DOCUMENTAÇÃO
BENTO XVI
MATRIMÓNIO,
FAMÍLIA, MULHER
Oferecemos aos leitores outro excerto da entrevista concedida pelo Santo
Padre (V. Secções «A Palavra do Papa» e «Direito e Pastoral»).
Título e subtítulos da Redacção da CL.
Matrimónio e
família
RV: Tema: a família. Há cerca de um mês, estava em
Valência para o V Encontro Mundial das Famílias. Quem ouviu com atenção -
como procurámos fazer na Rádio Vaticana - reparou que não pronunciou nunca a expressão «matrimónios
homossexuais», não falou de aborto nem de contracepção. Observadores atentos
disseram: Interessante! Evidentemente, a sua intenção é anunciar a fé, e não
andar pelo mundo como «apóstolo da moral». Pode-nos fazer o seu comentário?
Bento XVI: Naturalmente, sim. Antes de mais, devo
dizer que eu dispunha, nas duas vezes em que me pronunciei, apenas de 20
minutos de tempo para falar. E se alguém dispõe de tão pouco tempo, não pode
começar por dizer «Não». É preciso saber, primeiro, o que queremos
verdadeiramente, não é verdade? O Cristianismo, o Catolicismo não é um conjunto
de proibições, mas uma opção positiva. E é muito importante que isto se veja
novamente, porque esta consciência, hoje, desapareceu quase completamente.
Tem-se ouvido dizer tanto sobre o que não é permitido, que agora é preciso dizer:
Mas nós temos uma ideia positiva a propor: o homem e a mulher foram feitos um
para o outro, existe - por assim dizer - uma gradação: sexualidade, eros e agape,
que são as dimensões do amor, e assim se forma, em primeiro lugar, o matrimónio
como encontro repleto de felicidade entre o homem e a mulher, e depois a
família, que garante a continuidade entre as gerações, onde se realiza a
reconciliação das gerações, e onde as culturas também se podem encontrar. Antes
de mais, portanto, é importante colocar em relevo aquilo que queremos. Em
segundo lugar, pode-se ver também por que certas coisas nós não as queremos. Eu
creio que é preciso reconhecer que não é uma invenção católica o facto de que o
homem e a mulher estão feitos um para o outro, a fim de que a humanidade
continue a viver: todas as culturas, no fundo, sabem isto. No que se refere ao
aborto, ele não entra no sexto, mas no quinto mandamento: «Não matar!». E isto
devemos pressupor como óbvio, reafirmando sempre de novo: a pessoa humana tem
início no seio materno e permanece pessoa humana até ao seu último suspiro. Por
isso, deve ser sempre respeitada como pessoa humana. Mas isto torna-se mais
claro se, antes, for dito o que é positivo.
DW: Santo Padre, a
minha pergunta une-se, de certo modo, com a precedente. Em todo o mundo, os
fiéis esperam da Igreja Católica respostas aos problemas globais mais urgentes,
como a SIDA e a superpopulação. Por que é que a Igreja Católica insiste tanto
na moral, antepondo-a às tentativas de solução concreta para esses problemas
cruciais da humanidade, por exemplo, no continente africano?
Bento XVI: É verdade! Este é o problema: insistimos
realmente tanto na moral? Eu diria - estou cada vez mais convencido, também no
diálogo com os bispos africanos – que a questão fundamental, se quisermos
progredir neste campo, se chama educação, formação. O progresso somente pode
ser verdadeiro, se servir à pessoa humana e se a própria pessoa humana crescer:
se não cresce somente o seu poder técnico, mas também a sua capacidade moral.
Penso que o verdadeiro problema da nossa situação histórica é o desequilíbrio
entre o crescimento incrivelmente rápido do nosso poder técnico e o da nossa
capacidade moral, que não cresceu proporcionalmente. Por isso, a formação da
pessoa humana é a verdadeira receita, eu diria a chave de tudo, e este é também
o nosso caminho. Esta formação tem - em poucas palavras - duas dimensões. Antes de mais, naturalmente,
devemos aprender: adquirir o saber, a capacidade, o know-how, como se
costuma dizer. Neste sentido, a Europa e a América fizeram muito nas últimas
décadas, e isto é muito importante. Mas se se difunde apenas o know-how,
se se ensina apenas como se constroem e se usam as máquinas, e como se empregam
os meios de contracepção, então não devemos admirarmo-nos se, no final, nos
encontramos com as guerras e as epidemias da SIDA. Nós necessitamos de duas
dimensões: é necessário, ao mesmo tempo, a formação do coração - se assim me posso exprimir -, com o qual a pessoa humana adquire as
referências e aprende, assim, a usar correctamente a técnica, que também é
necessária. É isto o que procuramos fazer. Em toda a África e também em muitos
países da Ásia, temos uma grande rede de escolas de todos os níveis, onde,
antes de mais, se pode aprender, adquirir verdadeiro conhecimento e capacidade
profissional, e, com isso, obter autonomia e liberdade. Nessas escolas,
procuramos não apenas transmitir o know-how, mas também formar pessoas
humanas que queiram reconciliar-se, que saibam construir e não destruir, e que
tenham as referências necessárias para saberem conviver. Em grande parte da
África, as relações entre muçulmanos e cristãos são exemplares. Os bispos
formaram comissões conjuntas com os muçulmanos, para verem como criar a paz nas
situações de conflito. E essa rede de escolas, de aprendizagem e de formação
humana, que é muito importante, é completada por uma rede de hospitais e de
centros de assistência, que alcança, de maneira capilar, até mesmo as aldeias
mais remotas. E em muitos lugares, depois de todas as destruições da guerra, a
Igreja permanece como o último poder intacto – não poder, mas realidade! Uma
realidade onde se cura, onde se cura também a SIDA, e onde, por outro lado, se
oferece uma educação que ajuda a estabelecer as justas relações com os outros.
Por isso, creio que deveria ser corrigida a imagem segundo a qual semeamos, em
torno a nós, somente rígidos «Não». Precisamente na África, faz-se muito, para
que as diversas dimensões da formação possam integrar-se e, assim, se torne
possível superar a violência e também as epidemias, entre as quais se deve
incluir também a malária e a tuberculose.
A mulher na Igreja
BR: Santo Padre, as mulheres são muito activas em
diversas funções na Igreja Católica. A sua contribuição não deveria tornar-se
mais claramente visível, também nos cargos de maior responsabilidade na Igreja?
Bento XVI: Sobre esta questão, naturalmente
reflecte-se muito. Como o senhor sabe, nós consideramos que a nossa fé, a
constituição do Colégio dos Apóstolos nos compromete e não nos permite conferir
a ordenação sacerdotal às mulheres. Mas não se pode pensar de modo algum que,
na Igreja, a única possibilidade de desempenhar um papel de relevo seja a de
ser sacerdote. Na história da Igreja, há muitas tarefas e funções. Começando
pelas irmãs dos Padres da Igreja, até chegar à Idade Média, quando grandes
mulheres desempenharam um papel muito determinante, e finalmente à Idade
moderna. Pensemos em Ildegard de Bingen, que protestava fortemente diante dos
bispos e do Papa; em Catarina de Sena e em Brígida da Suécia. Assim, também no
tempo moderno, as mulheres devem - e nós com elas - procurar sempre de novo o seu justo lugar.
Hoje, elas estão bem presentes nos Dicastérios da Santa Sé. Mas há um problema
jurídico: o da jurisdição, isto é, o facto de que, segundo o Direito Canónico,
o poder de tomar decisões juridicamente vinculadoras está ligado à Ordem sacra.
Deste ponto de vista, há, portanto, alguns limites. Mas eu creio que as
próprias mulheres, com o seu dinamismo e a sua força, com a sua - por assim dizer - preponderância, com a sua «força espiritual»
saberão conquistar o seu espaço. E nós devemos colocar-nos na escuta de Deus,
para não sermos nós a opormo-nos a Ele, mas, pelo contrário, a alegrarmo-nos
pelo facto de o elemento feminino alcançar, na Igreja, o lugar operativo que
lhe cabe, a começar pela Mãe de Deus e Maria Madalena.