A PALAVRA DO
PAPA
UMA VISÃO DO
MUNDO DE HOJE
Em
preparação para a sua Viagem Apostólica à Alemanha, de
Oferecemos
aos nossos leitores um excerto nesta Secção e outros excertos nas Secções «Documentação»
e «Direito e Pastoral».
BR: Santo Padre, em Setembro vai visitar a Alemanha
ou, mais precisamente, como é natural, a Baviera. «O Papa tem saudade da sua
Pátria» -
assim disseram os seus colaboradores, durante a preparação. Que temas em
particular vai abordar durante a visita, e o conceito de «pátria» faz parte dos
valores que deseja especialmente propor?
Bento XVI: Certamente. O motivo da visita era precisamente que eu desejava ver,
mais uma vez, os lugares e as pessoas junto das quais cresci, que me marcaram e
fizeram parte da minha vida; pessoas às quais desejo agradecer. E,
naturalmente, desejava também deixar uma mensagem que vá além da minha terra,
como é coerente com o meu ministério. Quanto aos temas, deixei que me fossem
indicados simplesmente pelas celebrações litúrgicas. O tema fundamental é que
nós devemos redescobrir Deus, e não um Deus qualquer, mas o Deus com um rosto
humano, porque quando vemos Jesus Cristo vemos Deus. E a partir daqui, devemos
achar os caminhos para nos encontrarmos mutuamente na família, entre as gerações,
e depois também entre as culturas e os povos, e os caminhos para a
reconciliação e a convivência pacífica neste mundo. Os caminhos que conduzem
para o futuro, não os acharemos se não recebermos, por assim dizer, a luz do
alto. Não escolhi, portanto, temas muito específicos, mas é a liturgia que me
guia para exprimir a mensagem fundamental da fé que, naturalmente, se insere na
actualidade de hoje, em que desejamos, sobretudo, procurar a colaboração dos
povos, e os caminhos possíveis para a reconciliação e a paz.
ZDF: Como Papa, é responsável pela Igreja no mundo
inteiro. Naturalmente, porém, a sua visita chamará a atenção para a situação
dos católicos na Alemanha. Ora, todos os observadores concordam que a atmosfera
é boa, graças também à sua eleição. Permanecem, no entanto, os problemas
antigos como, por exemplo, o número sempre menor de católicos praticantes, a
diminuição do número de baptismos e, de modo geral, a perda da influência dos
católicos na vida social. Como vê a situação actual da Igreja Católica na
Alemanha?
Bento XVI: Eu diria, antes de mais, que a Alemanha faz parte do Ocidente, ainda
que com um colorido característico, e, no mundo ocidental, vivemos hoje uma
onda de novo e drástico iluminismo ou laicismo, como se queira chamar. Crer
tornou-se mais difícil, uma vez que o mundo em que nos encontramos é feito
completamente por nós mesmos, e neste mundo, por assim dizer, Deus já não se
manifesta directamente. Não se bebe da fonte, mas daquilo que, já engarrafado,
nos é oferecido. Os homens reconstruíram o mundo por si mesmos, e encontrar
Deus por trás deste mundo tornou-se difícil. Isto não é específico da Alemanha,
mas algo que se verifica em todo o mundo, em particular no mundo ocidental. Por
outro lado, o Ocidente hoje é tocado fortemente por outras culturas, nas quais
o elemento religioso originário é muito forte, e que ficam horrorizadas pela
frieza que encontram no Ocidente no que se refere a Deus. Esta presença do
sagrado noutras culturas, ainda que velada de muitas maneiras, toca novamente o
mundo ocidental e toca-nos a nós, que nos encontramos na encruzilhada de tantas
culturas. Das profundezas do homem, no Ocidente e na Alemanha, emerge sempre
novamente o pedido de algo «de mais grande». Vemo-lo na juventude, onde existe
a procura de «algo mais»: de certa forma, regressa o fenómeno religião - como se diz -, ainda que se trata de um movimento de
procura frequentemente bastante indeterminado. Com tudo isso, porém, a Igreja
está novamente presente, a fé é oferecida como resposta. Eu creio que
precisamente esta visita, assim como a que fiz a Colónia, é uma oportunidade
para que se veja que crer é belo, que a alegria de uma grande comunidade
universal significa um apoio, que por detrás dela existe algo de importante e
que, portanto, junto aos novos movimentos de procura, existem também novas
aberturas para a fé, que nos conduzem uns para os outros e que também são
positivas para a sociedade no seu conjunto.
RV: Santo Padre, exactamente há um ano, estava em
Colónia, com os jovens, e creio que terá também experimentado que a juventude
está extraordinariamente pronta para acolher, e que pessoalmente foi muito bem
acolhido. Nesta próxima viagem, levará, porventura, também uma mensagem
especial para os jovens?
Bento XVI: Eu diria, antes de mais, que me sinto muito feliz em saber que há
jovens que querem estar juntos, que querem reunir-se na fé, e que desejam fazer
algo de bom. A disponibilidade para o bem é muito forte na juventude, basta
pensar nas muitas formas de voluntariado. O empenho para oferecer,
pessoalmente, uma contribuição às necessidades deste mundo é uma coisa grande.
Um primeiro impulso pode ser, portanto, o de encorajar isto: Prossigam neste
caminho! Procurem ocasiões para fazer o bem! O mundo necessita dessa vontade,
necessita desse empenho! E depois, talvez, uma palavra especial poderia ser
esta: a coragem das decisões definitivas! Na juventude, há muita generosidade,
mas, diante do risco de se comprometer por toda a vida, quer no matrimónio quer
no sacerdócio, sente-se o medo. O mundo está em movimento de modo dramático.
Continuamente. Posso, desde agora, dispor de toda a minha vida, com todos os
seus imprevisíveis eventos futuros? Com uma decisão definitiva, não estarei, eu
próprio, cerceando a minha liberdade e tirando algo à minha flexibilidade?
Despertar a coragem de ousar decisões definitivas, que, na realidade, são as
únicas que tornam possível o crescimento, o caminho para a frente e o alcançar
algo de grande na vida; são as únicas que não destroem a liberdade, mas lhe
oferecem a justa direcção no espaço; correr esse risco, dar esse salto - por assim dizer - para o definitivo e, com isso, acolher
plenamente a vida: isso é algo que eu ficaria muito feliz de poder comunicar.
(...)
BR: Santo Padre, o Cristianismo difundiu-se em todo o
mundo a partir da Europa. Agora, muitos dos que se ocupam deste tema, dizem que
o futuro da Igreja se encontra nos outros continentes. É verdade? Por outras
palavras: que futuro tem o Cristianismo na Europa, onde parece estar a
reduzir-se a um assunto privado de uma minoria?
Bento XVI: Antes de mais, gostaria de introduzir alguns matizes. Na verdade, como
sabemos, o Cristianismo nasceu no Médio Oriente. E, por muito tempo, o seu
desenvolvimento principal permaneceu lá e difundiu-se na Ásia, muito mais do
que podemos pensar hoje, depois das mudanças originadas pelo Islão. Por outro
lado, precisamente por este motivo, o seu eixo deslocou-se sensivelmente para o
Ocidente e para a Europa, e a Europa - o que nos enche de orgulho e de alegria - desenvolveu posteriormente o Cristianismo
nas suas grandes dimensões, também intelectuais e culturais. Creio, todavia,
que é importante recordar os cristãos do Oriente, uma vez que actualmente
existe o perigo de que eles, que sempre foram uma minoria importante, possam
agora emigrar. Há o grande perigo de que, precisamente estes lugares da origem
do Cristianismo acabem vazios da presença dos cristãos. Creio que devemos
ajudar muito para que eles possam permanecer ali. Agora vamos à sua pergunta. A
Europa tornou-se, certamente, o centro do Cristianismo e do seu empenho
missionário. Hoje, os outros continentes e as outras culturas entram com igual
peso no concerto da história mundial. Assim cresce o número das vozes da
Igreja, e isto é um bem. É um bem que se possam exprimir os diversos
temperamentos, os dons próprios da África, da Ásia e da América, em particular
também da América Latina. Todos, naturalmente, são tocados não apenas pela
palavra do Cristianismo, mas também pela mensagem secularizadora deste mundo,
que leva também aos outros continentes a prova explosiva que nós próprios
sofremos. Todos os bispos das outras partes do mundo dizem: Nós temos ainda
necessidade da Europa, ainda que a Europa, agora, seja apenas uma parte de um
todo maior. Nós ainda temos uma responsabilidade em relação a eles. As nossas
experiências, a ciência teológica que aqui se desenvolveu, toda a nossa
experiência litúrgica, as nossas tradições, também as experiências ecuménicas
que acumulamos: tudo isso é muito importante também para os outros continentes.
Por isso, é preciso que nós, hoje, não capitulemos, dizendo: «Eis que somos
apenas uma minoria, procuremos, ao menos, conservar este nosso pequeno número!»
Devemos, ao invés, manter vivo o nosso dinamismo, instaurar relações de intercâmbio,
de maneira que, de lá, cheguem novas forças para nós. Hoje, há sacerdotes
indianos e africanos na Europa, também no Canadá, onde muitos sacerdotes
africanos trabalham; é interessante. Existe este dar e receber mutuamente. E
ainda que, no futuro, venhamos a ser aqueles que mais recebem, deveremos sempre
continuar capazes de dar e de desenvolver, em tal sentido, a coragem e o
dinamismo necessários.
ZDF: O tema já foi em parte abordado, Santo Padre. As
sociedades modernas, nas decisões importantes sobre política e ciência, não se
orientam segundo os valores cristãos, e a Igreja -
como informam as sondagens - é
considerada quando muito apenas como uma voz de admoestação ou até mesmo de
repressão. A Igreja não deveria sair dessa posição defensiva e assumir uma
atitude mais positiva em relação ao futuro e à sua construção?
Bento XVI: Eu diria que, em todo o caso, temos a nossa tarefa de colocar em relevo
aquilo que nós queremos de positivo. Isto devemos fazê-lo, antes de mais no
diálogo com as culturas e com as religiões, uma vez que o continente africano,
a alma africana e também a alma asiática ficam desconcertados diante da frieza
da nossa racionalidade. É importante demonstrar que entre nós não existe apenas
isto. E da mesma forma, é importante que o nosso mundo laicista se dê conta de
que precisamente a fé cristã não é um impedimento, mas antes uma ponte para o
diálogo com os outros mundos. Não é certo pensar que a cultura puramente
racional, graças à sua tolerância, tenha uma aproximação mais fácil às outras
religiões. Falta-lhe, em grande parte, o «órgão religioso» e, com ele, o ponto
de enganche a partir do qual e com o qual os outros desejam entrar
(...)