aCONTECIMENTOS eclesiais
DA SANTA SÉ
DINÂMICA
ECUMÉNICA
DE BENTO
XVI
O Cardeal Walter Kasper, Presidente do Conselho Pontifício
para a Promoção da Unidade dos Cristãos, considera que Bento XVI recentrou o
diálogo ecuménico nas questões essenciais, ao longo deste primeiro ano de
pontificado. Entre elas estão o primado do Papa, para os ortodoxos, e a
natureza da Igreja, para os protestantes.
Em entrevista ao jornal católico francês «La Croix»,
publicada no dia 19 de Abril, o Cardeal alemão lembra que «o Papa é um teólogo
bem conhecido pelos outros responsáveis cristãos e pode ajudar a aprofundar as
questões centrais».
Em relação aos ortodoxos, é aguardada com expectativa a
viagem de Bento XVI à Turquia, em Novembro, para encontrar-se com o Patriarca
ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I. O Cardeal Kasper explica que esta
viagem «é uma maneira de mostrar a vontade de ir mais longe», admitindo, por
exemplo, uma peregrinação à Terra Santa.
Quanto às relações com o Patriarcado ortodoxo de Moscovo,
não há neste momento nenhum projecto de viagem papal. Já em Setembro, a
comissão bilateral para o diálogo teológico entre católicos e ortodoxos irá
analisar a questão do primado do Papa e do proselitismo de que a Igreja
Católica é acusada nos territórios da antiga URSS.
O Presidente do Conselho Pontifício refere ainda que as
críticas relativas à supressão do título de «Patriarca do Ocidente», no Anuário
Pontifício, não o preocupam, assegurando que já foi explicado às Igrejas
Ortodoxas que «esta decisão não tinha nenhum significado eclesiológico».
O diálogo com os protestantes continua, apesar das
dificuldades relativas a algumas posições sobre questões como o aborto, as
uniões homossexuais ou a ordenação de mulheres. O Cardeal Kasper explica ainda
que «a nossa visão sobre os sacramentos está muito distante».
«Com os protestantes, a dificuldade é saber o que é a
Igreja, para eles e para nós», prossegue, o que dificulta a própria
conceptualização do ecumenismo, que varia em função do tipo de Igreja que se
deseja.
DESAFIOS
PROPOSTOS
AOS
JESUÍTAS
Bento XVI pediu, no passado dia 22 de Abril, aos membros da
Companhia de Jesus um compromisso cultural renovado nos campos da teologia e da
filosofia, em especial no «diálogo com a cultura contemporânea», que considerou
«fortemente marcada pelo cientismo positivista e materialista».
O Papa falava aos participantes da peregrinação ao túmulo de
São Pedro, promovida pelos Jesuítas, agradecendo a Deus «por ter concedido à
vossa Companhia o dom de homens de extraordinária santidade e excepcional zelo
apostólico», como Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e o Beato Pedro
Fabro.
A 22 de Abril celebrou-se o aniversario da peregrinação que
o fundador da Congregação, Santo Inácio de Loyola, realizou em 1541 juntamente
com os seus companheiros, às sete igrejas de Roma, efectuando depois a
profissão religiosa na Basílica de São Paulo fora de muros. Em 2006 celebra-se
o ano jubilar da Companhia de Jesus, por ocasião dos 500 anos de nascimento de
São Francisco Xavier.
Bento XVI lembrou que Santo Inácio foi «antes de mais, um
homem de Deus, que colocou Deus em primeiro lugar na sua vida». Sobre Francisco
Xavier, o Papa prestou homenagem ao seu apostolado no Oriente, que abriu novos
caminhos para o Evangelho nos grandes países do continente asiático, uma missão
que a Igreja ainda hoje deve empreender.
Da Ásia, o Papa passou para a Europa ao lembrar o Beato
Pedro Fabro, com uma actividade especialmente dedicada à Alemanha, recordando a
sua profunda vida interior.
Os Jesuítas são hoje cerca de 20 mil e encontram-se em 113
países do mundo; têm mais de 100 universidades, faculdades teológicas e
filosóficas e formam 2 milhões de estudantes em cada ano.
IMPORTÂNCIA
DOS
PROCESSOS
DE CANONIZAÇÃO
Numa mensagem dirigida ao Prefeito da Congregação das Causas
dos Santos, Cardeal José Saraiva Martins, e aos participantes da Sessão
plenária da Congregação, no passado dia 27 de Abril, Bento XVI defendeu o valor
da santidade da Igreja, lembrando que, desde os primeiros tempos, sempre houve
uma grande consideração pela memória e o culto dos Santos.
Citando a sua primeira encíclica, o Papa disse que estes
«são os verdadeiros portadores de luz dentro da história, porque são homens e
mulheres de fé, esperança e caridade».
O texto precisa, por outro lado, quais os motivos que
levaram Bento XVI a aprovar os novos procedimentos nos ritos de beatificação.
«Eleito para a Cátedra de Pedro, de bom grado dei execução ao difundido desejo
de que fosse mais sublinhada, nas modalidades celebrativas, a diferença substancial
entre a beatificação e a canonização e que nos ritos de beatificação fossem
envolvidas mais visivelmente as Igrejas particulares, permanecendo claro que só
ao Romano Pontífice compete conceder o culto a um Servo de Deus».
O Papa referiu que, ao longo dos séculos, a Igreja deu uma
atenção cada vez maior aos procedimentos que levam os Servos de Deus às honras
dos altares. Nesse sentido, lembrou que «não se poderá iniciar uma Causa de
beatificação e canonização se faltar uma comprovada fama de santidade, mesmo se
nos encontrarmos na presença de pessoas que se distinguiram pela coerência
evangélica e por particulares benemerências eclesiais e sociais».
Apontando várias das matérias relativas à idoneidade dos
candidatos à santidade, exortou a Congregação a «salvaguardar a seriedade das
investigações que se desenvolvem nos inquéritos diocesanos sobre as virtudes
dos Servos de Deus». Citando a «Instrução para o desenvolvimento do inquérito
diocesano nas Causas dos Santos», Bento XVI pediu que sejam também avaliadas
«uma sólida e difundida fama de santidade e de milagres ou martírio».
Relativamente aos milagres, o Papa recordou que a «praxis
ininterrupta da Igreja estabelece a necessidade de um milagre físico, não
bastando um milagre moral», pelo que convida a «aprofundar este tema à luz da
tradição da Igreja, da teologia hodierna e das aquisições mais acreditadas da
ciência».
Já quanto ao martírio, Bento XVI notou que «mesmo que o
motivo que leva ao martírio permaneça o mesmo, mudaram, pelo contrário, os
contextos culturais e as estratégias» de quem persegue os cristãos, admitindo
que a aversão à fé é dissimulada, muitas vezes, com razões de natureza política
ou social. Por isso, é preciso encontrar provas irrefutáveis, não só sobre a
vítima, mas também sobre o odium fidei.
QUEBRA DE
NATALIDADE
PREOCUPA O
PAPA
Bento XVI manifestou a sua preocupação com a diminuição da
taxa de natalidade em vários países, assinalando que esta quebra é o resultado
de causas múltiplas e complexas.
Numa mensagem enviada à XII Sessão plenária da Academia Pontifícia para as Ciências Sociais,
o Papa precisava que existem, actualmente, «duas tendências significativas: por
um lado, o aumento da esperança média de vida; por outro, uma diminuição da
taxa de natalidade».
O tema da plenária, que decorreu de 28 de Abril a 2 de Maio
passado, era «Juventude que desaparece? Solidariedade com as crianças e jovens
numa época turbulenta».
Para Bento XVI, as razões últimas da quebra de natalidade
«são morais e espirituais, ligadas a uma preocupantes falta de fé, de esperança
e de amor». «Talvez a falta de amor criativo e aberto à esperança seja a razão
pela qual muitos casais escolhem não se casarem e, assim, muitos matrimónios
falham e a taxa de natalidade diminui de modo significativo».
As crianças e os jovens não devem ser meramente tolerados na
sociedade, mas amados e cuidados, lembrava o Papa. Nesta «época de
turbulência», Bento XVI lamenta que os menores não recebam uma orientação moral
adequada, por parte dos adultos, com prejuízo para o seu desenvolvimento
intelectual e espiritual.
«Muitas crianças de hoje crescem numa sociedade que esquece
Deus e a dignidade inata da pessoa humana criada à imagem de Deus. Num mundo
caracterizado por processos de globalização cada vez mais rápidos, elas são
muitas vezes expostas unicamente a visões materialistas do universo, da vida e
da realização humana».
Bento XVI pede aos educadores que sejam capazes de formar as
crianças e os jovens num «projecto de vida destinado à verdadeira felicidade,
capaz de distinguir entre verdade e falsidade, bem e mal, justiça e injustiça,
mundo real e mundo da realidade virtual».
MAIS
CATÓLICOS
A Santa Sé divulgou, no fim de Abril passado, os últimos
números do catolicismo no mundo, que revelam um aumento significativo de
baptizados entre 1978 e 2004, ao mesmo tempo que diminuiu o número de
sacerdotes.
No último quarto de século, o número de católicos aumentou
45%, passando de 757 milhões para 1.098 mil milhões. Uma análise cuidada dos
números confirma a crescente importância da África para a Igreja, continente em
que o número de católicos baptizados quase triplicou, passando de 54,7 milhões
para 149 milhões.
O Anuário Estatístico
da Igreja de 2004 foi apresentado no momento em que a Igreja celebra a
Semana de orações pelas vocações. Os últimos dados disponíveis mostram que o
número de sacerdotes em todo o mundo caiu 3,5% em 26 anos, de 420.971 para
405.891, salientando-se que o resultado se deve a uma forte queda na Europa
(20%), apesar do aumento verificado na África (85%) e na Ásia (74%), e da
relativa estabilidade na América e na Oceânia. O Vaticano considerou
«globalmente decepcionante» a situação.
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ORDENAÇÕES
EPISCOPAIS
A recente ordenação de dois Bispos da «Associação Patriótica
da China», autorizada e controlada pelo regime comunista do país, foi
considerada pela Santa Sé como uma grave violação da liberdade religiosa. A
posição oficial da Igreja Católica foi dada a conhecer no passado dia 4 de
Maio, no comunicado do Director da sala de imprensa Joaquín Navarro-Valls.
«Estou em condições de dar a conhecer a posição da Santa Sé
acerca das ordenações episcopais dos sacerdotes José Ma Yinglin e José Liu
Xinhong, que se realizaram, respectivamente, no domingo 30 de Abril passado, em
Kunming (província de Yunnan), e na terça-feira 2 de Maio, em Wuhu (província
de Anhui).»
«O Santo Padre recebeu as notícias com profundo desgosto, já
que um acto tão relevante para a vida da Igreja, como é uma ordenação
episcopal, foi realizado em ambos os casos sem se respeitar as exigências da
comunhão com o Papa.»
«Trata-se de uma grave ferida à unidade da Igreja, para a
qual, como é sabido, estão previstas severas penas canónicas (cfr. cân. 1382 do
Código de Direito Canónico).»
«Segundo as informações recebidas, bispos e sacerdotes foram
submetidos - por parte de organismos
externos à Igreja - a fortes pressões e
ameaças, para que tomassem parte em ordenações episcopais que, estando privadas
do mandato pontifício, são ilegítimas e, além disso, contrárias às suas
consciências. Vários prelados opuseram uma recusa a tais pressões, enquanto
alguns não puderam fazer outra coisa senão submeter-se com grande sofrimento
interior. Episódios deste género produzem lacerações não só na comunidade
católica, mas também no interior mesmo das consciências.»
«Está-se, portanto, ante uma grave violação da liberdade
religiosa, apesar de se ter tentado, com pretextos, apresentar as duas
ordenações episcopais como um acto necessário para prover de Pastor dioceses
vacantes.»
«A Santa Sé acompanha com atenção o doloroso caminho da
Igreja Católica na China e, embora consciente de algumas peculiaridades desse
caminho, pensava e esperava que tais episódios deploráveis pertencessem já ao
passado.»
«Ela considera, agora, ser seu preciso dever dar voz ao
sofrimento de toda a Igreja Católica, em particular ao da comunidade católica
na China e especialmente ao dos bispos e sacerdotes, que se vêem obrigados
contra a consciência a realizar ou participar nas ordenações episcopais, que nem
os candidatos nem os bispos ordenantes querem realizar sem terem recebido o
mandato pontifício.»
«Se é verdade a notícia de que haverá outras ordenações
episcopais segundo a mesma modalidade, a Santa Sé reafirma a necessidade do
respeito da liberdade da Igreja e da autonomia das suas instituições de
qualquer ingerência exterior, e deseja por isso vivamente que não se repitam
estes inaceitáveis actos de violenta e inadmissível constrição.»
«A Santa Sé, em várias ocasiões, reafirmou a própria
disponibilidade para um diálogo honesto e construtivo com as competentes
Autoridades chinesas, para encontrarem soluções que satisfaçam as legítimas
exigências de ambas as partes. »
«Iniciativas como as assinaladas acima, não só não favorecem
tal diálogo, mas criam antes novos obstáculos contra ele».
MORALIDADE
SOBRE
USO DO
PRESERVATIVO
O Cardeal Alfonso López-Trujillo, Presidente do Conselho
Pontifício para a Família, negou qualquer mudança de fundo na posição da Igreja
Católica em relação à prevenção da SIDA. Em duas entrevistas diferentes, o
membro da Cúria Romana insistiu numa ideia central: a Igreja «não pensa
retroceder um milímetro» no que se refere ao uso do preservativo, mesmo na
prevenção da SIDA.
Falando à emissora nacional da Colômbia «RCN», o Cardeal
explicou que o Vaticano «mantém, sem modificar, a doutrina sobre o
preservativo» e assinalou que as recentes palavras do Cardeal italiano Carlo
Maria Martini «não passam de opiniões pessoais que não reflectem a doutrina
oficial».
Mons. López-Trujillo deu ainda uma entrevista ao jornal
espanhol «El País», e em ambas as situações nega que Bento XVI tenha ordenado
um estudo com o objectivo de «modificar a proibição do uso do preservativo».
«Como Dicastério, nós não temos nenhuma instrução para realizar qualquer tipo
de estudo com alguma novidade em relação ao preservativo», assegurou o Cardeal.
«Nenhum Papa, até agora, esteve aberto à possibilidade do
uso do preservativo», explicou, frisando que Bento XVI, ao longo do seu
primeiro ano de pontificado, «tem recomendado a fidelidade, a continência, a
castidade».
Os meios de Comunicação Social deram eco, em finais de
Abril, a uma entrevista do Cardeal Javier Lozano-Barragán, Presidente do
Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, em que falava do trabalho de uma
comissão científica e teológica a respeito do uso do preservativo e da
prevenção da SIDA. Falando à Rádio Vaticano, no dia 25 de Abril, este Cardeal
precisou que se estava a referir, apenas, a um «estudo», que seguirá os canais
habituais no Vaticano, até ao Papa, que decidirá como utilizá-lo.
O Cardeal Alfonso López-Trujillo deixou claro, por outro
lado, que a única recomendação da Igreja Católica em relação à prevenção da
SIDA «é a fidelidade e a castidade como meios, não só moralmente aceitáveis,
mas também medicamente eficazes».
Mesmo na África, fortemente afectada pela pandemia do
HIV/SIDA, o Cardeal defende uma política de «abstinência, fidelidade e
castidade», dando como exemplo o caso do Uganda, onde essa política conseguiu
baixar o número de contágios, ao contrário de outros países.
No caso do problema se colocar no seio do casal, o
Presidente do Conselho Pontifício para a Família lembra que «os esposos podem
entrar num plano de continência, de castidade, para não colocar em perigo a
segurança do outro» e refere que, no uso do preservativo, a segurança é
relativa por não existir 100% de eficácia na protecção.
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