DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

CIÊNCIA E FÉ

 

 

Na tarde do dia 6 de Abril passado, Bento XVI presidiu na Praça de São Pedro ao encontro com os jovens de Roma e das Dioceses do Lácio, em preparação para a Jornada Mundial da Juventude que se celebraria no dia 9 seguinte. Depois da proclamação da Palavra de Deus, o Santo Padre respondeu às perguntas que lhe foram postas por cinco jovens. Oferecemos aos leitores a última pergunta e sua resposta.

 

- Santo Padre, chamo-me Giovanni, tenho 17 anos, estudo no Liceu Científico Tecnológico «Giovanni Giorgi» de Roma e pertenço à Paróquia de Santa Maria Mãe da Misericórdia.

Peço-lhe que nos ajude a compreender melhor como a revelação bíblica e as teorias científicas podem convergir na busca da verdade. Muitas vezes somos tentados a pensar que ciência e fé são entre si inimigas; que ciência e técnica são a mesma coisa; que a lógica matemática descobriu tudo; que o mundo é fruto do acaso; e que, se a matemática não descobriu o teorema Deus, é porque Deus, simplesmente, não existe. Em síntese, sobretudo quando estudamos, nem sempre é fácil reconduzir tudo a um projecto divino, inscrito na Natureza e na história do Homem. Por vezes, a fé vacila ou reduz-se a simples acto sentimental. Também eu, Santo Padre, como todos os jovens, tenho fome de Verdade: mas como posso fazer para harmonizar Ciência e Fé?

 

- O grande Galileu disse que Deus escreveu o livro da Natureza na forma da linguagem matemática. Ele estava convencido de que Deus nos deu dois livros: o da Sagrada Escritura e o da Natureza. E a linguagem da Natureza - era esta a sua convicção - é a matemática; por conseguinte, ela é linguagem de Deus, do Criador. Reflictamos agora sobre o que é a matemática: em si, é um sistema abstracto, uma invenção do espírito humano, que como tal, na sua pureza, não existe. É sempre realizado aproximativamente, mas como tal é um sistema intelectual, é uma grande, genial invenção do espírito humano. O que surpreende é que esta invenção da nossa mente humana é verdadeiramente a chave para compreender a Natureza, que a Natureza está realmente estruturada de modo matemático e que a nossa matemática, inventada pelo nosso espírito, é realmente o instrumento para poder trabalhar com a Natureza, para a pôr ao nosso serviço, para a instrumentalizar através da técnica.

Parece-me quase incrível que uma invenção do intelecto humano e a estrutura do universo coincidam: a matemática por nós inventada dá-nos realmente acesso à Natureza do universo e faz com que ele seja utilizado por nós. Portanto, a estrutura intelectual do sujeito humano e a estrutura objectiva da realidade coincidem: a razão subjectiva e a razão objectivada na Natureza são idênticas. Penso que esta coincidência entre quanto nós pensamos e como se realiza e se comporta a Natureza, é um grande enigma e desafio, porque vemos que, afinal, há «uma» razão que relaciona os dois: a nossa razão não poderia descobrir essa outra, se na origem das duas não se encontrasse uma idêntica razão.

Neste sentido, tenho a impressão de que a matemática - na qual Deus, como tal, não pode aparecer - nos mostra a estrutura inteligente do universo. Actualmente, existem também teorias do caos, mas são limitadas, porque se o caos prevalecesse, toda a técnica se tornaria impossível. Só porque se pode confiar na nossa matemática, também se pode confiar na técnica. A nossa ciência, que torna finalmente possível trabalhar com as energias da Natureza, supõe a estrutura em que se pode confiar, inteligente da matéria. E desta forma vemos que há uma racionalidade subjectiva e uma racionalidade objectivada na matéria, que coincidem. Evidentemente, agora ninguém pode provar - como se prova na experimentação, nas leis técnicas - que as duas são realmente originadas numa única inteligência, mas parece-me que esta unidade da inteligência, por trás das duas inteligências, existe realmente no nosso mundo. E quanto mais nós podemos instrumentalizar o mundo com a nossa inteligência, tanto mais sobressai o desígnio da Criação.

Por fim, para chegar à questão definitiva, digo: Deus ou existe ou não existe. Há apenas duas opções. Ou se reconhece a prioridade da razão, da Razão criadora que está na origem de tudo e é o princípio de tudo - a prioridade da razão é também prioridade da liberdade -, ou se defende a prioridade do irracional, segundo o qual tudo o que acontece na nossa terra e na nossa vida seria apenas casualidade, marginal, um produto irracional - a razão seria um produto da irracionalidade. Em última análise, não se pode «provar» um projecto ou outro, mas a grande opção do Cristianismo é a opção pela racionalidade e pela prioridade da razão. Parece-me que esta é uma óptima opção, que nos mostra como por trás de tudo há uma grande Inteligência, na qual podemos confiar.

Mas, hoje, o verdadeiro problema contra a fé parece ser o mal no mundo: perguntamo-nos como pode ser ele compatível com esta racionalidade do Criador. E aqui temos realmente necessidade do Deus que se fez carne e que nos mostra como Ele não é apenas uma razão matemática, mas que esta razão originária também é Amor. Se olharmos para as grandes opções, a opção cristã também é hoje a mais racional e a mais humana. Por isso, podemos elaborar com confiança uma filosofia, uma visão do mundo que esteja baseada nesta prioridade da razão, nesta confiança de que a Razão criadora é amor, e que este amor é Deus.

 

 


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