OPINIÃO
A BELEZA SALVARÁ
O MUNDO
Rodrigo Lynce De Faria
Observava a paisagem e pensava no que ele me tinha
dito. Era uma descoberta. Estava mais do que provado por muitas experiências
realizadas recentemente. As galinhas, quando ouviam música de Mozart, punham
mais ovos. Mas será que Mozart não daria voltas na tumba ao saber disto? Ele
não tinha composto a sua música com este objectivo. Era para ser apreciada. Era
para ser contemplada. Só o ser humano, por ser espiritual, é capaz de verdade
de fazer isso.
Vivemos num mundo
muitas vezes pragmático. O que importa é fazer coisas e que elas funcionem.
Contemplar a beleza? Para quê? O que é que eu ganho com isso? Não será uma
perda de tempo?
Vem-me à memória uma
frase de Dostoievski: «A beleza salvará o mundo». Porque nós homens
temos necessidade da beleza para não cair no desespero. Para nos darmos conta
de que a vida tem um sentido divino. Que não estamos aqui somente para fazer
coisas, mas para encontrar Deus nas coisas que fazemos.
O belo fascina. Abre as
almas ao sentido do eterno. «É um chamamento do outro mundo para despertar-nos
e resgatar-nos da vulgaridade», dizia Platão. Captamos a beleza não somente com
os sentidos, mas também com a inteligência e os sentimentos. Ficamos
maravilhados com o misterioso poder dos sons, das palavras, das cores e das
formas. A beleza é a expressão visível do bem, de que vale a pena viver, por
muitas dificuldades que tenhamos de superar.
O homem sempre
necessitou da arte porque ela manifesta a beleza. E a arte não se come, não se
bebe e parece que não tem nenhuma utilidade. No entanto, aquieta o desejo de
felicidade que possui o coração humano. E isso não é pouco. Revela-nos que vale
a pena andar para a frente com a certeza de que, Aquele que agora intuímos de
modo velado, um dia será contemplado face a face.
Por isso, ensinar a
contemplar devia ser a cadeira mais importante. Hoje em dia ensinamos inglês,
informática e variadas técnicas para ganhar dinheiro. Sem darmo-nos conta,
esquecemo-nos de ensinar quem é o homem, qual o sentido último da vida para
além do fim-de-semana, e que fazer ao sentir a infelicidade de que tudo o que
aprendemos não enche o coração.
Contemplar. Olhar
atentamente. Admirar com o pensamento. E aperceber-nos-emos que o autor russo
tinha razão. A beleza salvará o mundo. Ela grita a existência de Deus.
Ela é luz para iluminar o nosso caminho nesta Terra. Ela ilumina também o nosso
destino. Porque nós fomos criados para contemplar a Beleza infinita que é Deus.
Isso será a vida eterna.
A pergunta 533 do Compêndio
do Catecismo da Igreja Católica fala-nos disto. «Qual é o maior desejo do
homem? Ver a Deus. Este é o grito de todo o seu ser: quero ver a Deus. O homem
realiza a verdadeira e perfeita felicidade na visão d’Aquele que o criou por
amor e o atrai a Si no seu infinito amor». E nos atrai a Si através da beleza
das coisas criadas. Elas não saciam completamente o coração e suscitam em nós a
nostalgia do Criador.