TEMAS LITÚRGICOS

A formação Litúrgica (VI)

 

CARTA APOSTÓLICA

DESIDERIO DESIDERAVI

 

“DESIDERIO DESIDERAVI hoc Pascha manducare vobiscum antequam patiar” (Lc 22, 15).

 

(Continuação)

 

60. É a própria celebração que educa para esta qualidade de presidência, não é, repetimo-lo, uma adesão mental, se bem que toda a nossa mente, tal como a nossa sensibilidade, esteja nela implicada. O presbítero é, pois, formado para a presidência pelas palavras e pelos gestos que a liturgia põe nos seus lábios e nas suas mãos.

Não se senta num trono [1] porque o Senhor reina com a humildade de quem serve.

Não rouba a centralidade do altar, “sinal de Cristo de cujo lado aberto correu sangue e água, nos quais encontram fundamento os sacramentos da Igreja. (…) Seja o centro do nosso louvor e da nossa ação de graças” [2].

Aproximando-se do altar para a apresentação dos dons, o presbítero é educado na humildade e no arrependimento pelas palavras: “De coração humilhado e contrito sejamos recebidos por Vós, Senhor. Assim o nosso sacrifício seja agradável a vossos olhos” [3].

Não pode presumir de si mesmo para o ministério que lhe está confiado porque a Liturgia o convida a pedir para ser purificado, no sinal da água: “Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado” [4].

As palavras que a Liturgia põe nos seus lábios têm conteúdos diversos que requerem tonalidades específicas: pela importância destas palavras é exigida ao presbítero uma verdadeira ars dicendi. Elas dão forma aos seus sentimentos interiores, ora na súplica ao Pai em nome da assembleia, ora na exortação dirigida à assembleia, ora na aclamação a uma só voz com toda a assembleia.

Com a Oração Eucarística – na qual também todos os batizados participam escutando “com reverência e silêncio” e intervindo com “aclamações” [5] – quem preside tem a força, em nome de todo o povo santo, de recordar ao Pai a oferta do seu Filho na última Ceia, para que esse dom imenso se torne novamente presente no altar. Nessa oferta participa com a oferta de si mesmo. O presbítero não pode narrar ao Pai a última Ceia sem participar nela. Não pode dizer: “Tomai todos e comei: isto é o meu Corpo entregue por vós” e não viver o mesmo desejo de oferecer o seu próprio corpo, a sua própria vida pelo povo a si confiado. É isto o que acontece no exercício do seu ministério.

Por tudo isto, e por muito mais, o presbítero é continuamente formado na ação celebrativa.

61. Quis simplesmente oferecer algumas reflexões, que certamente não esgotam o imenso tesouro da celebração dos santos mistérios. Peço a todos os bispos, aos presbíteros e aos diáconos, aos formadores dos seminários, aos docentes das faculdades e das escolas de teologia, a todos os catequistas que ajudem o povo santo de Deus a beberem daquela que é desde sempre a primeira fonte da espiritualidade cristã. Somos continuamente chamados a redescobrir a riqueza dos princípios gerais expostos nos primeiros números da Sacrosanctum Concilium, compreendendo a íntima ligação entre a primeira das Constituições conciliares e todas as demais. Por este motivo, não podemos voltar àquela forma ritual que os Padres conciliares, cum Petro e sub Petro, sentiram a necessidade de reformar, aprovando, sob a guia do Espírito e segundo a sua consciência de pastores, os princípios dos quais nasceu a reforma. Os santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, aprovando os livros litúrgicos reformados ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II garantiram a fidelidade da reforma ao Concílio. Por este motivo escrevi Traditionis custodes, para que a Igreja possa elevar, na variedade das línguas “uma só e idêntica oração” [6] capaz de exprimir a sua unidade. Pretendo que esta unidade, como já escrevi, seja restabelecida em toda a Igreja de Rito Romano.

62. Gostaria que esta Carta nos ajudasse a reavivar o assombro pela beleza da verdade do celebrar cristão, a recordar a necessidade de uma formação litúrgica autêntica e a reconhecer a importância de uma arte da celebração que esteja ao serviço da verdade do mistério pascal e da participação de todos os batizados, cada qual com a especificidade da sua vocação.

Toda esta riqueza não está longe de nós: está nas nossas igrejas, nas nossas festas cristãs, na centralidade do domingo, na força dos sacramentos que celebramos. A vida cristã é um contínuo caminho de crescimento: somos chamados a deixar-nos formar com alegria e na comunhão.

63. Por isso desejo deixar-vos mais uma indicação para prosseguir no nosso caminho. Convido-vos a redescobrir o sentido do ano litúrgico e do dia do Senhor: também esta é uma indicação do Concílio (cf. Sacrosanctum Concilium, nn. 102-111).

64. À luz de tudo o que acima recordámos, compreendemos que o ano litúrgico é para nós a possibilidade de crescer no conhecimento do mistério de Cristo, imergindo a nossa vida no mistério da sua Páscoa, na esperança da sua vinda. Esta é uma verdadeira formação contínua. A nossa vida não é uma sucessão casual e caótica de acontecimentos mas um percurso que, de Páscoa em Páscoa, nos conforma a Ele “enquanto esperamos em jubilosa esperança a vinda gloriosa de Jesus Cristo, nosso Salvador” [7].

65. No decurso do tempo feito novo pela Páscoa, em cada oito dias a Igreja celebra no domingo o acontecimento da salvação. O domingo, antes de ser um preceito, é um dom que Deus faz ao seu povo (por esse motivo a Igreja o guarda como um preceito). A celebração dominical oferece à comunidade cristã a possibilidade de ser formada pela Eucaristia. De domingo em domingo, a Palavra do Ressuscitado ilumina a nossa existência, querendo realizar em nós aquilo para que foi mandada (cf. Is 55, 10-11). De domingo em domingo, a comunhão no Corpo e no Sangue de Cristo quer fazer também da nossa vida um sacrifício agradável ao Pai, na comunhão fraterna que se faz partilha, acolhimento e serviço. De domingo em domingo, a força do Pão partido nos sustenta no anúncio do Evangelho no qual se manifesta a autenticidade da nossa celebração.

Abandonemos as polémicas para escutarmos juntos o que o Espírito diz à Igreja, conservemos a comunhão, continuemos a maravilhar-nos pela beleza da Liturgia. Foi-nos dada a Páscoa, deixemo-nos guardar pelo desejo que o Senhor continua a ter de a poder comer connosco. Sob o olhar de Maria, Mãe da Igreja.

Roma, em São João de Latrão, 29 de junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo do ano 2022, décimo do meu pontificado.

 

+ Francisco

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Que o homem todo se espante,

que o mundo todo trema, que o céu exulte,

quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote,

está presente Cristo, o Filho de Deus vivo!

Oh! grandeza admirável, oh! condescendência assombrosa!

Oh! humildade sublime, oh! sublimidade humilde,

que o Senhor de todo o universo, Deus e Filho de Deus,

se humilde a ponto de se esconder, para nossa salvação,

nas aparências de um bocado de pão.

Vede, irmãos, a humildade de Deus

e derramai diante dele os vossos corações;

humilhai-vos também vós, para que ele vos exalte.

Em conclusão: nada de vós mesmos retenhais para vós,

a fim de que totalmente vos possua

Aquele que totalmente a vós se dá.

 

São Francisco de Assis — Carta a toda a Ordem, 2, 26-29

 



[1] Cf. Instrução Geral do Missal Romano, n. 271.

[2] “Oração da Dedicação do Altar”: Pontifical Romano – Dedicação da Igreja e do Altar (1990), p. 119.

[3] Missal Romano (1992), p. 451.

[4] Ibidem.

[5] Cf. Instrução Geral do Missal Romano, nn. 78-79.

[6] Cf. Paulo VI, Constituição Apostólica Missale Romanum (3 de abril de 1969): AAS 61 (1969), 222.

[7] Missal Romano (1992), p. 545.


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