DIREITO E PASTORAL

REMÉDIOS PARA UM MATRIMÓNIO FRUTUOSO

 

 

 

 

Papa Francisco *

 

 

Prezados Juízes, Oficiais, Advogados

e Colaboradores do Tribunal Apostólico da Rota Romana

 

Dirijo a cada um de vós as minhas cordiais saudações, a começar pelo Colégio dos Prelados Auditores com o Decano, Mons. Pio Vito Pinto, a quem agradeço as suas palavras, e o pró-Decano, que acaba de ser nomeado para esta função. Desejo a todos vós que trabalheis com serenidade e com amor fervoroso pela Igreja neste Ano judicial que hoje inauguramos.

Hoje gostaria de voltar ao tema da relação entre fé e matrimónio, em particular as perspetivas de fé inerentes no contexto humano e cultural em que se forma a intenção matrimonial. Baseando-se no ensinamento da Sagrada Escritura, São João Paulo II esclareceu bem «quão profunda é a ligação entre o conhecimento da fé e o da razão [...]. O caráter peculiar que distingue o texto bíblico consiste na convicção de que existe uma unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e o da fé» (Encíclica Fides et ratio, 16). Portanto, quanto mais se afasta da perspetiva de fé, tanto mais «o homem se expõe ao risco do fracasso e acaba por se encontrar na condição do “insensato”. Para a Bíblia, nesta insensatez encerra-se uma ameaça para a vida. Com efeito, o insensato ilude-se, pensando que conhece muitas coisas, mas na realidade não é capaz de fixar o olhar nas coisas essenciais. Isto impede-lhe de pôr ordem na sua mente (cf. Prov 1, 7) e de assumir uma atitude correta para consigo mesmo e para com o ambiente ao seu redor. Depois, quando chega a afirmar que “Deus não existe” (cf. Sal 14 [13], 1), revela com absoluta clareza como o seu conhecimento é deficiente e quão distante ele está da verdade plena sobre as coisas, sobre a sua origem e o seu destino» (Ibidem, 18).

Por sua vez, o Papa Bento XVI, no último discurso que vos dirigiu, recordava que «só quando nos abrimos à verdade de Deus […] é possível compreender, e realizar concretamente também na vida conjugal e familiar, a verdade do homem como seu filho, regenerado pelo Batismo [...]. A rejeição da proposta divina, com efeito, conduz a um desequilíbrio profundo em todas as relações humanas [...], incluída a matrimonial» (26 de Janeiro de 2013, n. 2). È necessário como nunca aprofundar a relação entre amor e verdade. «O amor tem necessidade da verdade. Apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que poderá perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tiver relação com a verdade, está sujeito à variação dos sentimentos e não supera a prova do tempo. Ao contrário, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa pessoa, tornando-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue tirar o “eu” do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugaz para edificar a vida e produzir fruto» (Encíclica Lumen fidei, 27).

Não podemos ignorar que uma mentalidade difundida tende a ofuscar o acesso às verdades eternas. Uma mentalidade que envolve, muitas vezes de modo vasto e capilar, as atitudes e os comportamentos dos próprios cristãos (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 64), cuja fé se debilita e perde a sua originalidade de critério interpretativo e operativo para a existência pessoal, familiar e social. Este contexto, desprovido de valores religiosos e de fé, não pode deixar de condicionar também o consentimento matrimonial. As experiências de fé daqueles que pedem o matrimónio cristão são muito diferentes. Alguns participam ativamente na vida da paróquia; outros aproximam-se dela pela primeira vez; alguns levam uma vida de oração até intensa; outros, ao contrário, são guiados por um sentimento religioso mais genérico; às vezes há pessoas que se afastaram da fé ou dela são carentes.

Perante esta situação, é necessário encontrar remédios válidos. Indico um primeiro remédio na formação dos jovens, mediante um caminho de preparação adequado, destinado a redescobrir o matrimónio e a família segundo o desígnio de Deus. Trata-se de ajudar os futuros esposos a compreender e a apreciar a graça, a beleza e a alegria do amor verdadeiro, salvo e redimido por Jesus. A comunidade cristã à qual os nubentes se dirigem está chamada a anunciar cordialmente o Evangelho a estas pessoas, a fim de que a sua experiência de amor possa tornar-se um sacramento, um sinal eficaz da salvação. Nesta circunstância, a missão redentora de Jesus alcança o homem e a mulher na realidade da sua vida de amor. Este momento torna-se para toda a comunidade uma extraordinária ocasião de missão. Hoje, mais do que nunca, esta preparação apresenta-se como uma verdadeira e própria ocasião de evangelização dos adultos e, muitas vezes, dos chamados afastados. Com efeito, são numerosos os jovens para os quais o aproximarem-se das núpcias constitui a ocasião para voltarem a encontrar a fé, desde há muito tempo relegada às margens da própria vida; além disso, eles encontram-se num momento particular, caracterizado com frequência também pela disponibilidade a rever e a mudar a orientação da sua existência. Portanto, pode ser um tempo favorável para renovarem o seu encontro com a pessoa de Jesus Cristo, com a mensagem do Evangelho e com a doutrina da Igreja.

Por conseguinte, é necessário que os agentes e os organismos responsáveis pela pastoral familiar sejam animados por uma forte preocupação de tornar cada vez mais eficazes os itinerários de preparação para o sacramento do matrimónio, para o crescimento não somente humano, mas sobretudo da fé dos noivos. A finalidade fundamental dos encontros consiste em ajudar os noivos a realizar uma inserção progressiva no mistério de Cristo, na Igreja e com a Igreja. Isso implica um amadurecimento progressivo na fé, através do anúncio da Palavra de Deus, da adesão e do seguimento generoso de Cristo. Isto é, a finalidade desta preparação consiste em ajudar os noivos a conhecerem e a viverem a realidade do matrimónio que pretendem celebrar, para que o possam fazer não só válida e licitamente, mas também de modo frutuoso, e para que estejam dispostos a fazer desta celebração uma etapa do seu percurso de fé. Para realizar tudo isto, são necessárias pessoas com uma competência específica e adequadamente preparadas para este serviço, uma sinergia oportuna entre sacerdotes e casais.

Neste espírito, sinto que devo reiterar a necessidade de um «novo catecumenato» de preparação para o matrimónio. Acolhendo os votos dos Padres do último Sínodo Ordinário, é urgente realizar concretamente aquilo que já foi proposto na Familiaris consortio (cf. n. 66), ou seja, que assim como para o batismo dos adultos o catecumenato é parte do processo sacramental, assim também a preparação para o matrimónio se torne parte integrante de todo o procedimento sacramental do matrimónio, como antídoto que impeça a multiplicação de celebrações matrimoniais nulas ou inconsistentes.

Um segundo remédio consiste em ajudar os recém-casados a prosseguirem o caminho da fé e na Igreja, inclusive depois da celebração do matrimónio. É preciso concretizar, com coragem e criatividade, um projeto de formação para os jovens esposos, com iniciativas destinadas a uma consciência crescente do sacramento recebido. Trata-se de os encorajar a considerarem os vários aspetos da sua vida conjugal diária, que é sinal e instrumento do amor de Deus, encarnado na história dos homens. Dou dois exemplos. Antes de mais, o amor do qual a nova família vive tem a sua raiz e fonte última no mistério da Trindade, e é por isso que ela tem esse selo, não obstante as dificuldades e as formas de pobreza com que deve contar na sua vida quotidiana. Outro exemplo: a história de amor do casal cristão é parte da história sagrada, porque é habitada por Deus e porque Deus nunca falta ao compromisso que assumiu com os esposos no dia das núpcias; com efeito, Ele é «um Deus fiel e não pode renegar-se a si mesmo» (2 Tim 2, 13).

A comunidade cristã está chamada a acolher, acompanhar e ajudar os jovens casais, proporcionando ocasiões e instrumentos adequados – a partir da participação na Missa dominical – para cuidar da vida espiritual, tanto dentro da vida familiar, como no âmbito da programação pastoral na paróquia ou nas agremiações. Muitas vezes os jovens esposos são deixados a si mesmos, talvez simplesmente porque aparecem menos na paróquia; isto acontece sobretudo com o nascimento das crianças. Mas é precisamente nestes primeiros momentos da vida familiar que é necessário garantir uma maior proximidade e um forte apoio espiritual, inclusive na tarefa educativa dos filhos, em relação aos quais são as primeiras testemunhas e portadores do dom da fé. No itinerário de crescimento humano e espiritual dos jovens esposos é desejável que haja grupos de referência nos quais poderem percorrer um caminho de formação permanente: através da escuta da Palavra, do diálogo sobre temáticas que interessam à vida das famílias, da oração e da partilha fraterna.

Estes dois remédios que indiquei têm por finalidade favorecer um contexto de fé idóneo em que celebrar e viver o matrimónio. Um aspeto tão determinante para a solidez e a verdade do sacramento nupcial, recorda aos párocos que estejam cada vez mais conscientes da delicada tarefa que lhes é confiada em gerir o percurso sacramental matrimonial dos futuros nubentes, tornando neles inteligível e real a sinergia entre foedus e fides. Trata-se de passar de uma visão claramente jurídica e formal da preparação dos futuros esposos, para uma fundação sacramental ab initio, isto é, a partir do caminho rumo à plenitude do seu foedus-consentimento, elevado por Cristo a sacramento. Isto exigirá a contribuição generosa de cristãos adultos, homens e mulheres, que acompanham o sacerdote na pastoral familiar para construir «a obra-prima da sociedade», isto é, «a família: o homem e a mulher que se amam» (Catequese, 29 de abril de 2015), conforme com «o plano luminoso de Deus» (Saudação durante o Consistório Extraordinário, 20 de fevereiro de 2014).

O Espírito Santo, que guia sempre e em tudo o santo Povo de Deus, assista e sustente quantos, sacerdotes e leigos, se comprometem e se hão de comprometer neste setor, a fim de que nunca percam o entusiasmo nem a coragem de trabalhar em prol da beleza das famílias cristãs, não obstante as insídias destruidoras da cultura dominante do efémero e do provisório.

Queridos irmãos, como disse várias vezes, na época em que vivemos é necessária uma grande coragem para se casar. E quantos têm a força e a alegria de dar este passo importante devem sentir ao seu lado o afeto e a proximidade concreta da Igreja. É com estes votos que vos renovo o desejo de bom trabalho para o novo ano que o Senhor nos oferece. Asseguro-vos a minha oração e também eu conto com a vossa, ao conceder-vos de todo o coração a Bênção apostólica.

 

 

Comentário:

No discurso aos membros da Rota Romana no ano passado (22-I-2016), o Papa Francisco tinha dito muito claramente que “a qualidade da fé não é condição essencial do consentimento matrimonial que, segundo a doutrina de sempre, só pode ser minado a nível natural”, isto é, a falta de fé, por si, não invalida o matrimónio, o qual entre cristãos é mesmo um sacramento, pela inserção em Cristo pelo baptismo.

Este ano, ao receber como habitualmente os membros da Rota Romana (21-I-2017), quis voltar ao tema da relação entre a fé e o matrimónio, para realçar a importância de o matrimónio cristão ser, não só válido, mas também frutuoso, isto é, canal de graça para os cônjuges.

Com efeito, o afastamento da fé, não só impede o conhecimento recto de Deus e da sua acção no cristão, como dificulta a conduta cristã em todas as relações humanas, incluindo a relação matrimonial. Assim, se baseado no sentimento, o matrimónio não supera a prova do tempo.

O Papa Francisco quis indicar dois remédios para que a celebração do matrimónio seja frutuosa e os cônjuges cristãos recebam a graça que Cristo infunde através do sacramento. 

O primeiro remédio é “a formação dos jovens mediante um caminho de preparação adequado, destinado a redescobrir o matrimónio e a família segundo o desígnio de Deus”. Trata-se de ajudar os futuros esposos a compreender e a apreciar a graça, a beleza e a alegria do amor verdadeiro, redimido por Cristo, de forma a celebrarem o seu matrimónio “não só válida e licitamente, mas também de modo frutuoso”.

Seria uma espécie de “catecumenato de preparação para o matrimónio”, à semelhança do catecumenato de preparação para o baptismo, realizado no seio da comunidade cristã a que pertencem os nubentes, como antídoto que impeça a multiplicação de matrimónios nulos ou fracassados. O Papa voltou a insistir neste “catecumenato dos futuros nubentes” aos participantes no curso de formação para párocos, promovido pela Rota Romana, sobre o novo processo matrimonial (25-II-2017).

O segundo remédio consiste em “ajudar os recém-casados a prosseguirem o seu caminho de fé na Igreja, inclusive depois da celebração do matrimónio”, mediante iniciativas promovidas por grupos de referência a quem também possam recorrer quando necessário.

Um discurso claramente pastoral, de pastoral familiar, que reforça o que em muitas partes se vem fazendo.

 

 


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