VIA SACRA DA DIVINA MISERICÓRDIA

 

 

 

João Paulo II, na Sexta-Feira Santa de 1991, apresentou um novo itinerário da Via-Sacra, percorrendo apenas as estações que constam explicitamente dos Evangelhos.

Houve o cuidado de esclarecer, nessa ocasião, que se mantinha a liberdade de seguir as estações. tradicionais da Via-Sacra, algumas das quais, – como as quedas de Jesus, o encontro com Sua Mãe, a Verónica e a deposição do Redentor no regaço de Sua Mãe – tiveram origem numa piedosa tradição.

Os passos da Via Dolorosa que vamos percorrer obedecem a este novo esquema. Se se preferir – ou para variar – poderá limitar-se a proclamar um ou mais textos do Evangelho que vão indicados no fim de cada Estação.

Sobre o itinerário tradicional poderá o leitor encontrar meditações da Via-Sacra em números anteriores a 1991, nesta mesma Revista.

É conveniente que toda a Assembleia se desloque de Estação para Estação ou, na sua impossibilidade, o pequeno grupo que preside: alguém com uma cruz e dois acólitos.

Um ou mais leitores poderiam permanecer junto dos microfones, para que a leitura possa ser ouvida.

O texto pode ser partilhado por duas ou mais pessoas. Sugere-se uma voz feminina e outra masculina, para que a diversidade de timbre ajude a sublinhar o texto.

 

Depois de anunciada cada Estação, quem preside poderá dizer:

 

Y. Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.    

Ao que a Assembleia responderá:    

 

R. Porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo.

 

No final da Estação poderá rezar-se um Pai Nosso ou Glória ao Pai, ou qualquer outra oração apropriada.

 

No final desta oração poderá acrescentar-se:

 

Y. Tende compaixão de nós, Senhor.

 

Ao que a Assembleia responderá:    

 

R. Tende compaixão de nós!

 

Em algumas Estações poderá cantar-se um cântico penitencial ou alusivo à Paixão.

 No final, deve acrescentar-se um Pai Nosso ou outra oração pelas intenções do Santo Padre.

Concede-se Indulgência plenária ao fiel que faça o piedoso exercício da Via-Sacra. Com ele recordam-se as dores que o divino Redentor sofreu na via dolorosa, desde o pretório de Pilatos, onde foi condenado à morte, até ao monte Calvário, onde, por nossa salvação, morreu na Cruz.

Para lucrar a indulgência plenária devem cumprir-se as seguintes condições:

 

1. O exercício deve fazer-se diante das estações da Via Sacra legitimamente erectas. Em caso de necessidade, poderá fazer-se ao ar livre, levando um crucifixo benzido.

 

2. Para erigir a Via-Sacra, requerem-se catorze cruzes, às quais se costumam juntar outros tantos quadros ou imagens que representam a estações de Jerusalém.

 

3. Segundo o costume mais comum, o piedoso exercício consta de catorze leituras piedosas, às quais se juntam alguns orações vocais. Contudo, para fazer a Via-Sacra requer-se apenas a meditação da Paixão e Morte do Senhor e não a consideração do mistério em cada uma das estações.

 

4. É necessária a deslocação de uma estação para outra. Se a Via-Sacra se faz publicamente e o movimento de todos os presentes perturba a ordem, basta que se mova o que dirige a Via-Sacra enquanto os outros permanecem no mesmo lugar.

 

5. Os «impedidos poderão ganhar as mesmas indulgências se, pelo menos durante um quarto de hora, se dedicarem à leitura e meditação da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assemelham-se ao piedoso exercício da Via-Sacra, quanto a lucrar as indulgências, outros piedosos exercícios aprovados pela Autoridade competente nos quais se medita a Paixão e Morte do Senhor como se faz nas catorze estações.» Encontram-se abrangidos por esta disposição os doentes e os idosos, bem como quem lhes assistem, e os que se encontram em viagem. (É de todos conhecido o facto de que João Paulo II fazia a Via-Sacra nas viagens apostólicas, de avião ou em qualquer outro meio de transporte).

 

6. Para lucrar a indulgência plenária requerem-se, além do exercício da Via-Sacra, as três condições seguintes:

a) Confissão sacramental;

b) Comunhão Eucarística;

c) Oração segundo as intenções do Sumo Pontífice. (cf. Manual das Indulgências, n.º 63).

Para lucrar a indulgência plenária, é necessário, além disso, que não exista nenhum afecto a qualquer pecado, mesmo venial.

As três condições podem cumprir-se vários dias antes ou depois de realizada a obra prescrita (neste caso, a Via Sacra): convém, no entanto, que a comunhão e a oração segundo as intenções do Sumo Pontífice se façam no mesmo dia em que se realiza a obra indicada.

A condição de rezar pelas intenções do Sumo Pontífice fica plenamente cumprida rezando um Pai Nosso e uma Avé Maria pelas suas intenções; podem, todavia, os fiéis rezar qualquer outra oração, segundo a devoção e a piedade de cada um (Manual das indulgências, n.º 23).

 

Pórtico

 

Com filial amor e respeito, queremos penetrar no Santuário do Coração da Mãe de Misericórdia, para meditar na Paixão de Jesus.

Gostaríamos de encontrar resposta às perguntas: Onde estava Nossa Senhora durante a Paixão de Jesus? Como via e sentia cada um dos passos em que esteve presente? Como sente hoje a Paixão de Jesus que se renova tantas vezes no mundo?

Com a sua ajuda materna, sairemos daqui com mais luzes e mais Amor que se traduza em propósitos de generosidade.

 

1ª Estação

 

JESUS NO HORTO DAS OLIVEIRAS

 

Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani e disse aos discípulos: «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar.»

E tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes então: «A Minha alma está numa tristeza de morte, Ficai aqui e vigiai comigo.»

E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia: «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres.»[1]

 

Humanamente falando, Jesus está nas piores condições para fazer oração:

A alma está mergulhada num abatimento e tristeza incomensuráveis;

Sente-Se mergulhado no terror em que antevê os sofrimentos da Paixão a que Se vai submeter. Na Sua cabeça, como na pantalha de um filme, passam todos os tormentos do Servo de Yhaveh. A aflição é de tal ordem, que O faz suar sangue.

Prostra-Se sobre uma rocha fria e irregular, o que torna a Sua posição muito incómoda.

Enfrenta a indiferença e o alheamento dos amigos mais íntimos, a tal ponto que mergulham em sono profundo.

Nunca mais cicatrizará a ferida causada pela traição de um dos Doze escolhidos.

 

Com isto, Jesus dá-nos uma lição: é precisamente quando menos nos apetece fazer oração que mais precisamos dela.

As disposições de Jesus, nesta oração hão-de ser também as nossas:

Devemos exprimir com toda a confiança filial as nossas preferências. Jesus recomenda com insistência a oração de petição.

Mas não nos esqueçamos de manter a união perfeita com a vontade do Pai, como pedimos no Pai nosso: «Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu

 

• Jesus repete a mesma súplica durante duas horas. Poderíamos queixar-nos da monotonia do Terço e de outras orações?

O que dá valor à nossa oração não é o que dizemos, mas o amor com que a fazemos. Por isso, a mesma frase repetida com amor é sempre nova.

 

Deus nunca nos falta com os frutos da oração. À primeira vista, parece que foi inútil a que Jesus fez no Horto das Oliveiras, porque a Paixão segue imparável até ao fim.

No entanto, falando humanamente, Jesus mergulha com amor naquele mar de sofrimento da Paixão.

Apareceu um Anjo que O confortava. Regressamos da oração mais confortados e com uma visão sobrenatural dos acontecimentos.

Seremos ricos espiritualmente na medida em que o quisermos. Mergulhemos as nossas mãos frágeis no tesouro do Coração Divino, todas as vezes que fizermos oração. Nunca regressaremos dela mais pobres, porque a Divina Misericórdia não o consente.

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2ª Estação

 

JESUS, ATRAIÇOADO POR JUDAS, É PRESO

 

Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com Ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. [...] Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe: «Salve, Mestre!» E beijou-O.

Com uma frase quente de amizade, Jesus tenta chamar à realidade este homem desvairado: «Amigo! A que vieste?»

Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus, e prenderam-n'O. Depois, todos os discípulos O abandonaram e fugiram.[2]

 

Judas aproximara-se revestido de uma hipocrisia repugnante quando, em casa de Simão leproso, reprovava o gesto magnânimo da pecadora, invocando que o dinheiro daquele perfume se poderia ter dado aos pobres... quando, como nos avisa S. João, o verdadeiro motivo escondido era o desejo de roubá-lo.

 

Por quê esta loucura de Judas? Está agarrado às suas ideias, e não aceita dialogar com ninguém. Persiste na ideia de um Messias triunfalista que lhe reserve um lugar de destaque no Seu Reino.

Agora é um desiludido, e quer recomeçar. Usa Jesus como mercadoria para angariar fundos de receita, convencido que, tal como de outras vezes, o Mestre escapará das mãos dos inimigos. Ele ficará com os dinheiros e partirá para recomeçar a vida.

Mas os seus cálculos saem errados: E quando vê que Jesus Se deixa aprisionar tenta, em vão, desfazer o negócio.

 

A última solução para quem não ama é o desespero... e, movido por ele, Judas vai enforcar-se. É o fim trágico de uma pessoa que não é sincera, cultiva a superficialidade na vida espiritual e afunda-se na tibieza.

Começou por cair numa armadilha: apresentou-se como disposto a trair. Agora está emparedado e não pode discutir nem recuar. Por isso, oferecem-lhe apenas trinta dinheiros. Nesta oferta de Anás, pode ter estado também presente o desejo de desvalorizar Jesus, oferecendo uma quantia de pouca monta.

 

É preciso cultivar a sinceridade de vida, na confissão, na direcção espiritual, com todas as pessoas com quem tratamos os assuntos da nossa alma. De outro modo deformamo-nos, perdemos e fazemos perder o tempo.

A sinceridade é um exercício contínuo de fortaleza e de humildade que nos torna simples e nos garante as graças do Senhor para não nos deixarmos arrastar pelo Maligno.

Qual a verdadeira razão do nosso arrependimento: orgulho desmascarado, quando estávamos falsamente seguros da nossa virtude? Pela fraqueza confessada que nos envergonha? Ou por pela consciência de termos ofendido o Amor dos amores?

 

• O Coração Imaculado de Maria – espelho da misericórdia divina – adivinha a tragédia. Também Ela trataria Judas como amigo, tal como Jesus no momento da traição, se o tivesse encontrado no caminho, para o animar a voltar atrás. 

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3ª Estação

 

JESUS É CONDENADO PELO SINÉDRIO

 

Os que tinham prendido Jesus levaram-n'O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e anciãos se tinham reunido.

Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. [...].

Levantando-se, o príncipe dos sacerdotes disse-lhe: «Eu Te conjuro por Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus.»

Jesus respondeu-lhe: «Tu o disseste. [...]

Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo: «Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas? Acabais de ouvir uma blasfémia. Que vos parece?»

Eles responderam: «É réu de morte.»[3]

 

• Preso pelos guardas do Templo a quem Judas servira de guia, Jesus é conduzido ao Sinédrio. È o tribunal religioso de Jerusalém, com poderes limitados por causa da ocupação romana.

Reúnem-se os juízes apressadamente, não para aplicar a justiça, mas à procura de um pretexto que aparentemente justificasse a condenação á morte de Jesus.

Contrataram falsas testemunhas que se contradiziam nas acusações. Finalmente, o Sumo Sacerdote encontrou uma saída manhosa: interpelou o Mestre, em nome do Deus Altíssimo, para que dissesse de uma vez por todas, se Ele era ou não o Messias prometido.

Perante a confissão leal, clara e sincera de Jesus, rasga as vestes e clama farisaicamente escandalizado por aquilo que proclama com solenidade: «Blasfemou. Que vos parece

E logo, uns por timidez e outros por bajulação, apoiam-no: «É réu de morte»

 

• Que imensa compaixão deve ter sentido o Coração misericordioso de Jesus, ao ver o abismo em que se lançavam todos, sem medir as consequências do que estavam a fazer!

Nós também condenamos injustamente muitas vezes as pessoas com os nossos juízos precipitados, levianos, ou empurrados pelo respeito humano.

 

• Há muitas pessoas que não conseguem fazer valer os seus direitos: nos tribunais, nos concursos para lugares de trabalho, no bom nome falsamente maculado perante a opinião pública.

Esquecemos, tantas vezes, que a finalidade da nossa vida não é o triunfo humano, mas o morrer na cruz do amor.

Oiçam-no os doentes que não acabam por abandonar-se à vontade de Deus, porque ainda não perceberam que Ele escolheu para eles o melhor; os que sonham com vinganças para fazer valer os seus direitos, sem se darem conta de que Jesus Cristo aceitou morrer na derrota mais completa. 

 

• Maria acredita, como ninguém, que Jesus Cristo, seu Filho, é o Filho de Deus. Adorou-O continuamente durante os nove meses em que Ele esteve no tabernáculo do seu seio virginal, deitado no Presépio e nos seus braços maternos.

Com seu olhar de misericórdia, segue-nos quando nos deixamos macular pelo pecado grave ou leve, e intercede por nós.

O seu Coração Imaculado é uma nascente de onde brota o amor que se manifesta em compreensão, em desculpas, em desejos de nos recuperar para a vida divina.

Ao contrário de muitas pessoas que nos acompanham, não se escandaliza com as nossas fragilidades e quer a todo o custo valer-nos.

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4ª Estação

 

JESUS É NEGADO POR PEDRO

 

Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe: «Tu também estavas com Jesus, o Galileu.»

Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei o que dizes.»

Dirigindo-se ele para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes: «Este homem estava com Jesus de Nazaré.» E, de novo, ele negou com juramento: «Não conheço tal homem».

Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia.»

Começou então a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço tal homem.»

E, imediatamente, um galo cantou. Então Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes de o galo cantar, tu Me negarás três vezes.» E, saindo fora, chorou amargamente.[4]

 

• Pedro nunca aceirara o mistério da cruz anunciado pelo Mestre. Evidenciou-o quando, ouvindo Jesus falar da sua Paixão, o chamou à parte para O convencer a pôr de lado este plano; e no Horto quando, em desobediência a Jesus, feriu Malco com a espada.

Se não lutarmos para vencer o medo ao sofrimento, estaremos ao alcance de todas as cobardias.

No momento da negação, Jesus estava a ser julgado injustamente e, mesmo talvez escarnecido.

Pedro resvala por um plano inclinado, porque não tomou a sério o aviso de Jesus, no Cenáculo quando afirmou que mesmo que todos negassem Jesus, ele ficaria sempre ao Seu lado.

Começa por evitar responder directamente à pergunta, como quem a não entende; e termina afirmando com juramento que não conhece Jesus.

Corremos o mesmo perigo quando não lutamos para evitar os pecados veniais, classificando-os de «coisas sem importância».

Quando os seus olhos se encontram com o olhar misericordioso de Cristo, com o rosto entumecido pelas bofetadas, coberto de escarros e de sangue, cai em si e chora amargamente.

Também Santa Teresa de Ávila se converteu ao ver uma estampa que reproduzia a imagem de Cristo na Paixão.

 

• Terá sido o encontro com Nossa Senhora que ajudou Pedro a renovar a confiança no perdão do Mestre? Reza uma lenda que, na sua fuga envergonhada e sem norte, Pedro encontrou-se com Maria que o encheu de coragem a regressar.

Seja ou não verdadeira, ela exprime uma grande verdade: o melhor caminho de regresso aos braços de Deus, para recuperar a graça ou sacudir a cinza da tibieza que se amontoa sobre as brasas da nossa vida interior é o recurso filial a Nossa Senhora.

Ajudado pela Mãe de Jesus, nos momentos dolorosos entre a Morte e a Ressurreição de Jesus, Simão Pedro renova o desejo de uma entrega incondicional aos caminhos do apostolado.

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5ª Estação

 

JESUS É JULGADO POR PILATOS

 

Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador, que Lhe perguntou: «Tu és o Rei dos judeus?» Jesus respondeu: «É como dizes.»

Nessa altura havia um preso famoso, chamado «Barrabás.» E, quando eles se reuniram, disse-lhes: «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus chamado Cristo?» Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.

Eles responderam: «Barrabás.»

Disse-lhes Pilatos: «Que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»

Responderam todos: «Seja crucificado.»

Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco.»

Soltou-lhes então Barrabás. E entregou-lh'O para ser crucificado. [5]

 

• Na presença de Pilatos, como no decurso de toda a Sua Paixão, Jesus não está apoucado, ou diminuído psiquicamente. Com plena serenidade, apresenta uma personalidade forte: sinceridade e prudência, ajuda na aplicação da justiça, mas não insiste exageradamente nas Suas razões; e proclama a santidade divina com silêncio paciente.

Pilatos sente-se arrastado a uma decisão que lhe vai amargurar o resto da vida, apesar de ter sido avisado pela sua esposa.

Como em todas as tentações, o Inimigo conta com a cumplicidade das nossas paixões desordenadas.

No governador romano predomina o apego doentio ao poder. Era ele quem devia actuar, como supremo representante de Roma, aplicando a justiça do direito romano. Começa, todavia, por evitar misturar-se nesta questão, enviando Jesus a Herodes.

Fechou os olhos, para não ter de se pronunciar. Somos tentados, muitas vezes, a começar por aqui, quando estamos perante uma injustiça alheia. É a atitude cobarde de muitos cristãos que devem prestar o serviço da autoridade, na família, na Igreja ou na sociedade civil.

Confrontado com a impossibilidade de fugir a este dever, Pilatos sente-se prisioneiro de três forças:

– Apego desordenado ao poder, carreirismo, à mistura com uma grande soberba. É a tentação de muitas pessoas, em nossos dias. Ouvem a mesma tentação de Jesus no Monte da Quarentena: «Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.» Pilatos acaba por colaborar com esta injustiça, procurando não fazer ondas.

– Superficialidade confrangedora, ao comparar Jesus com Barrabás. A intenção é libertar o Divino Mestre; mas nem todas os meios são lícitos para alcançar um fim bom.

– Finalmente, resvala para uma injustiça confessada: «Não encontro n’Ele crime algum. Por isso, vou mandá-l’O açoitar e soltá-l’O

A multidão clama: «Tira-O (de diante dos nossos olhos)! Crucifica-O

E, no entanto, Jesus encontra também para estes, na Sua misericórdia, uma desculpa diante do Pai: «perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem

 

Possivelmente, Nossa Senhora não terá assistido a este drama. Que Ela nos ajude a combater qualquer tentação, logo desde o primeiro momento. 

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6ª Estação

 

JESUS É FLAGELADO E COROADO DE ESPINHOS

 

[Pilatos] soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado.

Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d'Ele toda a coorte. Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n'O num manto vermelho. Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na Sua mão direita.

Ajoelhando diante d'Ele, escarneciam-n'O, dizendo: «Salve, Rei dos judeus!»

Depois cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça.[6]

 

• Os Evangelhos não descrevem em que consistem estes bárbaros tormentos, mas nós conhecemo-los e imaginamo-los pelo que nos ensina a história.

De hesitação em hesitação, de cedência em cedência, Pilatos mandou flagelar Jesus, depois de ter reconhecido publicamente a Sua inocência.

No Antigo Testamento estava prescrito pela lei dos judeus que não se podiam aplicar a um condenado mais do que quarenta golpes de flagelação, para não pôr em risco a sua vida. Preocupados em não transgredir a Lei, os judeus paravam de açoitar ao completarem 39 golpes. Segundo é tradição, a flagelação de Jesus ultrapassou todos os limites, porque incumbiram de a aplicar soldados romanos.

O corpo foi retalhado pelas tiras de cabedal e cordas com pedaços de chumbo e de osso. Abrem-se torrentes de sangue que salpicam o lajedo e os cabelos ficam ensopados. Deste modo, o peito e as costas de Jesus ficaram reduzidos a uma chaga viva.

Era um tormento cruel e bárbaro. Por isso, era proibido aplicá-lo a um cidadão romano.

 

• Os soldados aproveitaram o ambiente de leviandade cruel para fazer de Jesus um rei de comédia. Teceram uma coroa – um capacete – de agudos e longos espinhos; lançaram mão de uma clâmide de soldado fora de uso – um manto de soldado romano – de cor vermelha, e colocaram-lha aos ombros.

Seguiu-se uma cena grotesca em que Jesus foi apresentado à multidão com uma solenidade ridícula.

Foi deste modo – com o corpo dilacerado, coberto por um manto vermelho e com uma cana verde na mão, simulando um ceptro real – que Pilatos apresentou Jesus à multidão, dizendo: «Eis o Vosso rei!» Com fingida submissão ao poder de Roma, a multidão clamou: «Não temos outro rei senão César

Jesus expia na Sua Carne a sofreguidão irracional do prazer e o orgulho da nossa cabeça que se levanta altiva contra Deus.

 

• Possivelmente, Nossa Senhora terá estremecido de horror quando encontrou Jesus neste estado, a caminho do Calvário.

À medida que segue naquele cortejo doloroso, desagrava, por nós, tantos atentados contra a falta de dignidade ao próprio corpo e dos outros. Cada um deles é um templo de Deus que deve ser tratado com profundo respeito.

É na contemplação do Mártir do Calvário que havemos de guardar a pureza dos nossos pensamentos, palavras e obras... e ajudar as pessoas que perderam o sentido da dignidade do próprio corpo a recuperá-lo.

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7ª Estação

 

JESUS É CARREGADO COM A CRUZ

 

Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota.

Disse Jesus: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por Minha causa, há-de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?»[7]

 

• O Evangelho é muito sóbrio ao descrever-nos este passo da Via da Cruz. Não se trata de esquecimento, porque o Senhor revela-nos na Sagrada Escritura tudo e só o que nos é necessário.

Lançando mão da história, e com a ajuda da tradição que foi passando através das gerações, podemos reconstituir este quadro doloroso, sem nunca o completar de todo.

O Filho de Deus foi condenado à morte mais infamante, à de um homem despojado de toda a dignidade. Era severamente proibido condenar um cidadão romano à crucifixão.

Montaram o espectáculo humilhante de fazer Jesus transportar o madeiro, revestido com a Sua roupa, e deste modo ser facilmente reconhecido. É um inimigo odiado que foi reduzido à máxima humilhação e Se associa ao triunfo do vencedor.

Este gesto abarca as cruzes de toda a história dos homens: as injustiças, os sofrimentos e humilhações desnecessários que infligimos desnecessariamente uns aos outros, amargurando-lhes a vida, em vez de sermos um reflexo da ternura de Deus para cada pessoa.

 

• A cruz é inseparável da nossa vida. Nasce connosco: das nossas limitações naturais, do desgaste das forças, de muitos sonhos que não chegaram a realizar-se e dos atritos e desilusões com as pessoas de quem não o esperávamos.

À medida que percorrermos os caminhos da vida, em idade, ela vai crescendo connosco, até morrermos pregados nela, pela idade ou por uma doença, em aparente fracasso.

Sem que nos apercebamos disso, Deus coloca a Sua mão entre a cruz e os nossos ombros, para nos ajudar a levá-la, tornando-a mais leve.

 

• A tradição situa neste contexto a entrada de Nossa Senhora no cenário da Paixão, com o encontro da Mãe com o Filho, sem se poderem aproximar um do outro.

Maria acompanha-nos também, sobretudo quando a cruz nos parece insuportável. Temos necessidade de procurar muitas vezes o seu olhar materno, para levarmos corajosamente e sem dramatismos a cruz diária.

 

Como são maravilhosas aquelas palavras que dirige Nossa Senhora em Fátima à pequenina Lúcia! «Sofres muito, minha filha? O meu Coração Imaculado será o teu amparo!»

Que Ela o seja também para cada um de nós!

 

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8ª Estação

 

JESUS É AJUDADO PELO CIRENEU

 

Quando O conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus.

Disse Jesus aos Seus discípulos:

«Vinde, benditos de Meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e deste-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber [...]

Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.[8]

 

• Jesus esgota completamente as forças e não pode aguentar mais o peso da cruz. Não tinha comido nada desde a véspera, foi submetido a caminhada esgotante, a permanecer em pé durante muito tempo; a flagelação destruiu-lhe a resistência nervosa, sobretudo dos músculos do tórax que deviam aguentar, em grande parte, o peso do madeiro.

A crueldade dos algozes dá-se por vencida, perante a evidência. Jesus não aguenta caminhar mais e carregar o peso da cruz.

Além disso, não se querem privar do espectáculo humilhante da crucifixão, suplício bárbaro com que desejam terminar com a vida mortal de Jesus.

Colhem de surpresa um homem Simão de Cirene que regressa, despreocupado, do seu trabalho e forçam-no a tomar conta do pesado madeiro.

Cansado do trabalho fatigante do campo, este homem sonhava apenas, enquanto caminhava, com a tranquilidade do lar e o aconchego da família. E eis que, de repente, transtornam os seus planos, obrigando-o a ajudar um condenado.

Passados os primeiros momentos, o coração deste homem está mudado. Ele conhece-O, e sabe que está inocente. Desconcerta-o a condenação de que foi vítima. E começa a vislumbrar em que consiste a misericórdia divina, o dom gratuito de si mesmo para salvar alguém que não merece, nem sequer o pediu. 

 

• Jesus Cristo surpreende-nos muitas vezes na vida, pedindo-nos esforços suplementares: aos pais que chegam fatigados a casa, sonhando com um merecido repouso, e têm de correr para o Hospital com um filho doente; ao que segue em viagem tranquila e tem de a interromper, pondo de lado os seus planos, porque há um sinistrado na estrada e precisa urgentemente de auxílio, à semelhança do bom Samaritano; e muitos outros a quem é pedido o abandono dos planos pessoais, para se doar a alguém que precisa de auxílio.

 

• Não foi assim com Maria, quando José a acordou de noite, para que fugissem com o Menino para o Egipto? E quando, fatigada da peregrinação a Jerusalém, se viu urgentemente forçada a voltar para trás e procurar Jesus adolescente que desaparecera?

Agora, que não pode oferecer os seus ombros delicados para transportar o madeiro, olha com imensa gratidão para aquele homem desconhecido que presta um serviço a Jesus.

Ela olha também para ti e para mim quando nos disponibilizamos a prestar um serviço a alguém que não aguenta mais o peso da cruz. 

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9ª Estação

 

JESUS ENCONTRA AS MULHERES DE JERUSALÉM

 

Seguia-O uma grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele.

Mas Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. [...] Porque se tratam assim a madeira verde, que acontecerá à seca.»[9]

 

• Jesus enfrenta-Se, no caminho do Calvário, com lamentações estéreis e lágrimas sem significado, porque não levam a propósitos concretos, ao encontro da vontade de Deus.

Jesus descobre-lhes que algo está mal: «chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos.»

As duas expressões que Jesus emprega ajudam-nos a compreender o sentido das Suas advertências.

A madeira verde é Ele, a inocência personificada. É tratado assim, condenado ao fogo do sofrimento físico e moral, substituindo-nos na condenação merecida.

A madeira seca é cada um de nós, preparada para o fogo inextinguível, se não fizermos penitência.

É verdade que o Mestre chorou sobre a cidade santa de Jerusalém, antevendo a catástrofe que viria a desabar sobre ela, no ano 70 da era cristã; mas antes fez tudo o que Lhe era possível para a despertar daquele sono de morte em que se encontrava mergulhada.

Chorou em casa de Lázaro, depois da sua morte, convencendo os presentes da verdadeira amizade que lhe devotava. Mas logo se apressou em ressuscitá-lo.

Num e noutro caso, as lágrimas de Jesus eram fruto de um amor operativo, e continuadas num esforço para resolver os seus problemas.

 

• Sobram as pessoas que lamentam os desmandos que encontramos no mundo. Mas... quem está disponível para sacrificar um pouco do seu dinheiro e descanso, a passar um mau bocado para que as coisas melhorem?

Lamentamos muitas situações, mas quando colocam a solução em nossas mãos, por uma escolha livre, fazemo-lo levianamente, sem medir as consequências. Acontece assim na legalização da morte pelo aborto e muitas outras aberrações que propõem à nossa escolha.

Fugimos de compromissos, porque suspiramos por uma vida sem dificuldades nem sacrifícios. E para calar a voz da consciência, enganamo-nos a nós mesmos dizendo: «se for preciso alguma coisa, estou às ordens! Mas compromissos permanentes... mil vezes não!»

E, no entanto, o Senhor entregou em nossas mãos os destinos do mundo. Basta que façamos o que está em nossas mãos – como os serventes em Caná da Galileia, enchendo as talhas de água – ou como o jovem que facultou os pães e os peixes, sacrificando tudo quanto tinha, para tornar possível o milagre da multiplicação.

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• Ali, bem perto de Jesus – mas sem poder aproximar d’ Ele – caminha uma Mulher que chora sem espectáculo e faz o que está ao seu alcance: desagrava e implora a misericórdia divina para os algozes e todos aqueles que poderiam ter evitado esta tragédia e não o fizeram, por cobardia, por preguiça ou por indiferença. Acompanha-O na dor, e não esconde os laços que A unem ao condenado.

Peçamos também para nós a fortaleza da Rainha dos mártires.

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10ª Estação

 

JESUS É CRUCIFICADO

 

Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n'O a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.

Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as Suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l'O.

Por cima da Sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da Sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus.»[10]

 

• Antes de crucificarem Jesus, arrancaram-Lhe a roupa que trazia vestida. A roupa interior estava colada às feridas abertas pelos golpes da flagelação, pelas chagas causadas pelo madeiro e pelas repetidas quedas.

Reabriram-se outras tantas fontes de onde imanou abundantemente o Sangue para nos lavar dos pecados.

Jesus sofre a humilhação da nudez, reparando pelos pecados daqueles e daquelas que expõem levianamente o seu corpo desnudado diante de olhares profanos.

A roupa bem cuidada proporciona à pessoa humana a dignidade que lhe é devida. Pelo modo como cuida o seu modo de vestir, podemos adivinhar a consciência da dignidade que alguém possui de si mesmo.

O cuidado no vestir, sem exageros descabidos, é também homenagem à Santíssima Trindade que habita em nós.

O desleixo exterior manifesta o que vai no interior. Quando no Génesis se diz que Adão e Eva se encontraram nus, depois do pecado original, insinua-se a extrema indigência a que este passo mal dado os reduziu.

Quando se quer desvalorizar a pessoa, retira-se-lhe a roupa, mesmo que seja no meio de palmas e elogios. Foi com esta finalidade que reduziram Jesus à nudez, antes de O crucificarem.

Seguidamente a esta humilhação, cravam-no ao madeiro com rudes cravos de quatro centímetros que Lhe trespassam as mãos e os pés.

A humilhação moral caminha a par com a dor física. Colocam-n’O entre dois ladrões, para O apresentarem como chefe de um bando de criminosos. Foi de tal ordem esta humilhação, que os primeiros cristãos sentiam vergonha de representar Cristo pregado numa cruz. Vestiam-n’O e coroavam-n’O de rei.

Em silêncio, Jesus repara as nossas faltas de pudor, as faltas de respeito à pessoa humana. Quando os Seus pés e mãos são trespassados, desagrava pelas profanações contra todos os mandamentos operadas pelas mãos e pelos pés: agressões, impurezas, roubos e passos nos descaminhos da vida.

 

• Maria, em silêncio, e sem poder valer ao Seu Filho, desagrava esta crueldade insaciável.

Sofre ainda quando, já levantado ao alto, ouve as irreverências da gentalha e dos soldados, lançando o ridículo sobre Ele e desafiando-O a dar uma prova da Sua divindade, descendo da Cruz.

Ela sabe, no íntimo do seu Coração Imaculado que, a partir de agora, a Cruz é o sinal da misericórdia divina e a bandeira de todos os combates contra o mal sobre a terra; muitas pessoas hão-de manifestar a sua contrição e mudança de vida, beijando o seu crucifixo.

Façamo-lo também nós muitas vezes, especialmente quando a cruz da nossa vida nos parecer mais pesada.

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11ª Estação

 

JESUS PROMETE O REINO AO BOM LADRÃO

 

Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda.

Os que passavam insultavam-n'O e abanavam a cabeça, dizendo: «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz»:

Entretanto, um dos malfeitores, que tinham sido crucificados insultavam-n'O dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também.»

Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício?

Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável.» E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a Tua realeza.»

Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso.»[11]

 

Na Sua Paixão e Morte, Jesus revela-nos a misericórdia infinita de Deus, sempre disponível para perdoar e nos reconduzir à Sua amizade.

Desculpa, diante do Pai, os que O maltratam, pedindo misericórdia e perdão para eles, «porque não sabem o que fazem

De facto, não sabem. O demónio tomou conta deles e cegou-os, para não verem a injustiça que cometem e não contemplarem o rosto do Mestre sereno e cheio de bondade, e fechou-lhes a memória, impedindo-os de recordar tantos benefícios recebidos. «Esta é a hora do poder das trevas», do demónio.

 

• Mas é também a hora da misericórdia. Uma súplica humilde do ladrão arrependido abre-lhe para sempre as portas do Céu. «Hoje – porque já estás perdoado – estarás comigo no Paraíso.»

Antes, porém, este homem a quem chamamos bom porque se converteu, reconhece a sua culpa: «Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções.»

 

Seja qual for a profundidade do abismo em que nos tenhamos precipitado, pelos nossos pecados, bastará um gesto de boa vontade, reconhecendo o mal feito e manifestando arrependimento, para o Senhor nos retirar dele e nos restituir à liberdade de filhos de Deus.

Quando somos perdoados, saboreamos já um vislumbre do Paraíso, pela alegria e paz com que o Senhor nos mima, e parece-nos ouvir a mesma resposta: «Hoje estarás comigo no Paraíso

 

• Maria, Mãe de todos os homens, porque todos são chamados à salvação eterna, vive a consolação de ver este filho pródigo que regressa.

Consolemos o seu Coração Imaculado, percorrendo muitas vezes o caminho do regresso a Jesus Cristo, pelos actos de contrição, e ajudando os nossos irmãos a fazê-lo também, restituindo-os à plenitude de filhos de Deus e filhos de Maria.

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12ª Estação

 

JESUS, NA CRUZ, SUA MÃE E SEU DISCÍPULO

 

Estavam junto à cruz de Jesus Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena.

Ao ver Sua Mãe e, junto d’Ela, o discípulo que Ele amava, disse a Sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho.» Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe.»

E desde essa hora por diante, o discípulo levou-A para a sua casa.[12]

 

• Do alto da Cruz, com a visão já muito enfraquecida, por causa da perda de sangue, pelos coágulos que se formam diante dos olhos e pela aproximação da morte, Jesus proclama solenemente a maternidade universal de Maria.

Na verdade, Ela era-o já desde o fiat da Encarnação. Ao aceitar ser Mãe da Cabeça do Corpo Místico, aceitou ser Mãe de todos os seus membros.

Quando A tratamos por Mãe e recorremos a Ela para que nos ajude, não estamos a dizer uma palavra lisonjeira que não correspondesse à realidade, como, por exemplo, quando dizemos a uma senhora idosa que ainda está muito jovem, ou a um doente grave que está com um bom aspecto. Estamos a proclamar uma verdade de fé: a sua maternidade em relação a cada um de nós.

 

Maria, rosto materno da misericórdia de Deus, acolhe-nos neste momento supremo da nossa Redenção.

O amor das mães ajuda-nos a vislumbrar o mistério insondável da misericórdia de Deus. Na sua dedicação aos filhos, as mães encontram principalmente duas limitações:

– Não podem dar-lhes tudo o que desejam para eles. É um amor limitado pela condição de criaturas.

– Falta-lhes, muitas vezes, objectividade na apreciação do seu comportamento e são incapazes de ver os seus defeitos. Mesmo quando o filho comete um erro grave, a mãe desculpa-o sempre, dizendo: «ele era incapaz de fazer isto, porque foi sempre bom! Deve haver aqui um engano!» Ou então: «foi a primeira vez!»

 

• Em Maria – a «omnipotência suplicante» – não encontramos estas limitações.

– Ela pode tudo em favor de cada um de nós, porque é a misericórdia infinita de Deus colocada ao nosso alcance. Nenhuma situação, por mais enredada que seja, fica sem solução. Basta uma súplica, um olhar de carinho à sua imagem, e tudo se resolverá prontamente.

O conhecimento de Maria acerca de cada um de nós é profundamente realista. Se o não tivesse, como poderia ajudar-nos com eficácia?

 

• Imitemos João Evangelista, o Discípulo a quem Jesus amava. Levemos Maria connosco. Invoquemo-l’A. Confiemos n’Ela. Maria fará chegar até nós a riqueza da misericórdia divina.

Nunca se perde eternamente uma pessoa que invoca Maria com toda a confiança.

Nas horas desânimo, voltemo-nos para Ela. E sentiremos renascer em nós a coragem.

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13ª Estação

 

JESUS MORRE NA CRUZ

 

Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a escritura, Jesus disse: «Tenho sede.» Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-no à boca.

Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado.»

Era já quase o meio dia, quando as trevas cobriram toda a terra, até às três horas da tarde, porque o sol se tinha eclipsado.

O véu do templo rasgou-se ao meio. E Jesus exclamou com voz forte: «Pai, em Tuas mãos entrego o Meu espírito.» Dito isto, expirou.[13]<

 

• Quando Jesus cerrou os olhos à luz deste mundo, a terra estremeceu de horror perante o crime que fora cometido. As trevas lançaram um véu de escuridão sobre ela, como se tentassem escondê-lo e vestindo-a de luto.

Depois de três horas de interminável agonia, Jesus despediu-Se desta vida mortal, entregando a alma ao Pai.

Recolhamos com profunda devoção as Suas últimas palavras. Elas põem a descoberto os sentimentos de Jesus nesta hora derradeira e são preciosas lições para cada um de nós.

 

• «Meu Deus, meu Deus: Por que Me abandonaste?» Estas palavras fazem-nos pensar que Jesus mergulhou, por momentos, na irremediável situação dos que morrem de costas voltadas para Deus, recusando-se a aceitar a Sua misericórdia. A solidão perpétua, sem amor, – porque o Pai do Céu respeita a nossa liberdade – é o fruto do corte definitivo com Deus.

Que tremenda violência à nossa natureza – estruturalmente criados para amar – deve ser odiar para sempre tudo e todos!

 

• «Tenho sede!». A sede atormenta os que, por qualquer razão, perderam muito sangue. Além disso, Jesus encontra-Se desidratado, porque não provou qualquer bebida desde a Última Ceia.

Mas quando Lhe oferecem um anestésico, feito de vinagre e fel, numa esponja colocada na extremidade de uma cana, prova-o, por delicadeza, mas recusa-se a tomá-lo.

Escolhe morrer consciente, no pleno uso das Suas faculdades, para oferecer por nós todo o sofrimento possível. A sede é também a manifestação do Seu desejo de a todos salvar.

 

• «Tudo está consumado!» Ele quer deixar claro que realizou plenamente a missão que o Pai Lhe confiou. Esgotou o cálice do sofrimento físico e moral, oferecendo por nós, até à última gota, o Seu Sangue.

Poderei dizer o mesmo ao terminar cada dia? Ou quando me encontrar a braços com uma doença terminal?

 

• «Nas Tuas mãos, ó Pai, entrego o meu espírito!» A morte é um túnel de passagem obrigatória para todos nós. Do lado de lá da montanha brilha o rosto de Cristo ressuscitado. Deus espera-me de braços abertos, para me acolher para sempre. Por que hei-de ter medo da morte?

 

• Maria, acompanhada por João e pelas santas mulheres, testemunha em pé esta despedida de Jesus, até à madrugada da Ressurreição.

Não lhe permitem recolher a última lágrima do Filho, nem levar consigo as peças de roupa que tinha confeccionado com todo o carinho. São divididas pelos soldados e a túnica inconsútil é entregue a um afortunado.

 Mas assiste ainda ao começo da realização da profecia: «E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim.» O centurião confessa, enquanto se manifesta arrependido: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus!» Esta exclamação há-de repetir-se, como sinal de fé de contrição, até ao fim do mundo.

 

Creio, Jesus crucificado e morto por mim, na Vossa divindade. Como Pedro em Cesareia de Filipe, exclamo: «Vós sois o Cristo, o Filho do Deus vivo

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14ª Estação

 

JESUS É DEPOSTO NO SEPULCRO

 

Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a muitos.

Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontravam-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus.

Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus: E Pilatos ordenou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar na rocha.

Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se.[14]

 

Deus quis mostrar-nos, por sinais que acompanharam a Sua morte, as graças que mereceu para nós, nestes passos dolorosos da Sua Paixão.

 

Num sono breve, que se prolonga até ao terceiro dia, aguarda o esplendor da Ressurreição. O sono de cada um de nós, depois da morte, vai prolongar-se até ao fim do mundo; mas não podemos duvidar da realidade da nossa ressurreição. É a vitória sobre a morte alcançada por Jesus Cristo.

Esta espera não nos causará qualquer sofrimento, porque, na vida eterna, não há sucessão de noites e dias, de horas, minutos e segundos. Ela é a posse da felicidade total e simultaneamente.

 

Rasgou-se o véu do Templo de Jerusalém. Era uma grande e preciosa cortina que ocultava o Santo dos Santos aos olhares profanos. O intermediário da oração era o Sumo Sacerdote, que apenas entrava lá uma vez por ano.

A partir de agora, podemos aproximar-nos de Deus quando, como e onde quisermos, como os filhos do seu Pai.

 

Fenderam-se as rochas. Este sacudir violento é a manifestação da repulsa da natureza contra o tremendo crime que foi cometido e ajuda-nos a despertar da sonolência espiritual para uma vida melhor. Que propósito concreto levamos desta Via Sacra? 

 

Abriram-se os túmulos e muitos corpos ressuscitados saíram de lá, aparecendo a muitas pessoas. É também a hora de nos levantarmos do túmulo do desânimo em que nos deixámos encerrar, para começarmos uma vida nova.

 

• Deus providenciou para que nada faltasse a Nossa Senhora, nesta hora de sofrimento.

José de Arimateia cedeu o túmulo que abrira para si, no valado de uma rocha, junto de um jardim.

– Ficaram, deste modo, excluídas as hipóteses de roubo do corpo, pelos discípulos de Jesus, para simular a Ressurreição. O túmulo aberto na rocha desencorajaria qualquer tentativa de abrir uma entrada por detrás da cavidade. 

– Uma grande pedra, em formato de mó, foi rolada para tapar a entrada. Em frente desta havia uma cavidade para a qual resvalou, tornando-se muito difícil retirá-la.

– Guardas postados guardavam o sepulcro e impediam que alguém violasse o selo imperial.

 

• Terminado, com a brevidade possível o trabalho, sem tempo suficiente para lavar o corpo ensanguentado, por causa do descanso sabático que se aproximava, depois de um último olhar de saudade, a Mãe de Jesus retira-se. Vai celebrar o Sabath – era um grande dia aquele Sábado – descansando, em união com Jesus, depois de tantas emoções e trabalhos.

Em união com Maria, façamos uma vigília de Amor, aguardando com esperança o desenrolar dos acontecimentos. Já vem perto o sol da Ressurreição gloriosa. 

 

(Ao terminar, reza-se um Pai nosso pelas intenções do Santo Padre. A Via-Sacra pode finalizar-se com a «Salve Rainha», rezada ou cantada; ou com um cântico: «Com minha Mãe ‘starei.»)

 

Salve, Rainha, Mãe de misericórdia,

vida, doçura, esperança nossa, Salve!

A vós bradamos os desterrados filhos de Eva;

A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas.

Eia, pois, advogada nossa,

Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,

E depois deste desterro nos mostrai a Jesus,

Bendito fruto do vosso ventre,

ó clemente, ó piedosa,

ó doce Virgem Maria.

 

Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,

Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

 

Fernando Silva

 

 

 

 

 

 

 



[1]  S. Mateus, 26, 36-39.

[2]  S. Mateus, 26, 47--50. 56.

[3] S. Mateus 26, 57. 59. 65-66

[4]  S. Mateus, 26, 69-75.

[5] S. Mateus 27, 11. 16-18. 21b-24. 26.

[6]  S. Mateus 27, 25-30.

[7] S. João 19, 17; e S. Mateus 27, 16 124-26.

[8] S. Lucas, 23, 26; e S. Mateus, 25, 34. 40.

[9]  S. Lucas 23, 27. 31.

[10] S. Mateus 27, 33.35.

[11] S. Mateus 27, 37; S. Lucas 23, 33-38.

[12]  S. João  19, 25-27.

[13] S. Mateus 27, 56-57; S. Lucas 23, 44-49.

[14]  S. Mateus 27, 51-53. 55-60.

 


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