A PALAVRA DO PAPA

UMA VISÃO DO MUNDO DE HOJE

 

Em preparação para a sua Viagem Apostólica à Alemanha, de 9 a 14 de Setembro, o Santo Padre Bento XVI concedeu uma entrevista aos jornalistas das televisões Bayerischer Rundfunk (BR), ZDF e Deutsche Welle (DW) e da Rádio Vaticana (RV). A entrevista, em alemão, decorreu no Palácio Pontifício de Castelgandolfo, no dia 5 de Agosto passado.

Oferecemos aos nossos leitores um excerto nesta Secção e outros excertos nas Secções «Documentação» e «Direito e Pastoral».

 

BR: Santo Padre, em Setembro vai visitar a Alemanha ou, mais precisamente, como é natural, a Baviera. «O Papa tem saudade da sua Pátria» - assim disseram os seus colaboradores, durante a preparação. Que temas em particular vai abordar durante a visita, e o conceito de «pátria» faz parte dos valores que deseja especialmente propor?

 

Bento XVI: Certamente. O motivo da visita era precisamente que eu desejava ver, mais uma vez, os lugares e as pessoas junto das quais cresci, que me marcaram e fizeram parte da minha vida; pessoas às quais desejo agradecer. E, naturalmente, desejava também deixar uma mensagem que vá além da minha terra, como é coerente com o meu ministério. Quanto aos temas, deixei que me fossem indicados simplesmente pelas celebrações litúrgicas. O tema fundamental é que nós devemos redescobrir Deus, e não um Deus qualquer, mas o Deus com um rosto humano, porque quando vemos Jesus Cristo vemos Deus. E a partir daqui, devemos achar os caminhos para nos encontrarmos mutuamente na família, entre as gerações, e depois também entre as culturas e os povos, e os caminhos para a reconciliação e a convivência pacífica neste mundo. Os caminhos que conduzem para o futuro, não os acharemos se não recebermos, por assim dizer, a luz do alto. Não escolhi, portanto, temas muito específicos, mas é a liturgia que me guia para exprimir a mensagem fundamental da fé que, naturalmente, se insere na actualidade de hoje, em que desejamos, sobretudo, procurar a colaboração dos povos, e os caminhos possíveis para a reconciliação e a paz.

 

ZDF: Como Papa, é responsável pela Igreja no mundo inteiro. Naturalmente, porém, a sua visita chamará a atenção para a situação dos católicos na Alemanha. Ora, todos os observadores concordam que a atmosfera é boa, graças também à sua eleição. Permanecem, no entanto, os problemas antigos como, por exemplo, o número sempre menor de católicos praticantes, a diminuição do número de baptismos e, de modo geral, a perda da influência dos católicos na vida social. Como vê a situação actual da Igreja Católica na Alemanha?

 

Bento XVI: Eu diria, antes de mais, que a Alemanha faz parte do Ocidente, ainda que com um colorido característico, e, no mundo ocidental, vivemos hoje uma onda de novo e drástico iluminismo ou laicismo, como se queira chamar. Crer tornou-se mais difícil, uma vez que o mundo em que nos encontramos é feito completamente por nós mesmos, e neste mundo, por assim dizer, Deus já não se manifesta directamente. Não se bebe da fonte, mas daquilo que, já engarrafado, nos é oferecido. Os homens reconstruíram o mundo por si mesmos, e encontrar Deus por trás deste mundo tornou-se difícil. Isto não é específico da Alemanha, mas algo que se verifica em todo o mundo, em particular no mundo ocidental. Por outro lado, o Ocidente hoje é tocado fortemente por outras culturas, nas quais o elemento religioso originário é muito forte, e que ficam horrorizadas pela frieza que encontram no Ocidente no que se refere a Deus. Esta presença do sagrado noutras culturas, ainda que velada de muitas maneiras, toca novamente o mundo ocidental e toca-nos a nós, que nos encontramos na encruzilhada de tantas culturas. Das profundezas do homem, no Ocidente e na Alemanha, emerge sempre novamente o pedido de algo «de mais grande». Vemo-lo na juventude, onde existe a procura de «algo mais»: de certa forma, regressa o fenómeno religião - como se diz -, ainda que se trata de um movimento de procura frequentemente bastante indeterminado. Com tudo isso, porém, a Igreja está novamente presente, a fé é oferecida como resposta. Eu creio que precisamente esta visita, assim como a que fiz a Colónia, é uma oportunidade para que se veja que crer é belo, que a alegria de uma grande comunidade universal significa um apoio, que por detrás dela existe algo de importante e que, portanto, junto aos novos movimentos de procura, existem também novas aberturas para a fé, que nos conduzem uns para os outros e que também são positivas para a sociedade no seu conjunto.

 

RV: Santo Padre, exactamente há um ano, estava em Colónia, com os jovens, e creio que terá também experimentado que a juventude está extraordinariamente pronta para acolher, e que pessoalmente foi muito bem acolhido. Nesta próxima viagem, levará, porventura, também uma mensagem especial para os jovens?

 

Bento XVI: Eu diria, antes de mais, que me sinto muito feliz em saber que há jovens que querem estar juntos, que querem reunir-se na fé, e que desejam fazer algo de bom. A disponibilidade para o bem é muito forte na juventude, basta pensar nas muitas formas de voluntariado. O empenho para oferecer, pessoalmente, uma contribuição às necessidades deste mundo é uma coisa grande. Um primeiro impulso pode ser, portanto, o de encorajar isto: Prossigam neste caminho! Procurem ocasiões para fazer o bem! O mundo necessita dessa vontade, necessita desse empenho! E depois, talvez, uma palavra especial poderia ser esta: a coragem das decisões definitivas! Na juventude, há muita generosidade, mas, diante do risco de se comprometer por toda a vida, quer no matrimónio quer no sacerdócio, sente-se o medo. O mundo está em movimento de modo dramático. Continuamente. Posso, desde agora, dispor de toda a minha vida, com todos os seus imprevisíveis eventos futuros? Com uma decisão definitiva, não estarei, eu próprio, cerceando a minha liberdade e tirando algo à minha flexibilidade? Despertar a coragem de ousar decisões definitivas, que, na realidade, são as únicas que tornam possível o crescimento, o caminho para a frente e o alcançar algo de grande na vida; são as únicas que não destroem a liberdade, mas lhe oferecem a justa direcção no espaço; correr esse risco, dar esse salto - por assim dizer - para o definitivo e, com isso, acolher plenamente a vida: isso é algo que eu ficaria muito feliz de poder comunicar.

 

(...)

 

BR: Santo Padre, o Cristianismo difundiu-se em todo o mundo a partir da Europa. Agora, muitos dos que se ocupam deste tema, dizem que o futuro da Igreja se encontra nos outros continentes. É verdade? Por outras palavras: que futuro tem o Cristianismo na Europa, onde parece estar a reduzir-se a um assunto privado de uma minoria?

 

Bento XVI: Antes de mais, gostaria de introduzir alguns matizes. Na verdade, como sabemos, o Cristianismo nasceu no Médio Oriente. E, por muito tempo, o seu desenvolvimento principal permaneceu lá e difundiu-se na Ásia, muito mais do que podemos pensar hoje, depois das mudanças originadas pelo Islão. Por outro lado, precisamente por este motivo, o seu eixo deslocou-se sensivelmente para o Ocidente e para a Europa, e a Europa - o que nos enche de orgulho e de alegria - desenvolveu posteriormente o Cristianismo nas suas grandes dimensões, também intelectuais e culturais. Creio, todavia, que é importante recordar os cristãos do Oriente, uma vez que actualmente existe o perigo de que eles, que sempre foram uma minoria importante, possam agora emigrar. Há o grande perigo de que, precisamente estes lugares da origem do Cristianismo acabem vazios da presença dos cristãos. Creio que devemos ajudar muito para que eles possam permanecer ali. Agora vamos à sua pergunta. A Europa tornou-se, certamente, o centro do Cristianismo e do seu empenho missionário. Hoje, os outros continentes e as outras culturas entram com igual peso no concerto da história mundial. Assim cresce o número das vozes da Igreja, e isto é um bem. É um bem que se possam exprimir os diversos temperamentos, os dons próprios da África, da Ásia e da América, em particular também da América Latina. Todos, naturalmente, são tocados não apenas pela palavra do Cristianismo, mas também pela mensagem secularizadora deste mundo, que leva também aos outros continentes a prova explosiva que nós próprios sofremos. Todos os bispos das outras partes do mundo dizem: Nós temos ainda necessidade da Europa, ainda que a Europa, agora, seja apenas uma parte de um todo maior. Nós ainda temos uma responsabilidade em relação a eles. As nossas experiências, a ciência teológica que aqui se desenvolveu, toda a nossa experiência litúrgica, as nossas tradições, também as experiências ecuménicas que acumulamos: tudo isso é muito importante também para os outros continentes. Por isso, é preciso que nós, hoje, não capitulemos, dizendo: «Eis que somos apenas uma minoria, procuremos, ao menos, conservar este nosso pequeno número!» Devemos, ao invés, manter vivo o nosso dinamismo, instaurar relações de intercâmbio, de maneira que, de lá, cheguem novas forças para nós. Hoje, há sacerdotes indianos e africanos na Europa, também no Canadá, onde muitos sacerdotes africanos trabalham; é interessante. Existe este dar e receber mutuamente. E ainda que, no futuro, venhamos a ser aqueles que mais recebem, deveremos sempre continuar capazes de dar e de desenvolver, em tal sentido, a coragem e o dinamismo necessários.

 

ZDF: O tema já foi em parte abordado, Santo Padre. As sociedades modernas, nas decisões importantes sobre política e ciência, não se orientam segundo os valores cristãos, e a Igreja - como informam as sondagens - é considerada quando muito apenas como uma voz de admoestação ou até mesmo de repressão. A Igreja não deveria sair dessa posição defensiva e assumir uma atitude mais positiva em relação ao futuro e à sua construção?

 

Bento XVI: Eu diria que, em todo o caso, temos a nossa tarefa de colocar em relevo aquilo que nós queremos de positivo. Isto devemos fazê-lo, antes de mais no diálogo com as culturas e com as religiões, uma vez que o continente africano, a alma africana e também a alma asiática ficam desconcertados diante da frieza da nossa racionalidade. É importante demonstrar que entre nós não existe apenas isto. E da mesma forma, é importante que o nosso mundo laicista se dê conta de que precisamente a fé cristã não é um impedimento, mas antes uma ponte para o diálogo com os outros mundos. Não é certo pensar que a cultura puramente racional, graças à sua tolerância, tenha uma aproximação mais fácil às outras religiões. Falta-lhe, em grande parte, o «órgão religioso» e, com ele, o ponto de enganche a partir do qual e com o qual os outros desejam entrar em relação. Por isso, devemos e podemos mostrar que, precisamente pela nova interculturalidade em que vivemos, a pura racionalidade separada de Deus não é suficiente, mas é necessária uma racionalidade mais ampla, que vê Deus em harmonia com a razão; devemos mostrar que a fé cristã que se desenvolveu na Europa é também um meio para fazer confluir razão e cultura, e para mantê-las juntas, numa unidade que compreende também o agir. Nesse sentido, creio que temos uma grande tarefa, que é a de mostrar que essa Palavra que possuimos não pertence - por assim dizer - às velharias da história, mas é necessária ainda hoje.

 

(...)

 

 


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