JOÃO PAULO ii
UMA LIÇÃO DE
SOFRIMENTO
Bento XVI
Como o
próximo dia 2 de Abril é o primeiro aniversário do trânsito do Papa João Paulo
II, apresentamos um excerto do discurso do Santo Padre aos Cardeais e Prelados
da Cúria Romana, em 22-XII-05, na tradicional audiência de bons votos do Natal
(ver Secção “Teologia e Magistério”).
Título e
subtítulos da Redacção da CL.
Com o coração repleto
da alegria que deriva desta consciência, voltemos com o pensamento às
vicissitudes do ano que chegou ao seu ocaso. Precedem-nos grandes
acontecimentos, que assinalaram profundamente a vida da Igreja. Em primeiro
lugar, penso na partida do nosso amado Santo Padre João Paulo II, precedida por
um longo caminho de sofrimento e de gradual perda da palavra. Nenhum Papa nos deixou
uma quantidade de textos igual à que ele nos legou; precedentemente, nenhum
Papa pôde visitar, como ele, o mundo inteiro e falar de modo directo aos homens
de todos os continentes. Mas, no final, coube-lhe um caminho de sofrimento e de
silêncio. Permanecem inesquecíveis para nós as imagens do Domingo de Ramos
quando, com um ramo de oliveira na mão e marcado pela dor, ele estava à janela
e nos dava a bênção do Senhor, prestes a encaminhar-se rumo à Cruz. Depois, a
imagem do momento em que, na sua capela particular, com o Crucifixo na mão,
participava na Via-Sacra no Coliseu, onde muitas vezes tinha presidido à
procissão, carregando ele próprio a Cruz. Finalmente, a bênção silenciosa do
Domingo de Páscoa em que, através da dor, víamos resplandecer a promessa da
ressurreição, da vida eterna.
O drama do
sofrimento humano
O Santo Padre, com as
suas palavras e as suas obras, deu-nos grandes coisas; mas não menos importante
é a lição que nos deu da cátedra do sofrimento e do silêncio. No seu último
livro «Memória e Identidade» (Rizzoli, 2005), deixou-nos uma
interpretação do sofrimento que não é uma teoria teológica ou filosófica, mas
um fruto amadurecido ao longo do seu caminho pessoal de sofrimento, por ele
percorrido com a ajuda da fé no Senhor crucificado. Esta interpretação, que ele
tinha elaborado na fé e que dava sentido ao seu sofrimento vivido em comunhão
com o do Senhor, falava através da sua dor silenciosa, transformando-a numa
grande mensagem. Tanto no início, como uma vez mais no final do mencionado livro,
o Papa mostra-se profundamente sensibilizado pelo espectáculo do poder do mal
que, no século recém-terminado, nos é concedido experimentar de modo dramático.
Diz textualmente: «Não foi um mal de pequenas dimensões... Foi um mal de
proporções gigantescas, um mal que se valeu das estruturas estatais para
realizar a sua obra nefasta, um mal erigido em sistema» (pág. 198). O mal é
porventura invencível? É a última verdadeira potência da história? Por causa da
experiência do mal, para o Papa Wojtyla a questão da redenção tornou-se a
interrogação essencial e central da sua vida e do seu pensar como cristão.
Existe um limite contra o qual o poder do mal se detém? Sim, existe, responde o
Papa neste seu livro, como também na sua Encíclica sobre a redenção. O poder
que põe um limite ao mal é a misericórdia divina. À violência, à ostentação do
mal, opõe-se na história – como «o totalmente outro» de Deus, como o próprio
poder de Deus – a misericórdia divina. O cordeiro é mais forte do que o dragão,
poderíamos dizer com o Apocalipse.
O sofrimento
redentor de Cristo
No final do livro, na
consideração retrospectiva do atentado de 13 de Maio de 1981 e também com base
na experiência do seu caminho com Deus e com o mundo, João Paulo II aprofundou
ulteriormente esta resposta. O limite do poder do mal, a potência que, em
última análise, o vence é – assim nos diz – o sofrimento de Deus, o sofrimento
do Filho de Deus na Cruz: «O sofrimento de Deus crucificado não é apenas uma
forma de sofrimento ao lado das outras... Cristo, sofrendo por todos nós,
conferiu um novo sentido ao sofrimento, introduziu-o numa nova dimensão, numa
nova ordem: a do amor... A paixão de Cristo na Cruz deu um sentido radicalmente
novo ao sofrimento, transformou-o a partir de dentro... É o sofrimento que arde
e consome o mal com a chama do amor... Todo o sofrimento humano, toda a dor,
toda a enfermidade encerra uma promessa de salvação... O mal... existe no mundo
também para despertar em nós o amor, que é dom de si... a quem é visitado pelo
sofrimento... Cristo é o Redentor do mundo: ‘Fomos curados pelas suas chagas’ (Is
53, 5)» (pág. 198 ss.). Tudo isto não é simplesmente douta teologia, mas
expressão de uma fé vivida e amadurecida no sofrimento. Certamente, nós devemos
fazer tudo para atenuar o sofrimento e impedir a injustiça que provoca o
sofrimento dos inocentes. Todavia, devemos também fazer tudo para que os homens
possam descobrir o sentido do sofrimento, para serem assim capazes de aceitar o
próprio sofrimento e de o unir ao sofrimento de Cristo. Deste modo, ele
funde-se juntamente com o amor redentor e, por conseguinte, torna-se uma força
contra o mal no mundo. A resposta que o mundo inteiro deu na morte do Papa foi
uma impressionante manifestação de reconhecimento pelo facto de que ele, no seu
ministério, se ofereceu totalmente a Deus pelo mundo; um agradecimento pelo
facto de que ele, num mundo repleto de ódio e de violência, nos ensinou
novamente a amar e a sofrer ao serviço dos outros; mostrou-nos, por assim
dizer, ao vivo o Redentor, a redenção, e deu-nos a certeza de que, de facto, o
mal não tem a última palavra no mundo.
[...]
Finalmente, devo
talvez ainda recordar o dia 19 de Abril deste ano, em que o Colégio
Cardinalício, com o meu susto não pequeno, me elegeu sucessor do Papa João
Paulo II, sucessor de São Pedro na cátedra de Bispo de Roma? Uma tarefa assim
estava totalmente fora daquilo que eu jamais poderia imaginar como minha
vocação. Assim, foi somente com um grande acto de confiança em Deus que pude
dizer na obediência o meu «sim» a esta escolha. Como então, assim peço também
hoje a todos vós a oração, com cuja força e apoio eu conto. Ao mesmo tempo,
desejo agradecer de todo o coração neste momento a todos aqueles que me
acolheram e me acolhem sempre com grande confiança, bondade e compreensão,
acompanhando-me dia-a-dia com a sua oração.