aCONTECIMENTOS eclesiais
DA SANTA SÉ
CRIAÇÃO E EVOLUÇÃO:
ACTAS SERÃO PUBLICADAS
Decorreu de forma muito
discreta o encontro de estudo do Papa Bento XVI com o círculo dos seus antigos
alunos, o chamado «Ratzinger-Schülerkreis», sobre o tema «Schöpfung und Evolution»
(Criação e Evolução). A iniciativa, acompanhada por uma grande especulação
mediática, decorreu em 3 e 4 de Setembro passado
A Rádio Vaticano deu conta dos desenvolvimentos desta
iniciativa, de forma muito breve, e anunciou que, pela primeira vez, serão
publicadas as intervenções proferidas nestes dias. Joseph
Ratzinger mantém estes encontros há décadas, desde a
sua docência na Universidade de Regensburg (Alemanha)
e eles não foram interrompidos até hoje, mesmo após a eleição pontifícia.
No final, o Papa presidiu à celebração da Missa, com a
presença dos participantes no encontro de estudo. A homilia foi proferida pelo
Cardeal Christoph Schoenborn,
Arcebispo de Viena.
Este responsável é uma voz activa no debate em curso há
vários meses sobre o assunto e criticou duramente, no ano passado, «o
evolucionismo no sentido do neo-darwinismo, isto é, um
processo não planeado, sem guia e de selecção natural» num artigo escrito para
o New York Times. Mais recentemente, em entrevista à Rádio
Vaticano, o Cardeal austríaco disse que «se tudo for fortuito, a vida não tem
sentido», precisando que «nem todas as explicações da evolução, do devir do
mundo, da vida ou do homem são compatíveis com a fé».
No encontro com o Papa participaram, entre outros, o
professor Peter Schuster,
presidente da Academia Austríaca das Ciências; o jesuíta Paul Erbrich, professor de Filosofia da Natureza em Munique, e Robert Spaemann, especialista em
filosofia política; de Portugal esteve Henrique Noronha Galvão.
A publicação das actas do encontro poderá ajudar a
clarificar alguns equívocos que persistem na opinião pública, como o facto de
se equiparar a concepção cristã do Universo ao que defendem algumas escolas
norte-americanas. Entre o evolucionismo neo-darwinista,
que exclui qualquer presença transcendente no processo evolutivo, e o criacionismo, que lê à letra os relatos de Génesis,
procura-se um espaço para o «projecto» divino que, segundo a doutrina católica,
guiou o nascimento da vida sobre a terra.
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica explica que «Deus
criou o universo livremente, com sabedoria e amor» e que «o mundo não é o
produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso».
APROXIMAÇÃO COM A
IGREJA ORTODOXA RUSSA
O Cardeal Walter Kasper, Presidente do
Conselho Pontifício para a promoção da Unidade dos Cristãos, afirmou no passado
dia 5 de Setembro que houve uma grande melhoria nas relações entre o Vaticano e
Moscovo.
O homem do Papa para o ecumenismo frisou que o Patriarcado ortodoxo
de Moscovo quer cooperar com a Igreja Católica, em particular na Europa, sobre
os valores e a defesa das raízes cristãs comuns.
As declarações foram proferidas em Assis, à margem do Encontro
inter-religioso pela Paz, promovido pela Comunidade
de Santo Egídio.
O Cardeal Kasper lembrou que
actualmente não existe um «organismo estável» entre cristãos ortodoxos e
católicos, apesar de estar em curso uma cooperação com o Conselho das Conferências
Episcopais da Europa para a cultura, a justiça e a paz.
Uma eventual viagem do Papa à Rússia não consta na agenda
das duas partes, mas católicos e ortodoxos continuam a dar sinais de
aproximação. No início de Julho, uma importante delegação católica marcou
presença na cimeira inter-religiosa promovida pelo
Patriarca ortodoxo Alexis II.
A 18 de Maio, o número dois do Patriarcado de Moscovo, o Metropolita Kyrill, encontrou-se
com Bento XVI no Vaticano, evidenciando os progressos recentes nas relações
entre as duas Igrejas.
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MAIS DISPONÍVEL
O ARQUIVO VATICANO
A Santa Sé vai proceder à
abertura da totalidade dos arquivos do pontificado do Papa Pio XI (1922-1939),
a partir do próximo dia 18 de Setembro. Actualmente, apenas uma parte destes
arquivos está disponível para consulta dos investigadores.
A abertura destas fontes históricas refere-se, nomeadamente,
a toda a actividade diplomática da Santa Sé, no período que antecedeu a II
Guerra Mundial, e foi decidida pelo Papa Bento XVI, seguindo um desejo já antes
manifestado pelo seu antecessor João Paulo II. Assim, passarão a estar «disponíveis
à investigação histórica, nos limites dos regulamentos, todos os fundos
documentais até Fevereiro de 1939 (...), nomeadamente os arquivos secretos do
Vaticano e os arquivos da segunda secção da Secretaria de Estado» responsável
pelos negócios diplomáticos, concretiza o comunicado.
Trabalho de cerca de 20 pessoas nos últimos quatro anos, o
período abarca as trágicas consequências da I Guerra Mundial, o percurso que
levou à II Guerra Mundial; a chegada ao poder de Mussolini, Hitler e Estaline;
a crise de 1929, as guerras coloniais e civis, e as leis raciais alemãs e
italianas, entre outros acontecimentos.
Pio XI foi uma presença notável, nesta altura: resolveu a
questão romana com os Pactos Lateranenses (1929),
protegeu e incrementou a Acção Católica, celebrou o Jubileu de 1925 e o
extraordinário em 1933-1934, planeou um enorme projecto missionário que chegou
à China, desenvolveu sua acção para o Oriente, olhou com olhos novos a ciência,
estabeleceu relações diplomáticas entre a Santa Sé e vários países do mundo.
O Prefeito do Arquivo Secreto
Vaticano, o
Há algum tempo, está também disponível o fundo do «Departamento
de informações vaticano para os prisioneiros de
guerra», que compreende documentos de
Secreto, mas não muito
O arquivo secreto do Vaticano tem abertas as suas portas a
todos os visitantes que por ele queiram passar, na Internet. O centro de pesquisa histórica mais importante do mundo
está em foco no site oficial da Santa
Sé (www.vatican.va).
A página está organizada em subsecções: o arquivo ontem e hoje,
uma visita ao arquivo através dos frescos e documentos, documentos históricos.
E é nesta última que se pode folhear uma carta autografada de Michelangelo, as actas do processo contra Galileo Galilei, ou a carta que o
Papa Honório III envia a São Francisco de Assis, confirmando a regra dos Frades
Menores.
O arquivo, nos moldes em que existe, nasceu por iniciativa
de Paulo V, por volta de 1610, se bem que a sua história vá até bem atrás nos
séculos, ligando-se às origens e desenvolvimento da própria Igreja Católica. De
facto, desde bem cedo nasceu a tradição dos Papas guardarem com cuidado a
documentação que se referia ao exercício da sua própria actividade, custodiados
no «scrinium Sanctae Romanae Ecclesiae». A
fragilidade dos papiros - utilizados na chancelaria
pontifícia até ao século XI -, as mudanças políticas e as mudanças de
residência, fizeram com que o material arquivístico anterior a Inocêncio II se
tenha perdido na sua quase totalidade.
Graças às novas tecnologias, a Santa Sé transpõe virtualmente
para o ecrã uma parte dos seus
O documento mais antigo conservado no Vaticano é o famoso «Liber Diurnus Romanorum Pontificum», livro
de fórmulas da chancelaria pontifícia do século VIII.
VIAGEM APOSTÓLICA
À ALEMANHA
O Santo Padre realizou de
A deslocação teve, naturalmente, uma dimensão espiritual.
Foi um regresso às origens de Joseph Ratzinger, aos locais onde nasceu, cresceu e consolidou a
Fé, a sublinhar que o sucessor de Pedro é um homem como outro qualquer: com
sentimentos, fortes laços familiares, preferências de amizades e lugares de
memória.
Mas esta viagem abriu também novos horizontes quanto aos
ensinamentos de Bento XVI. Se no início do Pontificado o Papa alertou o mundo
para os riscos de uma «ditadura do relativismo», fazendo até o seu diagnóstico,
agora na Alemanha o Papa foi ainda mais profundo.
Talvez por a Igreja Católica alemã não estar na melhor
forma, a braços com uma profunda secularização, que no fundo é o espelho da
Europa, Bento XVI afirmou que o Ocidente está, há muito, ameaçado pela falta de
respeito pelo sagrado, pela redução da razão ao estritamente científico e pelo
abuso do direito à liberdade, que leva, inclusivamente, a ridicularizar o
sagrado.
Patologias e doenças mortais da razão e da religião, disse o
Papa, que levam à destruição da imagem de Deus por causa do ódio ou da
violência, e que põem em perigo a Humanidade.
Bento XVI apelou à coragem, para que o Ocidente se abra à
grandeza da razão, sem cancelar as questões fundamentais da vida e para
regressar ao respeito pelo sagrado e pelo temor de Deus.
Aura Miguel
Rádio Renascença
NOVO CARDEAL
SECRETÁRIO DE ESTADO
No passado dia 15 de
Setembro, o Cardeal Tarcisio Bertone
assumiu o cargo de Secretário de Estado do Vaticano, substituindo o Cardeal Angelo Sodano.
A escolha do Papa recaiu num homem da sua confiança, mas sem
experiência diplomática, o que poderia indicar algumas mudanças na rede «política»
do Vaticano. O Cardeal Bertone já deixou claro que
quer ser um Secretário da «Igreja», com uma missão global e que tem como
referência absoluta a actuação de Bento XVI. Com uma das diplomacias mais antigas
e respeitadas do mundo, a Santa Sé tem exercido uma influência social e
política em várias partes do mundo, muito por força da representação objectiva
de mais de mil milhões de pessoas. Este âmbito de acção, contudo, não esgota a
missão da Igreja, presente sobretudo através das figuras dos Bispos e das
Conferências Episcopais.
Sobre o seu futuro papel, o Cardeal Bertone
afirmou que o Secretário de Estado é um «homem fiel ao Papa», devendo ser «porta-voz
das suas mensagens», e «ajudá-lo a concretizar os seus projectos». O Secretário
de Estado deve ser «um colaborador que liga e coordena todos os Dicastérios da Cúria Romana, que mantém os contactos com
todos os representantes da Santa Sé no mundo». Em síntese, «é um homem de
relações, ponte de transmissão da vontade do Papa», disse.
Menos política é a ideia que emerge da análise das
declarações do Cardeal Bertone, disposto a fazer da
sua nova função na Santa Sé uma oportunidade privilegiada para um testemunho
pastoral e espiritual. Uma espécie de «persuasão moral», como já foi
classificada, baseada não em poderes tradicionais, mas numa credibilidade mais
profunda.