TEOLOGIA E
MAGISTÉRIO
O SINAL DO
CELIBATO
E A PATERNIDADE
DO SACERDOTE *
Prof. Gary
Devery
Sidney
(Austrália)
O sinal do
celibato como acolhimento da vontade de Deus
A vida sacerdotal no
celibato supõe uma renúncia do grande bem do matrimónio. Contudo, não se pode
ficar somente no nível da renúncia. Ela é abraçada sobretudo por causa do Reino dos céus. É uma
renúncia feita por amor. O carisma especial concedido ao sacerdote pelo
Espírito Santo no seu chamamento vocacional informa-o de um particular tipo de
amor: um amor paterno espiritual.
O celibato existe por
causa do Reino dos céus. Tem uma orientação escatológica. Eleva a vista da
humanidade para olhar para além do imediato, para o eterno. No Evangelho de S.
Marcos, Jesus responde à questão sobre a ressurreição dos mortos com uma subtil
distinção: «Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres nem as
mulheres, maridos» (Mc 12, 25). Neste estado, a pessoa humana
experimenta a alegria da plenitude da doação pessoal e da plenitude da comunhão
intersubjectiva das pessoas. Isto já está inscrito na nossa carne e há uma
particular sensibilidade para isto no espírito humano. A vida sacerdotal no
celibato ajuda a sensibilizar e iluminar este aspecto à humanidade, à falta do
qual a beleza da pessoa humana perder-se-ia de vista, e homens e mulheres
estariam reduzidos a viverem apenas para este mundo.
Esta é uma verdade
que não é facilmente aceite. Ela apresentava dificuldades para os judeus do
tempo de Jesus e os próprios discípulos achavam que era duro de entender. O
celibato seria somente para aqueles que eram fisicamente deficientes ou assim
tinham sido feitos pelos homens. O ensinamento de Jesus sobre o corpo é uma
nova revelação.
Cristo falou
especificamente da continência por causa
do Reino dos céus. Ela é escolhida na vida presente – em que a norma é que
os homens e as mulheres casem – «para uma singular finalidade sobrenatural»,
em palavras de João Paulo II.
Mesmo que um
sacerdote viva a sua vida em continência perfeita externa, de acordo com o
ensinamento da Igreja sobre a sexualidade, se esta continência não é escolhida
com esta singular finalidade sobrenatural, ela não entra dentro do âmbito
daquilo que Cristo estava a revelar. Ela deve ser escolhida e vivida como uma
renúncia com uma particular determinação e esforço espirituais em vista do
reino.
O celibato por causa
do reino dos céus é um sinal escatológico. Ele convida cada geração da Igreja e
do mundo a erguer as suas cabeças, do olhar para o túmulo do homem não
redimido, para o significado da vida. Ele põe diante da humanidade – em
palavras de João Paulo II – «a virgindade escatológica do homem ressuscitado» .
A importância do
celibato por causa do reino dos céus está presente e activa no próprio momento
do início da história do Cristanismo: o evento da Anunciação. Duas pessoas
jovens, em obediência à bondade da ordem natural criada por Deus, têm a
intenção de se casarem. Esta intenção tornou-se já comunitária desde que foi
anunciado um compromisso formal. Nesta situação irrompe um evento de Deus. À
jovem virgem comprometida, o Arcanjo Gabriel anuncia a boa nova. Ante este
desígnio de Deus, que é diferente do que Maria tinha pensado para a sua vida,
ela acolhe-o com humildade, simplicidade e alegria. Renuncia ao seu próprio
plano, que era bom, o caminho normal do casamento, das relações conjugais com o
seu marido, do acolhimento dos filhos como fruto desta união mútua. Ela acolhe
o desígnio de Deus sobre ela, que inclui o mistério de uma maternidade
virginal.
Acontece o mesmo, mas
com alguma diferença, com São José. É do esposo de Maria que podemos aprender a
espiritualidade do celibato sacerdotal. O mistério virginal de José corresponde
ao de Maria. Ele tem de renunciar ao seu próprio plano e aceitar o plano de Deus
para a sua vida. Foi uma crise existencial para José, que é retratada
sucintamente no capítulo I do Evangelho de S. Mateus.
A iconografia
primitiva compreendeu bem este drama da renúncia e da aceitação de José. Na
representação da cena da Natividade, José é muitas vezes colocado a um lado,
sentado. Ao centro está o recém-nascido Menino Jesus, com Maria e os pastores.
José está em profunda reflexão, muitas vezes com o queixo apoiado numa mão, e
com o braço apoiado no joelho. Ele está em crise. Diante dele está um velho
barbudo dialogando com ele. É Satanás, que tenta José, dizendo-lhe: «Este não é
teu filho». São José ensina-nos que não é suficiente renunciar ao nosso plano
por Deus. Nem sequer é suficiente, depois de renunciar ao próprio plano, aceitar
o plano de Deus, diferente do nosso. Isto podia ser feito sem liberdade, mais
com uma atitude de obrigação servil. Não, a vontade de Deus deve ser acolhida,
acolhida com a liberdade de um filho de Deus. Para a resposta ser plenamente
humana, o plano de Deus deve ser acolhido com alegria. Há uma dimensão
eucarística inscrita na própria natureza do homem. É com alegria que São José
vive a sua paternidade espiritual como custódio do Menino Jesus.
Acolhendo esta
continência por causa do reino dos céus, José e Maria, como toda a Sagrada
Família de Nazaré, experimentam a fecundidade espiritual do celibato. Na
história da salvação, esta continência foi a mais perfeita fecundidade do
Espírito Santo. O matrimónio de José e Maria, vivido em continência por causa
do Reino dos céus, revela o mistério da comunhão das pessoas no matrimónio e o
mistério da continência do sacerdote por causa do Reino dos céus.
Ambos, o matrimónio e
o celibato sacerdotal, são tesouros da Igreja. O texto do capítulo V de São
Paulo na sua carta aos Efésios sobre o casamento põe os fundamentos quer para
uma teologia do matrimónio quer para uma teologia do celibato sacerdotal. O
próprio Paulo sublinha que está a falar de Cristo e da sua Igreja.
A paternidade do
sacerdote
Quando Cristo começa
a falar aos discípulos sobre o celibato por causa do Reino dos céus, eles acham
isso difícil de entender, pois era contrário à tradição do Antigo Testamento
que eles viviam. O corpo estava orientado para uma fecundidade natural no
matrimónio, na procriação dos filhos. Eles foram entendendo gradualmente com o
exemplo pessoal de Jesus. O próprio Cristo tinha permanecido célibe por causa
do Reino dos céus. Lentamente, foram compreendendo que o celibato por causa do
Reino dos céus tem uma fecundidade espiritual e sobrenatural que procede do
Espírito Santo.
Particularmente no
Ocidente, o valor do sinal do celibato como forma particular de paternidade
espiritual tornou-se mais preeminente na teologia do sacerdócio. Tem-se
actualmente desenvolvido uma antropologia do sacerdócio para perceber este tipo
de continência como contendo em si o dinamismo interior do mistério da redenção
do corpo. Esta antropologia está já presente no Evangelho de S. Lucas, quando
Jesus ensina: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento, mas os que
forem julgados dignos do século futuro e da ressurreição dos mortos não se
casarão nem serão dadas em casamento. Na verdade, eles jamais poderão morrer,
porque são iguais aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos
de Deus» (Lc 20, 34-36).
Jesus, vivendo o seu
celibato, estava já fazendo do seu corpo um sacramento como uma especial
participação no mistério da redenção do corpo. São Paulo, na sua epístola aos
Colossenses, falou da sua própria experiência de usar o seu corpo para edificação
da comunidade:
«Há bem pouco tempo,
vós éreis estrangeiros e inimigos de Deus pelos vossos pensamentos e obras más,
mas agora Ele reconciliou-vos pela morte do seu corpo humano, para que
vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai.
Para isso, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na
esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda a criatura que há
debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro. Agora alegro-me
nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, eu
o completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja» (Col 1,
21-24).
Com esta mesma
atitude e espírito, o sacerdote célibe pode tornar-se uma «verdadeira doação
aos outros» (GS, 22). É um tipo de auto-sacrifício que orienta o
sacerdote para a edificação da comunhão das pessoas. Isso supõe uma longa
sucessão de auto-sacrifícios, porque a antropologia da pessoa humana consiste,
ao mesmo tempo, na herança do pecado e na herança da redenção. Ele orienta-se,
por este exercício da liberdade, para uma resposta eucarística a um carisma
particular, para a futura ressurreição do corpo.
O sacerdote célibe,
fiel à pregação da palavra de Deus, procura construir o Reino de Deus tornando
os homens e as mulheres filhos e filhas de Deus mediante o baptismo. Tendo-os
conduzido ao seio da Igreja, o sacerdote, como um pai espiritual, procura
guiar, como pastor, o rebanho a ele confiado para os bons pastos da Eucaristia.
É também da Eucaristia que o matrimónio recebe alimento espiritual. Os pais
recebem fortaleza espiritual e sabedoria para a sua missão na Igreja doméstica.
É para o sacerdote que a família é atraída em tempos de crise e divisão, para
ser reconciliada pela misericórdia de Cristo, administrada no sacramento da
reconciliação.
Matrimónio e
continência complementam-se mutuamente. Encorajam-se mutuamente na edificação
da comunidade das pessoas e de uma civilização do amor. O celibato por causa do
Reino dos céus assenta sobre o fundamento do significado esponsal do corpo. O
corpo tem um significado esponsal por sua própria natureza. Ele alcança a sua
verdadeira realização somente no dom de si. Está orientado para a comunhão das
pessoas. Está orientado para Jesus Cristo ressuscitado corporalmente. O amor
conjugal perfeito está fundado na fidelidade e na doação a Jesus Cristo, o
Esposo perfeito. A orientação do sacerdote célibe para esta especial intimidade
com o Esposo complementa e encoraja os esposos no seu sacramento do matrimónio
a terem Jesus Cristo no centro. A fecundidade do matrimónio na vocação para a
paternidade e para a maternidade recorda constantemente ao sacerdote célibe que
o seu amor deve ser também paterno em sentido espiritual. Deve estar aberto à
fecundidade do Espírito Santo. Isto dá-se à custa de perder a vida pelos seus
«filhos».
Para que esta opção
da renúncia do valor do matrimónio e da sua fecundidade em filhos seja
plenamente humana (feita conscientemente, livremente e em espírito de
acolhimento), o sacerdote célibe necessita de ter um profundo apreço pela
beleza do matrimónio. Isto também pressupõe que tenha um profundo apreço pela
sua própria masculinidade. É semelhante à primeira pergunta que fazemos ao
jovem casal antes de eles trocarem os seus compromissos de matrimónio: Viestes
aqui livremente e sem reservas para vos dardes um ao outro em matrimónio?
O Papa João Paulo II
observava que esta opção do celibato por causa do Reino dos céus «se dá na base
da plena consciência desse significado esponsal que a masculinidade e a
feminilidade contêm em si mesmos. Se esta opção se realizasse ‘prescindindo’
artificialmente deste real tesouro de todo o sujeito humano, não corresponderia
apropriada e adequadamente ao conteúdo das palavras de Cristo em Mateus 19,
11-12».
Jesus conclui o seu
ensinamento sobre o celibato com o convite: «Quem puder compreender,
compreenda»; isto é, é necessária uma plena compreensão para uma resposta
plenamente humana.
O celibato por causa
do Reino ajuda a colocar o homem diante da antropologia mais plena: o homem
ressuscitado da morte e no amor; um amor que está aberto à vida.
* Videoconferência mundial organizada pela
Congregação para o Clero sobre o tema O celibato e a paternidade do
sacerdote, em 28-IV-06, tomada da página na Internet da Congregação:
www.clerus.org.