DOCUMENTAÇÃO
CONFERÊNCIA
EPISCOPAL PORTUGUESA
Conselho
Permanente
NO CINQUENTENÁRIO
DA MORTE DO PADRE AMÉRICO
Nota Pastoral
Completam-se no próximo
dia 16 de Julho cinquenta anos sobre a morte do Padre Américo Monteiro de
Aguiar, significativamente conhecido pelo simples nome de «Padre Américo».
Este homem, que
poderia ter singrado numa promissora carreira comercial na África do Sul, vivenciou uma conversão radical a Deus e ao serviço dos
pobres, conversão que o levou a ordenar-se padre aos 36 anos, entregando-se
desde logo a visitar cadeias, hospitais e os tugúrios de famílias
marginalizadas que abundavam em recantos e bairros de lata das nossas principais
cidades.
Para estas, lança a cadeia
de construção que foi o «Património dos Pobres» e para o amparo de doentes incuráveis
cria o recolhimento do «Calvário». A sua genial iniciativa, porém, foi a «Obra
da Rua», destinada a acolher e promover rapazes desamparados. Contam-se por
muitas centenas aqueles que, formados no calor cristão e familiar desta escola
de vida, estão hoje em lugares de destaque na sociedade portuguesa.
Dificuldades surgidas
em algumas das nove «Casas do Gaiato» e incidentes passageiros, a que a
comunicação social deu relevo, deixaram no horizonte interrogações sobre a «Obra
da Rua». Ao evocar agora a figura heróica do Padre Américo, manda a justiça não
permitir que algumas breves nuvens obscureçam o brilho
do sol, este sol que foi e desejamos continue a ser um modelo inédito de
educação da juventude.
Este dever de justiça
é ainda uma obrigação de consciência, pois as dificuldades presentes sentidas
pelas famílias, escolas e instituições juvenis, relativamente à educação das
gerações futuras, pedem-nos que recolhamos as proveitosas lições de um mestre.
O Padre Américo
ensinou-nos a acreditar na riqueza de valores que o próprio educando traz em
si, o tornam criativo e capaz de responsabilidade; demonstrou-nos o alcance
pedagógico do brio na tarefa assumida; acreditou na transformação pessoal a
partir da liberdade progressivamente experimentada. Estes proveitos e outros se
exprimem no lema com que intitulou as suas casas, onde a porta está sempre
aberta: «Obra de rapazes, para rapazes, pelos rapazes».
A raiz destes
princípios é o amor evangélico aos mesmos rapazes. Este Padre, que encarnou
concretamente a sua missão de Pai, estruturou cada uma das «Casas do Gaiato»
sobre o amor generoso e sem condicionantes dos Padres que o continuaram, aos
educandos, vindos de situações familiares e sociais deploráveis. Igual amor sem
limites e sem aplausos ele o tem como certo também na
multidão de apoiantes e benfeitores, de quem nunca recebia doações por morte ou
com aplausos publicitados.
Ao assinalarmos a vida
e a obra deste grande Padre, que nos deixou há cinquenta anos, queremos
manifestar aos «Padres da Rua», sacerdotes que agora dão corpo ao sonho
inicial, o nosso apreço, a nossa gratidão e o nosso propósito de ajuda.
Como todas as instituições
humanas, também a «Obra da Rua» sofrerá a evolução do tempo com a inevitável
mudança de condições e a desejável melhoria de métodos. Interessados em
prosseguir este caminho, nas naturais variantes que assumirá, pedimos aos
cristãos que permaneçam fiéis no seu carinho e na ajuda a esta jóia da Igreja
no nosso país e em terras africanas.
A todos os
portugueses, decerto preocupados com os actuais problemas da educação e com o
número porventura crescente de crianças em situação familiar de risco e desamparo,
lembramos que a experiência pedagógica do Padre Américo continua um manancial a
integrar em formas adaptadas às instituições sociais mais recentes.
Que Deus nos ajude a
recolher as suas riquezas, validamente pedagógicas e profundamente cristãs.
Lisboa, 13 de Julho de
2006