eucaristia. Não se pode amar a Jesus e descuidar a sua Casa. Também nisto São Francisco deixou-nos uma lição estupenda de fervor e concretização. Ele preocupava-se pessoalmente com a limpeza das igrejas, dos cálices e das píxides, das toalhas e das hóstias, dos vasos de flores e das lâmpadas.

     Exortava os ministros do altar a serem fervorosos e fiéis em cuidarem o Santíssimo Sacramento com todo o decoro e reverência. Numa carta aos Custódios, parece escrever de joelhos: «Rogo-vos, mais do que por mim mesmo, que, quando for conveniente e virdes necessário, supliqueis humildemente aos Sacerdotes que venerem sobre todas as coisas o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo (...). Os cálices, os corporais, os ornamentos dos altares e tudo o que diz respeito ao Sacrifício devem ser preciosos. E se em algum lugar estiver colocado de modo miserável o Santíssimo Corpo do Senhor, seja por eles colocado segundo o preceito da Igreja num lugar precioso, e guardado e levado com com grande veneração e administrado aos outros de devido modo (...). E quando é consagrado pelo Sacerdote no altar e é levado a alguma parte, todos, de joelhos, prestem louvor, glória e honra ao Senhor Deus vivo e verdadeiro» [4].

 

São Francisco não se cansa de recomendar aos sacerdotes sobretudo a humildade, referindo o exemplo do próprio Cristo, o qual «todos os dias se humilha, como quando do trono real desceu ao seio da Virgem: com efeito, todos os dias Ele próprio vem a nós em humilde aparência, todos os dias desce do seio do Pai ao altar nas mãos do Sacerdote» [5].

E as mãos do Sacerdote deveriam ser puras como as de Nossa Senhora, recomenda o Pai Seráfico, exprimindo-se com estas palavras sublimes: «Escutai, meus irmãos: se a bem-aventurada Virgem é assim honrada, como é justo, porque O trouxe no seu santíssimo seio (...), como não deve ser santo, justo e digno quem toca com as mãos, recebe no coração e na boca e dá aos outros para tomarem, Aquele que já não morre, mas é eternamente vivo e glorificado, em quem os anjos desejam fixar o olhar!» [6].

Por isso, considerando tais e tão sublimes tarefas do Sacerdote, São Francisco não pode deixar de fazer uma dolorosa e amarga constatação a respeito de todos os Sacerdotes: «É grande miséria e miserável debilidade, quando tendo-O assim presente vos preocupais com qualquer outra coisa em todo o mundo» [7]. Se cada sacerdote pudesse reflectir sobre o chamamento do Pai Seráfico!

A conclusão de todo o discurso sobre a piedade e sobre a vida Eucaristica segundo São Francisco de Assis podemos encontrá-la nesta sua exortação, que vale certamente também para todos nós: «Não retenhais nada de vós para vós mesmos, para que vos receba a todos Aquele que a vós se dá por inteiro» [8]. Ser um do outro, ser um no outro: não é talvez este o conteúdo das divinas palavras de supremo amor de Jesus: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele» (Jo 6,56)?

 

 



[1] Celano, Tomás de, Segunda vida de São Francisco, cap. 152, in Fontes Franciscanas (FF), Ed. Mensageiro de Santo António, Santo André 2005.

[2] Francisco de Assis, S., Admoestações, nn. 7-9.19-21, in FF.

[3] Francisco de Assis, S., Testamento, nn. 10-11, in FF.

[4] FRANCISCO DE ASSIS, S., Carta I aos Custódios, nn. 2-7, in FF.

[5] FRANCISCO DE ASSIS, S., Admoestações, 1, 16-18, in FF.

[6] FRANCISCO DE ASSIS, S., Carta a toda a Ordem, nn. 21-22, in FF.

[7] Ibidem, n. 25, in FF.

[8] Ibidem, n. 29, in FF.


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