Assunção
da Virgem Santa Maria
Missa
do Dia
15 de Agosto de 2006
RITOS INICIAIS
Cântico
de entrada: Ó Mãe da Igreja, F. da Silva, NRMS
101
Ap 12, 1
Antífona
de entrada: Um sinal grandioso
apareceu no céu: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma
coroa de estrelas na cabeça.
Ou
Exultemos de alegria
no Senhor, ao celebrar este dia de festa em honra da Virgem Maria. Na sua Assunção
alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.
Diz-se o Glória.
Introdução ao
espírito da Celebração
Maria é o cumprimento
de uma promessa feita aos antepassados do povo de Israel.
A festa da Assunção
de Maria deve ser para todos nós a ocasião de pedir ao Pai a graça de não
perder a esperança, nem a ilusão de caminhar pela vida, como Maria, na busca do
Reino, para chegar a ele e alcançar a plenitude à qual somos destinados.
Oração
colecta: Deus eterno e omnipotente, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma
a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, concedei-nos a graça de
aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito
Santo.
Liturgia da
Palavra
Primeira Leitura
Monição: Maria, imagem da Igreja. Como Maria, a
Igreja gera na dor um mudo novo. E como Maria, participa na vitória de Cristo
sobre o Mal.
Apocalipse 11, 19a 12, 1-6a.10ab
19aO templo de Deus abriu-se no Céu e a arca da
aliança foi vista no seu templo. 12, 1Apareceu no Céu um sinal
grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa
de doze estrelas na cabeça. Estava para ser mãe e gritava com as dores e ânsias
da maternidade. 3E apareceu no Céu outro sinal: um enorme dragão cor
de fogo, com sete cabeças e dez chifres e nas cabeças sete diademas. 4A
cauda arrastava um terço das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra. O
dragão colocou-se diante da mulher que estava para ser mãe, para lhe devorar o
filho, logo que nascesse. 5Ela teve um filho varão, que há-de reger
todas as nações com ceptro de ferro. O filho foi levado para junto de Deus e do
seu trono 6ae a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha
preparado um lugar. 10abE ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu:
«Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu
Ungido».
Sob a imagem da Arca (v. 19) e da mulher (vv. 1-17) é-nos apresentada, na intenção da liturgia, a Virgem Maria. Entretanto os exegetas continuam a discutir, sem chegar a acordo, se estas imagens se referem à Igreja ou a Maria. Sem nos metermos numa questão tão discutida, podemos pensar com alguns estudiosos que a Mulher simboliza, num primeiro plano, a Igreja, mas, tendo em conta as relações tão estreitas entre a Igreja e Maria - «membro eminente e único da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade... sua Mãe amorosíssima» (Vaticano II, LG 53) – podemos englobar a Virgem Maria nesta imagem da mulher do Apocalipse. Tendo isto em conta, citamos o comentário de Santo Agostinho ao Apocalipse (Homilia IX):
4-5 «O Dragão colocou-se diante da mulher...»: «A Igreja dá à luz sempre no meio de sofrimentos, e o Dragão está sempre de vigia a ver se devora Cristo, quando nascem os seus membros. Disse-se que deu à luz um filho varão, vencedor do diabo».
6 «E a mulher fugiu para o deserto»: «O mundo é um deserto, onde Cristo governa e alimenta a Igreja até ao fim, e nele a Igreja calca e esmaga, com o auxílio de Cristo, os soberbos e os ímpios, como escorpiões e víboras, e todo o poder de Satanás».
Salmo Responsorial Sl 44 (45), 10.11.12.16 (R. cf. 10b)
Monição: Bendita és tu, Virgem Maria! A esposa do rei é Maria. Ela tem os favores
de Deus e está associada para sempre à glória do seu Filho.
Refrão: À
vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu,
ornada do ouro mais fino.
Ou: À vossa direita, Senhor, está a Rainha do Céu.
Ao vosso encontro vêm
filhas de reis,
à vossa direita está a
rainha, ornada com ouro de Ofir.
Ouve, minha filha, vê
e presta atenção,
esquece o teu povo e a
casa de teu pai.
Da tua beleza se
enamora o Rei
Ele é o teu Senhor,
presta-Lhe homenagem.
Cheias de entusiasmo e
alegria,
entram no palácio do
Rei.
Segunda Leitura
Monição: Maria, nova Eva. Novo Adão, Jesus faz da Virgem Maria uma nova Eva,
sinal de esperança para todos os homens.
1 Coríntios 15, 20-27
Irmãos: 20Cristo
ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. 21Uma vez
que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos
mortos 22porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim
também em Cristo serão todos restituídos à vida. 23Cada qual, porém,
na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias a seguir, os que pertencem a
Cristo, por ocasião da sua vinda. 24Depois será o fim, quando Cristo
entregar o reino a Deus seu Pai depois de ter aniquilado toda a soberania,
autoridade e poder. 25É necessário que Ele reine, até que tenha
posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. 26E o último inimigo a
ser aniquilado é a morte, porque Deus tudo colocou debaixo dos seus pés. 27Mas
quando se diz que tudo Lhe está submetido é claro que se exceptua Aquele que
Lhe submeteu todas as coisas.
É a partir deste texto e do de Romanos 5 que os Padres da Igreja estabelecem a tipologia baseada num paralelismo antiético, entre Eva e Maria: Eva, associada a Adão no pecado e na morte; Maria, associada a Cristo na obra de reparação do pecado e na ressurreição.
20-23 S. Paulo, começando por se apoiar no facto real da Ressurreição de Cristo, procura demonstrar a verdade da ressurreição (vv. 1-19). Nestes versículos, diz que «Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram» (v. 20). As primícias eram os primeiros frutos do campo que se deviam oferecer a Deus e só depois se podia comer deles (cf. Ex 28; Lv 23, 10-14; Nm 15, 20-21). De igual modo, Cristo nos precede na ressurreição. Nós (exceptuando pelo menos a Virgem Maria) havemos de ressuscitar «por ocasião da sua vinda» (v. 23). Não se pode confundir esta ressurreição sobrenatural e misteriosa de que aqui se fala com a imortalidade da alma. O Credo do Povo de Deus de Paulo VI, no nº 28, diz: «Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo - tanto as que ainda devem ser purificadas com o fogo do Purgatório, como as que são recebidas por Jesus no Paraíso logo que se separem do corpo, como o Bom Ladrão - constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída por completo no dia da Ressurreição, em que as almas se unirão com os seus corpos». Por seu turno, a S. Congregação para a Doutrina da Fé, na carta de 17-5-79, declara: «A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem depois da morte, exclui qualquer explicação com que se tirasse o seu sentido à Assunção de Nossa Senhora, naquilo que esta tem de único, ou seja, o facto de ser a glorificação que está destinada a todos os outros eleitos».
Aclamação ao
Evangelho
Monição: Maria, Mãe dos crentes. Cheia do Espírito Santo, Maria, a primeira,
encontra as palavras da fé e da esperança: doravante todas as gerações a
chamarão bem-aventurada!
Aleluia
Cântico: J. Duque, NRMS 21
Maria foi elevada ao
Céu:
alegra-se a multidão
dos Anjos.
Evangelho
São Lucas 1, 39-56
39Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e
dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou
em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a
saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito
Santo 42e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e
bendito é o fruto do teu ventre. 43Donde me é dado que venha ter
comigo a Mãe do meu Senhor? 44Na verdade, logo que chegou aos meus
ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. 45Bem-aventurada
aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do
Senhor». 46Maria disse então: «A minha alma glorifica o Senhor 47e
o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque pôs os
olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações. 49O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é
o seu nome. 50A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem. 51Manifestou o poder do seu braço e
dispersou os soberbos. 52Derrubou os poderosos de seus tronos e
exaltou os humildes. 53Aos famintos encheu de bens e aos ricos
despediu de mãos vazias. 54Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da
sua misericórdia, 55como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à
sua descendência para sempre». 56Maria ficou junto de Isabel cerca
de três meses e depois regressou a sua casa.
Os estudiosos descobrem neste relato uma série de ressonâncias vetero-testementárias, o que corresponde não apenas ao estilo do hagiógrafo, mas sobretudo à sua intenção teológica de mostrar como na Mãe de Jesus se cumprem as figuras do A.T.: Maria é a verdadeira e nova Arca da Aliança (comparar Lc 1, 43 com 2 Sam 6, 9 e Lc 1, 56 com 2 Sam 6, 11) e a verdadeira salvadora do povo, qual nova Judite (comparar Lc 1, 42 com Jdt 13, 18-19) e qual nova Ester (Lc 1, 52 e Est 1 – 2).
39 «Uma cidade de Judá». A tradição diz que é Ain Karem, uma povoação a 6 Km a Oeste da cidade nova de Jerusalém. De qualquer modo, ficaria a uns quatro dias de viagem de Nazaré. Maria empreende a viagem movida pela caridade e espírito de serviço. A «Mãe do meu Senhor» (v. 43) não fica em casa à espera de que os Anjos e os homens venham servir a sua rainha; e Ela mesma, que se chama «escrava do Senhor» (v. 38), «a sua humilde serva» (v. 48), apressa-se em se fazer a criada da sua prima e de acudir em sua ajuda. Ali permanece, provavelmente, até depois do nascimento de João, uma vez que S. Lucas nos diz que «ficou junto de Isabel cerca de três meses».
42 «Bendita és Tu entre as mulheres». Superlativo hebraico: a mais bendita de todas as mulheres.
43-44 «A Mãe do meu Senhor». As palavras de Isabel são proféticas: o mexer-se do menino no seu seio (v. 41) não era casual, mas «exultou de alegria» para também ele saudar o Messias e sua Mãe.
46 45 O cântico de Nossa Senhora, o Magnificat, é um poema de extraordinária beleza poética e elevação religiosa. Dificilmente poderiam ficar melhor expressos os sentimentos do coração da Virgem Maria – «a mais humilde e a mais sublime das criaturas» (Dante, Paraíso, 33, 2) –, em resposta à saudação mais elogiosa (vv. 42-45) que jamais se viu em toda a Escritura. É como se Maria dissesse que não havia motivo para uma tal felicitação; tudo se deve à benevolência, à misericórdia e à omnipotência de Deus. Sem qualquer referência ao Messias, refulge aqui a alegria messiânica da sua Mãe e a sua humildade num extraordinário hino de louvor e de agradecimento. O cântico está todo entretecido de reminiscências bíblicas, sobretudo do cântico de Ana (1 Sam 2, 1-10) e dos Salmos (35,9; 31, 8; 111, 9; 103, 17; 118, 15; 89, 11; 107, 9; 98, 3); cf. também Hab 3, 18; Gn 29, 32; 30, 13; Ez 21, 31; Si 10, 14; Mi 7, 20. Ao longo dos tempos, muitos e belos comentários se fizeram ao Magnificat; mas também é conhecida a abordagem libertacionista, abundado leituras materialistas utópicas, falsificadoras do genuíno sentido bíblico, com base no princípio marxista da luta de classes. Com efeito, a transformação social que é urgente realizar, não se faz invertendo a ordem social, com o «derrubar os poderosos dos seus tronos» e com o «despedir os ricos de mãos vazias». Eis o comentário da Encíclica Redemptoris Mater, nº 36: «Nestas sublimes palavras… vislumbra-se a experiência pessoal de Maria, o êxtase do seu coração; nelas resplandece um raio do mistério de Deus, a glória da sua santidade inefável, o amor eterno que, como um dom irrevogável, entra na história do homem».
Sugestões para a
homilia
O cântico de Maria
Rezar por Maria
Rezar com Maria
Rezar como Maria
Rezar na escola de
Maria... Magnificat
O
cântico de Maria
O cântico de Maria
descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele
prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.
Pela Visitação que
teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição
e pela Assunção, é Jesus que leva a Sua mãe pelos caminhos celestes, para o
templo eterno, para uma Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria,
proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a se juntar a ele
pelo caminho da ressurreição.
Em Maria, Ele já
realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: «dispersou os
soberbos, exaltou os humildes». Os humildes são aqueles que crêem no
cumprimento das palavras de Deus e se põem a caminho, aqueles que acolhem até
ao mais íntimo do seu ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao nosso mundo.
Deus debruça-se sobre eles e cumpre neles maravilhas.
Rezar
por Maria
Frequentemente,
ouvimos a expressão: «rezar à Virgem Maria»… Esta maneira de falar não é
absolutamente exacta, porque a oração cristã dirige-se a Deus, ao Pai, ao Filho
e ao Espírito: só Deus atende a oração. Os nossos irmãos protestantes que,
contrariamente ao que se pretende, por vezes têm a mesma fé que os católicos e
os ortodoxos na Virgem Maria Mãe de Deus, recordam-nos que Maria é e se diz ela
própria a Serva do Senhor.
Rezar por Maria é
pedir que ela reze por nós: «Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa
morte!» A sua intervenção maternal em Caná resume bem a sua intercessão em
nosso favor. Ela é nossa «advogada» e diz-nos: «Fazei tudo o que Ele vos
disser!»
Rezar
com Maria
Ela está ao nosso
lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do
seu filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a
missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: «Eis o teu Filho!» Rezar com Maria,
mais que nos ajoelharmos diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos
juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto
de Deus.
Rezar
como Maria
Aprendemos junto de
Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que «guardava e meditava no seu
coração» os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, nós meditamos
o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A
nossa oração torna-se acção de graças no eco ao Magnificat. Pomos os nossos
passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: «que tudo seja
feito segundo a tua Palavra, Senhor!»
Rezar
na escola de Maria... Magnificat
Naqueles dias, Maria
pôs-se a caminho apressadamente… Quando se trata de cumprir a vontade de Deus,
Maria está sempre pronta. Ela é a humilde serva do Senhor. Ela deixa-se guiar,
levar pelo Espírito.
Maria não fala muito.
Ela não fala muito no Evangelho e é sempre muito breve. Porém, há uma excepção
importante, quando ela se dirige a Deus para Lhe cantar o seu louvor, o seu
reconhecimento. Então, ela toma todo o tempo; ela não abrevia as palavras: «A
minha alma glorifica o Senhor... O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas…»
Com ela, nós Te damos
graças pelas maravilhas com as quais foi cumulada, desde o primeiro instante da
sua existência, até à sua partida desta vida para a plenitude do seu ser
humano, pela sua assunção junto de Ti.
Com ela, nós Te damos
graças também pelas maravilhas feitas em favor do mundo inteiro.
Senhor, dá-nos a
graça de nos parecermos com Maria. Consolida a nossa fé, para que em tudo Te
cantemos o nosso amor.
Fala o Santo Padre
«No céu temos uma
mãe!»
Queridos Irmãos e Irmãs
A festa da Assunção é
um dia de alegria. Deus venceu. O amor venceu. Venceu a vida. Mostrou-se que o
amor é mais forte do que a morte. Que Deus tem a verdadeira força e a sua força
é bondade e amor.
Maria foi elevada ao
céu em corpo e alma: também para o corpo existe um lugar em Deus. Para nós o
céu já não é uma esfera muito distante e desconhecida. No céu temos uma mãe. E
a Mãe de Deus, a Mãe do Filho de Deus, é a nossa Mãe. Ele mesmo o disse. Ele
constituiu-a nossa Mãe, quando disse ao discípulo e a todos nós: «Eis a tua
Mãe!» No céu temos uma Mãe. O céu está aberto, o céu tem um coração.
No Evangelho ouvimos o
Magnificat, esta grande poesia pronunciada pelos lábios, aliás, pelo coração
de Maria, inspirada pelo Espírito Santo. Neste cântico maravilhoso reflecte-se
toda a alma, toda a personalidade de Maria. Podemos dizer que este seu cântico
é um retrato, é um verdadeiro ícone de Maria, no qual podemos vê-la
precisamente como é. Gostaria de realçar somente dois pontos deste grande
cântico. Ele inicia com a palavra «Magnificat»: a minha alma
«engrandece» o Senhor, ou seja, «proclama grande» o Senhor. Maria deseja que
Deus seja grande no mundo, seja grande na sua vida, esteja presente entre todos
nós. Não teme que Deus possa ser um «concorrente» na nossa vida, que nos possa
tirar algo da nossa liberdade, do nosso espaço vital com a sua grandeza. Ela
sabe que, se Deus é grande, também nós somos grandes. A nossa vida não é
oprimida, mas elevada e alargada: justamente então torna-se grande no esplendor
de Deus.
O facto de que os
nossos antepassados pensassem o contrário foi o núcleo do pecado original.
Temiam que se Deus tivesse sido grande demais teria tirado algo da sua vida.
Pensavam que deveriam pôr Deus de lado a fim de ter espaço para eles mesmos.
Esta foi também a maior tentação da época moderna, dos últimos três ou quatro
séculos. Sempre mais se pensou e também se disse: «Mas este Deus não nos deixa
a nossa liberdade, torna estreito o espaço da nossa vida com todos os seus
mandamentos. Portanto, Deus deve desaparecer; queremos ser autónomos,
independentes. Sem este Deus nós mesmos seremos deuses, fazendo o que queremos
nós». Este também era o pensamento do filho pródigo, o qual não entendeu que,
precisamente pelo facto de estar na casa do pai, era «livre». Foi-se embora
para cidades longínquas e consumiu o património da sua vida. No final
compreendeu que, justamente por se ter distanciado do pai, em vez de ser livre,
tornou-se escravo; entendeu que somente retornando à casa do pai teria podido
ser livre verdadeiramente, em toda a beleza da vida. Assim é também na época
moderna. Antes pensava-se e acreditava-se que, afastando Deus e sendo
autónomos, seguindo somente as nossas ideias, a nossa vontade, nos tornaríamos
realmente livres, podendo fazer quanto quiséssemos sem que ninguém pudesse
dar-nos alguma ordem. Mas, onde desaparece Deus, o homem não se torna grande;
ao contrário, perde a dignidade divina, perde o esplendor de Deus no seu rosto.
No fim resulta somente o produto de uma evolução cega e, como tal, pode ser
usado e abusado. Foi precisamente quanto a experiência desta nossa época
confirmou.
Somente se Deus é
grande, o homem também é grande. Com Maria devemos começar a entender que é
assim. Não devemos distanciar-nos de Deus, mas tornar Deus presente; fazer com
que Ele seja grande na nossa vida; assim também nós nos tornamos divinos; todo
o esplendor da dignidade divina então é nosso. Apliquemos isto à nossa vida. É
importante que Deus seja grande entre nós, na vida pública e na vida privada.
Na vida pública é importante que Deus esteja presente, por exemplo, através da
Cruz nos edifícios públicos, que Deus esteja presente na nossa vida comum,
porque somente se Deus está presente temos uma orientação, uma estrada comum;
se não os contrastes tornam-se inconciliáveis, deixando de existir o
reconhecimento da dignidade comum.
Tornemos grande Deus
na vida pública e na vida privada. Isto quer dizer, dar espaço todos os dias a
Deus na nossa vida, começando de manhã com a oração, e depois dando tempo a
Deus, dando o domingo a Deus. Não perdemos o nosso tempo livre se o oferecermos
a Deus. Se Deus entra no nosso tempo, todo o tempo se torna maior, mais amplo,
mais rico.
Segunda observação.
Esta poesia de Maria o Magnificat é toda original; contudo, ao mesmo
tempo, é um «tecido» feito totalmente com «fios» do Antigo Testamento, feito de
palavra de Deus.
Dessa maneira, vemos
que Maria era, por assim dizer, «em casa» na palavra de Deus, vivia da palavra
de Deus, estava imbuída da palavra de Deus. Na medida em que falava com as
palavras de Deus, pensava com as palavras de Deus, os seus pensamentos eram os
pensamentos de Deus, as suas palavras as palavras de Deus. Era invadida pela
luz divina e por isso era tão esplêndida, tão bondosa, tão radiante de amor e
de bondade. Maria vive da palavra de Deus, é inundada pela palavra de Deus. E
este estar imersa na palavra de Deus, este ser totalmente familiar com a
palavra de Deus dá-lhe também a luz interior da sabedoria. Quem pensa com Deus
pensa bem, e quem fala com Deus fala bem. Tem critérios de juízo válidos para
todas as coisas do mundo. Torna-se sábio, prudente e, ao mesmo tempo, bom:
torna-se também forte e corajoso, com a força de Deus que resiste ao mal e
promove o bem no mundo.
E, assim, Maria fala
connosco, fala a nós, convida-nos a conhecer a palavra de Deus, a amar a
palavra de Deus, a viver com a palavra de Deus, a pensar com a palavra de Deus.
E podemos fazê-lo de diversíssimos modos: lendo a Sagrada Escritura, sobretudo
participando na Liturgia, na qual no decurso do ano a Santa Igreja nos abre
diante todo o livro da Sagrada Escritura. Abre-o para a nossa vida e torna-o
presente na nossa vida. Penso ainda no «Compêndio do Catecismo da Igreja
Católica», que recentemente publicámos, no qual a palavra de Deus é aplicada à
nossa vida, interpreta a realidade da nossa vida, ajuda-nos a entrar no grande
«templo» da palavra de Deus, a aprender a amá-la e a estar como Maria, imbuídos
desta palavra. Desse modo a vida torna-se luminosa e temos o critério como base
para julgar, recebemos bondade e força no mesmo momento.
Maria é elevada em
corpo e alma à glória do céu e com Deus e em Deus é rainha do céu e da terra.
Porventura, está tão distante de nós? É verdadeiro o contrário. Precisamente
porque está com Deus e em Deus, está pertíssimo de cada um de nós. Quando
estava na terra podia somente estar perto de algumas pessoas. Estando em Deus,
que está próximo de nós, que está no «interior» de todos nós, Maria participa
nesta aproximação de Deus. Estando em Deus e com Deus, está perto de cada um de
nós, conhece o nosso coração, pode ouvir as nossas orações, pode ajudar-nos com
a sua bondade materna e é-nos dada como disse o Senhor como «mãe», à qual podemos
dirigir-nos em todos os momentos. Ela escuta-nos sempre, está sempre perto, e
sendo Mãe do Filho, participa no poder do Filho, na sua bondade. Podemos
confiar sempre toda a nossa vida a esta Mãe, que não está longe de nós.
Neste dia de festa,
damos graças ao Senhor pelo dom da Mãe e rezemos a Maria, a fim de que nos
ajude a encontrar o caminho justo todos os dias. Amém.
Bento XVI, Castel Gandolfo, 15 de Agosto de 2005
Oração Universal
Irmãos, oremos a Deus
todo-poderoso,
e imploremos a
misericórdia d’Aquele
que não deseja a
morte do pecador,
mas antes que se
converta e viva.
1. Por toda a Igreja,
para
que sejamos capazes de alimentar a quantos têm fome e sede de justiça,
oremos
ao Senhor.
2. Pela Igreja que peregrina neste mundo,
para
que admire e exalte em Maria aquilo que ela deseja e espera conseguir,
oremos
ao Senhor:
3. Por todos os hospitais e casas de saúde,
para
que, com respeito e cumprimento perfeito do dever,
se
cuide do corpo que deverá ser glorificado no céu,
oremos
ao Senhor:
4. Por todos os que vivem as mais variadas formas
de dependência,
para
que descubram em Maria um força de libertação de seus vícios,
oremos
ao Senhor:
5. Pelos nossos irmãos defuntos,
para
que, purificados das manchas dos pecados,
possam
participar da glória da Virgem Santíssima,
oremos
ao Senhor:
6. Por todos os cristãos
para
que recebam mais frequentemente a Santíssima Eucaristia,
penhor
da nossa glorificação em corpo e alma, oremos ao Senhor:
7. Pela nossa paróquia,
Para
que, como Maria, se sinta enviada de levar Cristo ao mundo,
oremos
ao Senhor
Oração comunitária
Ó Deus, nosso Pai,
que hoje nos concedeis a graça
de alegrar-nos na
contemplação da natureza humana
exaltada até o céu,
na pessoa de Maria,
acolhei com bondade a
oração da vossa Igreja,
que vos apresenta os
seus pedidos.
Por Jesus Cristo,
Nosso Senhor. Amen.
Liturgia
Eucarística
Cântico
do ofertório: Ditosa Virgem cheia de graça, J.
Santos, NRMS 75
Oração
sobre as oblatas: Suba até Vós, Senhor, a nossa humilde oferta e, pela
intercessão da Santíssima Virgem Maria, elevada ao Céu, fazei que os nossos
corações, inflamados na caridade, se dirijam continuamente para Vós. Por Nosso
Senhor.
Prefácio
A glória da
Assunção de Maria
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso
dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos,
bendizer-Vos e glorificar-Vos na Assunção da Virgem Santa Maria.
Hoje a Virgem Mãe de Deus foi elevada à glória do Céu. Ela é a aurora e
a imagem da Igreja triunfante, ela é sinal de consolação e esperança para o
vosso povo peregrino. Vós não quisestes que sofresse a corrupção do túmulo
aquela que gerou e deu à luz o Autor da vida, vosso Filho feito homem.
Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando
com alegria:
Santo, Santo, Santo.
Santo: «Da
Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51
Monição da
Comunhão
A Mãe de Jesus, assim
como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há-de consumar
no século futuro. A participação na Sagrada Comunhão faz-nos já viver
antecipadamente essa glória divina.
Cântico
da Comunhão: Salvé estrela do mar, A. Cartageno,
NCT 618
Antífona
da comunhão: Todas as gerações
me proclamarão bem-aventurada, porque o Senhor fez em mim maravilhas.
Cântico
de acção de graças: Glória da humanidade, A. Cartageno,
NRMS 101
Oração
depois da comunhão: Senhor, que nos alimentastes com o pão da vida eterna,
concedei-nos, por intercessão da Virgem Santa Maria, elevada ao Céu, a graça de
chegarmos à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Ritos Finais
Monição final
A meio do verão, eis
uma festa para nos fazer parar junto de Maria e receber dela um tríplice
segredo:
– o segredo da fé sem
falha tão bem ajustada a Deus: «Eis a serva do Senhor»…
– o segredo da sua
esperança confiante em Deus: «nada é impossível a Deus»…
– o segredo da sua
caridade missionária: «Maria pôs-se a caminho apressadamente»…
E nós podemos
pedir-lhe para nos acompanhar no caminho das nossas vidas.
Cântico
final: Foi um sono de luz, H. Faria, NRMS
103-104
Homilias Feriais
4ª feira, 16-VIII:
S. Estêvão da Hungria: A descoberta da presença de Deus.
Ez.
9, 1-7; 10, 18-22 / Mt. 18, 15-20
Pois,
onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles.
Precisamos
convencer-nos de que Cristo está presente e actua na Igreja. É para nós um
motivo de esperança. «Deus está sempre
presente na sua Igreja, sobretudo nas acções litúrgicas. Está presente no
sacrifício da Missa… Está presente com a sua virtude nos sacramentos… Está
presente na sua Palavra… Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta os
Salmos, Ele que prometeu: ‘Onde estiverem dois ou três reunidos, aí estou eu no
meio deles’» (CIC, 1088).
S. Estêvão, rei da Hungria, teve Deus muito metido na sua vida e,
como consequência, procurou sempre o bem dos seus súbditos.
5ª feira, 17-VIII:
Ver os outros com os olhos de Cristo.
Ez.
12, 1-12 / Mt. 18, 21-19, 1.
Assim
vos há-de fazer também meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu
irmão do íntimo do coração.
É inevitável que, no
nosso dia, apareçam pequenos conflitos: as discussões caseiras, os gestos que
incomodam, os aborrecimentos do trânsito… O Senhor pede-nos que procuremos perdoar do íntimo do coração.
«(O amor ao próximo)
consiste precisamente no facto de que amo,
em Deus e com Deus, a pessoa que não me
agrada ou que nem sequer conheço… Aprendo a ver aquela pessoa já não
somente com os meus olhos e sentimento, mas também segundo a perspectiva de
Cristo. O seu amigo é meu amigo» («Deus é amor», 18).
6ª feira, 18-VIII:
A transmissão da fé nas famílias.
Ez.
16, 1-15. 60. 63 / Mt. 19, 3-12
Foi
por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu despedir as vossas
mulheres. Mas, ao princípio, não foi assim.
Jesus quer devolver a dignidade do matrimónio à sua pureza
original, tal como foi instituído por Deus no momento da criação. Infelizmente,
o ambiente continua a desfigurar esta dignidade: «o valor da indissolubilidade
é cada vez mais ignorado; reclamam-se formas de reconhecimento legal para as
convivências de facto, equiparando-as aos matrimónios legítimos; não faltam
tentativas para serem aceites modelos com casais, onde a diferença sexual não
resulta essencial» (João Paulo II).
Rezemos pelos frutos
do Encontro do Papa Bento XVI com as famílias, realizado recentemente em
Valência.
Sábado, 19-VIII:
S. João Eudes: Coração novo e alma nova.
Ez.
18, 1-10. 13. 30-32 / Mt. 19, 13-15
Deixai
as criancinhas e não as impeçais de se aproximarem de mim, que o reino dos Céus
é daqueles que são como elas.
Tornar-se como crianças diante de Deus é a condição
para receber a Revelação de Deus, e também para entrar no reino dos Céus (cf. Ev.).
Que significa tornar-se criança diante de Deus? É necessário «um coração contrito e confiante que nos
faça voltar ao estado de crianças» (CIC, 2785).
Além disso, precisamos
converter-nos e criar um coração novo e
uma alma nova: «Convertei-vos e renunciai a todas as vossas culpas… lançai
para longe de vós todas as faltas que praticastes e criai um novo coração e uma
alma nova» (Leit.). S. João Eudes
difundiu a devoção aos Corações de Jesus e de Maria. Com as nossas pequenas
conversões evitaremos ofender os seus Corações.
Celebração
e Homilia: Nuno Westwood
Nota
Exegética: Geraldo Morujão
Homilias
Feriais: Nuno Romão
Sugestão
Musical: Duarte Nuno Rocha