ENTREVISTA
O CUIDADO DOS DOENTES TERMINAIS
MARIA DOLORES
ESPEJO
María Dolores Espejo, enfermeira e
professora associada de Ética na Universidade de Córdoba, tem uma ampla
experiência em cuidados paliativos. No V Congresso Nacional de Bioética
(Málaga, 1-3 de Dezembro de 2005), organizado pela Associação Espanhola de
Bioética, falou do papel da enfermeira no cuidado dos doentes terminais. Mais
tarde, ACEPRENSA fez-lhe uma entrevista.
– Como influi num doente
terminal a atitude dos seus familiares? Sem dúvida, eles quererão ajudá-lo, mas
sabem fazê-lo?
– Nos cuidados paliativos trabalhamos com o doente e com a
família, porque o doente necessita da família tanto como dos profissionais, e
às vezes até mais.
Às vezes a família fica destroçada, porque o prolongamento
da doença significa para ela um grande desgaste. Por isso, é preciso ensinar os
familiares a descansarem, para que possam continuar a apoiar o doente. Por
exemplo, em certas ocasiões, os familiares não se apercebem da gravidade do
momento, quando o doente já está a morrer: não distinguem essa situação de
outros momentos, devido ao cansaço que foram acumulando, e não ajudam o doente
porque não dão conta disso.
Também é preciso que os familiares tenham confiança na
equipa que atende o doente. Então, pode-se ajudá-los a enfrentar a morte do
doente, em conjunto com o próprio doente. Pois muitas vezes custa mais enfrentá-la
a família do que o próprio doente. São essas famílias que querem que o doente
não saiba da sua situação, quando o doente é o primeiro que se dá conta de que
cada dia está pior e que vai morrer. Também, às vezes, é o doente que não quer
que a família saiba, e é uma pena, porque perde muitas oportunidades de falar,
de desabafar.
– Como conseguir que se
expandam e melhorem os cuidados paliativos?
– É necessário primeiro que se apreciem os cuidados
paliativos. Ainda se continua a ver como um fracasso profissional do agente
sanitário que lhe morra um doente. Se os profissionais da saúde estão dispostos
a formar-se para ajudarem a uma pessoa a quem já não se pode curar, mas sim
aliviar, então conseguimos um grande avanço. Eu, pela minha experiência em
paliativos, penso que mais necessário que as unidades de
cuidados paliativos é trabalhar com a filosofia dos cuidados paliativos.
Se tanto os médicos como as enfermeiras se formam para ajudarem os doentes
terminais, na realidade estarão a trabalhar em paliativos, ou pelo menos com a
filosofia dos paliativos, que é cuidar dos doentes até ao fim, não os deixar
abandonados quando parece que já nada mais se pode fazer por eles e, contudo,
precisamente então ainda fica muito por fazer com esses doentes.
Além disso, é necessário que as administrações públicas
avaliem os cuidados paliativos, que não são tão caros. De facto, custa
muitíssimo menos um doente no seu domicílio, bem atendido com cuidados
paliativos, do que internado num hospital. Só em caso extremo, ou se a família
não aguenta ou lhe faltam meios, se leva o doente a uma unidade hospitalar. Mas
é preciso criar essas unidades de cuidados paliativos, para que o doente
terminal não entre pelas urgências e se evitem exames diagnósticos que não são
necessários.
– Na sua experiência com
doentes terminais, encontrou-se alguma vez com um pedido de eutanásia?
– Nunca tive um doente que tivesse posto essa questão. Mas o
que o doente diz é que não pode viver assim. Por exemplo, no mês passado um doente
disse-me que estava destroçado. Um dia negou-se a que lhe aplicasse os
aerossóis, que são uma medida paliativa, e a que lhe medisse a tensão.
Perguntei-lhe porquê. E respondeu-me: «É que quero morrer e quero morrer agora,
já não aguento mais». Então interroguei-me sobre o que passava com essa pessoa
que queria morrer (mas ele não me disse «tira-me a vida»). Depois tivemos mais
conversas ao longo da tarde. Concluí que não era uma
dor física o que o desesperava, mas que não encontrava um sentido para os seus
últimos dias e não esperava que a sua vida terminasse numa cama de hospital.
Foi uma tranquilidade ver que este doente decidiu beijar a sua filha quando
fosse vê-lo, porque habitualmente não o fazia. Dedicou-se durante os últimos
quatro ou cinco dias a fazer feliz a filha, para que a recordação que ela
tivesse dele fosse de carinho, em vez de pensar «tenho o direito de morrer» ou
«quero morrer porque já não posso mais».