DOCUMENTAÇÃO

SANTA SÉ

 

PERANTE A REACÇÃO DOS MUÇULMANOS

A UM DISCURSO DO PAPA NA ALEMANHA

 

A propósito da interpretação de algumas passagens do discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg (Ratisbona), o Director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, S.J., fez a seguinte declaração no passado dia 14 de Setembro, após o regresso do Santo Padre da sua Viagem Apostólica à Alemanha:

 

A propósito das reacções de representantes muçulmanos acerca de algumas passagens do discurso do Santo Padre na Universidade de Ratisbona, é conveniente observar que, como se desprende de uma atenta leitura do texto, o que interessa ao Santo Padre é uma rejeição clara e radical da motivação religiosa da violência.

Sem dúvida, não estava nas intenções do Santo Padre levar a cabo um estudo aprofundado sobre a jihad e sobre o pensamento muçulmano nesse sentido, e muito menos ofender a sensibilidade dos crentes muçulmanos.

Ao contrário, nos discursos do Santo Padre aparece claramente a advertência, dirigida à cultura ocidental, para que se evite «o desprezo de Deus e o cinismo que considera a irrisão do sagrado como um direito da liberdade» (discurso de 10 de Setembro), pois a justa consideração da dimensão religiosa é de facto premissa essencial para um diálogo frutuoso com as grandes culturas e religiões do mundo. Precisamente nas conclusões do discurso na Universidade de Ratisbona, Bento XVI afirmou: «As culturas profundamente religiosas do mundo vêem precisamente na exclusão do divino da universalidade da razão um ataque às suas convicções mais íntimas. Uma razão que, frente ao divino, é surda e relega a religião para o âmbito da subcultura, é incapaz de integrar-se no diálogo das culturas».

Portanto, é clara a vontade do Santo Padre de cultivar uma atitude de respeito e de diálogo para com as outras religiões e culturas, evidentemente também para com o Islão.

 

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Posteriormente, no passado dia 16 de Setembro, o Cardeal Tarcísio Bertone, novo Secretário de Estado da Santa Sé, fez também uma declaração:

 

Perante as reacções da parte muçulmana acerca de algumas passagens do discurso do Santo Padre Bento XVI à Universidade de Ratisbona, aos esclarecimentos e precisões já feitos através do Director da Sala de Imprensa da Santa Sé, desejo acrescentar o seguinte:

– A posição do Papa sobre o Islão é inequivocamente a expressa pelo documento conciliar Nostra Aetate: «A Igreja olha com estima os muçulmanos, que adoram o único Deus, vivo e subsistente, criador do céu e da terra, que falou aos homens. Eles procuram também submeter-se de todo o coração aos decretos ocultos de Deus, como se submeteu Abraão, a quem a fé islâmica evoca de bom grado. Embora não reconheçam Jesus como Deus, eles veneram-no como profeta; honram a sua mãe a Virgem Maria e por vezes também a invocam com devoção. Além disso, esperam o dia do juízo, no qual Deus recompensará todos os homens ressuscitados. Por isso, eles também têm em estima a vida moral e prestam culto a Deus sobretudo com a oração, a esmola e o jejum» (n.3).

– A opção do Papa a favor do diálogo inter-religioso e inter-cultural é igualmente inequívoco. No encontro com algumas comunidades muçulmanas em Colónia, em 20 de Agosto de 2005, ele disse que este diálogo entre cristãos e muçulmanos «não pode reduzir-se a uma opção ocasional», acrescentando: «As lições do passado devem servir-nos para evitar a repetição dos mesmos erros. Nós queremos procurar os caminhos da reconciliação e aprender a viver respeitando cada um a identidade do outro».

– Quanto ao juízo do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, referido no discurso de Ratisbona, o Santo Padre não pretendeu nem pretende de modo algum fazê-lo seu, mas utilizou-o apenas como ocasião para desenvolver, num contexto académico e segundo se depreende de uma leitura completa e atenta do texto, algumas reflexões sobre o tema da relação entre religião e violência e concluir como uma clara e radical rejeição da motivação religiosa da violência, de qualquer parte que venha. Vale a pena recordar a este respeito o que o próprio Bento XVI recentemente afirmou na Mensagem comemorativa do XX aniversário do encontro inter-religioso de oração pela paz convocado pelo seu amado predecessor João Paulo II em Assis, em Outubro de 1986: «… as manifestações de violência não podem atribuir-se à religião enquanto tal, mas aos limites culturais com os quais ela é vivida e se desenvolve no tempo … De facto, testemunhos do íntimo laço existente entre a relação com Deus e a ética do amor registam-se em todas as grandes tradições religiosas».

– O Santo Padre está, portanto, profundamente desgostoso por algumas passagens do seu discurso terem podido parecer ofensivos para a sensibilidade dos crentes muçulmanos e tenham sido interpretados de uma maneira que não corresponde de forma alguma às suas intenções. Por outro lado, perante a fervorosa religiosidade dos crentes muçulmanos, ele advertiu a cultura ocidental secularizada para que evite «o desprezo de Deus e o cinismo que considera a irrisão do sagrado como um direito da liberdade».

– Ao reafirmar o seu respeito e a sua estima por aqueles que professam o Islão, o Papa deseja que se lhes ajude a compreender no sentido justo as suas palavras, para que, superado quanto antes este momento difícil, se reforce o testemunho no «único Deus, vivo e subsistente, criador do céu e da terra, que falou aos homens» e a colaboração para «defenderem e promoverem juntos, para todos os homens, a justiça social, os valores morais, paz e a liberdade» (Nostra Aetate, n. 3).

 

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Finalmente, antes da recitação do «Angelus» no domingo 17 de Setembro, em Castelgandolfo, o Santo Padre, entristecido, esclarece o sentido das suas palavras em Ratisbona:

 

Queridos irmãos e irmãs:

 

A viagem apostólica à Baviera, que realizei nos dias passados, foi uma intensa experiência espiritual, na qual se entrelaçaram recordações pessoais, ligadas a lugares que para mim são sumamente familiares, e perspectivas pastorais para um eficaz anúncio do Evangelho no nosso tempo. Agradeço a Deus pelas consolações interiores que me proporcionou viver e estou reconhecido, ao mesmo tempo, a todos os que trabalharam activamente pelo êxito da minha visita pastoral. Como é costume, falarei dela mais amplamente durante a audiência geral da próxima quarta-feira.

Neste momento, só desejo acrescentar que estou vivamente entristecido pelas reacções suscitadas por uma breve passagem do meu discurso na Universidade de Ratisbona, considerado ofensivo para a sensibilidade dos fiéis muçulmanos, quando na realidade se tratava da citação de um texto medieval, que não exprime de nenhuma maneira o meu pensamento pessoal. Ontem, o Senhor Cardeal Secretário de Estado tornou pública, a este propósito, uma declaração na qual explicava o autêntico sentido das minhas palavras. Espero que isto sirva para acalmar os ânimos e para esclarecer o verdadeiro significado de meu discurso, que na sua totalidade era e é um convite ao diálogo franco e sincero, com grande respeito recíproco.

 

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Esta é passagem do discurso de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, no passado dia 12 de Setembro, durante a sua recente Viagem Apostólica à Alemanha, que provocou as reacções críticas de personagens muçulmanas (naturalmente, convinha ler todo o discurso, para ver as conclusões que o Papa pretende tirar):

 

Tudo isto me veio à mente quando recentemente li a parte editada pelo Professor Theodore Khoury (Munster) do diálogo que o douto imperador bizantino Manuel II, o Paleólogo, teve, talvez durante o quartel do Inverno de 1391, perto de Ankara, com um persa culto, sobre cristianismo e Islão e sobre a verdade de ambos. Foi depois, provavelmente, o próprio imperador quem escreveu este diálogo, durante o cerco de Constantinopla, entre 1394 e 1402; explica-se assim por que os seus argumentos estão expostos de um modo muito mais detalhado do que os do seu interlocutor persa.

O diálogo estende-se sobre todo o âmbito das estruturas da fé contidas na Bíblia e no Corão, e detém-se sobretudo na imagem de Deus e do homem, mas necessariamente também sempre de novo sobre a relação entre as três «Leis» ou três «ordens de vida» – como se dizia –: Antigo Testamento – Novo Testamento – Corão. Não pretendo falar disto nesta lição; gostaria de tratar somente de um ponto – embora marginal na estrutura de todo o diálogo – que, no contexto do tema «fé e razão», me tem fascinado e que me servirá como ponto de partida para as minhas reflexões sobre este tema.

No sétimo colóquio (dialesis – controvérsia) editado pelo Prof. Khoury, o imperador trata do tema da jihad, da guerra santa. Certamente, o imperador sabia que na sura 2, 256 se lê: «Nenhuma coacção nas coisas da fé». É uma das suras do período inicial, dizem os especialistas, em que o próprio Maomé não tinha ainda poder e estava ameaçado. Mas, naturalmente, o imperador conhecia também as disposições, desenvolvidas posteriormente e fixadas no Corão, acerca da guerra santa. Sem se deter sobre pontos particulares, como a diferença de tratamento entre os que possuem o «Livro» e os «incrédulos», ele, de forma surpreendentemente brusca que nos espanta, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: «Mostra-me o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como o seu mandato de difundir por meio da espada a fé que pregava».

O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão duro, explica minuciosamente as razões pelas quais a difusão da fé mediante a violência é coisa irracional. A violência está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. «Deus não se compraz com o sangue, diz ele; não actuar segundo a razão (sin logos) é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Portanto, quem quer conduzir o outro à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar correctamente, e não pelo contrário com a violência e com a ameaça… Para convencer uma alma racional não é necessário dispor nem do próprio braço, nem de instrumentos para ferir, nem de nenhum outro meio com o qual se possa ameaçar de morte uma pessoa…».

A afirmação decisiva nesta argumentação contra a conversão mediante a violência é: não actuar segundo a razão é contrário à natureza de Deus. O editor, Theodore Khoury, comenta: para o imperador, como bizantino formado na filosofia grega, esta afirmação é evidente. Para a doutrina muçulmana, pelo contrário, Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está ligada a nenhuma das nossas categorias, nem sequer a da racionalidade. Neste contexto, Khoury cita uma obra do conhecido islamista francês R. Arnaldez, o qual faz notar que Ibn Hazn se atreve a declarar que Deus não estaria ligado nem sequer à sua própria palavra e que nada o obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse sua vontade, o homem deveria praticar até a idolatria.

Aqui se abre, na compreensão de Deus e portanto na realização concreta da religião, um dilema que hoje nos desafia de forma muito directa. A convicção de que actuar contra a razão está em contradição com a natureza de Deus, é apenas um pensamento grego ou vale sempre e por si mesmo? Eu penso que neste ponto se manifesta a profunda concordância entre o que é grego no melhor dos sentidos e o que é fé em Deus sobre o fundamento da Bíblia.

 


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