S. Pedro e S.
Paulo
Missa do Dia
29 de Junho de 2006
RITOS INICIAIS
Cântico
de entrada: Fez-vos Cristo luz do mundo, F. da
Silva, NRMS 36
Antífona
de entrada: Estes são os
Apóstolos, que durante a sua vida na terra plantaram a Igreja com o seu sangue.
Beberam o cálice do Senhor e tornaram-se amigos de Deus.
Diz-se o Glória.
Introdução ao
espírito da Celebração
Celebramos hoje a
solenidade litúrgica dos Santos Pedro e Paulo. A sua santidade e generosa
dedicação à Igreja levou-os ao sacrifício supremo e a
uma projecção missionária unida à solicitude constante pela unidade na
diversidade.
O seu exemplo deve
levar-nos a repensar os dons com que o Senhor Deus nos cumulou e a reformular a
nossa vivência cristã no meio onde exercemos a nossa actividade quotidiana.
Procuremos viver,
como verdadeiros cristãos, esta solenidade, afastando de nós toda a tentação de
a vulgarizar ou paganizar com festejos que nada têm a ver com o cristianismo.
Oração
colecta: Senhor, que nos encheis
de santa alegria na solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja que se mantenha sempre fiel à
doutrina daqueles que foram o fundamento da sua fé. Por Nosso Senhor Jesus
Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Liturgia da
Palavra
Primeira Leitura
Monição: Nesta leitura vamos ouvir a narração da
libertação de Pedro que se encontrava preso a mando de Herodes,
perseguidor dos cristãos. Ela faz referência a um facto histórico, mas quer
ressaltar, como essencial, que Pedro reconhece que a sua salvação não foi
devida à sua iniciativa, mas obra do Senhor.
Actos dos Apóstolos 12, 1-11
1Naqueles
dias, o rei Herodes começou a perseguir alguns
membros da Igreja. 2Mandou matar à espada Tiago, irmão de João, 3e,
vendo que tal procedimento agradava aos judeus, mandou prender também Pedro.
Era nos dias dos Ázimos. 4Mandou-o prender e meter na cadeia,
entregando-o à guarda de quatro piquetes de quatro soldados cada um, com a
intenção de o fazer comparecer perante o povo, depois das festas da Páscoa.
Enquanto 5Pedro era guardado na prisão, a Igreja orava instantemente a Deus por ele. 6Na noite anterior
ao dia em que Herodes pensava fazê-lo comparecer,
Pedro dormia entre dois soldados, preso a duas correntes, enquanto as
sentinelas, à porta, guardavam a prisão. 7De repente, apareceu o
Anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela da cadeia. 8O Anjo acordou
Pedro, tocando-lhe no ombro, e disse-lhe: «Levanta-te depressa». E as correntes
caíram-lhe das mãos. Então o Anjo disse-lhe: «Põe o cinto e calça as
sandálias». Ele assim fez. Depois acrescentou: «Envolve-te no teu manto e
segue-me». 9Pedro saiu e foi-o seguindo, sem perceber a realidade do
que estava a acontecer por meio do Anjo julgava que era uma visão. 10Depois
de atravessarem o primeiro e o segundo posto da guarda, chegaram à porta de
ferro, que dá para a cidade, e a porta abriu-se por si mesma diante deles.
Saíram, avançando por uma rua, e subitamente o Anjo desapareceu. 11Então
Pedro, voltando a si, exclamou: «Agora sei realmente que o Senhor enviou o seu
Anjo e me libertou das mãos de Herodes e de toda a
expectativa do povo judeu».
1-2 «Herodes»: é Herodes Agripa I, o terceiro monarca do mesmo nome a ser nomeado no NT; era filho da Aristóbulo e sobrinho de Herodes Antipas (o que mandara matar o Baptista) e neto de Herodes, o Grande (o da construção do Templo e da matança dos inocentes). Depois de uma vida libertina em Roma, obteve o favor de Calígula, vindo a poder usar o título de rei dum território quase tão grande como o do avô, apresentando-se muito zeloso da religiosidade judaica. «Tiago» é o filho de Zebedeu e Salomé, irmão do Apóstolo João evangelista. O seu martírio deve ter sido um ano ou dois após a tomada de posse de Herodes, a qual se deu no ano 41.
4-6 «Guarda de 4 piquetes de 4 soldados»: note-se o contraste entre a severidade da segurança e a serenidade de Pedro que dorme; cada piquete correspondia a uma das quatro vigílias da noite; Pedro «dormia entre dois soldados», com uma das mãos atada à mão de um soldado e a outra à do outro, enquanto «a Igreja orava instantemente a Deus por ele» (belo fundamento bíblico da oração assídua pelo Papa).
7-10 A intervenção libertadora do «Anjo do Senhor» já tinha sido assinalada em semelhante circunstância (cf. Act 5, 18-19); esta está na linha da fé da Igreja na protecção dos anjos da guarda, conforme lembra o Catecismo da Igreja Católica, nº 336: «Desde a infância até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão…».
Salmo Responsorial Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 5b)
Monição: Com a recitação deste salmo vamos confirmar
o reconhecimento e louvor a Deus, porque sempre escuta, atende e liberta de
todos os perigos aqueles que O procuram com sinceridade.
Refrão: O
Senhor libertou-me de toda a ansiedade.
A toda a hora bendirei
o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se
no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.
Enaltecei comigo ao
Senhor
e exaltemos juntos o seu nome.
Procurei o Senhor e
Ele atendeu-me,
libertou-me de toda a ansiedade.
Voltai-vos para Ele e
ficareis radiantes,
o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.
Este pobre clamou e o
Senhor o ouviu,
salvou-o de todas as angústias.
O Anjo do Senhor
protege os que O temem
e defende-os dos perigos.
Saboreai e vede como o
Senhor é bom:
feliz o homem que n’Ele se refugia.
Segunda Leitura
Monição: Frente à certeza do martírio, Paulo
compara-se a um atleta que recebe o prémio da vitória: ele sabe que a sua vida
foi inteiramente dedicada a propagar e sustentar a fé e o seu olhar continua
firme no Senhor. Tem a certeza que Ele o levará a participar plenamente no seu
Reino.
2 Timóteo 4, 6-8.17-18
Caríssimo: 6Eu já estou oferecido em libação e o tempo da
minha partida está iminente. 7Combati o bom combate, terminei a
minha carreira, guardei a fé. 8E agora já me está preparada a coroa
da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia e não só a mim,
mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda. 17O
Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a
mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem
e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me livrará de todo o
mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos
séculos. Amen.
A leitura é um extracto da parte final da Carta, em que o Paulo, pressentindo a morte iminente, faz como que um balanço da sua vida toda devotada à causa da Boa Nova. Consideramos o escrito dotado de autenticidade criticamente segura, não obstante uma certa tendência negativa mesmo entre diversos autores católicos. De facto aqui, como em muitos outros pontos das Cartas Pastorais, observam-se pormenores biográficos de tal maneira vivos, concretos e coerentes, que não se podem atribuir a um falsário. Há quem pense na intervenção dum secretário diferente dos habituais, que muito bem poderia ter sido o seu discípulo e companheiro (cf. v. 11) no segundo cativeiro romano, Lucas (Spicq).
6-7 «Já estou oferecido em libação», isto é, «sinto que a morte se avizinha»; é uma linguagem que bem pode proceder do costume, referido por Tácito, de se fazerem libações por ocasião da morte de alguém. «Combati o bom combate»: São Paulo sempre gostou de comparar a vida cristã e as lides apostólicas a lutas desportivas, pugilismo, corridas... (cf. Filp 2, 16; 3, 12-14; 1 Cor 9, 24-26; Gal 2, 2); «terminei a minha carreira», à letra, corrida.
17 «A mensagem... fosse proclamada a todos…» Pensa-se haver aqui uma referência a algum testemunho público nalguma audiência do tribunal perante grande multidão. «Fui libertado da boca do leão», o que não significa forçosamente que estivesse para ser lançado às feras, mas simplesmente o adiamento da condenação à pena capital, talvez para se proceder a melhor estudo da causa, em face do surpreendente testemunho do heróico pregador do Evangelho, que teria deixado os seus juízes perplexos…
Aclamação ao
Evangelho Mt 16, 18
Monição: Jesus concede a Pedro, e aos seus
sucessores, o exercício da autoridade de ensinar e de excluir ou introduzir na
comunidade eclesial todos os homens, até à consumação
dos séculos.
Aleluia
Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)
Tu és Pedro e sobre
esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra
ela.
Evangelho
São Mateus 16, 13-19
Naquele tempo, 13Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem
dizem os homens que é o Filho do homem?». 14Eles responderam: «Uns dizem
que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos
profetas». Jesus perguntou: 15«E vós, quem dizeis que Eu sou?». 16Então,
Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». 17Jesus
respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e
o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. 18Também
Eu te digo: Tu és Pedro sobre esta pedra edificarei a
minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei
as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
O texto da leitura consta de duas partes distintas, mas intimamente ligadas: a confissão de fé de Pedro (vv. 13-16), comum a Marcos 8, 27-30 e a Lucas 9, 18-21 (cf. Jo 6, 67-71), e a promessa feita a Pedro (vv. 17-19), exclusiva de Mateus (cf. Jo 21, 15, 23).
13 «Cesareia de Filipe» era a cidade construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, em honra do César romano, nas faldas do Monte Hermon, a uns 40 quilómetros a Nordeste do Lago de Genesaré.
13-17 «Quem dizem os homens… E vós, quem dizeis que Eu sou? » É uma pergunta que, em face de Jesus – uma pessoa tão singular, surpreendente e apaixonante –, não pode deixar de ser feita em todos os tempos. As respostas podem ser variadas e até contraditórias, mas só uma é a certa, a resposta de Pedro, a resposta esclarecida da fé, resposta que Jesus aprova: «Feliz de ti, Simão» (v. 17). «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo» (v. 16): Messias é a forma hebraica da palavra do texto original grego, Cristo, que quer dizer ungido (os reis eram ungidos com azeite na cabeça ao serem investidos). Jesus é o Rei (ungido) anunciado pelos Profetas e esperado pelo povo. Quando se diz Jesus Cristo é como confessar a mesma fé de Pedro, reconhecer que Jesus é o Cristo, isto é, o Messias, mas num sentido mais denso e profundo, a saber, o Filho de Deus, num sentido que ultrapassa o corrente e que só o dom divino da fé pode fazer descobrir, segundo as palavras de Jesus a Pedro: «Não foram a carne e o sangue que to revelaram» (v. 17). A fé de Pedro, como a nossa, não pode proceder dum mero raciocínio humano, da sagacidade natural, mas da luz, da certeza e da firmeza, que procede da revelação de Deus. «A carne e o sangue» é uma forma semítica de designar o homem enquanto ser débil e exposto ao erro e ao pecado.
18 «Tu és Pedro». É significativo que o texto grego não tenha conservado a palavra aramaica «kêphá», aliás usada noutras passagens do N. T. sem ser traduzida, como é habitual com os patronímicos. Aqui o evangelista teve o cuidado de usar o nome correntemente dado ao Apóstolo Simão: Pedro. É expressivo o trocadilho, com efeito Pedro é a pedra sobre a qual assenta a solidez de toda a Igreja do Senhor. Note-se que o apelido de Pedro = Pedra não existia na época, nem em aramaico (Kêphá), nem em grego (Pétros), nem em latim (Petrus), uma circunstância que reforça o seu significado e originalidade. Além disso, este apelido também não era apto para caracterizar o temperamento ou o carácter do Apóstolo, pois aquilo que distingue a sua personalidade não é precisamente a dureza ou firmeza da pedra, mas antes a debilidade, mobilidade e até inconstância (cf. Mt 14, 28-31; 26, 33-35.69-75; Gal 2, 11-14). Se Jesus assim o chama, é em razão da função ou cargo em que há-de investi-lo.
«Edificarei a minha Igreja». Jesus, ao dizer a minha, significa que tem intenção de fundar algo de novo, uma nova comunidade de Yahwéh. «Ekklêsía» é a tradução grega corrente dos LXX para a designação hebraica da Comunidade de (qehal) Yahwéh, isto é, «o povo escolhido de Deus reunido para o culto de Yahwéh» (cf. Dt 23, 2-4.9). Não é, portanto, a Igreja uma seita dentro do judaísmo, é uma realidade nova e independente. «Jesus pôde dizer minha, porque Ele a salva, Ele a adquire com o seu sangue, Ele a convoca, Ele realiza nela a presença divina, a aliança, o sacrifício». «As portas do inferno não prevalecerão». Esta linguagem tipicamente bíblica (Is 38, 10; Sab 16, 13; cf. Job 38, 17; Salm 9, 14) é uma sinédoque com que se designa a parte pelo todo. Inferno tanto pode designar a destruição e a morte (xeol=inferi=os infernos), como Satanás e os poderes hostis a Deus. Por ocasião da eleição do Papa Bento XVI viu-se bem como estes poderes hostis à verdadeira Igreja de Cristo mais uma vez se assanharam…
19 «Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus». Os poderes conferidos a Pedro não são para ele vir a exercer no Céu, mas aqui neste mundo, onde a Igreja, o Reino de Deus em começo e em construção, tem de ser edificada. No judaísmo e no Antigo Testamento (cf. Is 22, 22), lidar com as chaves é uma atribuição de quem representa o próprio dono, significa administrar a casa. Ligar-desligar significa tomar decisões com tal autoridade e poder supremo que serão consideradas válidas por Deus, «nos Céus». É de notar que Jesus diz a todos os Apóstolos esta mesma frase (Mt 18, 18), mas sem que seja tirada qualquer força à autoridade suprema de Pedro, a quem é dado um especial poder de «ligar e desligar» na Igreja, enquanto pedra fundamental e pastor supremo a ser investido após a Ressurreição (Jo 21, 15-17). Este primado de Pedro sobre toda a Igreja – que hoje se designa por ministério petrino – não é conferido apenas a ele, mas a todos os seus sucessores; com efeito Jesus fala a Pedro na qualidade de chefe duma edificação estável e perene, a Igreja; se o edifício é perene também o será a pedra fundamental. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 882, «o Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, «é princípio perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, todos os bispos com a multidão dos fiéis» (LG 23). Em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer» (LG 22). Este é um dos pontos cruciais do diálogo ecuménico, que terá uma saída feliz quando todos os que se consideram cristãos compreenderem que o carisma petrino, por vontade de Cristo, é o indispensável instrumento de união e unidade na legítima diversidade.
Sugestões para a
homilia
Em Pedro manifesta-se
o sentido da unidade
Em Paulo, a exigência
essencial do Evangelho
Em ambos, a generosa
dedicação à Igreja
Em
Pedro manifesta-se o sentido da unidade
«Tu és Pedro, e sobre
esta pedra edificarei a minha Igreja...» Jesus referia-se à fé que Pedro n’Ele
professara. Esta fé constitui o fundamento sólido da Igreja, torna-a invencível
e capaz de dominar as forças adversas. Todos aqueles que, como Pedro, professam
a fé em Jesus Cristo Filho do Deus vivo, passam a fazer parte deste edifício
extremamente sólido que nunca cairá. Nada nem ninguém poderá impedir a Igreja,
que acredita firmemente em Cristo, de realizar a sua missão de salvação.
Pedro que acaba de
manifestar a sua fé em Cristo representa os apóstolos e todos os cristãos que
professam a mesma fé.
No Novo Testamento
este Apóstolo aparece sempre em primeiro lugar e é aquele que deve confirmar a
fé dos outros. Isto indica que ele é o encarregado de manter a unidade de todos
os cristãos nessa mesma fé. Por isso, a Igreja tem no bispo de Roma, sucessor
de Pedro, o encarregado de conservar a fé em Cristo professada por esse
apóstolo, a fim de desempenhar tal missão no decorrer de todos os tempos.
Deveremos, pois,
abandonar tudo aquilo que não é evangélico no nosso modo de entender o
ministério do Papa e a autoridade na Igreja. Devemos adequar-nos, sobretudo,
àquilo que Jesus repetiu tantas vezes e com tanta clareza: «Aquele que for o
maior, proceda como se fosse o mais pequeno, e o que governar proceda como o
que serve os outros» (Lc
22, 26).
Em
Paulo, a exigência essencial do Evangelho
É esta também a
perspectiva de Paulo. Poucos meses antes de morrer, fechado numa prisão de
Roma, escreve a Timóteo, seu companheiro de missão, dando-se conta que o seu
fim está próximo, faz um balanço de toda a sua vida. Paulo está convencido que,
na proclamação do Evangelho, realizou a sua exigência essencial como os atletas
que participam nas competições desportivas no estádio: despendeu todas as suas
energias pela causa justa do anúncio da Boa Nova, quando afirma: «Combati o bom
combate, terminei a minha carreira, guardei a fé».
Deste modo, está
certo de que Deus lhe dará também a ele, no dia em que for acolhido na morada
eterna, a coroa da vitória que aguarda todos aqueles «que esperaram com amor a
sua vinda», isto é, a todos aqueles que, como ele, tenham lutado pela justiça.
Em
ambos, a generosa dedicação à Igreja
Pedro e Paulo
mostraram-nos com qual dedicação à Igreja, com que espécie de amor, com que
desinteresse e com que coragem deve ser desempenhado o ministério do anúncio do
Evangelho. São, por isso, para todos nós, exemplo de fidelidade à vocação
cristã quando somos confrontados com situações nada fáceis: perante o
sofrimento, a solidão, a incompreensão, ou a marginalização a que nos possam
sujeitar.
Pensemos que, como
nos refere a primeira leitura, quem está a sofrer por causa de Cristo deve
mostrar, como Pedro e Paulo, o seu amor generoso e dedicado à Igreja, mesmo
quando todos nos são opositores. Recordemos que do nosso lado teremos sempre o
«anjo do Senhor» para nos amparar e libertar, como fez com Pedro no momento em
que ele mais precisava.
Quando todas as
esperanças humanas se desvanecem, tenhamos a certeza que o Senhor intervém para
nos salvar.
Fala o Santo Padre
«’Tu és Cristo, o
Filho de Deus vivo';
esta confissão de São Pedro deu origem ao início
da Igreja.»
A festa dos santos
Apóstolos Pedro e Paulo é ao mesmo tempo uma grata memória das grandes
testemunhas de Jesus Cristo e uma solene confissão em favor da Igreja una,
santa, católica e apostólica. É antes de tudo uma festa da catolicidade.
É sinal do Pentecostes a nova comunidade que fala em todas as línguas e une
todos os povos num único povo, numa família de Deus e este sinal tornou-se
realidade. A nossa assembleia litúrgica, na qual estão reunidos Bispos
provenientes de todas as partes do mundo, pessoas de numerosas culturas e
nações, é uma imagem da família da Igreja distribuída sobre toda a terra.
Estrangeiros tornaram-se amigos; não obstante todos os confins, reconhecemo-nos
irmãos. Com isto é levada a cabo a missão de São Paulo, que sabia «ser para os
gentios um ministro de Cristo Jesus, que administra o Evangelho de Deus como um
sacerdote, a fim de que a oferenda dos gentios, santificada pelo Espírito
Santo, lhe seja agradável» (Rm 15, 16). A
finalidade da missão é uma humanidade que se tornou uma glorificação viva de
Deus, o culto verdadeiro que Deus espera: eis o sentido mais profundo da catolicidade,
uma catolicidade que já nos foi doada e para a qual, contudo, nos
devemos encaminhar sempre de novo. A catolicidade exprime uma dimensão
horizontal, a reunião de muitas pessoas na unidade; exprime também uma dimensão
vertical: só dirigindo o olhar para Deus, só abrindo-nos a Ele nos podemos
tornar verdadeiramente uma coisa só. Como Paulo, assim também Pedro veio a
Roma, à cidade que era o lugar de convergência de todos os povos e que por isso
podia tornar-se antes de qualquer outra, a expressão da universalidade do
Evangelho. Empreendendo a viagem de Jerusalém para Roma, certamente ele sabia
que era guiado pelas vozes dos profetas, da fé e da oração de Israel. De facto,
faz parte também do anúncio da Antiga Aliança a missão a todo o mundo: o povo
de Israel estava destinado a ser luz para os povos. O grande salmo da Paixão, o
salmo 21, cujo primeiro versículo «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»
Jesus pronunciou na cruz, este salmo terminava com a visão: «Hão-de lembrar-se
do Senhor e voltar-se para Ele todos os confins da terra; hão-de prostrar-se
diante dele todos os povos e nações» (Sl 21,
28). Quando Pedro e Paulo vieram a Roma o Senhor, que iniciara aquele Salmo na
cruz, tinha ressuscitado; esta vitória de Deus devia ser agora anunciada a
todos os povos, cumprindo assim a promessa com a qual o salmo se concluía.
Catolicidade significa universalidade; multiplicidade
que se torna unidade; unidade que permanece contudo multiplicidade. Da palavra
de Paulo sobre a universalidade da Igreja já vimos que faz parte desta unidade
a capacidade que os povos têm de se superar a si mesmos, para olhar para o
único Deus. O verdadeiro fundador da teologia católica, Santo Ireneu de Lião, no século II, expressou este vínculo entre
catolicidade e unidade de maneira muito bonita, e cito-o. Diz: «A Igreja
espalhada em todo o mundo conserva esta doutrina e esta fé com diligência,
formando quase uma única família: a mesma fé com uma só alma e um só coração, a
mesma pregação, ensinamento, tradição como se tivesse uma só boca. São diversas
as línguas segundo as religiões, mas a força da tradição é única e a mesma. As
Igrejas da Alemanha não têm uma fé ou tradição diversas, nem as da Espanha, da
Gália, do Egipto, da Líbia, do Oriente, nem as do centro da terra; como o sol
criatura de Deus é um só e idêntico em todo o mundo, assim a luz da verdadeira
pregação resplandece em toda a parte e ilumina os homens que desejam chegar ao
conhecimento da verdade» (Adv. haer.
I 10, 2). A unidade dos homens na sua multiplicidade tornou-se possível
porque Deus, este único Deus do céu e da terra, se mostrou a nós; porque a
verdade fundamental sobre a nossa vida, sobre o nosso «de onde?», se tornou
visível quando Ele se mostrou a nós e em Jesus Cristo nos mostrou o seu rosto,
a si mesmo. Esta verdade sobre a essência do nosso ser, sobre o nosso viver e o
nosso morrer, verdade que de Deus se tornou visível, une-nos e faz de nós
irmãos. Catolicidade e unidade caminham juntas. E a unidade tem
um conteúdo: a fé que os Apóstolos nos transmitiram da parte de Cristo. […]
O facto que ambas as
dimensões se tornem visíveis a nós nas figuras dos santos Apóstolos indica-nos
já a característica sucessiva da Igreja: ela é apostólica. O que
significa? O Senhor instituiu doze Apóstolos, assim como doze eram os filhos de
Jacob, indicando-os como arquétipos do povo de Deus que, tendo-se já tornado
universal, daquele momento em diante abrange todos os povos. São Marcos diz-nos
que Jesus chamou os Apóstolos para que «andassem com Ele e também para os enviar»
(Mc 3, 14). Parece quase uma contradição. Nós
diríamos: ou estão com Ele ou são enviados e põem-se a caminho. Há uma palavra
do Santo Papa Gregório Magno sobre os anjos, que nos ajuda
a desfazer tal contradição. Ele diz que os anjos são sempre enviados e ao mesmo
tempo estão sempre diante de Deus, e continua: «Onde
quer que sejam enviados, onde quer que vão, caminham sempre no seio de Deus» (Homilia
34, 13). O Apocalipse qualificou os Bispos como «anjos» da sua Igreja, e por
conseguinte, podemos fazer esta aplicação: os Apóstolos e os seus sucessores
deveriam estar sempre com o Senhor e precisamente assim onde quer que vão estar
sempre em comunhão com Ele e viver desta comunhão.
A Igreja é apostólica,
porque confessa a fé dos Apóstolos e procura vivê-la. Existe uma unicidade que
caracteriza os Doze chamados pelo Senhor, mas existe ao mesmo tempo uma
continuidade na missão apostólica. São Pedro na sua primeira carta
qualificou-se como «copresbítero» com os presbíteros
aos quais escreve (5, 1). E com isto expressou o princípio da sucessão
apostólica: o mesmo ministério que ele tinha recebido do Senhor continua agora
na Igreja graças à ordenação sacerdotal. A Palavra de Deus não está só escrita
mas, graças às testemunhas que o Senhor, no sacramento, inseriu no ministério
apostólico, permanece palavra viva. […]
O Evangelho deste dia
fala-nos da confissão de São Pedro que deu origem ao início da Igreja: «Tu és
Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16).
Tendo falado hoje da Igreja una, católica e apostólica, mas ainda não da
Igreja santa, desejamos recordar neste momento outra confissão de Pedro
pronunciada em nome dos Doze no momento do grande abandono: «Por isso nós
cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus» (Jo
6, 69). O que isto significa? Jesus, na grande oração sacerdotal, diz que se
santifica pelos discípulos, fazendo alusão ao sacrifício da sua morte (Jo 17, 19). Com isto Jesus exprime implicitamente a sua
função de verdadeiro Sumo Sacerdote que realiza o
mistério do «Dia da Reconciliação», não apenas nos ritos substitutivos, mas na
concretização do seu próprio Corpo e Sangue. A palavra «o Santo de Deus» no
Antigo Testamento indicava Aarão como Sumo Sacerdote que tinha a tarefa de realizar a santificação
de Israel (Sl 105, 16; cf. Sr
45, 6). A confissão de Pedro em favor de Cristo, que ele declara o Santo de
Deus, está no contexto do discurso eucarístico, no qual Jesus anuncia o grande
Dia da Reconciliação mediante a oferenda de si mesmo em sacrifício: «O pão que
Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo» (Jo
6, 51). Assim, no quadro desta confissão, encontra-se o mistério sacerdotal de
Jesus, o seu sacrifício por todos nós. A Igreja não é santa por si só;
consiste de facto de pecadores todos nós o sabemos e vemos. Mas ela é sempre de novo santificada
pelo Santo de Deus, pelo amor purificador de Cristo. Deus não falou apenas:
amou-nos de modo muito realista, amou-nos até à morte do próprio Filho. É
precisamente disto que se nos mostra toda a grandeza da revelação que quase
inscreveu no coração do próprio Deus as feridas. Então, cada um de nós pode
dizer pessoalmente com São Paulo: «Vivo na fé do Filho de Deus que me amou e a
si mesmo se entregou por mim» (Gl 2, 20).
Peçamos ao Senhor para que a verdade desta palavra se imprima profundamente,
com a sua alegria e responsabilidade, no nosso coração; rezemos para que
irradiando-se da Celebração eucarística, ela se torne cada vez mais a força que
plasma a nossa vida.
Bento XVI, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e
Paulo, 29 de Junho de 2005
Oração Universal
Oremos a Deus Pai
Omnipotente,
por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo,
aclamando:
Aumentai, Senhor,
a nossa fé.
1. Pela santa Igreja fundada sobre Pedro
e
presente em toda a terra,
para que, no meio das dificuldades desta vida,
seja fiel à missão recebida
de anunciar a salvação a todo o mundo,
oremos, irmãos.
2. Pelo Papa, Bispos, Sacerdotes, Diáconos,
religiosos e leigos responsáveis,
para que, à imitação de S. Pedro e S. Paulo,
procurem fecundar de espírito cristão a nossa sociedade,
oremos, irmãos.
3. Por todos os que, a exemplo de S. Paulo,
anunciam o Evangelho de Cristo,
sejam perservados de todo o mal,
oremos, irmãos.
4. Por todos aqueles que participam desta
solenidade,
para que o façam com espírito verdadeiramente cristão,
oremos, irmãos.
5. Por todos nós, pelas nossas intenções
e
pelas intenções que nos foram recomendadas,
para que, por intercessão de S. Pedro e S. Paulo,
alcancemos as graças pedidas ao Senhor,
oremos, irmãos.
6. Pela nossa comunidade,
para que vive em paz, concórdia e unidade,
oremos, irmãos.
Ouvi, Senhor, as
nossas preces e dignai-vos atender os nossos pedidos,
por intermédio de Jesus Cristo vosso Filho, que
é Deus convosco,
na unidade do Espírito Santo.
Liturgia
Eucarística
Cântico
do ofertório: Tu és Pedro, M. Simões, NRMS 42
Oração
sobre as oblatas: Fazei, Senhor,
que a oração dos santos Apóstolos acompanhe a oferta que trazemos ao vosso
altar e nos una intimamente a Vós ao celebrarmos este
divino sacrifício. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus
convosco na unidade do Espírito Santo.
Prefácio
A dupla missão de
São Pedro e São Paulo na Igreja
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo,
Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte.
Vós nos concedeis a
alegria de celebrar hoje a festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo: Pedro, que
foi o primeiro a confessar a fé em Cristo, e Paulo, que a ilustrou com a sua
doutrina; Pedro, que estabeleceu a Igreja nascente entre os filhos de Israel, e
Paulo, que anunciou o Evangelho a todos os povos; ambos trabalharam, cada um
segundo a sua graça, para formar a única família de Cristo; agora, associados
na mesma coroa de glória, recebem do povo fiel a mesma veneração.
Por isso, com todos os
Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo.
Santo: M. Simões, NRMS 50-51
Monição da Comunhão
Reconciliados com
Cristo e com todos os irmãos, recebamos o Senhor em comunhão, a fim de que
através dela obtenhamos a força de unidade manifestada por S. Pedro e a
combatividade expressa por S. Paulo, na vivência do nosso dia-a-dia.
Cântico
da Comunhão: Não fostes vós que me escolhestes,
Az. Oliveira, NRMS 59
Mt 16, 16.18
Antífona
da comunhão: Disse Pedro a
Jesus: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo. Jesus respondeu: Tu és Pedro e sobre
esta pedra edificarei a minha Igreja.
Cântico
de acção de graças: fazei de mim um instrumento, F. da
Silva, NRMS 6 (II)
Oração
depois da comunhão: Senhor, que
nos alimentastes com este sacramento, concedei-nos a graça de vivermos de tal
modo na vossa Igreja que, assíduos à fracção do pão e ao ensino dos Apóstolos,
sejamos um só coração e uma só alma, solidamente enraizados no vosso amor. Por
Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do
Espírito Santo.
Ritos Finais
Monição final
Respondamos
afirmativamente ao chamamento que nos foi manifestado pelo Senhor nesta
celebração da solenidade de S. Pedro e S. Paulo. Com o nosso testemunho
revigoremos este mundo em que vivemos, a fim de que haja mais justiça, paz e
unidade entre todos os povos e nações.
Cântico
final: Ide por todo o mundo e proclamai,
J. Santos, NRMS 59
Homilias Feriais
6ª feira, 30-VI: 1os. Mártires Romanos: Começar, recomeçar
sempre.
2 Reis 25,
1-12 / Mt. 8, 1-4
Veio
então prostrar-se diante d’Ele um leproso, que lhe disse. Senhor, se quiseres podes curar-me.
As muralhas da cidade
de Jerusalém foram arrasadas pelo exército do rei Nabucodonossor,
que incendiou igualmente o templo do Senhor e levou muitos prisioneiros para a
Babilónia (cf. Leit). Foi depois preciso reconstruir a cidade e libertar os exilados.
O leproso foi curado
por Jesus e iniciou uma vida nova
(cf. Ev.). Para reconstruirmos
a nossa vida precisamos reconhecer a nossa condição de pecadores, recorrer
à misericórdia de Deus. Assim recebemos a graça de um novo início. Os 1os. Mártires Romanos foram
martirizados no ano 64 e assim serviram de alicerce para a Igreja de Roma.
Sábado, 1-VII:
Reconstrução da ruína.
Lam. 2, 2.
10-14. 18-19 / Mt. 8, 5-17
A tua
ruína é grande como o mar: quem poderá curar-te?... Clama de todo o teu coração
ao Senhor…
Lamentam-se as filhas
de Sião e Jerusalém pela ruína da cidade (cf. Ev.). O mesmo poderíamos dizer da ruína moral existente em tantos países do mundo, incluído o nosso.
O criado do centurião
estava também com a saúde arruinada.
Cristo era a única esperança e curou aquele homem. No mesmo dia curou também a
sogra de Pedro e muitos possessos (cf. Ev.). Peçamos
com muita fé ao Senhor para que cure as doenças da nossa alma; para que nos
ajude a reconstruir a moralidade do nosso país.
Celebração e Homilia: António
Elísio Portela
Nota Exegética: Geraldo Morujão
Homilias Feriais: Nuno Romão
Sugestão Musical: Duarte
Nuno Rocha