TEMAS LITÚRGICOS

ADORAÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

 

Na sequência da exortação da Santa Sé para que se promova a adoração eucarística contínua (cf. «Celebração Litúrgica», 2007/08, 2, pp. 283-285), oferecemos aos leitores o texto da homilia do Cardeal Patriarca na solenidade do Corpo de Deus, em que ilustra essa necessidade para a fé viva do cristão.

 

Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

22 Maio 2008

 

«Adorarás o Senhor teu Deus»

 

1. A Solenidade litúrgica de hoje é celebração da Eucaristia, não apenas comunitária, mas do seu prolongamento na adoração de Nosso Senhor Jesus Cristo, realmente presente nas espécies eucarísticas. Ela é um convite a prolongar a celebração eucarística na adoração de Jesus, Filho de Deus e nosso Salvador, realmente presente, em Corpo, alma e divindade. A valorização da adoração eucarística é a última consequência da Reforma Litúrgica realizada pelo Concílio Vaticano II. A celebração eucarística, momento central da oração da Igreja, exprime-se na adoração que a prolonga, a continua, a torna presente na nossa fidelidade e na nossa busca de santidade. Na Solenidade de hoje, esse continuar da celebração na adoração, concretiza-se numa das mais tradicionais expressões da Cidade de Lisboa, a procissão eucarística que percorrerá as ruas da nossa Cidade.

 

Se é certo que na aplicação da Reforma Litúrgica e no entusiasmo pelo novo dinamismo da celebração, houve momentos de relativização da adoração como celebração continuada, também é certo que só o espírito da Reforma Litúrgica nos garante a percepção da adoração em unidade estreita com a celebração. Na celebração e na adoração a Igreja reconhece-se como um Povo centrado na Eucaristia, em todo o tempo e em todas as expressões da vida. Aliás, a própria celebração está recheada do espírito e de momentos de adoração: no levantar das espécies eucarísticas para a adoração da assembleia, nos sinais e nos gestos, como a genuflexão ou a posição de joelhos, o ósculo do altar, gestos de adoração consagrados desde o Antigo Testamento. A reserva eucarística silenciosamente guardada nos nossos sacrários, a continuidade da luz que iluminou o altar eucarístico, é um convite à adoração permanente, tantas vezes posto em causa pela falta de respeito com que se convive com a Eucaristia presente, e até pelas Igrejas longamente fechadas. Esquecemos facilmente que a genuflexão diante do sacrário é um acto de adoração e que a reserva eucarística só se deve manter onde há a garantia de ela ser adorada.

 

2. A adoração eucarística é, antes de mais, a manifestação da nossa fé na presença real e pessoal de Cristo nas espécies eucarísticas. Esta fé recebemo-la dos Apóstolos: «Não é o cálice de bênção que abençoamos a comunhão com o Sangue de Cristo? Não é o pão que partimos a comunhão com o Corpo de Cristo?» (1Co. 10, 16-17). A presença real de Cristo na Eucaristia é a expressão mais completa daquilo que Cristo é na totalidade do Seu mistério: Deus connosco, Deus ao nosso alcance a propor intimidade na proximidade dessa presença. Nessa proximidade, Ele é Deus, exprime-Se na Palavra que nos toca o coração, no amor que nos atrai e nos transforma, na força que nos permite vencer dificuldades e ousar viver de modo a sermos semelhantes a Jesus. A adoração eucarística é o mais forte convívio com a divindade. Aí sentimos que Deus é Deus para nós e nós somos d’Ele, somos suas criaturas e seus Filhos. Adorar é reconhecer Deus no que Ele é, na transcendência do Seu mistério, e aceitarmo-nos na nossa pequenez e fragilidade, sentindo que a nossa grandeza nos vem de Jesus Cristo e que só n’Ele venceremos o nosso pecado. As expressões tradicionais da adoração, que envolvem todo o nosso ser, corpo e espírito, exprimem essa verdade de Deus perante nós e de nós perante Deus: a prostração, o dobrar os joelhos, o abandono de todo o nosso ser à majestade de Deus.

 

Nesse abandono confiante, reconhecemos nessa presença real a exclusividade do nosso Deus, como único Deus verdadeiro. Já no Êxodo Deus disse a Moisés: «Eu Sou Yahwé, o teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto (…). Não terás outros deuses (…), não te prostrarás diante de imagens» (Ex. 20,1-5). Prostrados ou de joelhos só diante do verdadeiro Deus, que nós reconhecemos em Jesus Cristo.

 

3. Só adora quem tem fé viva, quem fez a experiência da salvação e reconhece em Deus o seu Salvador. Ouvíamo-lo há pouco no livro do Deuteronómio: «Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer…» (Dt. 8,2-3). Assim abandonados diante da presença do Deus vivo, relembramos em silêncio a nossa história de misericórdia e de graça, o que aumenta em nós a confiança em que o Senhor continuará a acompanhar-nos nos caminhos da nossa vida até O vermos face a face.

 

Mas a adoração eucarística é também momento da manifestação de Deus. Já aconteceu assim com Moisés, no Monte Sinai: «Ele invocou o nome de Yahwé. O Senhor passou em frente dele e exclamou: o Senhor, Deus de ternura e de piedade, lento na cólera, rico em graça e fidelidade (…). Moisés caiu de joelhos em terra e prostrou-se» (Ex. 34, 6-8). É semelhante a reacção de Pedro no Tabor: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias» (Mc. 9, 4). Quantos cristãos fizeram experiência semelhante adorando a Eucaristia: deixarem-se envolver pela presença amorosa de Deus e não desejarem afastar-se dali. A Eucaristia afirma-se, nesses momentos, como a antecâmara da eternidade.

 

Na adoração, a Eucaristia continua a ser o nosso alimento e prolonga aquela união misteriosa com Cristo ao comungarmos o Seu corpo e sangue. Também aí são verdadeiras as palavras de Jesus: «Eu Sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente» (Jo. 6, 51). «Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia» (Jo. 6, 54). É por isso que, na espiritualidade da Igreja, a comunhão sacramental se prolonga espontaneamente num tempo de adoração silenciosa. Adorar Cristo na Eucaristia é, realmente, continuar a recebê-l’O como alimento e como experiência de eternidade.

 

Foi nesse sagrado convívio que, ao longo dos séculos, homens e mulheres se deixaram incendiar pelo amor, foram devorados pelo zelo e pela urgência da missão, consagraram a totalidade do seu ser a Cristo e ao Reino, perceberam a exigência da caridade. A Eucaristia conduz sempre aqueles que a adoram às atitudes fundamentais da conversão cristã: escutar a Palavra, ouvir o que o Senhor nos quer dizer, deixar-se amar por Ele, tantas vezes na obscuridade silenciosa da fé; partir para a vida, amando como Cristo nos ama; dar a vida pela implantação do Reino de Deus; e em tudo isso a avivar a chama da esperança na vida eterna. A Eucaristia ensina a viver e ajuda a morrer.

 

4. A adoração eucarística é atitude profundamente pessoal, mas tem sempre dimensão comunitária. Talvez mais do que em qualquer outra circunstância, é a pessoa concreta, no concreto da sua vida, cujo íntimo só Deus conhece, que está diante do Senhor. A dimensão comunitária não significa, nem exige, que se faça da adoração uma oração comunitária. Esta dimensão exprime-se, sobretudo, no facto de a pessoa que adora sentir e saber que nela é a Igreja que adora, que ela adora, por aqueles que não adoram. A pedagogia pastoral da adoração deve valorizar o silêncio, até que a pessoa entre, através da oração, no silêncio de Deus, que não é ausência, mas presença devoradora. O silêncio de Deus está repleto de vida. Todos os meios que pastoralmente se proporcionarem, devem apenas propiciar elementos para ajudar cada um a ser pessoal, individual, como o Tu de Jesus Cristo.

 

5. Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja pode estar sempre presente na nossa adoração, não contrapondo ao encontro com Jesus Cristo a nossa devoção a Maria, mas porque ela foi e continua a ser a grande adoradora. Os seus silêncios, com que guardava tudo no seu coração, guardam também esse seu segredo: a sua experiência de adoração. Quando O trouxe no seu seio, sobretudo naqueles meses em que ninguém sabia, só ela e Deus; quando O contemplou em Belém, como qualquer mãe contempla embevecida o seu Filho recém-nascido; no Calvário, ao mergulhar confiante no drama da redenção; quando, reunida com os Apóstolos, esperou a vinda do Espírito Santo; e elevada à Glória, continua a adorá-l’O, a Ele que é o seu Filho, por Quem também ela foi até ao Pai. Maria adora sempre, adora de uma maneira perfeita, está sempre com quem adora, devemos orar sempre com ela.

 

Sé Patriarcal, 22 de Maio de 2008

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 


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