2º
Domingo da Páscoa
3 de Abril de 2005
RITOS INICIAIS
Cântico
de entrada: Eis o dia que o Senhor fez, J. Santos, NRMS 17
1 Pedro 2, 2
Antífona
de entrada: Como crianças
recém–nascidas, desejai o leite espiritual, que vos fará crescer e progredir no
caminho da salvação. Aleluia.
Ou:
4 Es 2, 36–37
Exultai de alegria, cantai
hinos de glória. Dai graças a Deus, que vos chamou ao reino eterno. Aleluia.
Diz–se o Glória.
Introdução ao espírito da
Celebração
A história do incrédulo Tomé
quer nos ensinar que não era mais fácil crer em Jesus só porque era seu
contemporâneo, e que os que acreditarem sem precisar ver serão felizes. Será
que sentimos verdadeiramente na nossa vida a alegria de crer e vivemos a nossa
fé como fonte de alegria, ou às vezes a vemos como uma carga mais ou menos
pesada?
Oração
Colecta: Deus de eterna misericórdia,
que reanimais a fé do vosso povo na celebração anual das festas pascais,
aumentai em nós os dons da vossa graça, para compreendermos melhor as riquezas
inesgotáveis do Baptismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos
renovados e do Sangue com que fomos redimidos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo,
vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Liturgia da Palavra
Primeira Leitura
Monição: Muitos
pensam que a fé cristã é assunto pessoal, individual. A relação de cada um com
Deus, com Jesus Cristo, expressa na oração e na prática de certas normas
rituais e morais. Desconhecem que os primeiros cristãos exprimiam a sua fé em
Cristo pela sua comunhão fraterna assídua. O primeiro fruto da fé é a comunhão
com os outros crentes e não um sentimento unicamente interior.
Actos dos Apóstolos 2, 42–47
42Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à
comunhão fraterna, à fracção do pão e às orações. 43Perante os
inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, toda a gente se
enchia de temor. 44Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e
tinham tudo em comum. 45Vendiam propriedades e bens e distribuíam o
dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um. 46Todos os
dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em
suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração, 47louvando
a Deus e gozando da simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava todos os dias
o número dos que deviam salvar–se.
Esta é a primeira das três «descrições sumárias» de Actos da primitiva comunidade cristã de Jerusalém. Temos outras em: Act 4, 32-35; e 5, 12-16. Nestas descrições focam-se três aspectos da vida dos primeiros cristãos de Jerusalém: a sua vida religiosa, o cuidado dos pobres e os prodígios realizados pelos Apóstolos, insistindo-se ora num, ora noutro aspecto; aqui insiste-se na vida religiosa. Os relatos sumários são breves resumos da vida da Igreja, que não se reduzem a estes três relatos maiores. Os críticos vêem nalguns deles uma descrição um tanto idealizada, pois é feito um juízo global a partir de casos concretos, como quando se diz que ninguém tinha nada seu (4, 42), ou que todos eram curados (5, 16), etc. A credibilidade do conteúdo destes sumários é no entanto confirmada pelo facto de que a clara visão idílica de alguns sumários não leva o autor a deformar a realidade, pois não esconde acontecimentos que podiam embaciar essa visão tão optimista (por ex., o caso de Ananias e de Safira, em Act 5, 1-11).
42 «O ensino dos Apóstolos». Os Apóstolos não se limitavam a pregar em ordem à conversão inicial e ao Baptismo (cf. Act 2, 14-41); dedicavam-se também a uma instrução catequética dos que já tinham a fé.
«A comunhão fraterna», isto é, havia uma grande unidade de espíritos e de corações («um só coração e urna só alma» Act 4, 32); a tradução latina da Vulgata interpretou a expressão no sentido da comunhão eucarística («comunhão da fracção do pão»), uma vez que, de facto, este Sacramento é o fundamento da união de todos os cristãos entre si: 1 Cor 10, 17.
«Fracção do pão»: partir do pão era o nome primitivo dado à celebração da Eucaristia, um nome tirado do gesto de Jesus de partir o pão na Última Ceia. Com toda a probabilidade, temos aqui uma referência à celebração eucarística, designada desta maneira em 1 Cor 10, 16-17 e Act 20, 7
44 «Tinham tudo em comum». Esta atitude extraordinariamente generosa ficou para sempre como um luminoso exemplo de como «compartilhar com os outros é uma atitude cristã fundamental… Os primeiros cristãos puseram em prática espontaneamente o princípio segundo o qual os bens deste mundo são destinados pelo Criador à satisfação das necessidades de todos sem excepção» (Paulo VI). Esta atitude cristã nada tem que ver com a colectivizarão de toda a propriedade privada imposta por um estado totalitário, pois aqui era respeitada a liberdade individual, podendo não se pôr tudo em comum, por isso em Actos se louva o gesto de Barnabé (Act 4, 36-37) e se censura a fraude de Ananias (Act 5, 4). Daqui se conclui que o «todos» do texto é uma generalização.
46 No princípio, os cristãos de Jerusalém continuavam a participar nos actos de culto judaico, acrescentando a essas práticas um novo rito que celebravam nas casas particulares: a Eucaristia, que, como é óbvio, não podiam celebrar no Templo. O original grego sugere mesmo que esta se celebrava, ora numa casa, ora noutra. Pode-se perguntar se a celebrariam diariamente. Não é certo, mas a sua celebração no «primeiro dia da semana» consta-nos de Act 20, 7.11; 1 Cor 16, 2; cf. Didaquê, 14, 1, dia que já na época apostólica se começa a chamar «dia do Senhor», isto é, Domingo (cf. Apoc 1, 10).
«Com alegria». 5. Lucas sublinha frequentemente esta alegria dos primeiros cristãos: (Act 5, 41; 8, 8.39; 13, 48-52; 15, 3; 16, 34), bem como o tom de louvor que havia na sua vida de oração (v. 47; cf. 3, 8.9; 4, 21; 10, 46; 11, 18; 13, 48; 19, 17; 21, 20).
Salmo Responsorial Sl
117 (118), 2–4.13–15.22–24 (R. 1)
Monição: A
bondade do Senhor é digna de ser louvada com gritos de júbilo porque o Senhor
fez grandes coisas pelo Seu povo.
Refrão: Dai graças ao Senhor,
porque Ele é bom,
porque é eterna a sua
misericórdia.
Ou: Aclamai o
Senhor, porque Ele é bom:
o seu amor é para sempre.
Ou: Aleluia.
Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Aarão:
é eterna a sua misericórdia.
Digam os que temem o Senhor:
é eterna a sua misericórdia.
Empurraram–me para cair,
mas o Senhor me amparou.
O Senhor é a minha fortaleza e
a minha glória,
foi Ele o meu Salvador.
Gritos de júbilo e de vitória
nas tendas dos justos:
a mão do Senhor fez prodígios.
A pedra que os construtores
rejeitaram
tornou–se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.
Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de
alegria.
Segunda Leitura
Monição: A fé não
é a atitude dos menor de pessoas menores. Ela é mais preciosa do que o ouro e é
garantia da herança do filhos de Deus.
1 São Pedro 1,
3–9
3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus
Cristo de entre os mortos, 4para uma esperança viva, para uma
herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece, reservada nos Céus
para vós 5que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para
a salvação que se vai revelar nos últimos tempos. 6Isto vos enche de
alegria, embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo, passar por diversas
provações, 7para que a prova a que é submetida a vossa fé – muito
mais preciosa que o ouro perecível, que se prova pelo fogo – seja digna de
louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo Se manifestar. 8Sem O
terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, acreditais n'Ele. E isto é para vós
fonte de uma alegria inefável e gloriosa, 9porque conseguis o fim da
vossa fé, a salvação das vossas almas.
Em todos os domingos pascais deste ano A vamos ter como 2ª leitura um trecho da 1ª Carta de Pedro. Estes vv. têm um certo aspecto de hino trinitário de sabor baptismal (v. 3): dão-se graças ao Pai (v. 3-5; cf. Ef 2, 4; Col 1, 12), pela obra salvadora do Filho (v. 6-9); a referência ao Espírito Santo é deixada for a da leitura de hoje (vv. 10-12).
3-4 «Nos fez renascer pela Ressurreição». A Ressurreição de Jesus, facto realmente sucedido «ao terceiro dia», tem uma dimensão existencial que nos afecta «hoje, agora»: pela união a Cristo ressuscitado, também nós ressuscitamos para uma vida nova (cf. Rom 6, 4-11), «renascemos para uma esperança viva» (cf. Jo 1, 13; 3, 5-7; Gal 6, 15; Tit 3, 5); é assim a esperança cristã, não uma mera utopia: o seu objecto material é a verdadeira vida, a vida eterna: «uma herança que não se corrompe... herança reservada nos Céus para vós» (vv. 3-4).
6 «Isto vos enche de alegria». A esperança na «herança» e «salvação» eternas é fonte de alegria no meio das «diversas provações» pelas que «é preciso passar». Isto não tem nada de alienante, uma vez que o objecto da esperança, o Céu, tem existência real e está ao nosso alcance: a certeza da esperança é firmíssima e não nos deixa confundidos, uma vez que Deus é «omnipotente, infinitamente misericordioso e fidelíssimo às suas promessas», havendo apenas a recear de nós próprios, que podemos vir a ser infiéis a Deus e a seu plano salvador. Esta esperança no Céu é algo que responsabiliza os cristãos mais fortemente do que os demais cidadãos, uma vez que eles sabem que não podam chegar ao Céu se não se preocupam pelo bem dos seus semelhantes, incluindo o que respeita ao bem-estar material (cf. Mt 25, 34-46).
«Sem O verdes ainda, acreditais n’Ele». É fácil descobrir nestas palavras uma alusão ao que, na Missa de hoje, Jesus diz a Tomé.
A vida cristã, vida de ressuscitados com Cristo, é uma vida teologal, vida de fé, esperança e amor, a qual nos leva a estar «cheios de alegria inefável», já agora.
Aclamação ao Evangelho Jo 20, 29
Monição: A festa
da Páscoa não cabe num único dia, prolonga-se por oito dias até ao Domingo de
Pascoela para que o canto do «aleluia» ressoe continuamente como um cântico de
vitória.
Aleluia
Disse o Senhor a Tomé:
«Porque Me viste, acreditaste;
felizes os que acreditam sem
terem visto.
Cântico:
Aclamação –
4,F. Silva, NRMS 50-51
Evangelho
São João
20, 19–31
19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos
judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse–lhes: «A paz esteja
convosco». 20Dito isto, mostrou–lhes as mãos e o lado. Os discípulos
ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de
novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a
vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o
Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão
perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». 24Tomé, um
dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Disseram-lhe
os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas
suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão
no seu lado, não acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os
discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas
fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois
disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e
mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé
respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque
Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». 30Muitos
outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão
escritos neste livro. 31Estes, porém, foram escritos para
acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando,
tenhais a vida em seu nome.
19 «A paz esteja convosco!» Não se trata de uma mera saudação, a mais corrente entre os Judeus, mesmo ainda hoje. Esta insistência joanina nas palavras do Senhor ressuscitado (vv. 19.21.26) é grandemente expressiva: com a sua Morte e Ressurreição Jesus acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus, origem e alicerce de toda a verdadeira paz (cf. Jo 14, 27; Rom 5, 1; Ef 2, 14; Col 1, 20).
20 «Ficaram cheios de alegria». Esta observação confere ao relato uma grande credibilidade; com efeito, naqueles discípulos espavoridos (v. 19), desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção de alegria, ao verem o Senhor; ao contrário do que era de esperar, não se verifica aqui o esquema habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre há uma reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos Apóstolos procede da certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de verem como Jesus reatava com eles a intimidade anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha da sua deslealdade.
22 «Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo». Este soprar de Jesus não é ainda «o vento impetuoso» do dia de Pentecostes; é um sinal visível do dom invisível do Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa sopro). Esta efusão do Espírito Santo não é a mesma que se dá 50 dias depois. Aqui, tem por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só aos Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que no dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos reunidos com Maria no Cenáculo, iluminando-os e fortalecendo-os com carismas extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que já estavam incumbidos.
23 «A quem perdoardes os pecados…»: não se trata de um mero preceito da pregação do perdão dos pecados que Deus concede a quem confia nesse perdão (interpretação protestante); é uma das poucas passagens da Bíblia cujo sentido foi solenemente definido como dogma de fé: estas palavras «devem entender-se do poder de perdoar e reter os pecados no Sacramento da Penitência» (DzS 913); o mesmo Concílio de Trento também se baseia nestas palavras para falar da necessidade de confessar todos os pecados graves depois do Baptismo, uma doutrina que tem vindo a ser reafirmada pelo Magistério: «a doutrina do Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente na prática»; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colectiva de pecados graves ficam com a grave obrigação de os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da Congregação para a Doutrina da Fé, 16-VI-1972).
«Ser-lhes-ão
perdoados»: esta expressão é muito forte, pois temos aqui o chamado passivum divinum, isto é, o uso judaico
da voz passiva para evitar pronunciar o nome inefável de Deus; sendo assim, a
expressão corresponde a «Deus lhes
perdoará», e «serão retidos» equivale
a «serão retidos por Deus», isto é,
Deus não perdoará.
24 «Tomé», nome aramaico Tomá significa «gémeo»; em grego, dídymos.
29 «Felizes os que acreditam sem terem visto». Para a generalidade dos fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais apoio humano verificável do que o testemunho grandemente crível da pregação apostólica e da Igreja através dos séculos (cf. Jo 17, 20). Para crer não precisamos de milagres, chega a graça, que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade de coração. O facto de as coisas da fé não serem evidentes, nem uma mera descoberta da razão, só confere mérito à atitude do crente, que crê porque Deus, que revela, não se engana nem pode enganar-nos. Por isso, Jesus proclama-nos «felizes», ao submetermos o nosso pensamento e a nossa vontade a Deus na entrega que o acto de fé implica. Tanto Tomé, naquela ocasião, como nós, agora, temos garantias de credibilidade suficientes para aceitar a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas para não crer são escusas culpáveis, escusas de mau pagador.
30-31 Temos aqui a primeira conclusão do Evangelho de S. João que nos deixa ver o objectivo que o Evangelista se propôs. Este Evangelho foi escrito para crermos que «Jesus é o Messias, o Filho de Deus». Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca ou caminhada sem uma base doutrinal, um conteúdo de ensino (cf. Rom 6, 17), pois exige que se aceitem «verdades» como esta, a saber, que Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou messiânico, mas o «Filho Unigénito que está no seio do Pai» (Jo 1, 18), verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: «Meu Senhor e meu Deus» (v. 28; cf. Jo 1, 1; Rom 9, 5). Há quem veja o Evangelho segundo S. João contido dentro de uma grande inclusão, que põe em evidência a divindade de Cristo: Jo 1, 1 (O Verbo era Deus) e Jo 20, 28 (meu Senhor e meu Deus), tendo como centro e clímax a afirmação de Jesus: Eu e o Pai somos Um (10, 30).
Sugestões para a homilia
A fé em Jesus Cristo
ressuscitado e o facto de termos recebido o Espírito Santo nos incorporam
necessariamente à comunidade cristã, à Igreja, que não se reduz, como tantas
vezes pensamos e dizemos, no papa, bispos e padres, ou seja, à chamada
«hierarquia», mas que está constituída por todos os que crêem: homens e
mulheres, de todas as idades, que exercem nela diversos ministérios e levam
diferentes formas de vida, mas tendo todos muitas coisas em comum, precisamente
aquelas que hoje nos apontava a leitura do livro dos Actos dos Apóstolos. Em
primeiro lugar a fé comum, «o ensinamento dos apóstolos», o Evangelho, em suma,
que remonta, através dos apóstolos, às palavras mesmas de Jesus. Em segundo
lugar a comunhão de bens, característica bem chamativa da comunidade primitiva,
chegando até a vender as propriedades para depositar a quantia equivalente no
fundo comum do qual se provia as necessidades de todos e de cada um, de forma
que ninguém passasse necessidade. Vem em terceiro lugar «a fracção do pão», a
partilha do pão, isto é, a celebração eucarística durante uma refeição
comunitária, um ágape no qual se consumiam alimentos diversos e no meio do qual
se fazia a memória de Jesus, de sua morte e ressurreição, evocando seus gestos
e palavras da última ceia. Finalmente as «orações», momentos especiais de
preces comunitárias, possivelmente nas mesmas horas em que os judeus costumavam
fazer as suas: ao amanhecer, ao meio dia e à tarde.
A Igreja era de verdade como
está retratada nesta leitura? A resposta evidente é que não, pois a leitura nos
apresenta acima de tudo um ideal que cada um, cada comunidade cristã e a Igreja
toda em geral, deveríamos atingir. É possível que a primitiva comunidade cristã
nem tenha sido tão perfeita como se descreve na leitura; o mesmo livro dos
Actos dos Apóstolos, em outras passagens, nos falam de suas imperfeições e seus
problemas. Mas são Lucas quis nos deixar este retrato ideal, este espelho da
perfeição cristã, no qual todos devemos olhar para cairmos na conta de que
estamos bem distantes do modelo ideal.
A segunda leitura está tirada
da 1ª carta de São Pedro é dirigida a pagãos convertidos ao cristianismo, que
vivem sua fé em meio a graves dificuldades e num ambiente hostil. O autor deixa
conselhos para as diferentes classes de pessoas: aos escravos cristãos de
senhores pagãos, às esposas cristãs de esposos pagãos, aos dirigentes das
comunidades cristãs; a cristãos em geral que convivem em meio a costumes pagãos
e com a hostilidade que esses grupos minoritários e singulares sempre provocam
no meio de uma civilização desenvolvida. O fragmento lido hoje parece uma
homilia baptismal pois fala da acção de Deus, por meio da ressurreição de Jesus
Cristo, que nos faz nascer de novo «para uma esperança viva, uma herança
incorruptível». Trata-se, pois, de Deus Pai que faz de nós os seus filhos e,
assim sendo, nos destinou uma herança digna de sua magnificência e de sua
infinita misericórdia e ternura. O autor nos exorta a perseverar, mesmo entre
as dificuldades, pois assim se consolidará e purificará a fé que professamos,
como o ouro no cadinho, uma imagem bem viva e muito usada na Bíblia. Esta fé
tem por objecto Jesus Cristo a quem, diz o autor, amamos e em quem acreditamos
mesmo sem tê-lo visto. Dele procede toda a alegria que experimentamos neste
tempo pascal.
A leitura do evangelho de
João nos apresenta duas aparições do Senhor ressuscitado a seus discípulos, uma
no mesmo dia da ressurreição, e outra, oito dias após. Na primeira estava
ausente o apóstolo Tomé, que ao inteirar-se do facto pelos seus companheiros,
não quis dar crédito às suas palavras e pediu «provas palpáveis» do
acontecimento. Na segunda aparição estava presente Tomé, a quem Jesus convida a
tocar suas chagas, a pôr a mão em seu peito trespassado pela lança. Agora, sim,
Tomé confessa humildemente «Meu Senhor e meu Deus» e Jesus lhe censura por sua
incredulidade, por não ter confiado no testemunho dos demais apóstolos.
Encontramos aqui uma bem-aventurança pronunciada pelo próprio
Jesus ressuscitado, que chega
a todos os crentes de todos os tempos: «Bem-aventurados os que crêem sem ter
visto», ou seja, os que aceitam o testemunho da vida e da pregação da Igreja. A
nós todos, que com tanta alegria celebramos este tempo pascal, chega também a
bem-aventurança de Jesus.
A passagem do evangelho de
João que lemos é a conclusão de todo o livro.
Por isso as últimas frases
nos advertem que Jesus fez perante seus discípulos muitos outros sinais,
referindo-se a seus milagres e a todo o seu ministério público, à sua paixão e
sua ressurreição. O evangelista deu a entender que muitas outras coisas não
foram contadas e que o objectivo de seu evangelho é este: levar-nos à fé em
Cristo e, pela fé nele como Messias e Filho de Deus, obter a salvação. Esta é a
razão pela qual lemos o evangelho a cada domingo na igreja, para que alimente a
nossa fé.
Fala o Santo Padre
«As chagas do Senhor
ressuscitado constituem o sinal do amor misericordioso de Deus pela
humanidade.»
1. «A paz esteja convosco!». É
assim que Jesus se dirige aos Apóstolos na página evangélica deste domingo, que
encerra a Oitava de Páscoa. [...].
2. A liturgia de hoje
convida-nos a encontrar na Misericórdia divina a fonte da paz autêntica, que
Cristo ressuscitado nos oferece. As chagas do Senhor ressuscitado e glorioso
constituem o sinal permanente do amor misericordioso de Deus pela humanidade.
Delas sai uma luz espiritual que ilumina as consciências e infunde conforto e
esperança nos corações. Jesus, confio em ti! Repitamo-lo, conscientes de que
temos necessidade desta Misericórdia divina [...]. Quando as provações e as
dificuldades são mais ásperas, torne-se mais insistente a invocação do Senhor
ressuscitado, mais premente a imploração do dom do seu Espírito Santo,
manancial de amor e de paz.
3. Confiemos esta nossa oração
a Maria, que no dia de amanhã, festa litúrgica da Anunciação do Senhor,
recordaremos de maneira especial. O mistério da concepção de Jesus no seio da
Virgem, por obra do Espírito Santo, recorda-nos que a vida humana, assumida por
Cristo, é inviolável desde o seu primeiro instante. A contemplação do mistério
leva-nos a renovar o compromisso de amar, acolher e servir a vida. Trata-se de
um compromisso comum aos crentes e aos não-crentes, porque «a defesa e a
promoção da vida não são monopólio de ninguém, mas tarefa e responsabilidade de
todos» (Encíclica Evangelium vitae, 91).
A Virgem, Mãe da Misericórdia,
que, ao anúncio do Anjo, concebeu o Verbo encarnado, nos ajude a respeitar
sempre a vida e a promover a paz de maneira concorde.
João Paulo II, Angelus do
Domingo da Misericórdia Divina, 7 de Abril de 2002
Oração Universal
Irmãos, oremos a Deus
todo-poderoso, e imploremos a misericórdia
d’Aquele que é o Deus dos
vivos e não dos mortos, dizendo:
Ouvi-nos Senhor.
1. Pela Santa Igreja de Deus:
para que, seja
mais a Comunidade que vive e anuncia o Evangelho a todos
o homens,
oremos, irmãos.
2. Por todos os povos:
para que
prossigam pelos caminhos da justiça, da paz e da igualdade
entre todas as
pessoas Deus,
oremos, irmãos
3. Para que nunca percamos a esperança perante as dificuldades da
vida, e sejamos
sempre conscientes de que o Amor de Deus é mais forte
que a morte,
oremos, irmãos.
4. Para que o Senhor aumente cada vez mais a nossa fé e nossa
confiança nele,
e saibamos descobrir os mil gestos de seu amor que
diariamente
acontecem ao nosso lado,
oremos, irmãos
5. Para que todos nós vivamos nossa fé em Cristo ressuscitado numa
Comunidade que
saiba repartir com os demais tudo o que é e o que tem,
oremos, irmãos.
Senhor nosso Deus e nosso
Pai, fazei-nos encontrar no anúncio da
Ressurreição de Cristo Vosso
amado Filho a alegria que só Vós podeis
dar. Por Nosso Senhor Jesus
Cristo …
Liturgia Eucarística
Cântico
do ofertório: Bendita e louvada seja, M. Simões, NRMS 41
Oração
sobre as oblatas: Aceitai benignamente,
Senhor, as ofertas do vosso povo [e dos vossos novos filhos], de modo que,
renovados pela profissão da fé e pelo Baptismo, mereçamos alcançar a
bem–aventurança eterna. Por Nosso Senhor.
Prefácio pascal I [mas com
maior solenidade neste dia]: p. 469 [602–714]
No Cânone Romano dizem–se o
Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai
benignamente, Senhor) próprios. Nas Orações Eucarísticas II e III fazem–se
também as comemorações próprias.
Santo:
F. da Silva, NRMS 38
Monição da Comunhão
O Corpo que vamos comungar é
o mesmo que Tomé tocou mas, diante de tão grande mistério, os sentidos
desfalecem. Felizes somos porque acreditamos na Palavra de Jesus ao recebermos
este Corpo do Ressuscitado.
Cântico
da Comunhão: Porque me vês, acreditas, Az. Oliveira, NRMS 97
cf. Jo 20, 27
Antífona
da comunhão: Disse Jesus a Tomé: Com a
tua mão reconhece o lugar dos cravos. Não sejas incrédulo, mas fiel. Aleluia.
Cântico
de acção de graças: Cantai comigo,
H. Faria, NRMS 2 (II)
Oração
depois da comunhão: Concedei, Deus
todo–poderoso, que a força do sacramento pascal que recebemos permaneça sempre
em nossas almas. Por Nosso Senhor.
Ritos Finais
Monição final
Como podemos amar a Deus que
não vemos se não amarmos os irmãos que vemos. Ao sermos enviados para o mundo
como fermento da nova humanidade somos chamados a tornar visível o amor de Deus
para levar os homens a amarem o Deus invisível.
Cântico
final: Cristo ressuscitou vencedor,
M. Carneiro, NRMS 97
Celebração
e Homilia: Hermenegildo Faria
Nota
Exegética: Geraldo Morujão
Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha