TEMAS LITÚRGICOS

A Preparação dos dons

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Certo dia, um rapaz trouxe-me um pequeno livrinho para a minha apreciação.

- «Senhor Padre, isto é verdade?» - perguntou com afetação.

Tratava-se do relato de umas revelações místicas sobre a Eucaristia que o tinham impressionado muito. O que mais o intrigara fora uma visão do momento do ofertório, em que uma procissão de Anjos se dirigia ao altar. Alguns vinham com algo nas mãos, que depositavam sobre o altar. Outros, porém, e eram a maioria, vinham de mãos postas e, ao chegar ao altar, apenas faziam uma profunda vénia. A Virgem Maria explicava então, que aqueles Anjos eram os Anjos da Guarda dos fiéis que assistiam à Santa Missa naquele momento: os que depositavam as oferendas sobre o altar eram os Anjos daqueles que «tinham algo que oferecer»; os restantes, dado que os fiéis que guardavam estavam alheados e distraídos, não possuíam nada que oferecer e tinham de se limitar a prestar apenas a sua reverência.

Desconheço a valoração que a Igreja fez destas visões, mas este pequeno episódio tem-me ajudado a falar do significado do rito da preparação dos dons utilizando o dito italiano: «se non è vero è ben trovato».[1] Efetivamente, como não pensar neste momento da Eucaristia como uma preparação para que os fiéis se unam ao sacrifício de Cristo? Basta pensar no nome que a Introdução Geral ao Missal Romano dá a este rito: «Preparação dos dons». Que dons? O pão e o vinho, sem dúvida. Mas, também, como vimos no artigo do número anterior,[2] aquilo que é nosso e que podemos oferecer para o bem dos irmãos e da Igreja. E, ainda mais, toda a nossa vida, o nosso trabalho, as nossas penas e alegrias, os nossos sonhos e aspirações… Sim, juntamente com o pão e o vinho que se vão converter no corpo e sangue de Cristo está também aquela gota de água, está tudo o que é humano e tudo o que é criado.

Por isso, diz-nos o Santo Padre que «é bom que o pão e o vinho sejam apresentados ao sacerdote pelos fiéis, porque eles significam a oferta espiritual da Igreja ali congregada para a Eucaristia».[3] O próprio Missal recorda-nos o antigo costume dos fiéis levarem o seu próprio pão e o seu próprio vinho que, no fundo simbolizavam a sua oferta espiritual.[4] Oferta essa que continua a ser significada neste rito. «A este propósito, é significativo que, ao ordenar um novo presbítero, o Bispo, quando lhe entrega o pão e o vinho, diz: «Recebe as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico» (Pontifical Romano — Ordenação dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos). O povo de Deus que leva a oferta, o pão e o vinho, a grande oferta para a Missa! Portanto, nos sinais do pão e do vinho, o povo fiel põe a própria oferta nas mãos do sacerdote».[5]

Bento XVI sublinha que este rito não é, portanto, uma espécie de «intervalo», entre a liturgia da Palavra e a liturgia Eucarística. Realmente, «neste gesto humilde e simples, encerra-se um significado muito grande: no pão e no vinho que levamos ao altar, toda a criação é assumida por Cristo Redentor para ser transformada e apresentada ao Pai».[6] Trata-se, pois, de um gesto, um símbolo. Com ele significamos muito mais. Não só o material, mas também o espiritual das nossas vidas: «Nesta perspetiva, levamos ao altar também todo o sofrimento e tribulação do mundo, na certeza de que tudo é precioso aos olhos de Deus».[7]

García Ibañez assinala ser legítimo entender a apresentação dos dons, que são o resultado do trabalho e do esforço dos homens, «como símbolo da oferenda de si mesmos por parte dos fiéis, a fim de que Cristo assuma as suas vidas e lhes dê plenitude de sentido e de valor diante do Pai. Mas, em nenhum caso este rito se pode considerar em si mesmo como um sacrifício autónomo da assembleia eucarística; nem como o momento ofertorial, por parte da Igreja, do sacrifício eucarístico».[8]  O sacrifício oferecido é o sacrifício de Cristo durante a oração eucarística à qual os fiéis se juntam. Este rito é, portanto, apenas uma «preparação» para essa união e essa entrega espiritual.

Trata-se do «primeiro gesto de Jesus: «Tomou o pão e o cálice do vinho».[9]  É a preparação dos dons. A primeira parte da Liturgia eucarística.

A preparação dos dons inclui uma série de ritos, alguns dos quais suscitam a curiosidade dos fiéis. Por isso, já não me admiro quando me perguntam intrigados:

- Senhor Padre, porque razão é que, durante o ofertório, pega numa colherzinha e põe uma gota de água no cálice, depois de colocar o vinho?

Por vezes, respondo referindo-me àquele cântico litúrgico tradicional que o povo cantava nas suas igrejas por esse Portugal fora: «nós somos a gota de água que se vai sobre o altar, no sangue de Jesus Cristo, com o vinho transformar».[10] Todo ele fala de entrega pessoal e de união ao sacrifício de Cristo: «Na hóstia sobre a patena vai o nosso coração, a oferta da nossa vida, nosso ser em doação». No refrão pede-se ao Senhor que nos aceite, junto com Jesus na Cruz. Trata-se de uma letra singela, mas que o povo entende com facilidade e que exprime aquilo que os Padres da Igreja ensinaram desde o início: «Quando no cálice a água se mistura com o vinho, é o povo que se une a Cristo, é a multidão dos crentes que se une e se reúne com Aquele em quem crê».[11]

É certo que os judeus não bebiam o vinho sem o misturarem com um pouco de água.[12] E o próprio S. Justino assinala essa prática. [13] Porém, cedo foram dadas interpretações a esse pequeno rito. Por exemplo, S. Cirilo também refere que a água representa o povo, que se une a Jesus Cristo (representado pelo vinho) e é oferecido com o cálice, unindo a nossa fraqueza (água) à misericórdia divina (vinho).[14]

Outro rito que vem sublinhar o desejo da Igreja de se unir a Cristo na sua oferta ao Pai é o do incenso. Assim o refere o Santo Padre: «Uma imagem deste movimento oblativo de oração é representada pelo incenso que, consumido no fogo, liberta uma fumaça perfumada que se eleva: incensar as ofertas, como se faz nos dias santos, incensar a cruz, o altar, o presbítero e o povo sacerdotal manifesta visivelmente o vínculo ofertorial que une todas estas realidades ao sacrifício de Cristo».[15]

Podemos pensar: quem somos nós para nos unirmos a tão grande sacrifício? Que temos nós para oferecer? «Sem dúvida, a nossa oferta é pouca coisa, mas Cristo tem necessidade deste pouco. O Senhor pede-nos pouco e dá-nos muito. Pede-nos pouco. Na vida diária, pede-nos a boa vontade; pede-nos um coração aberto; pede-nos a vontade de ser melhores, para receber Aquele que se oferece a si mesmo a nós na Eucaristia; pede-nos estas oblações simbólicas que depois se tornarão o seu Corpo e o seu Sangue».[16]

 

 

 

 

 

 



[1] Se não é verdadeiro está bem «apanhado».

[2] Celebração Litúrgica, nº3, Abril-Maio 2018, «O peditório da Missa»

[3] FRANCISCO, Audiência de 28 de fevereiro de 2018

[4] IGMR n. 73.

[5] Ibíd.

[6] BENTO XVI, Ex. apost.Sacramentum Caritatis , 47.

[7] Ibíd.

[8] GARCIA, A. G., La Eucaristía, don y mistério, tratado histórico-teológico sobre el mistério eucarístico, Eunsa 2009, p. 444.

[9] FRANCISCO, Audiência de 28 de fevereiro de 2018.

[10] C. SILVA, «Na Hóstia sobre a patena»

[11] S. CIPRIANO, Epist. 63, 13: CSEL 3, 711

[12] SUAREZ, F, O Sacrifício do altar, Edições Prumo, 1989, p. 136 e CHEVROT, J, A Santa Missa, Aster, 1957, p. 120

[13] S. JUSTINO, Apologia, 1, 67, 6: CA 1, 186-1888 (PG 6, 429).

[14] SUAREZ, F, O Sacrifício do altar, Edições Prumo, 1989, p.136.

[15] FRANCISCO, Audiência de 28 de fevereiro de 2018

[16] Ibíd.


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