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O MINISTÉRIO
PETRINO
Hugo de Azevedo
Na sua última alocução do
«Angelus», terminados os exercícios espirituais e poucos dias antes do último
internamento hospitalar, o saudoso João Paulo II recordou-nos o essencial do
ministério petrino: «O ministério petrino é essencialmente
um serviço à unidade da Igreja. 'Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a
minha Igreja' (Mt 16, 18). A esta promessa do Senhor fazem eco estas
outras reconfortantes palavras suas: 'Eu roguei por ti (Simão), para que a
tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos' (Lc 22, 32). 'Apascenta os meus
cordeiros... Apascenta as minhas ovelhas' (Jo
21, 15-17) ... A Ele, bom Pastor, confio todo o Povo de Deus».
Na sua concisão, estas
palavras resumiam o essencial do seu
grande pontificado, e apontavam aos fiéis o que haviam de esperar essencialmente do seguinte Pontífice, e,
em geral, de todos os sucessores de Pedro: a confirmação na unidade da fé.
No momento em que estas
linhas se publiquem já teremos recebido o «magnum gaudium» do anúncio do nome
do novo Papa. Toda a comunicação social se terá enchido de comentários a tão
esperada eleição, e não haverá resistido ás mais diversas comparações com o
Pontífice anterior, nem às perspectivas abertas pela personalidade do eleito.
Compreende-se que a visão sócio-política de muitos comentaristas meça cada
pontificado segundo a sua influência histórica no mundo, mas um cristão não
pode ser superficial; tem de ir ao essencial;
e o essencial do ministério petrino consiste, como lembrava João Paulo II, no
«serviço à unidade da Igreja», por meio da «confirmação na fé».
João Paulo II foi uma figura
histórica excepcional, providencial, carismática, de grandeza invulgar mesmo
entre as maiores personagens do século, e a sua extraordinária influência
social ainda está por medir devidamente. Mas o essencial do seu pontificado pode resumir-se num só documento: o
Catecismo da Igreja Católica.
Confirmou-nos na fé com as
suas palavras, arrebatadoras de multidões; com o exemplo vivo da sua
intensíssima e persistente oração, que arrastava a orar quem o via; com a
limpidez penetrante do seu olhar paterno, que reflectia o amoroso olhar divino,
convertendo milhares de almas; com o seu perene humor juvenil e o seu gosto de
cantar, expressões de uma autêntica felicidade; com o testemunho heróico da sua
esperança no Senhor, através de sofrimentos sem conta; com sua filial e
terníssima devoção a Maria; com a elaboração filosófica e teológica do
pensamento cristão em todos os seus documentos... Mas bastaria a promulgação do
Catecismo da Igreja Católica para fazer dele um Pontífice exemplar. A partir do
novo Catecismo qualquer fiel sabe a que ater-se, e pode resistir a qualquer
confusão doutrinal ou moral.
Esperem o que quiserem do
novo Papa os não cristãos; nós esperamos essencialmente
aquilo de que já temos a certeza: que nos confirmará na fé.
PS – E aconteceu o
«inesperado»: contra os habituais prognósticos, foi eleito precisamente o mais
esperado! Aquele que mais de perto colaborava com João Paulo II no essencial – a confirmação na fé do Povo
de Deus – e principal organizador do Catecismo da Igreja Católica. De certo
modo, o Espírito Santo, através do Colégio cardinalício, «voltou a escolher»
João Paulo II. A continuidade dos dois pontificados, porém, é muito mais longa
e profunda: é a continuidade apostólica, a de união sem fracturas da Igreja com
Cristo ressuscitado. Por isso o Povo de Deus acolheu Bento XVI com a alegria e
o afecto de sempre.
Se verificamos esse afecto em
tanta gente não católica, quanto mais se justifica entre os filhos da Igreja!
Um cristão capaz de falar do Papa de maneira distante, condicional, de
vigilante «expectativa», não captou o «estilo» verdadeiramente familiar de
Jesus com os Apóstolos, e destes com os «santos» das primeiras igrejas
particulares, como se vê nos seus «Actos» e nas suas calorosas epístolas.
Efectivamente, não se trata apenas de um «estilo», e muito menos de um estilo
«antiquado»; faz parte integrante da realidade eclesial, da grande e autêntica
Família de Deus. Essa frieza cautelosa e desconfiada dos espíritos críticos
demonstraria que não se tiraram todas as consequências vitais da Incarnação do
Verbo. Verdadeiro Homem, amando-nos com o seu Coração dulcíssimo, espera que O
tratemos e nos tratemos também «com todo o coração», com sincero afecto humano,
a começar pelo seu Representante na terra, o Papa, e em cada diocese, o Bispo.
Mas não teremos direito a
aconselhá-lo, a avisá-lo, a oferecer-lhe sugestões que nos pareçam
convenientes? Ele é que tem direito a isso, melhor seria dizer; nós, obrigação.
Obrigação filial, respeitosa, afectuosa, confiante, submissa, de lhe
transmitirmos tudo o que nos pareça útil à Igreja e à sua própria pessoa.
Aliás, poucos governantes no mundo se rodeiam de tantos e tão bons conselheiros
como o Papa, e poucas comunidades se prezam de tantos canais de contacto
directo com as supremas autoridades. Mas o primeiro direito que tem o Papa, o
Vice-Cristo, é ao respeito, à confiança, à gratidão, à obediência, à oração e
ao amor dos seus filhos.