30.º Domingo Comum

29 de Outubro de 2023

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Vossos corações exultem – A. Oliveira, NRMS, 90-91

Salmo 104, 3-4

Antífona de entrada: Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor. Buscai o Senhor e o seu poder, procurai sempre a sua face.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Vivemos num tempo de especial mobilidade, quer pela facilidade de com que nos deslocamos, quer pelas contínuas convulsões sociais que levam as pessoas a procurar fora da sua terra possíveis condições de vida.

Os emigrantes não são invasores ou agressores, mas procuram sobreviver, precisando, às vezes, que todas as mãos se lhes estendam, para vencerem as dificuldades.

O Senhor quer que dilatemos o nosso coração até às fronteiras do universo, para que todas as pessoas de qualquer condição social, raça ou etnia possam caber nele.

Deste acolhimento nos fala o Senhor do mundo, na Liturgia da Palavra deste 30.º Domingo do Tempo Comum.

 

Acto penitencial

 

Movemo-nos muitas vezes, por causa da simpatia das pessoas ou pela utilidade que elas podem ter para nós, em vez de franquearmos as portas do coração a todos, com sincera amizade.

Ao mesmo tempo, nós mesmos não gostamos de encontrar esta atitude nas outras pessoas, sobretudo quando nos deixam de parte.

Peçamos ao Senhor que nos perdoe estes pecados e nos dilate o coração, para que nele caibam todas as pessoas de boa vontade.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C do Ordinário da Missa)

 

•   Senhor Jesus: Às vezes, fechamos o coração aos que são segregados,

     por causa da condição social, etnia ou origens, e não os acolhemos.

     Senhor, misericórdia.

 

     Senhor, misericórdia.

 

•  Cristo: Também na relação com a fé somos tentados a marginalizar

     aqueles que não professam o mesmo credo ou se afastaram da Igreja.

     Cristo, misericórdia.

 

     Cristo, misericórdia.

 

•   Senhor Jesus: Há muitos pensamentos, palavras e atitudes em nós

     que estão frontalmente contra o central mandamento novo do Amor,

     Senhor, misericórdia.

 

     Senhor, misericórdia.

 

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade; e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Moisés, em nome de Deus, ensina ao Povo da Aliança, na travessia do deserto, como se hão-de comportar para com as pessoas que não pertencem aos hebreus.

Estes ensinamentos são válidos para todos os tempos e lugares e, portanto, também para cada um de nós.

 

Êxodos 22, 21-27 (20-26)

Eis o que diz o Senhor: 21«Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto. 22Não maltratarás a viúva nem o órfão. 23Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; 24inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada. As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos, os vossos filhos. 25Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros. 26Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr do sol, 27pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso».

 

Estas prescrições legais pertencem àquela parte do Êxodo chamada pelos críticos Código da Aliança (Ex 20,22 – 23,19; certamente pelo facto de que em 24,7 se chama «Livro da Aliança»); estamos na sua primeira parte, que se compõe de leis casuísticas (os mixpatîm, ou leis formuladas de modo condicional: «se…», reflectindo uma certa primitiva jurisprudência), a que se segue uma 2ª parte, as leis apodícticas (Ex 22,17 – 23,19, umas leis formuladas no modo imperativo, em hebraico ditas devarîm). Estas leis, que correspondem a outros códigos legais semitas do Antigo Médio Oriente, têm a particularidade de serem apresentadas como algo que faz parte das exigências da Aliança de Deus. Com a canonização dessas leis, toda a vida do povo, em todos os campos – sócio-político, pessoal e institucional, particular e familiar, cultual e profano –, adquire um carácter religioso. Note-se ainda a extraordinária humanidade e sábia pedagogia destas normas para virem a preparar a Lei evangélica do amor. 

25-26 Ainda hoje os árabes, de igual maneira, usam como manta para se agasalharem de noite o mesmo manto ou capa com que se cobrem durante o dia.

 

Salmo Responsorial Sl 17 (18), 2-3.7.47.51ab (R. 2)

 

Monição: O Espírito Santo move-nos a fazer uma profissão de fé e de amor ao Senhor nosso Deus e a tornar este amor extensivo a todas as pessoas.

Na verdade, queremos amá-l’O porque nos socorre todas as vezes que o invocamos, como nossa força e refúgio.

 

 

Refrão:    Eu Vos amo, Senhor: sois a minha força.

 

Eu Vos amo, Senhor, minha força,

minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador.

Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança,

meu protector, minha defesa e meu salvador.

 

Na minha aflição invoquei o Senhor

e clamei pelo meu Deus.

Do seu templo Ele ouviu a minha voz

e o meu clamor chegou aos seus ouvidos.

 

Viva o Senhor, bendito seja o meu protector;

exaltado seja Deus, meu salvador.

O Senhor dá ao Rei grandes vitórias

e usa de bondade para com o seu Ungido.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, na Primeira Carta que escreve aos fiéis da Igreja de Tessalónica louva-os pela sua fidelidade ao Evangelho e anima-os a continuar assim.

Permita o Senhor que se possa dizer o mesmo de cada um de nós: Tornastes-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; e assim vos tornastes exemplo.

 

1 Tessalonicenses 1, 5c-10

Irmãos: 5cVós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. 6Tornastes-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; 7e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes da Macedónia e da Acaia. 8Porque, partindo de vós, a palavra de Deus ressoou não só na Macedónia e na Acaia, mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus, de modo que não precisamos de falar sobre ela. 9De facto, são eles próprios que relatam o acolhimento que tivemos junto de vós e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir ao Deus vivo e verdadeiro 10e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus, que nos livrará da ira divina que há-de vir.

 

Este texto é a continuação do de há oito dias.

6 Em Act 17,5-9 faz-se uma descrição duma dessas muitas tribulações.

7 «Macedónia e Acaia». Eram as duas províncias da administração romana em que então se dividia a Grécia. S. Paulo estava a escrever da Acaia, pois estava em Corinto; Tessalónica (cujo nome procedia da mulher de Cassandro, general de Alexandre, fundador da cidade) ficava na Macedónia.

10 «Ira divina que há-de vir». A ira divina é uma imagem para falar do estrito juízo de Deus a que ninguém pode escapar; há-de vir, isto é, há-de manifestar-se no fim do mundo, por ocasião do Juízo final. Para nós a ira é uma paixão; mas, quando na S. E. se refere a Deus, designa a sua justiça punitiva. Jesus, pela sua obra redentora, livrou-nos do castigo divino merecido.

 

Aclamação ao Evangelho    Mt 15, 20

 

Monição: Jesus não Se cansa de nos repetir que a nossa vocação na terra e na eternidade é amar a Santíssima Trindade, nossa Senhora e todos os bem aventurados.

Façamos um esforço generoso para colocar no centro da nossa vida o Mandamento Novo do Amor, que o Senhor nos recorda.

 

Aleluia

 

Cântico: J. F. Silva, NRMS, 50-51 (II)

 

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra, diz o Senhor;

meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 22, 34-40

Naquele tempo, 34os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, 35e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: 36«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. 38Este é o maior e o primeiro mandamento. 39O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. 40Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

 

A questão posta a Jesus tinha como base a multiplicidade de leis mosaicas; vieram a ser contadas 613.

37 «Jesus respondeu», citando uma passagem do A.T. (o texto é mais exacto em Mc 12,29-30), que todo o judeu piedoso recitava duas vezes por dia – a chamada Xemá – e que muitos escreviam e metiam dentro das filactérias ou caixinhas que atavam à testa, ao braço esquerdo ou às costas da mão (cf. Dt 6,4-9); e ainda hoje constam da mezuzah, no umbral das portas, para se beijar ao entrar.

38-39 «O primeiro mandamento… O segundo…». Sendo inseparáveis estes dois preceitos, há neles uma jerarquia: devemos amar a Deus mais do que a ninguém e dum modo incondicional; ao próximo, como consequência e efeito do amor a Deus. Se amasse ao próximo por ele mesmo, e não por amor a Deus, esse amor impediria o cumprimento do primeiro mandamento e deixaria de ser autêntico amor ao próximo, pois entrar-se-ia pelo caminho de pouco se interessar pela sua salvação eterna e de vir a reduzir o próximo a uma determinada classe de pessoas, as que agradam ou oferecem vantagens, ou de o equiparar ao amor a um cachorrinho ou a um gato de estimação.

 

Sugestões para a homilia

 

• Acolher bem a todos

• O Amor de Deus no centro da vida

 

1. Acolher bem a todos

 

Os planos misericordiosos de Deus sobre o mundo são fazer de todos nós uma só família da qual Ele é o Pai e nós, irmãos uns dos outros. Quer que vivamos numa tal comunhão de Verdade, de Esperança e de Amor que a possamos continuar eternamente no Paraíso.

Neste plano maravilhoso, não pode haver irmãos de primeira e de segunda classe, uns que são amigos e outros a quem tratamos como desconhecidos.

Merecem especial atenção e carinho os que, por razões de insegurança política, económica ou social, se viram forçados a abandonar a sua terra e a procurar viver noutro lado. São um desafio para a qualidade do nosso amor fraterno

O facto de serem desconhecidos, de outra cultura e língua e de nada sabermos acerca das suas intenções provoca em nós uma atitude de ficar de pé atrás.

Esta atitude interior alarga-se, depois, aos que não pertencem ao nosso grupo, clã, ou família; o mesmo acontece quando são de idade diferente, levando-nos a formar grupos isolados que, por motivos fúteis, se hostilizam.

Em tudo isto está a mão invisível do Inimigo que assim tenta opor-se aos planos amorosos de Deus.

São estes que precisam mais da nossa atenção, embora procurando agir com prudência, pois são os que mais sofrem e encontram mais e maiores problemas para resolver.

Todos como uma só família. «Eis o que diz o Senhor: “Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto.”»

O Livro do Êxodo – um dos livros do Pentateuco – procura dar aos israelitas, agora em pleno deserto, vindos do Egito e a caminho do Terra da Promissão – uma longa catequese sobre os Dez Mandamentos que Moisés recebeu no Sinai.

Também nós precisamos desta catequese, para saber as implicações na nossa vida de cada Mandamento.

O relacionamento do cristão com Deus é pessoal, mas não isolado. O Senhor quis salvar-nos um a um, mas dentro de uma Família solidária.

Nesta passagem do Êxodo, Moisés detém-se a explicar a relação dos hebreus com os outros povos que hão-de procurar a vida e a subsistência em Israel, depois de entrarem na posse desta terra.

Procura lembrar-lhes que também eles foram emigrantes no Egito e o quanto sofreram por causa da desumanidade com que foram tratados. Quando estiverem já estabelecidos na própria terra, hão-de tratar todos os estrangeiros que vêm ali trabalhar ou fazer os seus negócios como gostariam de ser tratados.

Também a cada um de nós o Senhor pergunta como acolhemos aqueles que nos procuram ou convivem connosco, mas não pertencem à nossa família ou grupo social. Vivemos numa sociedade em que muitos emigrantes nos procuram.

São pessoas como nós que devem ser tratados bem, acolhidos com amizade humana. Embora com prudência, devem ser acolhidos com cordialidade e com espírito de ajuda, nas suas muitas dificuldades. A dureza de coração afasta-nos de Deus e do Céu.

Pensemos como gostaríamos que nos tratassem, se estivéssemos na mesma situação em que eles se encontram.

Especial cuidado com os mais débeis. «Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada. As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos

Só o amor de Deus nos pode ensinar um trato cordial com os outros, tornando o mundo uma só família onde todos se dêem as mãos.

A viúva personificava nesses tempos e durante séculos a pessoa desprotegida e muitas vezes explorada na sua situação de desamparo. A Igreja de Jerusalém viu-se na urgência de cuidar da sua alimentação, porque o ambiente social deixava algumas delas sem nada. Os filhos ou a família do marido tomavam conta dos bens e elas ficavam sem recursos.

Também o órfão, sobretudo de pai e mãe, lembra-nos uma pessoa desamparada e exposta a todas as explorações e desamparos.

Para além da exploração de pessoas desprotegidas que demandam o nosso país à procura de melhores condições de vida e são exploradas, há sempre a tentação de abusar ou tratar como cidadão de segunda classe aqueles que não se podem defender.

Deus não quer que neste mundo, que Ele criou como antecâmara do Paraíso, impere a lei da selva, de modo que é o mais forte, em qualquer sentido, que impõe a sua vontade, e não aquele que tem direito.

Quando falta o amor de Deus, as pessoas são tentadas a aproveitar-se da ignorância e do desamparo em que muitos se encontram, para tomar conta dos seus bens e tratá-los com desprezo.

Se não estivermos atentos, tropeçaremos nesta mesma tentação de tratar com uma certa arrogância e complexo de superioridade aqueles que, por falta de meios económicos, por incapacidade de se defenderem, ou simplesmente porque nos estão subordinados por questões laborais, como pessoas de segunda categoria.

Deus apresenta-Se nesta passagem do Êxodo como o defensor de todos os que não se podem ou sabem defender. A sua condição de oprimidos é já um clamor a pedir a ajuda de Deus.

É preciso banir toda a agressividade, a lei da selva que permite ao forte usar a sua força e influência sobre o débil, maltratando os seus direitos e tornando-lhe a existência amargurada.

No nosso meio, isto pode acontecer no conseguir um emprego, movendo influências para passar à frente dos outros, na intenção de qualquer documento de licença público, ou mesmo numa questão de tribunal.

Com um coração humano. «Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros

Moisés vai enumerando diversas circunstâncias da vida em que a tentação de oprimir os outros é maior. Estas advertências são válidas em todos os tempos, na medida em que o Inimigo nos tenta continuamente a aproveitarmo-nos da situação desfavorável daquele que vive ao nosso lado, porque está em necessidade, para exigirmos mais do que aquilo a que temos direito.

Só o amor de Deus, presente em cada uma das pessoas que vivem ao nosso lado, a começar pelas de mais humilde condição, que não têm capacidade para defender os seus direitos, nos pode levar a proceder para com elas como gostaríamos que procedessem para connosco.

Embora tendo deixado a infância há muitos anos, é frequente em nós a tentação de, nas conversas, na reivindicação de verdadeiros e imaginários direitos, “ficar sempre por cima”. O orgulho torna-nos muito doloroso o perder, o não dizer a última palavra em tudo.

Igualmente nos é recomendado o saber renunciar ao exercício de um direito quando, ao fazê-lo, deixamos o nosso semelhante em condições difíceis. Podemos esperar. «Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr do sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso

Dentro deste contexto, hoje poderíamos falar de uma coisa que é muito necessária ao nosso semelhante: a casa em que vive, um meio de transporte, o pagamento de uma dívida num determinado momento.

Sem deixarmos de tomar conta do que nos pertence, temos de atuar com um coração fraterno e avaliando sempre o sofrimento e necessidade do outro, imaginando-nos em seu lugar.

 

2. O Amor de Deus no centro da vida

 

Jesus não é apenas o Mestre que nos indica o caminho da felicidade eterna. É o Amigo e Companheiro que vai connosco, para nos animar a cada momento e nos ajudar e resolver as dificuldades.

Não o entenderam assim alguns contemporâneos do Senhor, quando Ele começou a Sua vida pública.

O mais importante, para nós. «Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”.»

Quando começou a Vida de pregação e de milagres, Jesus viu-Se perante a necessidade de corrigir muitas deformações da Lei que Deus entregara a Moisés, no Sinai.

Encontrou especialmente como opositores à sua missão três grupos de pessoas: os Fariseus, os Doutores da Lei e os Saduceus.

Temos interesse em conhecer estes pobres homens que se opunham à mensagem de Jesus, porque a sua mentalidade não passou de moda e facilmente podemos encontrar em nós uma réstea deste espirito.

A seita dos fariseus, nascida provavelmente quando os judeus fiéis, sob o comando dos Macabeus, se levantaram contra o rei Antíoco, da Síria, para o impedir de paganizar o povo de Deus. Este grupo evoluiu para um mero culto do exterior, preocupando-se exclusivamente com o parecer virtuoso, em vez de o serem realmente. Tentando despertá-los deste descaminho, Jesus classificou-os como sepulcros branqueados. Muito belos por fora, mas cheios de podridão por dentro.

Os doutores da Lei faziam uma interpretação rigorista da Lei, mas apenas para os outros. Impunham pesadas cargas sobre os ombros dos outros, mas eles nem com o dedo lhes tocavam. Com o andar do tempo, transformaram os 10 mandamentos do Decálogo em 613 preceitos minuciosos que escravizavam as pessoas, pois controlavam-nos em todos os momentos. Jesus procurou desacreditar este rigorismo e ajudar-nos a conquistar a liberdade interior.

Os saduceus eram homens materialistas que não acreditavam na vida eterna. Tentaram meter a ridículo a doutrina da ressurreição dos mortos que Jesus pregava, com a história da mulher que casou com os sete irmãos.

Cada um de nós pode cair facilmente na mentalidade de um destes grupos, se não procurar colocar no centro da sua vida o amor de Deus e o amor aos irmãos.

A pergunta deste Doutor da Lei era oportuna, mas talvez a intenção de quem a formulou não fosse transparente.

Na confusão estabelecida pelos homens, com uma regulamentação minuciosa de todas as circunstâncias, misturando leis do estado, com leis sanitárias e leis morais e dando a todas o mesmo valor, tinham acumulado 613 preceitos.

Deixaram de lado o que era mais importante –  o amor de Deus e do próximo – e deixaram-se escravizar por minuciosos preceitos humanos que não os deixavam respirar em liberdade.

Amar a Deus sobre todos os amores. «Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento

Amar é o mandamento central da nossa Lei, à volta do qual deve girar toda a nossa vida. Mas este Amor pede-nos um constante esforço generoso.

O verdadeiro amor chama-nos a uma procura constante da verdade sobre Deus. Quanto mais amamos uma pessoa, mais queremos conhecer a vida dela: as suas alegrias e tristezas, os seus desejos e desilusões. Conhecemo-los na medida em que amamos e crescemos no amor à pessoa amada.

Para aprofundarmos a Verdade sobre Ele, temos necessidade de conhecer o que Ele nos revelou de Si mesmo e o que continua a ensinar-nos na Sua Igreja. Sem uma formação doutrinal constante, não cresceríamos neste amor.

A formação doutrinal é, para a nossa vida de amor, o que é a luz para nós para todos os seres vivos. Sem luz, a nossa qualidade de vida começa a definhar. Ninguém é tão falto de senso que possa dizer: esta planta já recebeu luz durante algum tempo e pode agora passar a viver sem ela.

Muitas vidas cristãs estagnam na mediocridade e chegam mesmo ao afastamento de Deus, por falta de procura de formação doutrinal: nas boas leituras, frequência dos atos de culto, dos retiros e outros encontros de formação, etc.

Para crescer no Amor de Deus, porém, é preciso um esforço generoso para ir assimilando no dia a dia aquilo que o Senhor nos vai ensinando. O cristianismo não é uma série de teorias estéreis. É uma ciência e uma vida.

Quando não fazemos este esforço para ir marcando metas na vida, à medida que o Senhor nos mostra o caminho, para o seguirmos, estagnamos e recuamos no caminho. A formação doutrinal e o esforço para a viver são as duas asas que nos levam ao encontro do Senhor.

Deus espera pelo nosso amor no próximo. «O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas

Quando Jesus diz que este segundo mandamento é semelhante ao primeiro quer dizer que se trata do mesmo amor. Deus está misteriosamente presente em cada pessoa e quer que Lhe manifestemos o nosso amor tratando-a bem querendo-lhe bem, amando e cuidando dela, como nos amamos a nós mesmos e cuidamos de nós.

O amor às pessoas que partilham a vida connosco, na família, no trabalho e no convívio social é um desafio contante à nossa fé porque, por dentro de cada uma, está Jesus Cristo, com os disfarces dos defeitos, limitações e erros que elas apresentam. Deste modo, estamos continuamente a fazer atos de fé, para tratar Jesus Cristo em cada uma delas.

Encontramos dificuldades neste amor.

Os nossos olhos enganam-nos, porque não vemos Jesus Cristo, mas uma pessoa cheia de limitações e efeitos.

A nossa imaginação ilude-nos porque, aos poucos, deixamos de ver a pessoa que está na nossa frente, para ver apenas um defeito real ou imaginário que foi crescendo até nos impedir de ver para além deste defeito.

Também o nosso orgulho ferido torna difícil este amor, porque exagera as faltas e defeitos e faz uma leitura defeituosa, mesmo das coisas boas que ela faz.

Para amarmos de verdade, temos de pedir ao Senhor que aumente continuamente a nossa fé, para que sejamos capazes de O descobrir misteriosamente oculto em cada rosto humano, mesmo que ele esteja coberto de lama ou de feridas.

Tudo o que não procede do amor de Deus e do próximo, não serve para nada. «Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas

Maria aparece no Evangelho com o ar de disponibilidade da Mãe que serve os filhos: na visitação a Santa Isabel, nas bodas de Caná e no Cenáculo, preparando a vinda do Espírito Santo. Aprendamos com o seu exemplo e peçamos-lhe ajuda.

 

Fala o Santo Padre

 

«Jesus faz-nos compreender que a vida moral e religiosa não pode ser reduzida

a uma obediência ansiosa e forçada, mas deve ter o amor como princípio.

O amor deve tender junta e inseparavelmente para Deus e para o próximo.»

Na página do Evangelho de hoje (cf. Mt 22, 34-40), um doutor da Lei pergunta a Jesus qual é «o maior mandamento» (v. 36), ou seja, o mandamento principal de toda a Lei divina. Jesus responde simplesmente: «“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente”». (v. 37). E acrescenta imediatamente: «O segundo é-lhe semelhante: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”». (v. 39).

A resposta de Jesus retoma e une dois preceitos fundamentais que Deus deu ao seu povo através de Moisés (cf. Dt 6, 5; Lv 19, 18). E assim supera a cilada que lhe fizeram «para o pôr à prova»(v. 35). O seu interlocutor, de facto, tenta arrastá-lo para a disputa entre os peritos da Lei sobre a hierarquia das prescrições. Mas Jesus estabelece duas pedras angulares essenciais para os crentes de todos os tempos, duas pedras angulares essenciais da nossa vida. A primeira é que a vida moral e religiosa não pode ser reduzida a uma obediência ansiosa e forçada. Há pessoas que procuram cumprir os mandamentos de uma forma ansiosa ou forçada, e Jesus faz-nos compreender que a vida moral e religiosa não pode ser reduzida a uma obediência ansiosa e forçada, mas deve ter o amor como princípio. A segunda pedra angular é que o amor deve tender junta e inseparavelmente para Deus e para o próximo. Esta é uma das principais novidades do ensinamento de Jesus e faz-nos compreender que não é amor verdadeiro a Deus o que não se expressa no amor ao próximo; e, da mesma forma, não é amor verdadeiro ao próximo o que não se inspira no relacionamento com Deus.

Jesus conclui a sua resposta com estas palavras: «Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas» (v. 40). Isto significa que todos os preceitos que o Senhor deu ao seu povo devem ser postos em relação com o amor a Deus e ao próximo. De facto, todos os mandamentos servem para implementar, para expressar esse duplo amor indivisível. O amor a Deus exprime-se sobretudo na oração, em particular na adoração. Descuidamos muito a adoração a Deus. Recitamos a oração de ação de graças, a súplica para pedir algo..., mas negligenciamos a adoração. O núcleo da oração consiste precisamente em adorar a Deus. E o amor ao próximo, que também se chama caridade fraterna, é feito de proximidade, de escuta, de partilha, de cuidado pelo próximo. E muitas vezes não ouvimos o outro porque é tedioso ou porque me rouba tempo, não o apoiamos, não o acompanhamos nas suas dores e provações... Mas encontramos sempre tempo para coscuvilhar, sempre! Não temos tempo para consolar os aflitos, mas muito tempo para bisbilhotar. Atenção! O Apóstolo João escreve: «Quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?» (1 Jo 4, 20). Assim, vemos a unidade destes dois mandamentos.

No Evangelho de hoje, mais uma vez, Jesus ajuda-nos a ir à fonte viva e jorrante do Amor. E esta nascente é o próprio Deus, que deve ser amado totalmente numa comunhão que nada e ninguém pode interromper. Comunhão que é um dom a ser invocado todos os dias, mas também um compromisso pessoal para que a nossa vida não seja escravizada pelos ídolos do mundo. E a avaliação da nossa jornada de conversão e santidade consiste sempre no amor ao próximo. Esta é a avaliação: se eu disser “amo a Deus” e não amar o próximo, não está bem. A comprovação de que eu amo a Deus é que amo o próximo. Enquanto houver um irmão ou irmã a quem fechamos o nosso coração, estaremos ainda longe de ser discípulos, como Jesus nos pede. Mas a Sua misericórdia divina não nos permite desanimar, pelo contrário, chama-nos a recomeçar todos os dias a fim de vivermos o Evangelho de forma coerente.

Que a intercessão de Maria Santíssima abra o nosso coração para receber o “maior mandamento”, o duplo mandamento do amor, que resume toda a Lei de Deus e da qual depende a nossa salvação.

Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 4 de outubro de 2020

 

Oração Universal

 

Caríssimos cristãos:

Oremos para que os discípulos de Jesus

ponham em prática o duplo mandamento do amor,

inscrito no coração de todo o homem.

Imploremos (cantando), com fé e humildade:

 

     Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

1. Pelo Santo Padre, pelos Bispos e Presbíteros,

     pelos Diáconos e demais ministérios e pelos fiéis,

     para que se entreguem, com ardor e sem descanso,

ao serviço do Deus vivo e da Sua Palavra,

oremos com fé e humildade.

 

     Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

2. Pelos povos onde a guerra parece não ter fim

     e pelas famílias onde já não há amor,

  para que Deus lhes renove a esperança,

     oremos com fé e humildade.

 

     Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

3. Pelos pobres, os explorados e os órfãos

     e por aqueles que a sociedade põe de lado,

     para que encontrem quem os ame e os acolha,

     oremos com fé e humildade.

 

     Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

4. Pelos homens e mulheres não violentos,

     para que Deus seja a sua força

  nos combates que tiverem de travar,

     oremos com fé e humildade.

 

     Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

5.  Pela nossa comunidade dominical,

     para que a Palavra que nela escutámos

      nos leve a falar e a viver como Jesus,

      oremos com fé e humildade.

 

     Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

6. Pelos que vivem fora da sua terra,

para que não sofram qualquer rejeição,

     mas sejam acolhidos como verdadeiros irmãos,

oremos com fé e humildade.

 

Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

 

Senhor, Pai santo,

que sabeis amar e perdoar sempre,

concedei a estes vossos filhos,

que escutaram a vossa Palavra,

a graça de Vos imitar no amor e no perdão.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

 

Introdução

 

A Mesa da Palavra em que acabamos de participar foi a sementeira divina, a pedir que demos bons frutos.

A Santíssima Eucaristia que Jesus Cristo, no altar e pelo ministério do sacerdote prepara para nós é o Alimento divino que nos fará dar bons frutos.

 

Cântico do ofertório: Deus e Senhor – Perruchot, CT, 63

 

Oração sobre as oblatas: Olhai, Senhor, para os dons que Vos apresentamos e fazei que a celebração destes mistérios dê glória ao vosso nome. Por Nosso Senhor...

 

Santo: A. Cartageno – COM, (pg 189)

 

Saudação da Paz

 

A paz verdadeira – com Deus, com os irmãos e connosco mesmos – não é possível sem um verdadeiro e cordial acolhimento a todos.

Peçamos ao Senhor que o mundo se torne uma só família onde todos se amam como irmãos, ajudando-se mutuamente no caminho do Céu.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Não pode querer verdadeira união com Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia quem não está disposto a retirar as barreiras do seu coração para acolher a todos.

Na comunhão que vamos fazer, peçamos ao Senhor que nos dê esta força e generosidade, para que amemos a todas as pessoas sem exceção.

 

Cântico da Comunhão: Comemos, ó Senhor, do mesmo pão – M. F. Borda, NRMS, 43

cf. Salmo 19, 6

Antífona da comunhão: Celebramos, Senhor, a vossa salvação e glorificamos o vosso santo nome.

 

Ou

Ef 5, 2

Cristo amou-nos e deu a vida por nós, oferecendo-Se em sacrifício agradável a Deus.

 

Cântico de acção de graças: Cantai ao Senhor – J. Santos, NRMS, 36

 

Oração depois da comunhão: Fazei, Senhor, que os vossos sacramentos realizem em nós o que significam, para alcançarmos um dia em plenitude o que celebramos nestes santos mistérios. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Peçamos ao Senhor que nos ajude a descobrir o que precisamos de fazer, para pôr em prática o que Ele acaba de nós ensinar.

 

Cântico final: Exulta de Alegria no Senhor – M. Carneiro, NRMS, 21

 

 

 

 

Homilias Feriais

 

30ª SEMANA

 

2ª Feira, 30-X: Olhar mais para Deus

Rom 8, 12-17 / Lc 13, 10-17

Apareceu então uma mulher com um espírito, que a tornava enferma havia dezoito anos: andava curvada.

Esta mulher encurvada (EV) é o símbolo daqueles que têm uma visão demasiado humana e não conseguem olhar para o alto, para Deus. Podem ficar escravos das coisas terrenas.

Pelo contrario, o Espírito Santo liberta-nos destas escravidões e faz de nós filhos de Deus. A nossa justificação vem da graça de Deus. A graça é o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá, a fim de respondermos ao seu chamamento para nos tornarmos filhos de Deus, filhos adoptivos (LT), participantes da natureza divina e da vida eterna,

 

3ª Feira, 31-X: O fermento do Evangelho

Rom 8, 18-25 / Lc 13, 18-21

O reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e meteu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado

Nós somos enviados pelo Senhor para sermos fermento (EV), que ajuda a fazer crescer o amor de Deus no ambiente, para revelarmos Deus aos outros, que o esperam ansiosamente (LT). Para isso, o fermento precisa estar muito unido a Cristo.

A nossa missão é levar Cristo, de forma credível, aos ambientes da vida, do trabalho, da família, fazendo com que o espírito do Evangelho se torne fermento na história e sirva de projecto para as relações humanas, marcadas pela solidariedade e pela paz. Procuremos dar também testemunho de Cristo com alegria e optimismo.

 

 

 

Celebração e Homilia:            Fernando Silva

Nota Exegética:          Geraldo Morujão

Homilias Feriais:         Nuno Romão

Sugestão Musical:      José Carlos Azevedo

 


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