A PALAVRA DO PAPA

O ato de contrição

 

 

 

 

No dia 8 de março, uma sexta feira da Quaresma, o Santo Padre encontrou-se, na Sala Clementina do Vaticano, como os participantes no Curso sobre o foro íntimo.

Depois de ter saudado o cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário-Mor e os participantes no Curso, o Papa Francisco comentou, num breve, mas suculento discurso, a fórmula do ato de contrição que nos legou Santo Afonso Maria de Ligório.

Oferece aos leitores da Celebração Litúrgica, como doutrina sempre atual e oportuna.

 

No contexto da Quaresma e, em particular, do Ano da Oração em preparação para o Jubileu, gostaria de propor que refletíssemos juntos sobre uma oração simples e rica, que pertence ao património do santo povo fiel de Deus e que recitamos durante o Rito da Reconciliação: o Ato de contrição.

Apesar da sua linguagem um pouco antiga, que poderia até ser mal interpretada nalgumas das suas expressões, esta oração conserva toda a sua validade, tanto pastoral como teológica. Afinal, é da autoria do grande Santo Afonso Maria de Ligório, mestre de teologia moral, pastor próximo do povo e homem de grande equilíbrio, longe do rigorismo e do laxismo.

Deter-me-ei em três atitudes expressas no Ato de contrição que, penso, nos podem ajudar a meditar sobre a nossa relação com a misericórdia de Deus: arrependimento diante de Deus, confiança n’Ele e propósito de não recair.

 

Primeiro: o arrependimento. Não é fruto de uma autoanálise nem de um sentimento psíquico de culpa, mas nasce da consciência da nossa miséria diante do amor infinito de Deus, da sua misericórdia sem limites. Na realidade, é esta experiência que leva a nossa alma a pedir o seu perdão, confiando na sua paternidade, como diz a oração: «Meu Deus, arrependo-me e condoo-me de todo o coração pelos meus pecados», e depois acrescenta: «porque te ofendi a ti, infinitamente bom». Na realidade, na pessoa, o sentido do pecado é proporcional precisamente à noção do amor infinito de Deus: quanto mais sentimos a sua ternura, mais desejamos estar em plena comunhão com Ele, e mais a fealdade do mal na nossa vida se torna evidente para nós. E é esta consciência, descrita como “arrependimento” e “contrição”, que nos leva a refletir sobre nós próprios e sobre as nossas ações e a convertermo-nos. Lembremo-nos de que Deus não se cansa de nos perdoar e, pela nossa parte, não nos cansemos de lhe pedir perdão!

 

Segunda atitude: a confiança. No Ato de contrição, Deus é descrito como «infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas». É bom ouvir, nos lábios de um penitente, o reconhecimento da bondade infinita de Deus e da primazia, na própria vida, do amor por Ele. Com efeito, amar «acima de todas as coisas» significa colocar Deus no centro de tudo, como luz no caminho e fundamento de toda a ordem de valores, confiando-lhe tudo. E trata-se de uma primazia que anima todos os outros amores: pelos homens e pela criação, porque quem ama a Deus ama o irmão (cf. 1 Jo  4, 19-21) e procura o seu bem, sempre, na justiça e na paz.

 

Terceiro aspeto: o propósito. Ele exprime a vontade do penitente de não recair novamente no pecado cometido (cf. Catecismo da Igreja Católica , 1451), e permite a importante passagem do atrito  à contrição , da dor imperfeita à dor perfeita (cf. ibid., 1452-1453). Manifestamos esta atitude dizendo: «Proponho-me, com a tua santa ajuda, não voltar a ofender-te». Estas palavras exprimem um objetivo, não uma promessa. Com efeito, nenhum de nós pode prometer a Deus que nunca mais voltará a pecar, e o que é necessário para receber o perdão não é uma garantia de impecabilidade, mas um propósito presente, feito com uma intenção justa no momento da confissão. Além disso, é um compromisso que assumimos sempre com humildade, como realçam as palavras «com a tua santa ajuda». São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, costumava repetir que «Deus perdoa-nos mesmo sabendo que voltaremos a pecar». E, além disso, sem a sua graça, nenhuma conversão seria possível, contra qualquer tentação de antigo ou novo pelagianismo.

 

Por fim, gostaria de chamar a vossa atenção para a bela conclusão da oração: «Senhor, misericórdia, perdoai-me». Aqui os termos “Senhor” e “misericórdia” aparecem como sinónimos, e isto é decisivo! Deus é misericórdia (cf. 1 Jo  4, 8), misericórdia é o seu nome, o seu rosto. Faz-nos bem recordar isto, sempre: em cada ato de misericórdia, em cada ato de amor, transparece o rosto de Deus.

Caríssimos, a tarefa que vos é confiada no confessionário é bela e crucial, porque vos permite ajudar tantos irmãos e irmãs a experimentar a doçura do amor de Deus. Portanto, encorajo-vos a viver cada confissão como um momento único e irrepetível de graça, e a conceder generosamente o perdão do Senhor, com afabilidade, paternidade e, ousaria dizer, também com ternura materna.

Convido-vos a rezar e a empenhar-vos para que este ano de preparação para o Jubileu faça florescer a misericórdia do Pai em muitos corações e em muitos lugares, e para que assim Deus seja cada vez mais amado, reconhecido e louvado.

Agradeço-vos o apostolado que desempenhais - ou que a alguns de vós em breve será confiado. Que Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia, vos acompanhe. Também eu vos levo na minha oração e vos abençoo de coração. Por favor, não esqueçais de rezar por mim!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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