6º Domingo da Páscoa

21 de Maio de 2006

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Anunciai com voz de Júbilo, Az. Oliveira, NRMS 32

cf. Is 48, 20

Antífona de entrada: Anunciai com brados de alegria, proclamai aos confins da terra: O Senhor libertou o seu povo. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Deus é amor. Eis a verdade escrita há vinte séculos por S. João e retomada agora pelo papa Bento XVI para pista fundamental de reflexão da sua primeira encíclica. Este pensamento será hoje, sexto domingo de Páscoa, a fonte de inspiração a animar de modo muito concreto as atitudes da nossa vida. Pelas vezes em que esquecemos o amor, não acreditamos no amor, ou não fomos capazes de amar, peçamos humildemente perdão.

 

Rito penitencial pela aspersão da água

Introdução: Irmãos, abençoamos e aspergimos esta água como sinal do nosso baptismo, a nossa iniciação à vida em Jesus Cristo. Ouçamos hoje o amor que Jesus nos manifesta mandando-nos que nos amemos uns aos outros. [Aspersão]

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, a graça de viver dignamente estes dias de alegria em honra de Cristo ressuscitado, de modo que a nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Pedro aparece logo após a ressurreição com uma presença vincada e muito influente na vida da Igreja primitiva. Prova-o esta decisão na casa de Cornélio. O que Pedro disse e fez, está em grande medida patente nos Actos dos Apóstolos.

 

Actos dos Apóstolos 10, 25-26.34-35.44-48

Naqueles dias, 25Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. 26Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». 34Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». 44Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. 45E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, 46pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. 47Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?» 48E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.

 

A leitura refere a vinda de Pedro a anunciar a salvação a um gentio, «Cornélio». Era centurião romano do destacamento militar de Cesareia, e bem podia ser descendente dalgum daqueles dez mil escravos que libertou Cornélio Sila, cerca do ano 80 a. C., os quais tomaram o apelido deste. Pertenceria à «coorte itálica», de que nos chegaram várias inscrições. Era «justo e temente a Deus» (v. 22), isto é, homem que aceitava o único Deus de Israel e a sua lei moral, mas sem aderir ao judaísmo pela circuncisão e outras práticas rituais. Segundo Act 10, 1-8, tinha recebido uma mensagem angélica para mandar chamar Pedro a Jope, a fim de lhe vir anunciar a «Boa-Nova da paz» (cf. v. 36). Pedro, dada a visão que teve – «o que foi purificado por Deus não o chames impuro» (v. 15) –, vendo como o Espírito Santo, com manifestações semelhantes às do Pentecostes, nomeadamente a glossolalia (cf. vv. 45-46), descia sobre os ouvintes da sua pregação, não hesitou em fazer entrar os ouvintes directamente na Igreja pelo Baptismo (vv. 47-48). Isto aparece como um passo de extraordinário alcance para a vida da Igreja (por isso se conta mais uma vez no cap. 11); com efeito, a Igreja é católica desde o princípio, isto é, destinada aos homens de todas as raças, e não apenas ao fechado e estreito âmbito de judeus e judaizados. Mas nem todos os cristãos afeitos à Lei de Moisés haviam de compreender isto facilmente, o que motivou o Concílio de Jerusalém (ano 49-50); os cristãos judaizantes, porém, haveriam de continuar na sua e a fazer grande oposição a S. Paulo.

34-35 Estes versículos representam uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa de Cornélio, em Cesareia Marítima, quando Pedro recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem terem de passar primeiro pelo judaísmo. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (mas não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – «Deus não faz acepção de pessoas» (cf. Dt 10, 17); v. 36 – «Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel» (cf. Salm 107, 20), «anunciando a paz» (cf. Is 52, 7); v. 38 – «Deus ungiu com… Espírito Santo» (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico; por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: «a palavra aos filhos de Israel» (v. 36) deixa ver como Deus é o «Senhor de todos», imparcial, «não faz acepção de pessoas» e que a «paz» – a súmula de todos os bens messiânicos – Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente; e Lucas – o historiador-teólogo – ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso literário de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva.

 

Salmo Responsorial    Sl 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. cf. 2b)

 

Monição: A busca de Deus e a oração de louvor do salmista anima toda a vida dos seguidores do ressuscitado. O salmista põe toda a confiança no Senhor e na sua salvação.

 

Refrão:         O Senhor manifestou a salvação a todos os povos.

 

Ou:                Diante dos povos manifestou Deus a salvação.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. João nesta passagem apresenta o núcleo do grande ensinamento deste domingo.

 

1 São João 4, 7-10

Caríssimos: 7Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. 8Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

 

A Carta de S. João que temos vindo a ler no tempo pascal deste ano B atinge agora o seu ponto mais alto (vv. 1-16). O tema central da Epístola é o amor, um tema a que volta repetidas vezes, desenvolvendo-o em espiral. A chamada espiral joanina consiste em que, cada vez que volta a um tema, avança e aprofunda-o um pouco mais.

7-8 «Amemo-nos uns aos outros» é como que um refrão que S. João não se cansa de repetir (cf. 1 Jo 3, 11.23); mas aqui não se limita a apelar para «o mandamento do Senhor» (1 Jo 3, 23; cf. Jo 15, 12), pois vai até ao ponto de tocar na mais profunda razão de ser deste mandamento. É que «Deus é amor», por isso o cristão, que «nasceu de Deus» e «conhece a Deus», não pode deixar de amar; sendo assim, «quem não ama não conhece a Deus», isto é, não participa da sua vida e do seu ser, não entra na sua intimidade. Notar que em S. João «conhecer» não é «ter notícia ou informação», mas é «ter experiência pessoal, penetrar na intimidade de outro»; é assim que «conhecer a Deus» implica agir na mesma linha do amor de Deus.

9-10 A afirmação de que Deus é amor não é uma afirmação teórica, ou uma definição metafísica de Deus; é uma afirmação sapiencial, é o resultado da contemplação estonteante da sua obra salvadora, a saber, do modo como «se manifestou o amor de Deus para connosco», que chegou ao ponto de que «enviou ao mundo o seu Filho Unigénito» (v. 9), como «vítima de expiação pelos nossos pecados» (v. 10). Este amor de Deus – a entrega do Criador à sua criatura para se dar dando a vida – é tão deslumbrante e inimaginável, que é expresso no Novo Testamento com um substantivo novo, não usado na literatura grega profana: agápê. Não estamos perante qualquer espécie de amor, mas em face da mais absoluta gratuidade, pois a referência é o próprio amor que Deus nos manifesta: «não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou» (v. 10).

 

Ou

1 São João 4, 11-18

Caríssimos: 11Se Deus nos amou tanto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus ninguém jamais O viu. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito. 13Nisto conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós: porque nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor de Deus por nós e acreditamos no seu amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.

 

A espiral joanina à volta do amor, a que nos referíamos no comentário aos versículos anteriores (vv. 7-10), progride aprofundando e esclarecendo o fundamento do amor mútuo: «se Deus nos amou assim, também nós nos devemos (o grego, ofeîlomen, indica obrigação estrita) amar uns aos outros» (v. 11). Com efeito, são os outros que visibilizam (cf. Mt 25, 40) a Deus invisível, «que nunca ninguém viu», como filhos do mesmo Deus. Também se pode ver neste pormenor do v. 12 uma alusão aos gnósticos que se ufanavam de uma intuição directa de Deus, a epopteia das religiões mistéricas. Por outro lado, temos aqui a mais séria justificação da maravilhosa realidade da vida cristã, que ao longo de todos os séculos se tem manifestado na doação e no serviço aos outros, nomeadamente àqueles que, por serem carenciados, nada têm com que retribuir, sendo o apostolado a forma mais sublime do amor cristão.

Também o voltar ao outro tema fulcral da Carta – permanecer – atinge aqui (vv. 13-16) o seu clímax (ver supra o comentário feito a 1 Jo 3, 24, na 2ª leitura do 5º Domingo de Páscoa): «Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos n’Ele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito» (vv. 12-13). O autor, ao mover-se na densidade de expressões de fé tão elevadas, com uma referência explícita ao mistério da Trindade e da Incarnação (vv. 13-15), apela, de uma maneira tipicamente joanina, para o testemunho alicerçado, não apenas numa experiência interior, de comunhão vital e mística (cf. v. 13), mas na própria experiência sensorial – hêmeîs tetheámetha (v. 14), «nós vimos (contemplámos)» –, não se tratando de uma mera experiência individual isolada, mas de um colectivo (pode pensar-se na dita comunidade do Discípulo amado em ligação com as primeiras testemunhas directas).

 

Aclamação ao Evangelho          Jo 14, 23

 

Monição: O amor de Deus deve ser testemunho e vida. Não podem ser apenas palavras.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação- 2, F da Silva, NRMS 50-51

 

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.

Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

 

 

Evangelho

 

São João 15, 9-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. 11Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. 12É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. 13Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. 16Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

 

Temos hoje a continuação do chamado discurso do adeus, centrada no tema central do amor e no permanecer, correspondentes à 2ª leitura (1 Jo 4, 11-16).

9-17 Estes versículos constituem um dos cumes mais elevados de todo o Evangelho e uma das chamadas «sínteses do cristianismo»: o anterior apelo permanecei em Mim (v. 3) concretiza-se agora em permanecei no meu amor (vv. 9.10). A referência básica é o amor do Pai, «como o Pai Me amou»: é assim que Jesus nos ama (v. 9); trata-se de um amor de eleição de Jesus (v. 16), que exigem uma correspondência de fidelidade aos seus mandamentos (vv. 10.12.14.17; 13, 34; 14, 15.21). Este amor divino constitui os discípulos numa relação totalmente nova com Jesus: a da amizade (vv. 13-15; 13, 34; 1 Jo 3, 11), a tal ponto que fica esbatida a infinita distância entre Deus e o homem, entre o Senhor e os «servos», facultando liberdade interior. Esta nova situação conduz à alegria, a uma «alegria completa» (v. 11; 16, 24; 17, 13; 1 Jo 1, 4), (v. 15), e à fecundidade, dando um fruto sobrenatural, «que permaneça» (v. 16). Por outro lado, este amor é exigência do amor mútuo, fornecendo-lhe a sua mais sólida base e a sua mais elevada medida: como Eu vos amei (v. 12), até dar a vida (v. 13). E não se pode permanecer no amor de Jesus se não se guardarem os seus mandamentos (cf. v. 10).

15-16 «Já vos não chamo servos». Bela forma de mostrar as especiais relações de amizade que Jesus tem com os seus; um servo enquanto tal, é indigno da amizade do seu senhor e limita-se a receber ordens, mas os discípulos recebem de Jesus as mais íntimas confidências: «porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai». É evidente que se trata de uma amizade que não se baseia em igualdade de natureza; é fruto duma eleição gratuita: «fui Eu que vos escolhi e destinei…». Escolhidos para dar frutos que permaneçam, isto é, frutos espirituais, frutos de vida eterna – de santidade, de apostolado –, só darão esses frutos na dependência e união com Cristo (cf. v. 5); daí o apelo à oração, a qual dá garantia de eficácia: «tudo quanto pedirdes… Ele vo-lo concederá». A oração sempre ouvida pelo Pai é a que é feita «em nome de Jesus», isto é, em plena sintonia com Jesus, numa perfeita união de vontades; esta forma de se dirigir ao Pai tornou-se a pauta para a oração litúrgica: «por Cristo, Nosso Senhor».

 

Ou:

São João 17, 11b-19

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e orou deste modo: 11b«Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que Me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição; e assim se cumpriu a Escritura. 13Mas agora vou para Ti; e digo isto no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria. 14Dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 18Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade».

 

O capítulo 17 de S. João veio a ser chamado «a oração sacerdotal de Jesus», a partir das observações de S. Cirilo de Alexandria (PG 74, 505-508); constitui «a síntese mais completa e elevada da teologia do evangelista» (Segalla). Lê-se no 7º Domingo de Páscoa, distribuída pelos anos A, B e C, mas sempre introduzida pelo v. 1: «Jesus ergueu os olhos ao céu…», uma forma de orar muito ao jeito de Jesus (cf. Jo 11, 41; Mt 14, 19; Mc 6, 41; Lc 9, 16; Mc 7, 34), mas mal documentada no judaísmo; com este gesto, «Jesus dava uma expressão corporal à dimensão fundamental do ser humano, a saber, a sua relação com a fonte que o ultrapassa, que está acima dele e o envolve…» (D. Mollat). Nos países, como o nosso, onde a Ascensão é celebrada no 7º Domingo, Jo 17 pode ler-se, como alternativa, no 6º Domingo de Páscoa. O trecho lido no ano B corresponde àquela parte da oração em que Jesus intercede pelos seus discípulos.

11b «Pai santo». A circunstância de não estarmos perante uma forma usual de Jesus se dirigir ao Pai, leva a pensar numa influência litúrgica (cf. Didakhê 10, 2) na redacção desta belíssima oração, a oração mais longa que aparece nos lábios de Jesus. «O nome que Tu Me deste» pode entender-se como a própria essência divina, comum ao Pai e ao Filho, que é Jesus; e o pedido «um só, como Nós», sugere já uma primitiva reflexão trinitária; a unidade dos discípulos tem como primeira referência (analogatum princeps) a unidade do ser divino, na distinção de pessoas, visando uma unidade que transcende a meramente moral e sociológica; por outro lado, podemos ver, no semitismo «dar o nome», um sentido aberto, coadunando-se bem com a doutrina teológica da processão, ou geração eterna do Filho pelo Pai. Esta prece pela unidade dos primeiros discípulos, vai ser feita, mais adiante (vv. 20-23), de forma mais desenvolvida, pela unidade de todos os que depois hão-de vir a crer em Jesus.

12-15 Jesus, que, como Bom Pastor, guardou os discípulos, agora, consciente da sua partida, intercede «para que eles tenham sem si a plenitude da alegria», própria de Jesus, uma alegria que deriva da sua união com o Pai. Por outro lado, roga «que os guarde do Maligno», pois eles terão de ficar no mundo, que está «todo sob o poder do Maligno» (cf. 1 Jo 5, 19). «O mundo» é aqui tomado no seu aspecto negativo: são os homens que recusam a graça e, na sua auto-suficiência, se fecham a Deus, a ponto de odiarem a Cristo e os seus seguidores (v. 14). Os discípulos, vivendo no mundo, estão sujeitos às suas seduções, por isso Jesus não suplica que os tire do mundo, onde se desenrola a sua vida e está o seu campo de acção, mas que os guarde de serem mundanizados, deixando-se influenciar pelo «dominador deste mundo» (cf. Jo 12, 31).

17-19 «Consagra-os na verdade», à letra, santifica-os; santificar é retirar da esfera do profano para destinar a uma missão divina (cf. Hebr 2, 11). Estas palavras não são apenas o centro da oração, mas um dos pontos altos do Evangelho: a consagração e missão dos discípulos. Este envio ao mundo encerra um mistério que se exprime através dum paradoxo: escolhidos mas não retirados do meio do mundo. É que não se trata de um simples envio pragmático, mas insere-se no mistério do envio de Jesus ao mundo (v. 18; cf. 10, 36; 15, 27; 20, 21); os discípulos não se limitam a continuar a sua missão; participam da sua própria vida (15, 1-16), uma vida que não pertence a este mundo e a que se tem acesso apenas pela palavra (v. 17) da revelação, a «verdade». Mas, para além desta misteriosa realidade bipolar – a vocação-missão –, o texto deixa ver um outro aspecto: «Eu consagro-Me por eles» tem uma conotação sacrificial, como se dissesse «ofereço-Me em sacrifício por (em vez de ou a favor de) eles», pois corresponde à linguagem cultual do A. T. (cf. Ex 13, 2.12.15; 28, 41; Dt 15, 19-20) e tem paralelos no N. T. (cf. 1 Cor 11, 24; 15, 3). É por isso que a oração sacerdotal adquire a dimensão de ofertório do sacrifício do Senhor, que vai ser consumado no Calvário e também a de uma declaração de intenção: Jesus entrega a sua vida por todos (cf. 11, 51-52; 15, 13), em sacrifício, a fim de que os seus, uma vez purificados, venham a ser pertença exclusiva de Deus (v. 19: «consagrados», ou santificados). A alusão a Cristo como sumo sacerdote da nova Aliança – sacerdote oferente e vítima oferecida (cf. Hebr 9, 11-14; 10, 10) – pode ver-se na ressonância vétero-testamentária de Ex 28, 36-38. Há quem veja também alusões à Eucaristia, em especial nos vv. 21-24 (cf. Jo 15, 4-7; 6, 56; 1 Cor 10, 17).

 

Sugestões para a homilia

 

Deus é amor

Ele amou-nos primeiro

O amor encarnado

Deus é amor

Assim se exprime S. João nas leituras da liturgia desta missa.

A liturgia apresenta-nos duas passagens de evangelho, à escolha, para leitura: o discurso da última ceia ou a oração sacerdotal. São textos diferentes com conceitos idênticos Para ambos pode fazer-se a mesma reflexão.

De qualquer modo, não poderíamos interpretar melhor os textos sagrados de hoje nem tirar conclusões mais acertadas e profundas sem referir as ideias do papa bento XVI, na encíclica em que deu precisamente o título Deus é amor. Há sem dúvida, plágio, mas não o fazendo cairíamos em omissões e erros opostos ao que a Igreja nos quer ensinar.

Fica, pois, claro que a maior parte das ideias expostas procedem directamente dos textos sagrados desta eucaristia e da encíclica do Sumo Pontífice com alguma pobreza de linguagem, com a redução doutras pistas de reflexão que não cabem neste ligeiro esquema de sugestões.

Sigamos por este caminho, rezando a palavra que nos é proposta para meditação em tempo pascal, a caminho da Ascensão.

Registe-se o facto histórico de os textos litúrgicos serem, quanto ao evangelho, anteriores à Ascensão, e a própria paixão. Faz parte do discurso da última ceia, ao passo que as duas outras leituras são posteriores àquele mistério de luz e glória, quer a I epístola de João, quer a acção do Espírito Santo em casa de Cornélio.

No entanto, são passagens tão estreitamente ligadas que confirmam a verdade e a unidade do que se pretende transmitir. Deus é amor. Deus amou-nos primeiro. Nós devemos amar a Deus e amar o próximo.

Devemos, nem digo bem. Porque o papa nos recorda que no amor de Deus pela humanidade, o amor do homem para Deus deixa de ser um «mandamento» para se tornar uma relação sobrenatural

Ele amou-nos primeiro

Com efeito, diz o papa, ninguém jamais viu a Deus tal como Ele é em Si mesmo. E, contudo, Deus não nos é totalmente invisível, não se deixou ficar pura e simplesmente inacessível a nós. Deus amou-nos primeiro. O amor de Deus apareceu no meio de nós, fez-se visível quando Ele «enviou o seu Filho unigénito ao mundo, para que, por Ele, vivamos».

Deus torna-se visível na medida em que em Jesus, podemos ver o Pai. Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos até à Última Ceia, até ao Coração trespassado na cruz, até às aparições do Ressuscitado e às grandes obras pelas quais Ele, através da acção dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente. Na história da Igreja, se manifesta a presença permanente do Senhor. Incessantemente vem ao nosso encontro, através dos seus mensageiros, da sua Palavra… nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia.

A vida dos santos torna-se um hino ao amor de Deus personificado no Filho unigénito, torna-se em amor de Deus testemunhado em tantos campos da vida humana de fundadores, mártires, confessores, pastores e, almas cheias de caridade, seres humanos dos mais variados extractos sociais, espaços geográficos e escolas do pensamento, culturas, raças e continentes, desde o nascimento da Igreja até aos nossos dias.

O amor encarnado

Na liturgia da Igreja, na sua oração, na comunidade viva dos crentes, nós experimentamos o amor de Deus, sentimos a sua presença e aprendemos deste modo também a reconhecê-la na nossa vida quotidiana. Ele amou-nos primeiro, e continua a ser o primeiro a amar-nos; por isso, também nós podemos responder com o amor. Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em nós próprios. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar o seu amor, e desta «antecipação» de Deus pode despontar também em nós o amor.

O amor não é apenas um sentimento. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor.

É próprio da maturidade do amor abranger todas as potencialidades do homem e incluir o homem na sua totalidade. O encontro com as manifestações visíveis do amor de Deus pode suscitar em nós o sentimento da alegria, que nasce da experiência de ser amados.

Voltemos á encíclica para referir «o amor encarnado de Deus», «o amor sem limites», «a comunhão com todos os cristãos».

Quando Jesus fala, nas suas parábolas, do pastor que vai atrás da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pródigo e o abraça, não se trata apenas de palavras, mas constituem a explicação do seu próprio ser e agir. Na sua morte de cruz, Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo – o amor na sua forma mais radical.

Sem usurpar o papel do papa, e sem nos anteciparmos ao veredicto da Igreja, quantos membros da Igreja militante actual são testemunhas e dão testemunho de que Deus é amor, e de que amam a Deus e ao próximo, como Jesus pediu antes de se deixar imolar na cruz por cada um de nós, naquela quinta-feira bendita em que pronunciou o discurso deste evangelho.

 

 

Oração Universal

 

Irmãos, neste domingo em que a palavra do Senhor

nos propõe uma opção clara de amor,

peçamos a graça da perseverança nos bons propósitos,

assim como os dons de bem e felicidade para todos os nossos irmãos.

 

1.  Pelo Santo Padre e pela Igreja sempre atenta e vigilante

na festa do Ressuscitado,

oremos, irmãos.

 

2.  Pelos bispos, sacerdotes e missionários,

pelos homens e mulheres de apostolado

que encontram dificuldades na sua missão,

para que o Senhor seja sempre a sua fortaleza,

oremos, irmãos.

 

3.  Pelos responsáveis na condução dos cidadãos

para que desempenhem o seu dever com generosidade

e manifestem o interesse pelo bem comum,

oremos, irmãos.

 

4.  Pelos povos de todas as nações

para que vivam no amor e ninguém seja descriminado ou excluído

na busca de interesses justos que lhe são devidos,

oremos, irmãos.

 

5.  Pelos familiares e amigos

que não puderam participar hoje

nesta celebração dominical de fé e caridade,

oremos, irmãos.

 

6.  Pelos familiares, benfeitores, amigos e conterrâneos

que neste dia lembramos com saudade,

para que o Senhor lhes dê o eterno descanso

na vida eterna da ressurreição,

oremos, irmãos.

 

Atendei, Senhor a nossa oração e concedei-nos a nós e aos nossos irmãos

a graça de viver o tempo pascal na alegria dos verdadeiros discípulos. Por nosso Senhor…

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Vós sereis meus amigos, M. Faria, NRMS 29

 

Oração sobre as oblatas: Subam à vossa presença, Senhor, as nossas orações e as nossas ofertas, de modo que, purificados pela vossa graça, possamos participar dignamente nos sacramentos da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio pascal: p. 469 [602-714] ou 470-473

 

Santo: F. dos Santos, NTC 201

 

Monição da Comunhão

 

O Senhor ressuscitado manifesta na vida inteira da Igreja a razão do seu amor e o apelo permanente à santidade pelo amor.

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que Me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

cf. Jo 14, 15-16

Antífona da comunhão: Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando, diz o Senhor. Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará o Espírito Santo, que permanecerá convosco para sempre. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Deus é Amor, M. Luís, NCT 380

 

Oração depois da comunhão: Senhor Deus todo-poderoso, que em Cristo ressuscitado nos renovais para a vida eterna, multiplicai em nós os frutos do sacramento pascal e infundi em nós a força do alimento que nos salva. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A vida do cristão foi realmente transformada no mistério pascal. Cristo é a nossa força. Ele vem ao nosso encontro pelo seu Espírito Santo. Acompanha-nos e ajuda sempre a ultrapassar todos os obstáculos. Inspira a Igreja a tomar as melhores decisões para o bem dos fiéis.

 

Cântico final: Deus é Pai, Deus é Amor, F. da Silva, NRMS 90-91

 

 

Homilias Feriais

 

6ª SEMANA

 

feira, 22-V: A actuação do Espírito Santo.

Act. 16, 11-15 / Jo. 15, 26-16, 4

Quando vier o Defensor, que eu hei-de enviar lá do alto, o Espírito da verdade…

Jesus promete o envio do Espírito Santo, a quem chama Paráclito, que se traduz por Consolador, que ajuda Jesus. Temos necessidade d’Ele, sobretudo, nos momentos difíceis: «disse-vos estas palavras para não sucumbirdes» (Ev.).

É no momento do Baptismo que recebemos este dom de Deus. Assim aconteceu com Lídia e seus familiares: «recebeu o Baptismo juntamente com a família» (Leit.). O Espírito Santo apagou a mancha do pecado original, dotou-nos da graça santificante, fez-nos participantes da vida divina e membros da Igreja.

 

feira, 23-V: Recuperação da dignidade da família.

Act. 16, 22-34 / Jo. 16, 5-11

(O carcereiro) logo recebeu o Baptismo, juntamente com todos os seus… E encheu-se de alegria com toda a sua família.

Quando se convertiam (caso do carcereiro e Lídia: Leit. de ontem) desejavam que toda a sua casa fosse salva. Estas famílias, ao receberem o Baptismo, tornavam-se pequenas ilhas de vida cristã num mundo descrente (cf. CIC, 1655).

Actualmente são muitos os factores culturais, sociais e políticos que desencadeiam uma crise, cada vez mais evidente, da família. É importante que se proclame a verdade sobre a família, enquanto íntima comunhão de vida e de amor, aberta à geração dos filhos, e enquanto ‘igreja doméstica’ digna (cf. João Paulo II).

 

feira, 24-V: Despertar a religiosidade.

Act. 17, 15. 22- 18, 1 / Jo. 16, 12-15

Atenienses, vejo que sois os mais religiosos dos homens… encontrei um altar com esta inscrição: Ao deus desconhecido.

Desde sempre o homem procurou traduzir a sua procura de Deus através de crença e comportamentos religiosos. Por isso, o homem é um ser religioso e Deus não está longe dele (cf. Leit.).

Às vezes parece que esta religiosidade está oculta, pois há uma revolta contra o mal no mundo, há uma grande indiferença, as correntes de pensamento hostis à religião… (cf. CIC, 29). Temos que procurar que o ‘Deus desconhecido’ se torne mais conhecido, aproveitando as ocasiões como fez S. Paulo, pedindo ajuda ao Espírito Santo: «Ele vos guiará para a verdade» (Ev.).

 

feira, 25-V. Rogações: Construção de um mundo melhor.

Act. 18, 1-8 / Jo. 16, 16-20 (ou outra)

Senhor Deus, criador de todas as coisas…fazei que as nossas tarefas sirvam o progresso humano e a extensão do Reino de Cristo.

As Rogações começaram a ser celebradas em Roma no século IV. Os cristãos foram tomando consciência de que, através do trabalho, colaboravam com Deus na obra da criação. Organizaram uma procissão, na qual rezavam a Ladainha dos santos e, pelo sacrifício eucarístico que, a seguir, tinha lugar na Basílica de S. Pedro, consagravam ao Senhor todas as suas actividades temporais. Inspirados pelo Espírito Santo pediam ao Senhor que os ajudasse a levar à prática o seu projecto a respeito do mundo e dos homens. As Rogações tiveram sempre um carácter penitencial e de compromisso sério pela construção de um mundo melhor.

 

feira, 26-V: S. Filipe Neri: A eternidade dá novo sentido à vida

Act. 18, 9-18 / Jo. 16, 20-23

Havereis de chorar e de lamentar-vos, ao passo que o mundo se há-de alegrar… mas a vossa tristeza tornar-se-á em alegria.

Estas palavras do Senhor são-nos dirigidas. Com efeito, às vezes, parece-nos que aqueles que nada querem com a religião se divertem, gozam a vida, têm prosperidade nos negócios, enquanto que nós, que procuramos seguir o Senhor, não temos tanto sucesso.

Mas o Senhor recorda-nos que o verdadeiro sentido da vida não se limita aos horizontes terrenos, mas abre-se para a eternidade. Assim a nossa «tristeza tornar-se-á em alegria» (Ev.). S. Filipe Neri notabilizou-se sobretudo pelo amor do próximo e pela sua alegria no serviço de Deus.

 

Sábado, 27-V: S. Agostinho de Cantuária: A contemplação e o apostolado.

Act. 18, 23-28 / Jo. 16, 23-28

(Apolo) como tinha um espírito fervoroso, pregava e ensinava com exactidão o que dizia respeito a Jesus.

O espírito fervoroso (cf. Leit.) corresponde àquele que reza, que está muito unido a Deus. Jesus anima-nos a sermos piedosos, a rezarmos ao Pai em seu nome (cf. Ev.). A oração é como a respiração do cristão. Por isso, procuramos transformar tudo o que fazemos em oração.

A oração está na base do apostolado e da pregação (cf. Leit.). S. Agostinho de Cantuária vivia num mosteiro, dedicado à contemplação e o Papa S. Gregório pediu-lhe que fosse pregar o Evangelho a Inglaterra, o que fez com abundantes frutos.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         José Valentim Vilar

Nota Exegética:             Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                        Nuno Romão

Sugestão Musical:                  Duarte Nuno Rocha

 


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