DOCUMENTAÇÃO
CARDEAL PATRIARCA DE
LISBOA
A MAÇONARIA E A IGREJA
Com data de 22 de Janeiro passado, Solenidade de São Vicente
Mártir, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, publicou uma Nota
Pastoral para a Quaresma, «A Páscoa da Eucaristia», em que reafirma a
incompatibilidade da Maçonaria com a Igreja pela sua concepção da História e da
vida em sociedade.
Oferecemos aos leitores o correspondente excerto da Nota
Pastoral. Título da redacção da CL.
Uma visão cristocêntrica da História
2. Um aspecto fundamental da cultura é a definição de um
sentido da história. Esse sentido enquadra e inspira opções e acções, de
pessoas e de instituições, na busca da valorização da pessoa humana e do
progresso da sociedade. Há respostas a questões fundamentais – para onde
caminha a humanidade, em que consiste a plena realização da pessoa humana,
quais são as exigências da liberdade e da fraternidade, como se garante a
justiça e se caminha para a paz – a que só a cultura pode dar resposta. E os
cristãos não descobrirão esse «sentido da história» se, em cada Eucaristia não
reviverem esse acontecimento decisivo para a história da humanidade, que foi
Jesus Cristo e a sua Páscoa. Escreveu o Santo Padre: «Cristo está no centro não
só da história da Igreja, mas também da história da Humanidade. Tudo é
recapitulado n’Ele (Ef. 1,10; Col. 1, 15-20) … Cristo é o fim da
história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da
civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a
plenitude das suas aspirações».
Esta visão cristocêntrica e eucarística da história não
retira nada ao realismo e à complexidade da realidade humana contemporânea.
Dá-lhe um sentido de profundidade radical, porque os cristãos aprendem na
Eucaristia que não se pode desligar a construção da sociedade presente da
cidade definitiva, a «Jerusalém Celeste», em que brilhará a plena e definitiva
dimensão do triunfo pascal de Jesus Cristo. A liberdade torna-se força de
generosidade e de criatividade, o amor aparece como a única atitude que pode
construir a fraternidade, a justiça, a afirmação indiscutível da dignidade de
cada pessoa. De cada Eucaristia os cristãos partem com um entusiasmo renovado
para lutar por um mundo novo e aprendem a oferecer, na próxima celebração, as
suas lutas e esforços, as suas esperanças e utopias, a sua coragem para dar as
mãos a todos os que buscam o bem, e aí encontram força para as dificuldades,
hesitações e fragilidades. A construção de uma civilização do amor só pode
partir da Eucaristia. Nela encontramos Cristo vivo e sentimos que Ele assume e
faz suas todas as lutas da humanidade.
Mas há outras visões da História
3. Nós os católicos não podemos exigir que este sentido
cristocêntrico e eucarístico da história humana seja seguido por todos os
homens. Há outras culturas a inspirar o sentido da actividade humana. As
principais, porque mais numerosas, que hoje influenciam a construção da
história, são as que enraízam noutras grandes religiões, em que a unidade entre
a visão religiosa e o sentido ético de toda a existência humana são explícitas.
Embora reconhecendo o seu peso de influência no momento presente da vida da
humanidade, não as referirei agora explicitamente, porque elas não são a
alternativa principal à visão cristã da sociedade, no contexto cultural do
Ocidente em que nos situamos. Aqui, a visão do mundo que se contrapõe a uma
cultura de matriz cristã, em que a fé em Jesus Cristo, revitalizada
continuamente na Eucaristia, é fonte inspiradora do sentido de toda a vida humana,
são os diversos racionalismos naturalistas, baseados na exclusividade da razão
como fonte da verdade, no carácter absoluto da liberdade individual,
considerada como fonte principal do sentido ético e da moralidade, e os
pragmatismos de uma sociedade materialista, em que só tem valor o que é útil,
rentável, ou dá prazer.
A convivência dos cristãos com estas visões naturalistas e
racionalistas da história, pode fazer-se ao nível do debate das ideias, mas
sobretudo na coerência dos cristãos com Jesus Cristo em Quem acreditam e com a
Eucaristia que celebram. Só esse compromisso real na vida concreta, é
verdadeiramente fecundo na transformação da história. Não está garantido que
todos os católicos transponham para a vida e dêem densidade histórica à fé que celebram.
A tentação de reagir no mundo com critérios mundanos e reservar a dimensão
religiosa para uma esfera íntima e interior, é grande e expressão importante de
infidelidade. Separar a fé da vida concreta não é bom, nem para a fé, nem para
a vida, pois é exactamente a Vida verdadeira que celebram na Ceia do Senhor.
Esta perspectiva naturalista da história, de tendência
racionalista e naturalista, convergiu na visão laicista da sociedade, que
relega a fé para a esfera da privacidade individual, negando-lhe qualquer
influência na inspiração ética da história. Esta visão do mundo e do homem
exprimiu-se, ao nível do pensamento, em correntes filosóficas, foi
protagonizada socialmente por organizações, e dilui-se, hoje, na concepção
individualista da verdade e da liberdade. O mistério da Páscoa, celebrado na
Eucaristia, põe o cristão continuamente em confronto com o carácter inelutável
da Senhoria de Cristo ressuscitado como centro da história humana.
A Maçonaria e a definição do sentido da História
4. Entre as organizações que protagonizaram esta visão
imanente e laicista da história, avulta a importância da Maçonaria que, a
partir de meados do século XVII, fez sentir a sua influência em todas as
grandes correntes de pensamento e nas principais alterações sócio-políticas.
Não a referiria explicitamente, se um recente acontecimento não a tivesse
trazido para as primeiras páginas das notícias e tivesse criado, em muitos
católicos, interrogações e perplexidade. De facto, as cerimónias fúnebres de
uma importante personalidade do Estado e membro destacado da Maçonaria,
realizadas nos espaços da Basílica da Estrela, foram ocasião dessa confusão,
não tanto por o «depósito» do defunto se ter feito numa das capelas mortuárias
da Basílica, em princípio abertas a quantos respeitosamente as procuram, mas
porque o Grão-Mestre da Maçonaria, com o nosso desconhecimento, convocou para
um «ritual maçónico», em honra do defunto, a realizar num espaço da Basílica.
Esta iniciativa, que considero imprudente e indevida, provocou indignação em
muitos católicos, que incessantemente têm pedido um esclarecimento da
Hierarquia da Igreja.
É uma longa e atribulada história a das relações da
Maçonaria com a Igreja durante os últimos três séculos, expressa em ataques,
anti-clericalismo, rejeição da dimensão misteriosa da fé e da verdade revelada,
a que a Igreja respondeu com várias condenações, com penas de excomunhão para
os católicos que aderissem à Maçonaria. É um processo que tem de ser situado
nas grandes transformações culturais e sócio-políticas desse período, em que
elementos como a compreensão da natureza e legitimidade do poder político, a
promoção e defesa da liberdade individual, os processos revolucionários em
cadeia e a «questão romana» que pôs fim ao poder temporal dos Papas, foram pontos
quentes a alimentar um conflito. Conceitos, então polémicos, como o da
liberdade de consciência e de tolerância, são hoje aceites pela própria Igreja,
no quadro de sociedades democráticas e pluralistas. A verdadeira reacção à
visão do mundo veiculada pela Maçonaria, têm os católicos de encontrá-la na
profundidade da sua fé, sobretudo quando a celebram na Eucaristia, como
inspiradora da vida e da história, fonte de sentido e fundamento de uma ordem
moral. Sem essa coerência de profundidade, cairão em rejeições e anátemas, pelo
menos desenquadrados da actual maneira de conceber a missão da Igreja no mundo.
5. A questão crucial, sobre a qual os católicos têm o
direito de esperar uma resposta do seu Bispo, é esta: a fé católica e a visão
do mundo que ela inspira, são compatíveis com a Maçonaria e a sua visão de
Deus, com o fundamento de verdade e de moralidade e o sentido da história que
veicula?
E a resposta é negativa. Um católico, consciente da sua fé e
que celebra a Eucaristia não pode ser mação. E se o for convictamente, não pode
celebrar a Eucaristia. E a incompatibilidade reside nas visões inconciliáveis
do sentido do homem e da história.
A Maçonaria sempre afirmou, e continua a afirmar, a
prioridade absoluta da razão natural como fundamento da verdade, da moralidade
e da própria crença em Deus. A Maçonaria não é um ateísmo, pois admite um «deus
da razão». Exclui qualquer revelação sobrenatural, fonte de verdades superiores
ao homem, porque têm a sua fonte em Deus, não aceitando a objectividade da verdade
que a revelação nos comunica, caindo na relatividade da verdade a que cada
razão individual pode chegar, fundamentando aí o seu conceito de tolerância. A
Igreja também aceita a tolerância, mas em relação às pessoas e não em relação à
objectividade da verdade.
Esta atitude perante Deus e perante a verdade gera uma «sabedoria»
global, ou seja, uma visão coerente da realidade, que é incompatível com a
visão do homem e da sociedade que brotam da fé cristã, que supõe a inter-acção
de Deus e do homem, no diálogo fecundo e apaixonante da natureza e da graça. A
Igreja tem o dever de orientar os católicos e é a eles que digo que a nossa fé
e o sentido da vida que ela inspira é incompatível com o quadro gnóstico de
sentido veiculado pela Maçonaria.
6. Haverá, ainda hoje, uma luta entre a Maçonaria e a Igreja? Não nos termos em que se pôs no passado, embora não devamos ser ingénuos: a Maçonaria, sobretudo em algumas das suas «obediências», lutará sempre contra valores inspiradores da sociedade que tenham a sua origem na dimensão sobrenatural da nossa fé. Sempre que isso acontecer, demos testemunho da esperança que está em nós (1 Pe 3,15). A expressão de uma visão laicista da sociedade assenta também sobre a falta de coerência dos cristãos com as implicações sociais da fé que professam e da Eucaristia que celebram.