ENTREVISTA

ATUALIDADE DA MENSAGEM DE FÁTIMA,

CEM ANOS DEPOIS DAS APARIÇÕES

 

 

 

 

Irmã Ângela Coelho

 

 

No passado dia 26 de Março, a RTP2 transmitiu o Programa 70X7 da responsabilidade da Igreja Católica, entrevistando a Irmã Ângela Coelho, Postuladora do processo de canonização dos Beatos Francisco e Jacinta Marto, videntes de Fátima, uns dias depois de o Papa Francisco ter aprovado o decreto do milagre devido à sua intercessão.

A Irmã Ângela Coelho é religiosa da Congregação Aliança de Santa Maria, Superiora da comunidade de Fátima; como médica, exerce no Hospital de Santo André (Leiria) e no Centro Hospitalar de Nossa Senhora da Conceição (Batalha). É também Vice-Postuladora do processo de beatificação da Irmã Lúcia, vidente de Fátima.

A entrevista foi conduzida por Lígia Silveira e Luís Filipe Santos, da Agência ECCLESIA, e dela publicamos um excerto:

 http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/entrevistas/mensagem-de-fatima-e-seus-protagonistas/

 

 

Agência Ecclesia  (AE) – A «Mensagem de Fátima» está a comemorar o seu centenário. Como se fala, nos dias de hoje, sobre este tema?

Irmã Ângela Coelho (Irmã AC) – Falar 100 anos depois de Fátima é… um tentar de novo. Repetir com linguagens e formas novas aquilo que Nossa Senhora e o Anjo vieram trazer à Cova da Iria. Não apenas para Portugal, mas para o mundo inteiro. Tenho sentido nos últimos anos um interesse maior por todas estas temáticas e assuntos.

 AE – Como falar ao homem contemporâneo sobre este acontecimento que mudou vidas de crianças e adultos. É necessário uma linguagem que diga algo de novo?

Irmã AC– As necessidades do ser humano são muito constantes ao longo da vida e das épocas históricas. Falo no exemplo de sermos aceites e compreendidos…a necessidade de sermos felizes e realizados... de termos paz e estarmos bem connosco próprios, com os outros e com Deus... Apesar do ser humano ter mudado em termos de linguagem, na forma de comunicar e na compreensão do próprio mistério, as necessidades são as mesmas. Portanto, falar de Fátima cem anos depois, apesar de tudo, não é assim tão difícil, porque o que Fátima traz é uma resposta às necessidades comuns ao ser humano.

AE – O contexto histórico era diferente…

Irmã AC – Os fatos que nos rodeavam e faziam notícia eram diferentes. Mas, se repararmos, há cem anos vivíamos numa guerra mundial e, hoje, não sei se esse medo não está também presente. Talvez ainda mais… A globalização traz-nos notícias ao minuto e isso gera mais medo e ansiedade. Embora não estejamos a viver a I Guerra Mundial, os eventos de terrorismo e as perseguições sentidas também nos causam esse medo e insegurança. Parece que se sente uma falta de confiança no futuro e uma grande insegurança face ao terrorismo.

AE – A «Mensagem de Fátima» dá resposta a esses problemas?

Irmã AC – Aponta caminhos… Não gosto de absolutizar respostas porque a única resposta é Jesus Cristo. Ele e o seu Evangelho são a resposta e o caminho para os problemas de qualquer ser humano em todas as épocas. Obviamente, a «Mensagem de Fátima» porque sublinha aspetos fundamentais do Evangelho – adaptados à nossa mentalidade e ao nosso contexto – tem implicações muito concretas. O apelo à oração é um apelo que Jesus lança, mas Fátima também aponta esse apelo à oração. Uma forma de oração simples, mas adaptada ao nosso tempo de vida e ao nosso ritmo: a oração do Rosário.

Na «Mensagem de Fátima», a dimensão de compaixão e solidariedade é muito forte tal como no Evangelho. É fundamental ter a consciência que pertenço à família humana e sou responsável pelo meu irmão e irmã. Cristo e o seu Evangelho são o centro, todavia na «Mensagem de Fátima» estes valores também aparecem.

AE – Então a «Mensagem de Fátima» é um apêndice do Evangelho. Uma página branca que se vai construindo…

Irmã AC – Eu diria que a «Mensagem de Fátima» é uma tela que se vai tecendo com diversos fios que do Evangelho recolhemos. Esta tela belíssima com cem anos de construção está a ficar cada vez mais lindíssima. Precisamente porque é tecida com os fios das páginas do Evangelho.

AE – Quem teceu essa tela foi a Irmã Lúcia?

Irmã AC – Foi a Irmã Lúcia, Francisco e Jacinta, e cada um de nós.

AE – Mas a Irmã Lúcia é a protagonista visto que era ela que falava com Nossa Senhora?

AC – A Irmã Lúcia tem um protagonismo especial em toda esta história da «Mensagem de Fátima» porque é a interlocutora de Nossa Senhora. Mas também porque fica cá mais algum tempo, até 2005, para difundir e espalhar ao mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Obviamente que não tiro, de forma alguma, o protagonismo à Jacinta e ao Francisco, porque foram os primeiros a viver em plenitude aquilo que Nossa Senhora veio dizer. Digo em plenitude porque a Igreja beatificou-os no ano 2000.

AE – Podemos confundir as memórias da Irmã Lúcia com a «Mensagem de Fátima»?

Irmã AC – Não podemos confundir… Mas, obviamente que as memórias da Irmã Lúcia são o registo do ser humano mais credível e fiel relativamente àquilo que foi acontecendo em 1917. Todavia, considero que a «Mensagem de Fátima» é muito para além disso que a Lúcia regista, escreve e recorda. A «Mensagem de Fátima» é também o peregrino que a atualiza em cada tempo.

Se a «Mensagem de Fátima» fosse só as memórias da Irmã Lúcia, podíamos concluir que ela estava terminada no dia da sua morte. O fenómeno de Fátima ultrapassa, enormemente, a vida e as memórias da Irmã Lúcia.

AE – Sem esquecer também o papel desempenhado pelo cónego Formigão.

Irmã AC – O cónego Formigão teve um papel importantíssimo. Como os três videntes eram crianças, à partida a credibilidade das aparições, no primeiro olhar, era muito pequena. O cónego Formigão foi extraordinário. Ele aproxima-se do fenómeno, primeiro com alguma prudência. Chega a Fátima em Setembro de 1917. De longe, observava o fluxo de peregrinos… Posteriormente, interroga os videntes. A partir deste momento, ele acredita naquilo que está a acontecer. Ele acredita que é algo que vem de Deus e não produção fabricada ou mentira das crianças.

Quando interroga as crianças, regista tudo. Ele interroga como quem acredita… Isto faz toda a diferença. É muito diferente sermos interrogados por alguém que acredita e por quem não acredita. Os pastorinhos tiveram interrogatórios destes dois tipos. Perante esta situação, a atitude de quem está a ser questionado é completamente diferente. Os “pequeninos” intuíram isso e abriram o seu coração a este homem.

AE – Interrogatórios essenciais para compreender o fenómeno.

Irmã AC – Ele dá-nos uma fonte de primeira grandeza. Como era um sacerdote respeitado do Patriarcado de Lisboa, com uma formação profunda feita em Roma, vai ajudar à credibilidade destes videntes diante da autoridade eclesiástica. A partir do momento que a Igreja autentica estes acontecimentos diz: “Aqui Deus teve uma intervenção”.

AE – Mas demorou algum tempo até se chegar a esse patamar

Irmã AC – É normal. Foi necessário interrogar muitas pessoas. Esta comissão teve como um dos membros mais importantes, o cónego Formigão.

AE – Podemos, quando se fala na «Mensagem de Fátima», correr o risco de nos fecharmos numa nomenclatura em que só a Igreja e os cristãos percebam? Esquecendo aqueles que não conhecem as propostas da mensagem?

Irmã AC – Estamos num contexto de fé. No entanto, a nomenclatura que é falada em Fátima toca nas necessidades mais profundas do ser humano. E isso é universal. Mas se olhamos para Fátima de forma superficial, corremos o risco de o vermos como fenómeno sociológico. No fundo há diversos olhares que podemos ter sobre o evento Fátima. Todavia, somos todos desafiados a aprofundar este acontecimento.

AE – Aprofundar o acontecimento e os valores inerentes...

Irmã AC - Os valores aqui propostos são universais. Como a compaixão pelo meu irmão que sofre, o sentir-me responsável pela história… Isto é uma linguagem para crentes e não crentes. O Papa Francisco tem falado muito disso. Mesmo a dimensão ecológica. Todos nós habitamos este planeta e somos responsáveis por ele. A paz é um bem universal.

AE – Os peregrinos falam muito na dimensão do silêncio e da paz...

Irmã AC – Completamente verdade. O mundo está cheio de ruído e o ritmo da nossa vida é frenético. Somos assolados por sons vindos de todo o lado. Outrora só tínhamos a rádio e a televisão. Agora, com a Internet estamos a ficar dependentes. Estamos, constantemente, a ser bombardeados por atrativos exteriores a nós. Isto impede-nos a concentração e prejudica a reflexão, concentração e silêncio.

AE – Fátima é um bom sítio para começar um caminho de fé?

Irmã AC – Sim. Para algumas pessoas é um sítio maravilhoso. Algumas pessoas chegam aqui apenas para acompanhar e depois são surpreendidas. Muitos chegam distraídos… Depois olham para aquela imagem pequenina, na Capelinha das Aparições, e alguma coisa acontece. Fátima pode ser um excelente ponto de partida.

AE – É possível viver o silêncio nas grandes celebrações, especialmente as de Maio e Outubro?

Irmã AC – No Santuário de Fátima vivem-se momentos diferentes. Aqui há tempo para tudo. Os peregrinos sabem isso e buscam o santuário conforme as suas necessidades. Todavia, nas grandes celebrações eu percebo a dimensão comunitária da fé. Rezar em conjunto tem também importância, na minha forma de viver a fé.

AE – A «Mensagem de Fátima» está tatuada no rosto dos peregrinos?

Irmã AC – Está refletida uma dimensão da «Mensagem de Fátima» que é a confiança em Nossa Senhora. O olhar de certos peregrinos a contemplar Nossa Senhora de Fátima mostra a certeza e a confiança naquela pessoa. O que traz a Fátima a maior parte dos peregrinos é esta confiança em Nossa Senhora. É o específico do Santuário.

Posso referir também que muitos peregrinos buscam o Santuário de Fátima para o Sacramento da Reconciliação.

AE – A «Mensagem de Fátima» também é emotiva, basta visualizarmos o momento do adeus e os lenços que acenam, juntamente com as lágrimas, a Nossa Senhora.

Irmã AC – A «Mensagem de Fátima» é emotiva… Nós somos afeto e a Psicologia tem vindo a demonstrar isso. A afetividade é uma porta excecional para a vida. Enquanto não formos tocados no coração não existe conversão e mudança.

AE – A mensagem está centrada ou baseada em três segredos. Esse lado enigmático dá-lhe outra característica?

Irmã AC – A Irmã Lúcia dizia: “Às vezes damos mais atenção ao pouco que não conhecemos e não tomamos em devida consideração o tanto que já sabemos”. O fato de existirem três partes do segredo suscita curiosidade. Em Agosto, os pastorinhos foram presos por causa do segredo. As crianças se não estivessem convencidas da verdade… não aguentariam a pressão psicológica. O segredo é um dos grandes critérios de autenticidade das aparições.

 

 

 


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