DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
DIa MUndial Da JUVENTUDE
9 de
Abril de 2006
Neste dia, a
Igreja recorda a entrada de Cristo, o Senhor, em Jerusalém, para consumar o seu
mistério pascal. Por isso, em todas as Missas se comemora esta entrada do
Senhor na cidade santa: ou com a procissão, ou com a entrada solene antes da
Missa principal, ou com a entrada simples antes das outras Missas. A entrada
solene (mas sem procissão) pode repetir-se antes de outras Missas que se
celebram com grande assistência de fiéis.
A.
Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém
Primeira forma:
Procissão
À hora
marcada, reúnem-se todos numa igreja secundária ou noutro lugar apropriado fora
da igreja para a qual se dirige a procissão. Os fiéis levam ramos na mão.
O sacerdote
e o diácono, revestidos de paramentos vermelhos próprios da Missa, dirigem-se
para o lugar onde o povo está reunido. O sacerdote, em vez da casula, pode levar o pluvial, que deporá terminada a
procissão.
Entretanto,
canta-se a antífona seguinte ou outro cântico apropriado.
Mt 21, 9
Antífona: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome
do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.
O
sacerdote, ao chegar, saúda o povo na forma habitual. Depois exorta os fiéis a
participarem activa e conscientemente na celebração deste dia, dizendo estas
palavras ou outras semelhantes:
Irmãos caríssimos:
Desde o princípio da
Quaresma vimos a preparar-nos com obras de penitência e de caridade. Hoje
estamos aqui reunidos para darmos início, em união com toda a Igreja, à
celebração do mistério pascal do Senhor, isto é, da sua paixão e ressurreição.
Foi para realizar este
mistério da sua morte e ressurreição que Jesus Cristo entrou na sua cidade de
Jerusalém. Por isso, recordando com fé e devoção esta entrada triunfal na
cidade santa, acompanharemos o Senhor, de modo que, participando agora na sua
cruz, mereçamos um dia ter parte na sua ressurreição.
Seguidamente,
o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:
Oremos.
Deus eterno e
omnipotente, santificai com a vossa bênção estes ramos, para que, acompanhando a
Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na
Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
R. Amen.
Ou:
Aumentai, Senhor, a fé
dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para
que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e
dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do
Espírito Santo.
R. Amen.
Terminada a
oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.
A seguir,
faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto
evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do
modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.
Evangelho
São Marcos 11, 1-10
Naquele tempo, 1ao
aproximarem-se de Jerusalém, cerca de Betfagé e de Betânia, junto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois
dos seus discípulos 2e disse-lhes: «Ide à povoação que está em
frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso,
que ninguém montou ainda. Soltai-o e trazei-o. 3E se alguém
perguntar porque fazeis isso, respondei: ‘O Senhor
precisa dele, mas não tardará em mandá-lo de volta’». 4Eles partiram
e encontraram um jumentinho, preso a uma porta, cá
fora na rua, e soltaram-no. 5Alguns dos que ali estavam
perguntaram-lhes: «Porque estais a desprender o jumentinho?»
6Responderam-lhes como Jesus tinha dito e eles deixaram-nos ir. 7Levaram
o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas
e Jesus montou nele. 8Muitos estenderam as suas capas no caminho e
outros, ramos de verdura, que tinham cortado nos campos. 9E tanto os
que iam à frente como os que vinham atrás clamavam: «Hossana! Bendito O que vem
em nome do Senhor! 10Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai
David! Hossana nas alturas!»
ou
São João 12, 12-16
12Naquele tempo, a grande multidão que tinha
vindo à festa da Páscoa, ao ouvir dizer que Jesus ia chegar a Jerusalém, 13apanhou
ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando: «Hossana! Bendito O que vem
em nome do Senhor, o Rei de Israel!» 14Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito: 15«Não
temas, filha de Sião: Eis que vem o teu Rei, sentado sobre o filho de uma
jumenta». 16Os discípulos não entenderam isto ao princípio, mas,
quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que assim estava escrito acerca
d’Ele e era isso mesmo que eles tinham feito.
Os quatro evangelistas referem a entrada de Jesus em Jerusalém, com algumas pequenas diferenças. Em S. João aparece mais como uma iniciativa da multidão, ao passo que nos Sinópticos é Jesus a preparar a sua entrada.
«Um jumentinho». Mateus fala também da jumenta, mãe do jumentinho para sublinhar o cumprimento da letra da profecia de Zacarias 9, 9. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé; Jesus, porém, quer entrar a cavalo, desta vez. Tendo evitado até então todas as aclamações messiânicas, mostrar-se agora como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado num humilde jumentinho, e não como um rei temporal, ou um general vitorioso, montado num corcel. Ele não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz.
A aclamação é a do Salmo 118 (117), e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: «Bendito o que vem» (baruk habá é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel). «Hossana» é uma palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso «viva!», e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: «salva, por favor, (ó Deus)». A saudação do Salmo era uma bênção com que se recebia o peregrino que subia a Jerusalém; aqui é uma aclamação do povo que acompanha Jesus no cortejo. Nos Sinópticos a aclamação, com distintos matizes, tem o carácter de aclamação messiânica, mas em João a entrada tem claramente o aspecto de um rito de entronização, com pormenores que não aparecem nos Sinópticos: a gente sai da cidade a recebê-Lo, e com ramos de palmeira (Jo 12, 13), como a um rei vitorioso.
Depois do
Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A
anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer
uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:
Imitemos, irmãos
caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e
caminhemos em paz.
Inicia-se a
procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.
À frente
vai o turiferário com o turíbulo
aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois
ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz
ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis
com os ramos na mão.
Cântico:
As crianças de Jerusalém, M. Faria, NRMS 25
Á entrada
da procissão na igreja, canta-se o responsório
seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.
V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as
crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da
vida, cantando alegremente:
R. Hossana nas alturas.
V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha
para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando
alegremente:
R. Hossana nas alturas.
Cântico
de entrada: Hossana ao Filho de David, Az. Oliveira, NRMS 29
Ao chegar
ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as
circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o
pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais,
diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta
oração, a Missa continua na forma habitual.
A Missa
deste domingo é dotada de três leituras, que muito se recomendam, se não há um
motivo pastoral que aconselhe outra coisa.
Dada a
importância da leitura da Paixão do Senhor, compete ao sacerdote, tendo em
conta a natureza de cada grupo de fiéis, a opção de ler apenas uma das duas
leituras que precedem o Evangelho, ou apenas a história da Paixão, se for
necessário, mesmo na forma breve.
Isto vigora
apenas para as Missas celebradas com participação do povo.
B.
Missa
Depois da
procissão ou da entrada solene, o sacerdote começa a Missa com a oração
colecta.
Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens
um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e
padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão,
para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus
convosco na unidade do Espírito Santo.
Liturgia da
Palavra
Primeira Leitura
Monição: O profeta Isaías fala do servo do Senhor,
apresenta-o humilde, ultrajado e vencedor.
Isaías 50, 4-7
4O Senhor deu-me a graça de falar como um
discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos.
Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os
discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem
recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a
face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me
insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por
isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não
ficarei desiludido.
O texto isaiano corresponde aos primeiros 4 versículos do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste poema (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): «O Senhor Deus»; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo (v. 4), na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta (vv.5-6); na terceira, a fortaleza no meio das dores (v. 7).
4 Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24).
5 «Não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).
6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…
Salmo Responsorial Sl 21 (22),
8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)
Monição: Jesus submete-se plenamente à vontade do Pai.
No abandono da cruz começa, a sua elevação à glória.
Refrão: Meu
Deus, meu Deus, porque me abandonastes?
Todos os que me vêem
escarnecem de mim,
estendem os lábios e meneiam a cabeça:
«Confiou no Senhor,
Ele que o livre,
Ele que o salve, se é seu amigo».
Matilhas de cães me
rodearam,
cercou-me um bando de malfeitores.
Trespassaram as minhas
mãos e os meus pés,
posso contar todos os meus ossos.
Repartiram entre si as
minhas vestes
e deitaram sortes sobre a minha túnica.
Mas Vós, Senhor, não Vos
afasteis de mim,
sois a minha força, apressai-Vos
a socorrer-me.
Hei-de falar do vosso
nome aos meus irmãos,
hei-de louvar-Vos no meio
da assembleia.
Vós, que temeis o
Senhor, louvai-O,
glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,
reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.
Segunda Leitura
Monição: S. Paulo fala-nos da humilhação e exaltação
de Cristo. Ao nome de Jesus todos se ajoelham no céu e na terra.
Filipenses 2, 6-11
6Cristo Jesus, que era de condição divina, não
Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se
a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se
semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda
mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O
exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para
que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e
toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.
6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».
«Não se valeu da sua igualdade com Deus». Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considera o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou passivo (coisa roubada): a Vulgata traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo); segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossas tradução (sentido passivo), teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).
7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje; «tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15); «humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz» (v. 8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!
9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho duma história trágica com que tudo acabou; temos o sublime paradoxo da sua «exaltação»: foi «por isso» mesmo que «Deus» (não Ele próprio, mas o Pai) «O exaltou» de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe: tenha-se em conta hypér na composição do verbo grego), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o «nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos: já não é apenas o nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz – Jesus –, mas com o mesmo nome com que o próprio Deus é designado na tradução grega do nome divino «Yahwéh» – «Senhor» (Kyrios). A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: «que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).
Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 56 (como pensam muitos), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola. Assim pensa, por exemplo, o notável Professor protestante de Tubinga, Martin Hengel.
Aclamação ao
Evangelho Filip 2, 8-9
Monição: Meditemos a paixão e morte de Jesus. Ele
suportou os nossos pecados no seu corpo sobre a cruz. (1 Ped. 2, 24)
Cântico:
J. Santos, NRMS 40
Cristo obedeceu até à
morte e morte de cruz.
Por isso Deus O
exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.
Evangelho *
Nota de rodapé
* O texto que está
entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido
Forma longa: São
Marcos 14, 1-15, 47 Forma
breve: São Marcos 15, 1-39
N [1Faltavam dois dias
para a festa da Páscoa e dos Ázimos e os príncipes dos sacerdotes e os escribas
procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à traição para Lhe darem a morte. 2Mas
diziam:
R «Durante
a festa, não, para que não haja algum tumulto entre o povo».
N 3Jesus encontrava-Se em Betânia, em casa
de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio uma mulher que trazia um vaso de
alabastro com perfume de nardo puro de alto preço. Partiu o vaso de alabastro e
derramou-o sobre a cabeça de Jesus. 4Alguns indignaram-se e diziam
entre si:
R «Para
que foi esse desperdício de perfume? 5Podia vender-se por mais de
duzentos denários e dar o dinheiro aos pobres».
N E censuravam a mulher com
aspereza. 6Mas Jesus disse:
J «Deixai-a.
Porque estais a importuná-la? Ela fez uma boa acção para comigo. 7Na
verdade, sempre tereis os pobres convosco e, quando
quiserdes, podereis fazer-lhes bem; mas a Mim, nem sempre Me tereis. 8Ela
fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura.
9Em verdade vos digo: Onde quer que se
proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também em sua memória, o
que ela fez».
N 10Então, Judas
Iscariotes um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes
entregar Jesus. 11Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram
dar-lhe dinheiro. E ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
N 12No primeiro dia
dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a
Jesus:
R «Onde
queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»
N 13Jesus enviou dois
discípulos e disse-lhes:
J «Ide
à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o 14e,
onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a sala,
em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ 15Ele
vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta.
Preparai-nos lá o que é preciso».
N 16Os discípulos
partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e
prepararam a Páscoa. 17Ao cair da tarde, chegou Jesus com os Doze. 18Enquanto
estavam à mesa e comiam, Jesus disse:
J «Em
verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa, há-de entregar-Me».
N 19Eles começaram a
entristecer-se e a dizer um após outro:
R «Serei
eu?»
N 20Jesus
respondeu-lhes:
J «É
um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. 21O Filho do homem vai
partir, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do
homem vai ser traído! Teria sido melhor para esse homem não ter nascido».
N 22Enquanto comiam,
Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse:
J «Tomai:
isto é o meu Corpo».
N 23Depois tomou um
cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse
Jesus:
J «Este
é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em
verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da
videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».
N 26Cantaram os
salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.
N 27Disse-lhes Jesus:
J «Todos
vós Me abandonareis, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as
ovelhas’. 28Mas depois de ressuscitar, irei
à vossa frente para a Galileia».
N 29Disse-Lhe Pedro:
R «Embora
todos Te abandonem, eu não».
N 30Jesus
respondeu-lhe:
J «Em
verdade te digo: Hoje, esta mesma noite, antes do galo cantar duas vezes, três
vezes Me negarás».
N 31Mas Pedro
continuava a insistir:
R «Ainda
que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E todos afirmaram o mesmo. 32Entretanto,
chegaram a uma propriedade chamada Getsémani e Jesus
disse aos seus discípulos:
J «Ficai
aqui, enquanto Eu vou orar».
N 33Tomou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e
angústia. 34Disse-lhes então:
J «A
minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai».
N 35Adiantando-Se um
pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele
aquela hora. 36Jesus dizia:
J «Abbá, Pai, tudo Te é possível: afasta de Mim este
cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres».
N 37Depois, foi ter
com os discípulos, encontrou-os dormindo e disse a Pedro:
J «Simão,
estás a dormir? Não pudeste vigiar uma hora? 38Vigiai e orai, para
não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
N 39Afastou-Se de
novo e orou, dizendo as mesmas palavras. 40Voltou novamente e
encontrou-os dormindo, porque tinham os olhos pesados e não sabiam que
responder. 41Jesus voltou pela terceira vez e disse-lhes:
J «Dormi
agora e descansai...Chegou a hora: o Filho do homem vai ser entregue às mãos
dos pecadores. 42Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima aquele que Me
vai entregar».
N 43Ainda Jesus
estava a falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele
uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos
sacerdotes, pelos escribas e os anciãos. 44O traidor tinha-lhes dado
este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O e levai-O bem seguro». 45Logo que chegou,
aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo:
R «Mestre».
N 46Então deitaram-Lhe as mãos e prenderam-n’O.
47Um dos presentes puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 48Jesus
tomou a palavra e disse-lhes:
J «Vós
saístes com espadas e varapaus para Me prender, como se fosse um salteador. 49Todos
os dias Eu estava no meio de vós, a ensinar no templo, e não Me prendestes! Mas
é para se cumprirem as Escrituras».
N 50Então os
discípulos deixaram-n’O e fugiram todos. 51Seguiu-O
um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, 52mas ele, largando o lençol, fugiu nu.
N 53Levaram então
Jesus à presença do sumo sacerdote, onde se reuniram
todos os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas. 54Pedro,
que O seguira de longe, até ao interior do palácio do sumo
sacerdote, estava sentado com os guardas, a aquecer-se ao lume. 55Entretanto,
os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra
Jesus para Lhe dar a morte, mas não o encontravam. 56Muitos
testemunhavam falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos não eram
concordes. 57Levantaram-se então alguns, para proferir contra Ele
este falso testemunho:
R 58«Ouvimo-l’O dizer: ‘Destruirei este templo feito
pelos homens e em três dias construirei outro que não será feito pelos
homens’».
N 59Mas nem assim o
depoimento deles era concorde. 60Então o sumo
sacerdote levantou-se no meio de todos e perguntou a Jesus:
R «Não
respondes nada ao que eles depõem contra Ti?»
N 61Mas Jesus
continuava calado e nada respondeu. O sumo sacerdote
voltou a interrogá-l’O:
R «És
Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?»
N 62Jesus respondeu:
J «Eu
Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre
as nuvens do céu».
N 63O sumo sacerdote rasgou as vestes e disse:
R «Que
necessidade temos ainda de testemunhas? 64Ouvistes a blasfémia. Que
vos parece?»
N Todos sentenciaram que Jesus
era réu de morte. 65Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe,
a tapar-Lhe o rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo:
R «Adivinha».
N E os guardas davam-Lhe bofetadas. 66Pedro estava em baixo, no
pátio, quando chegou uma das criadas do sumo sacerdote.
67Ao vê-lo a aquecer-se, olhou-o de frente e disse-lhe:
R «Tu
também estavas com Jesus, o Nazareno».
N 68Mas ele negou:
R «Não
sei nem entendo o que dizes».
N Depois saiu para o vestíbulo e
o galo cantou. 69A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos
presentes:
R «Este
é um deles».
N 70Mas ele negou segunda vez. Pouco depois, os presentes diziam
também a Pedro:
R «Na
verdade, tu és deles, pois também és galileu».
N 71Mas ele começou a dizer imprecações e a jurar:
R «Não
conheço esse homem de quem falais».
N 72E logo o galo
cantou pela segunda vez. Então Pedro lembrou-se do que Jesus lhe tinha dito:
«Antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás». E desatou a chorar.]
N 15, 1Logo de manhã, os príncipes dos
sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os escribas e todo o
Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O
a Pilatos. 2Pilatos perguntou-Lhe:
R «Tu
és o Rei dos judeus?»
N Jesus respondeu:
J «É
como dizes».
N 3E os príncipes dos
sacerdotes faziam muitas acusações contra Ele. 4Pilatos interrogou-O de novo:
R «Não
respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».
N 5Mas Jesus nada
respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. 6Pela festa da
Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. 7Havia
um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos que
numa revolta tinham cometido um assassínio. 8A multidão, subindo,
começou a pedir o que era costume conceder-lhes. 9Pilatos respondeu:
R «Quereis
que vos solte o Rei dos judeus?»
N 10Ele sabia que os
príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja. 11Entretanto,
os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse
antes Barrabás. 12Pilatos, tomando de novo
a palavra, perguntou-lhes:
R «Então
que hei-de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos judeus?»
N 13Eles gritaram de
novo:
R «Crucifica-O!
13»
N 14Pilatos insistiu:
R «Que
mal fez Ele?»
N Mas eles gritaram ainda mais:
R «Crucifica-O!»
N 15Então Pilatos,
querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás
e, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O
para ser crucificado. 16Os soldados levaram-n’O
para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a corte. 17Revestiram-n’O
com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma
coroa de espinhos que haviam tecido. 18Depois começaram a saudá-l’O:
R «Salve,
Rei dos judeus!»
N 19Batiam-Lhe na
cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe
e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. 20Depois de O
terem escarnecido, tiraram-Lhe
o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em
seguida levaram-n’O dali para O crucificarem.
N 21Requisitaram,
para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene,
pai de Alexandre e Rufo. 22E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. 23Queriam
dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis
beber. 24Depois crucificaram-n’O. E
repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que
levaria cada um. 25Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. 26O
letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus».
Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. (27)
28Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a
cabeça, dizendo:
R «Tu
que destruías o templo e o reedificavas em três dias, 30salva-Te a
Ti mesmo e desce da cruz».
N 31Os príncipes dos
sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo:
R «Salvou
os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! 32Esse
Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos».
N Até os que estavam crucificados
com Ele O injuriavam. 33Quando chegou o meio-dia, as trevas
envolveram toda a terra até às três horas da tarde. 34E às três
horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eloí, Eloí, lamá
sabachtháni?»
N que quer dizer: «Meu Deus, meu
Deus, porque Me abandonastes?» 35Alguns dos presentes, ouvindo isto,
disseram:
R «Está
a chamar por Elias».
N 36Alguém correu a
embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse:
R «Deixa
ver se Elias vem tirá-l’O dali».
N 37Então Jesus,
soltando um grande brado, expirou. 38O véu do templo rasgou-se em
duas partes de alto a baixo. 39O centurião que estava em frente de
Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou:
R «Na
verdade, este homem era Filho de Deus».
N [40Estavam também ali
umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de
Tiago e de José, e Salomé, 41que acompanhavam e serviam Jesus,
quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com Ele a
Jerusalém. 42Ao cair da tarde – visto ser a Preparação, isto é, a
véspera do sábado – 43José de Arimateia,
ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi
corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 44Pilatos
ficou admirado de Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião,
perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. 45Informado pelo centurião,
ordenou que o corpo fosse entregue a José. 46José comprou um lençol,
desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol;
depois depositou-O num sepulcro escavado na rocha e
rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. 47Entretanto, Maria
Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.]
A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e a obra redentora de Cristo. Houve até quem chegou ao extremo de afirmar que os Evangelhos são «um relato da Paixão, com uma introdução desenvolvida» (M. Kähler). No entanto, os dados registados são muitíssimo parcos e concisos, pois o primeiro objectivo destas quatro narrações não era dar uma informação completa de tudo o que aconteceu; se fosse assim, seria imperdoável que não se diga nada dos sentimentos dos intervenientes na acção. Jesus também não é apresentado como um herói que sofre dores morais e físicas absolutamente indizíveis – a crucifixão era esse crudelissimum teterrimumque supplicium (Cícero) – com uma serenidade majestática. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gal 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Não obstante, não se nota que esteja subjacente aos relatos qualquer intenção de mover o leitor à piedade, descrevendo a tragédia de uma forma comovedora. O que preside à intenção dos relatos é mostrar o sentido da Paixão do Senhor, o modo como, através de todos estes passos, se realiza e torna visível a nossa salvação, no pleno cumprimento das Escrituras, facilitando ao leitor entender o porquê de que tudo isto – tão assombrosamente paradoxal e escandaloso – tenha realmente acontecido. E é assim que todos os relatos da Paixão estão ligados aos da glória da Ressurreição, que acaba por oferecer a saída para tão misterioso enigma (J. M. Casciaro).
Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo. As quatro narrativas da Paixão não se contradizem, mas completam-se e deixam ver a focagem teológica própria de cada evangelista. Marcos é o que se apresenta como mais espontâneo e o que melhor apresenta, na sua crueza realista, o horror do sofrimento de Jesus. Na agonia do Getxemaní, só ele diz que Jesus «sentiu pavor» (Mc 14, 33), e não apenas angústia, e também o pedido de que se afaste o cálice de amargura aparece como mais urgente: «Abbá,… tudo te é possível. Afasta de mim este cálice» (v. 36). Por outro lado, só ele diz, na censura aos discípulos adormecidos, que eles «não sabiam o que Lhe haviam de responder» (Mc 14, 40) e já antes a censura aparecia mais directamente dirigida a Pedro: «não foste capaz…» (v. 37). Também é de notar o pormenor exclusivo do segundo canto do galo nas negações de Pedro (Mc 14, 72). Só Marcos diz que Simão Cireneu era «pai de Alexandre e Rufo» (pensa-se que este pormenor se deve a que estes vieram a ser cristãos bem conhecidos: cf. Rom 16, 13).
N.B. – Para não nos alongarmos mais em comentários, podem ver-se as notas sobre a Paixão do Senhor, infra, em Sexta-feira Santa, assim como as do ano passado, ao Evangelho de S. Mateus (Celebração Litúrgica, Ano A, 2004/2005, pp. 363-367).
Sugestões para a
homilia
Os responsáveis da
Paixão
Ressuscitará ao
terceiro dia
Os
responsáveis da Paixão
Os relatos da Paixão
de Jesus foram os primeiros que se escreveram e ocupam destacado lugar nos
quatro evangelhos. São narrações simples e com aparentes incoerências, que
poderiam evitar – se e não se evitaram, o que as torna realmente históricas e
em primeira mão.
A leitura atenta da
Paixão suscita uma inevitável pergunta: quem foram os responsáveis, os Judeus
ou os Romanos? Na morte de Jesus misturaram-se motivos políticos e religiosos,
embora a responsabilidade mais direita caia, de acordo
com a narração evangélica, sobre as autoridades judaicas daquele tempo (não
sobre todo o povo de em tão).
Porém, a leitura
crente do Evangelho, descobre outros responsáveis da morte de Cristo. Somos
todos nós. Ele mesmo foi abatido pelas nossas iniquidades (Is. 53, 3). Cada um de nós pode
ouvir, dirigidas a si, as palavras que o profeta Natão
dirigiu a David quando este lhe perguntou quem foi o malvado que matou a única
ovelha do pobrezinho. Ele responde: esse homem és tu.
(2 Reis 12, 7) .
Sim, foste tu e fui eu e fomos todos, cada um dos homens. Não estão sós Judas
que O atraiçoou, Pedro que O negou, Pilatos que lava as mãos, a multidão que
repete: crucifica-O, os soldados que repartem em si
as vestes do condenado, os ladrões criminosos. Estamos todos.
Ressuscitará
ao terceiro dia
Mas não podemos ficar
aqui. Sabemos não só que Jesus morreu verdadeiramente e foi sepultado. Sabemos
também que ressuscitou ao terceiro dia e subiu para a direita do Pai. Morreu
pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa salvação.
Desde hoje temos de
olhar já para o domingo de Páscoa. Mas para que este olhar não seja um
sentimento vazio, precisamos de o tomar verdadeiramente a sério: Morrer pelo
arrependimento e a confissão dos nossos pecados sobretudo pelos pecados
mortais, e assim ressuscitar para a vida da graça.
Fala o Santo Padre
«O Rei
da paz, que nos libertou da morte, entra em Jerusalém.»
1. «Bendito seja o que vem em nome do Senhor!» (Mc 11, 9).
A liturgia do Domingo de Ramos é como que um Pórtico de ingresso
solene na Semana Santa.
Associa dois momentos entre si contrastantes: o acolhimento de
Jesus em Jerusalém e o drama da Paixão; o «Hosana!»
de festa e o grito repetido várias vezes: «Crucificai-O»; a entrada triunfal e
a derrota aparente da morte na Cruz. Assim, antecipa o «momento» em que o
Messias deverá sofrer muito, será morto e ressuscitará no terceiro dia (cf. Mt 16, 21), e prepara-nos para viver em
plenitude o mistério pascal.
2. «Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei
vem a ti» (Zc 9, 9). A Cidade em que vive a
memória de David rejubila ao receber Jesus; a Cidade dos profetas, muitos dos
quais nela sofreram o martírio por causa da verdade; a Cidade da paz,
que ao longo dos séculos conheceu a violência, a guerra e a deportação.
De certa forma, Jerusalém pode ser considerada a Cidade-símbolo
da humanidade, sobretudo no dramático começo do terceiro milénio que
estamos a viver. Por isso, os ritos do Domingo de Ramos adquirem uma particular
eloquência. Ressoam confortadoras as palavras de Zacarias:
«Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de
júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e
vitorioso, humilde, montado num jumento... o arco de guerra será quebrado.
Proclamará a paz para as nações» (9, 9-10). Hoje estamos em festa,
porque Jesus, o Rei da paz, entra em Jerusalém.
[…]
6. «Verdadeiramente
este homem era o Filho de Deus!» (Mc 15, 39).
Ouvimos de novo a clara profissão de fé, pronunciada pelo centurião, que «O
viu expirar daquela maneira» (Ibid.). Daquilo que viu, surge o testemunho
surpreendente do soldado romano, o primeiro que proclamou que aquele homem
crucificado «era o Filho de Deus».
Senhor Jesus,
também nós vimos como sofrestes e como morrestes por nós. Fiel até ao extremo, tu nos libertaste da morte com a tua morte. Com a tua Cruz nos
redimiste. […]
João Paulo II, Vaticano, 13 de Abril de 2003
Oração Universal
Irmãos, oremos a Deus Todo-Poderoso
e imploremos a misericórdia d'Aquele
que não deseja a morte do pecador
mas antes que se converta e viva.
1. Pela santa Igreja de Deus:
para que, fiel ao mandamento de Cristo,
continue firme no ensino da doutrina Sagrada e certa de que é depositária,
oremos, irmãos.
2. Pelos governantes das nações:
para que promulguem leis justas que respeitem os direitos de Deus e dos
homens,
a
começar pelo direito à vida e à família una, indissolúvel e fecunda,
oremos, irmãos.
3. Pe1os doentes e por todos os
que sofrem
pelos que não têm trabalho:
para que encontrem em nós justiça, compreensão e em Deus consolação e graça,
oremos, irmãos.
4. Pe1os pecadores e negligentes:
para que, neste tempo de graça, se convertam a Deus,
oremos, irmãos.
5. Pelos jovens, especialmente
pelos que se afastaram de Deus
para que reconsiderem o seu caminho e voltem aos braços do Pai,
oremos, irmãos.
6. Por todos nós que celebramos a Quaresma
com fé e devoção:
para que cheguemos às festas pascais iluminados pelo Espírito Santo
e
limpos de todo o pecado,
oremos, irmãos.
Atendei, Senhor, as nossas súplicas e perdoai os nossos pecados.
Por Nosso Senhor...
Liturgia
Eucarística
Cântico
do ofertório: Na hóstia sobre a patena, B.
Salgado, NRMS 6 (II)
Oração
sobre as oblatas: Pela paixão do
vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação:
concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados
não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na
unidade do Espírito Santo.
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. E nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo,
Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso
Senhor.
Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os
nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.
Por isso, com os Anjos
e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo.
Santo:
A. Cartageno,
NRMS 99-100
Monição da Comunhão
Jesus deixou na
Igreja o memorial isto é a presença daquele momento supremo de amor e dor sobre
a cruz: é a santa missa. Fazei isto em memória de Mim. (Lc 22, 19).
Cântico
da Comunhão: Tomai e comei, diz o Senhor, F. da Silva, NRMS 25
Mt 26, 42
Antífona
da comunhão: Pai, se este cálice
não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua
vontade.
Cântico
de acção de graças: O Senhor é clemente, M. Simões, NRMS 1 (I)
Oração
depois da comunhão: Saciados com
estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso
Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também
chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito
Santo.
Ritos Finais
Monição final
Entramos na Semana
Santa. Estes dias são os últimos toques da graça que golpeiam o nosso coração para
que chore com contrição e se abra o perdão a Deus. Esta é nossa verdadeira
morte e ressurreição.
Cântico
final: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28
Homilias Feriais
SEMANA SANTA
2ª feira, 10-IV: O cumprimento do plano de salvação.
Is. 42, 1-7 / Jo. 12, 1-11
Fui
eu, o Senhor, quem te chamou, num propósito de salvação... Foi para abrir os
olhos aos cegos, para tirar da prisão os cativos...
O plano divino da salvação
(cf. Leit.) apoia-se na entrega de Jesus à morte. Ele
próprio apresentou o plano da sua vida como cumprimento da vontade do Pai: o
Filho age como o servo de Deus: «Eis o meu servo, a quem eu protejo, o meu
eleito» (Leit.).
No começo da Semana Santa é-nos sugerido o exemplo da unção
de Maria de Betânia como modo de preparar a paixão
do Senhor, derramando sobre Ele uma libra de perfume de elevado preço. Esta unção é também uma boa
pauta para o ambiente das celebrações eucarísticas: para o Senhor o melhor que
pudermos arranjar.
3ª feira, 11-IV: Darás a vida por mim?
Is. 49, 1-6 / Jo. 13, 21-33. 36-38
Não
basta que sejas meu servo...vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha
salvação chegue até aos confins da terra.
Pela sua obediência até à morte, Jesus leva a cabo a missão do servo
sofredor que ofereceu a sua vida em expiação, carregando sobre os seus
ombros as nossas faltas e oferecendo ao Pai uma satisfação pelos nossos
pecados (cf. CIC, 615).
Na última Ceia, Jesus vê partir Judas, que o vai entregar, e profetiza
as negações de Pedro (cf. Ev.). Também a nós nos
pergunta: «Darás a vida por mim?» (Ev.). Procuremos
oferecer igualmente a nossa vida em expiação pelos pecados; aceitemos as
contrariedades, dores e sofrimentos que Ele nos enviar; arrependamo-nos das
nossas faltas de fidelidade...
4ª feira, 12-IV: Preparativos para a última Ceia.
Is. 50, 4-9 / Mt. 26, 14-25
Onde
queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?
Jesus dá o encargo aos discípulos de levarem a cabo uma cuidadosa preparação da casa onde terá lugar a última ceia pascal (cf. Ev.).
Façamos igualmente uma cuidadosa preparação para esta Páscoa:
ofereçamos ao Senhor as indelicadezas que tiverem connosco; ajudemos os que
andam extenuados; ouçamos melhor a palavra de Deus (cf. Leit.).
Tenhamos também um grande desejo de nos reunirmos com Ele e os discípulos para
celebrarmos a instituição da Eucaristia nesta
próxima 5ª feira e todos os dias que participarmos na Missa. Jesus deseja a
nossa companhia, mas evitemos as nossas infidelidades (como Judas: cf. Ev.) que nos afastam d’Ele.
Celebração e Homilia: A.
Barreto Marques
Nota Exegética: Geraldo Morujão
Homilias Feriais: Nuno
Romão
Sugestão Musical: Duarte
Nuno Rocha