JOÃO PAULO ii

FIDELIDADE E DEDICAÇÃO

 

 

Bento XVI

 

 

Por ocasião do primeiro aniversário da morte do Servo de Deus João Paulo II, às 20.30 do domingo 2 de Abril passado, realizou-se na Praça de São Pedro a recitação do Rosário, por iniciativa da diocese de Roma. Às 21.00, Bento XVI dirigiu da janela do seu escritório os Mistérios gloriosos. No fim pronunciou as seguintes palavras:.

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Encontramo-nos esta tarde, no primeiro aniversário da morte do amado Papa João Paulo II, para esta vigília mariana organizada pela Diocese de Roma. Saúdo com afecto todos vós aqui presentes na Praça de São Pedro, começando pelo Cardeal Vigário Camillo Ruini e pelos Bispos Auxiliares, com um pensamento especial para os Cardeais, os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e todos os fiéis leigos, particularmente os jovens. Na verdade, é toda a cidade de Roma que está aqui simbolicamente reunida para este emocionante momento de reflexão e de oração. Dirijo uma saudação especial ao Cardeal Stanislaw Dziwisz, Arcebispo Metropolitano de Cracóvia, em ligação televisiva connosco, que durante muitos anos foi fiel colaborador do saudoso Pontífice. Já transcorreu um ano depois da morte do Servo de Deus João Paulo II, que se verificou quase nesta mesma hora - eram as 21.37 -, mas a sua memória continua a estar viva como nunca, como testemunham as numerosas manifestações programadas nestes dias, em todas as partes do mundo. Ele continua a estar presente na nossa mente e no nosso coração; continua a comunicar-nos o seu amor a Deus e o seu amor ao homem; continua a suscitar em todos, sobretudo nos jovens, o entusiasmo do bem e a coragem de seguir Jesus e os seus ensinamentos.

Como resumir a vida e o testemunho evangélico deste grande Pontífice? Poderia tentar fazê-lo, usando duas palavras: «fidelidade» e «dedicação», fidelidade total a Deus e dedicação sem limites à própria missão de Pastor da Igreja universal. Fidelidade e dedicação que se mostraram ainda mais evidentes e comovedoras nos últimos meses, quando encarnou em si quanto escreveu em 1984 na Carta apostólica Salvifici doloris: «O sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor, para fazer nascer obras de amor para com o próximo, para transformar toda a civilização humana na civilização do amor» (n. 30). A sua doença enfrentada com coragem fez com que todos se tornassem mais atentos ao sofrimento humano, a cada sofrimento físico e espiritual; deu ao sofrimento dignidade e valor, testemunhando que o homem não vale pela sua eficiência, pela sua aparência, mas por si mesmo, porque é criado e amado por Deus. Com as palavras e os gestos, o querido João Paulo II não se cansou de indicar ao mundo que, se o homem se deixa abraçar por Cristo, não mortifica a riqueza da sua humanidade; se adere a Ele com todo o coração, nada lhe faltará. Pelo contrário, o encontro com Cristo torna a nossa vida mais apaixonante. Precisamente porque se aproximou cada vez mais de Deus na oração, na contemplação, no amor à Verdade e à Beleza, o nosso amado Papa pôde tornar-se companheiro de viagem de cada um de nós e falar com autoridade também a quantos andam afastados da fé cristã.

No primeiro aniversário do seu regresso à Casa do Pai somos convidados esta noite a acolher de novo a herança espiritual que ele nos deixou; somos estimulados, entre outras coisas, a viver procurando incansavelmente a Verdade, a única que satisfaz o nosso coração. Somos encorajados a não ter receio de seguir Cristo, para levar a todos o anúncio do Evangelho, que é fermento de uma humanidade mais fraterna e solidária. João Paulo II nos ajude do céu a prosseguir o nosso caminho, permanecendo dóceis discípulos de Jesus, para sermos, como ele mesmo gostava de repetir aos jovens, «sentinelas da manhã» neste início do terceiro milénio cristão. Por isso, invocamos Maria, a Mãe do Redentor, em relação à qual ele sentiu sempre uma terna devoção.

Dirijo-me agora aos fiéis que da Polónia estão em ligação televisiva connosco.

Unamo-nos espiritualmente com os polacos que se reuniram em Cracóvia, em Varsóvia e nos outros lugares para a vigília. Está viva em nós a recordação de João Paulo II e não desaparece a sensação da sua presença espiritual. A recordação do amor especial que sentia pelos seus concidadãos seja sempre para vós a luz no caminho para Cristo. «Permanecei fortes na fé». Abençoo-vos de coração.

Agora, concedo a todos de coração a minha Bênção.

 

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Nessa mesma manhã de domingo, antes da recitação do «Angelus», o Santo Padre pronunciou as seguintes palavras:

 

Queridos irmãos e irmãs

 

No dia 2 de Abril do ano passado, precisamente como hoje, o amado Papa João Paulo II estava vivendo nestas mesmas horas, e aqui nestes mesmos aposentos, a última fase da sua peregrinação terrena, uma peregrinação de fé, de amor e de esperança, que deixou um profundo sinal na história da Igreja e da humanidade. A sua agonia e a sua morte constituíram como que um prolongamento do Tríduo pascal. Todos nós recordamos as imagens da sua última Via-Sacra, na Sexta-Feira Santa: dado que não podia ir ao Coliseu, acompanhou-a da sua Capela particular, com uma cruz nas mãos. Depois, no dia da Páscoa, concedeu a Bênção Urbi et Orbi sem poder pronunciar uma palavra, somente com o gesto da mão. Jamais esqueceremos aquela bênção. Foi a bênção mais dolorosa e comovedora, que ele nos deixou como extremo testemunho da sua vontade de cumprir o ministério até ao fim. João Paulo II morreu como tinha sempre vivido, animado pela indómita coragem da fé, abandonando-se em Deus e confiando-se a Maria Santíssima. Esta noite recordá-lo-emos com uma vigília de oração mariana na Praça de São Pedro, onde amanhã à tarde celebrarei a Santa Missa por ele.

A um ano da sua passagem da terra à casa do Pai, podemos perguntar-nos: o que nos deixou este grande Papa, que introduziu a Igreja no terceiro milénio? A sua herança é imensa, mas a mensagem do seu longuíssimo Pontificado pode resumir-se nas palavras com que ele o quis inaugurar, aqui na Praça de São Pedro, no dia 22 de Outubro de 1978: «Abri de par em par as portas a Cristo!».

João Paulo II encarnou este apelo inesquecível, que ainda sinto ressoar em mim como se fosse ontem, com toda a sua pessoa e com toda a sua missão de Sucessor de Pedro, especialmente com o seu extraordinário programa de viagens apostólicas. Visitando os países do mundo inteiro, encontrando-se com as multidões, as Comunidades eclesiais, os Governantes, os Chefes religiosos e as várias realidades sociais, ele realizou como que um único grande gesto, como confirmação daquelas suas palavras iniciais. Anunciou sempre Cristo, propondo-O a todos, como o Concílio Vaticano II já tinha feito, como resposta às expectativas do homem, expectativas de liberdade, de justiça e de paz. Cristo é o Redentor do homem - gostava ele de repetir -, o único Salvador autêntico de cada pessoa e de todo o género humano.

Nos últimos anos, gradualmente, o Senhor despojou-o de tudo para o assimilar completamente a Si. E quando já não podia viajar, e depois nem caminhar, e por fim nem sequer falar, o seu gesto, o seu anúncio reduziu-se ao essencial: ao dom de si mesmo até ao fim. A sua morte foi o cumprimento de um testemunho de fé coerente, que sensibilizou o coração de muitos homens de boa vontade. João Paulo II deixou-nos no dia de sábado, dedicado particularmente a Maria, a quem ele alimentou sempre uma devoção filial. Agora, peçamos à celestial Mãe de Deus que nos ajude a valorizar quanto este grande Pontífice nos concedeu e ensinou.

 

 

 

 


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